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Arlindo: a adolescência em tons de amarelo e rosa

Com ilustrações divertidas e cores vibrantes, IlustraLu constrói personagens autênticos em uma HQ carregada de sensibilidade

Na Estante
09 set 2021 | Por Mariana Carneiro (marianacarneiro@usp.br)

Arlindo (2021) conquistou o público antes mesmo de seu lançamento pela Seguinte, selo jovem da Cia. das Letras. Desde janeiro de 2019, a HQ era publicada semanalmente nas redes sociais de IlustraLu — nome pelo qual Luiza de Souza, ilustradora e quadrinista potiguar, é conhecida na internet —, e ganhou uma legião de fãs, ou “arlinders”, apelido do grupo.

Após uma bem sucedida campanha no Catarse, na qual os fãs puderam financiar o lançamento em troca de brindes e ilustrações inéditas, Arlindo chegou às livrarias em junho. A nova edição destaca ainda mais em suas páginas os tons vibrantes de amarelo, rosa e azul que permeiam a história.

Recheada de referências à cultura pop dos anos 2000, a HQ narra as desventuras de Arlindo Jr. — um garoto do interior do Rio Grande do Norte, que toda semana vai à locadora com seus amigos Lis, Mari e Pedro, ajuda a mãe a fazer doces para vender, brinca com sua irmã mais nova e ouve sem parar sua coleção de CDs de Sandy & Júnior. 

Arlindo: foto da autora, jovem de cabelos escuros, penteados para o lado direito, com óculos de aros dourados e blusa laranja, segurando uma garrafa de água e sorrindo

Luiza de Souza, autora de Arlindo. [Imagem: Reprodução/Seguinte]

A história diverte ao incorporar a seu roteiro diversas músicas da época, passando por hinos de Pitty, Vagabanda e, claro, todos os clássicos de Sandy & Júnior. Para aqueles que, como eu, não foram adolescentes no período, vale ouvir as músicas durante a leitura, para adentrar ainda mais no universo da história. Outro momento nostalgia no livro ocorre quando Arlindo, durante a aula, troca bilhetes codificados com sua amiga Mari. Cabe ao leitor decifrar a mensagem, substituindo cada letra por sua equivalente na frase ZENIT POLAR.

Embora algumas referências e detalhes passem despercebidos por aqueles que não viveram sua juventude nos anos 2000, o especial em Arlindo está no fato de que qualquer um pode se identificar com as situações vividas pelos personagens. As amizades, primeiros amores, problemas familiares, obstáculos e sonhos trazem uma sensação de espaço comum, uma experiência universal da adolescência que independe de lugar ou época.

Em meio a festas, brigas, crushes e romances típicos do ensino médio, a aceitação da sexualidade de Arlindo também ocupa um espaço central na história. Gay, o garoto enfrenta o bullying na escola e o desprezo de seu pai, extremamente homofóbico e machista. Apesar das dificuldades e conflitos, Arlindo conta com o constante apoio de amigos e outros familiares – em especial de sua tia Amanda, que identifica no sobrinho as mesmas dúvidas e sonhos que possuía na adolescência, ao crescer como LGBT em uma cidade pequena. A relação entre os dois é sublime e se destaca no livro.

 

“Eu sempre imaginei como seria existir num lugar em que minha família fosse outra,
que a cidade fosse outra, que as pessoas fossem outras.
Até que eu percebi que se as coisas não fossem como são eu não seria eu.
E essa não é uma opção. Tudo o que a gente tem é a gente, Lindo.”

Arlindo, pág. 55

 

Os amigos de Arlindo também possuem bastante espaço para desenvolvimento na HQ, não servindo à história como meros figurantes. A amizade transformada em paixonite entre Arlindo e Pedro, o garoto novo na escola, é digna de um filme de comédia romântica adolescente. É impossível não torcer para que o casal fique junto a cada “ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus!” que Arlindo exclama quando vê Pedro, sem saber se o interesse era recíproco. Outro ponto alto da história é a relação extremamente confusa entre Lis e Mari, melhores amigas do protagonista. Apaixonada por Hugo, um colega de escola, Mari decide ajudar Lis — que secretamente possui sentimentos pela amiga — a namorar também. O final dessa trama foge do óbvio, uma surpresa agradável.

Por outro lado, a resolução do conflito de Arlindo com seu pai decepciona. Quando a narrativa finalmente chega a seu clímax, após diversas páginas que constroem o desentendimento entre os dois, a solução é simples e rápida. A decisão da autora, no entanto, é compreensível – a grande maioria das narrativas LGBTQIA+ na ficção são pautadas em traumas e, em Arlindo, o contrário acontece. O personagem tem seu final feliz, do tipo que aquece o coração. Seria interessante, porém, que o final da HQ desse mais detalhes sobre a relação entre Arlindo e Pedro, que fica em aberto. 

Por fim, Arlindo é uma leitura divertida e, acima de tudo, importante. A temática de amadurecimento que percorre o livro não se limita ao protagonista, e a autora constrói um cenário plural ao também abordar o dia a dia e problemas de seus outros personagens. Tal diversidade cria uma atmosfera acolhedora para o público jovem, que com certeza se sentirá representado por pelo menos alguma situação da narrativa.

 

*Imagem de capa: Reprodução/Seguinte

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