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Gastronomia de festas populares exalta a delícia da identidade brasileira
Água na Boca
26 jul 2020 | Por Luanne Caires (lcaires@usp.br)

Em 2020, os meses de maio a agosto estão menos coloridos. Quando o mundo não enfrenta uma pandemia, esse período costuma ser marcado por uma grande variedade de cores, músicas e sabores por todo o Brasil. É a época de grandes festas populares, como as festas juninas e a celebração do Divino Espírito Santo, ambas combinando uma grande riqueza de elementos religiosos, agrários, econômicos e turísticos. Com as medidas de distanciamento social impostas pelo novo coronavírus, as grandes celebrações foram canceladas ou adiadas e deixaram a saudade de aproveitar presencialmente sua alegria e provar seus quitutes. 

Maria Alice, estudante universitária mineira, que se mudou para Petrolina (PE) no segundo semestre de 2019, esperava viver de perto a emoção da festa junina pernambucana. Mas a festa foi adiada por tempo indeterminado e, com ela, a oportunidade de experimentar novas tradições, inclusive as gastronômicas. “A gastronomia é uma das principais atrações da festa porque é possível falar em festa junina sem a dança [a quadrilha], mas nunca fui a uma festa junina que não tivesse a comida como protagonista”, conta.

 

Comida de festa e o protagonismo do campo

A importância das comidas de festa não deriva apenas das delícias proporcionadas ao paladar. A gastronomia é uma forma de preservar a memória coletiva e valorizar a identidade cultural e agrária de cada região. Para Maria de Lourdes Macena, professora e pesquisadora de tradições populares no Instituto Federal do Ceará (IFCE), sabores e cheiros são portais abertos de viagem. Eles conduzem as pessoas a tempos e lugares definidos, mesmo que presencialmente se esteja em um tempo e um lugar totalmente diferentes. 

Pratos tradicionais de festa junina, muitos dos quais têm o milho como ingrediente principal. [Imagem: Reprodução/Facebook São João de Campina Grande] 

Pratos tradicionais de festa junina, muitos dos quais têm o milho como ingrediente principal. [Imagem: Reprodução/Facebook São João de Campina Grande]

No caso das festas de meio de ano, a viagem está diretamente relacionada aos ciclos agrícolas e à identidade com o campo. Em termos históricos, comemorações juninas remontam ao século 12, com raízes nas festas pagãs do hemisfério norte, que celebravam a fertilidade do solo e as colheitas na primavera e no verão. No Brasil, embora seja inverno, algumas populações indígenas também tinham o hábito de organizar festas nesse período e comemorar a preparação da terra para o plantio e uma safra abundante. 

A Igreja Católica incorporou os festejos ao longo do tempo e os associou associando-os ao calendário litúrgico na imagem dos três santos (Santo Antônio, São João e São Pedro). Apesar disso, a Igreja não conseguiu excluir totalmente os elementos da religiosidade popular. Hoje as festas representam uma grande mistura que reflete a história de cada território geográfico. 

Por ter essa origem agrícola e popular, as festas juninas têm o poder de reforçar a valorização da identidade local, com um olhar voltado para os alimentos típicos de cada região e para os responsáveis por produzi-los. “Essas festas são uma consagração da mãe Terra produzindo o que precisamos para comer. É uma relação do brincante com o sagrado. A dança, por exemplo, é uma forma de agradecer por tudo o que a colheita deu. Também é uma forma de pedir que no próximo ano se possa estar ali de novo, celebrando”, explica Maria de Lourdes. 

A comemoração da prosperidade, especialmente no campo, também caracteriza a festa do Divino, que tem grande força em Goiás. A festa acontece anualmente no período de Pentecostes da Igreja Católica (50 dias após a Páscoa) e é dedicada ao Divino Espírito Santo, reverenciado como elemento sagrado que traz fartura às colheitas e garante proteção e felicidade ao povo. 

Telma Machado, proprietária da Fazenda Babilônia em Pirenópolis (GO), destaca a tradição do pão bento. Durante a festa, o cortejo distribui para a população um alimento considerado abençoado, que é guardado pelos devotos para garantir fartura o ano inteiro. Em Pirenópolis, o alimento é a verônica, um doce feito de açúcar com a pomba do Divino estampada. “Lembro da minha avó guardando o pãozinho. Depois de um tempo ele já estava até meio mofado, mas ela não deixava jogar fora porque era o pão bento do Divino”, conta ela.

Verônicas embaladas em saquinhos decorados. [Imagem: Reprodução/Facebook Verônicas Pirenópolis]

Verônicas embaladas em saquinhos decorados. [Imagem: Reprodução/Facebook Verônicas Pirenópolis]

A importância da gastronomia na festa do Divino não se limita ao campo do sagrado. A comida é uma forma de integração da comunidade. Segundo Telma, os produtores da região se organizam para doar os alimentos que serão preparados e consumidos na festa, que envolve toda a população. “Não é uma festa em que você só fica vendo um show. Você participa, sobe no palco, no sentido figurado. Todo mundo é responsável por manter a tradição”, explica. 

Essa responsabilidade passa também pela preservação das receitas antigas da gastronomia goiana. Telma e Antônio, seu marido, há mais de 20 anos decidiram abrir a Fazenda Babilônia para visitantes. Além de ser um marco histórico e arquitetônico na região, a fazenda é famosa por oferecer um café sertanejo que resgata a culinária rural antiga. Os alimentos refletem a história da região, sua realidade alimentar e a diversidade de seu bioma. 

Telma utiliza muitos produtos cultivados na própria fazenda para preparar as receitas, mas destaca a importância da rede criada com os vizinhos e a agregação de valor aos produtos. “A mandioca é da fazenda, assim como a carne, as frutas do cerrado. Mas, como minha demanda é grande, os vizinhos me trazem muitas coisas e eu compro. Antes, esses produtos não tinham muita saída porque não tinham preço. Hoje têm preço porque estamos em uma região turística, com turismo ecológico, cultural e o religioso associado ao Divino”, afirma. 

Café sertanejo com pratos de Goiás servido na Fazenda Babilônia. [Imagem: Reprodução/Fazenda Babilônia]

Café sertanejo com pratos de Goiás servido na Fazenda Babilônia. [Imagem: Reprodução/Fazenda Babilônia]


Comida para turista: tradições e inovações

As festas populares de meio de ano são grandes impulsionadoras do turismo e da economia. Segundo o Ministério do Turismo, em 2018 as festas juninas das cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB) tiveram um público somado de cinco milhões de pessoas e uma injeção de R$ 440 milhões nas economias locais. As duas cidades promovem as maiores festas juninas brasileiras. 

Fora do eixo nordestino, festas populares de meio de ano também são destaques econômicos. Em Pirenópolis, as cavalhadas, batalhas que simulam a disputa entre cristãos e mouros pela Península Ibérica (hoje Portugal e Espanha) e remontam ao século 8, atraem cerca de dez mil visitantes por apresentação. A atividade, que marca o fim da festa do Divino, induz a geração de novos empregos e garante uma importante parcela da renda anual no município. 

Cavalhada em Pirenópolis (GO). [Imagem: Mauro Cruz/Wikimedia Commons] 

Cavalhada em Pirenópolis (GO). [Imagem: Mauro Cruz/Wikimedia Commons]

A força das festas populares para o turismo está justamente nas suas singularidades, mas os governantes de muitas cidades brasileiras têm perdido esse elemento de vista. Para Maria de Lourdes, as festas de meio de ano têm se transformado em eventos sem identidade, que não refletem a cultura local, mas mesmo assim consomem dinheiro público destinado à cultura daquela localidade. “O problema é que muitos governantes não entendem a potência do turismo religioso e cultural. Eles valorizam apenas a paisagem bonita, então trazem bandas famosas e fazem uma festa urbana que poderia ocorrer em qualquer outro tempo e lugar”, afirma. 

As mudanças no festejo popular atingem também sua gastronomia. É comum a inclusão de pratos que não são típicos do local ou que não têm relação direta com o evento e o período em que ele ocorre. O caso mais emblemático é o do quentão, citado em editais culturais que financiam festejos juninos no Ceará, mas que não é uma bebida tradicional da região. Segundo Maria de Lourdes, a bebida típica é o aluá, preparado com fermentado de milho ou abacaxi. 

Outras diferenças em relação à bebida já foram notadas pela estudante Maria Alice ao trocar experiências de festas juninas com os amigos: “Acho que o quentão é algo bem regional porque quando converso com meus amigos de fora geralmente tenho que explicar como é feito e vejo que possui variações. Por exemplo, em Minas é uma bebida que mistura cachaça, laranja, cravo, gengibre, canela e mais algumas especiarias, enquanto uma amiga do Pará já me relatou que a mãe faz com vinho”, comenta. 

Aluá, bebida fermentada de milho ou abacaxi que integra a gastronomia nordestina. [Imagem: Reprodução/ Youtube Marília Archangelo]

Aluá, bebida fermentada de milho ou abacaxi que integra a gastronomia nordestina. [Imagem: Reprodução/ Youtube Marília Archangelo]

Muitas das importações e inovações na gastronomia das festas populares se relacionam a interesses econômicos. Nide Lins, divulgadora de gastronomia em Maceió (AL), considera que tradições e novidades precisam conviver de forma saudável. Ela conta que nesse período é comum que restaurantes e padarias criem novas formas de utilizar elementos da gastronomia junina tradicional para atrair clientes, especialmente agora com a pandemia. “Muitas padarias colocaram uma barraquinha onde se vende brigadeiro de milho, brigadeiro de paçoca, pudim de milho verde. E isso convive com as comidas tradicionais, como pamonha, canjica e mungunzá [esses últimos são o curau e a canjica no Sudeste]”, ressalta. 

Segundo Nide, é importante quando as inovações vêm acompanhadas da preocupação com processos artesanais e locais. É o caso do pé-de-moleque, que em algumas regiões do Brasil é feito com amendoim, mas em Alagoas é feito com massa puba, derivada da mandioca. Em uma tentativa de manter esse aspecto regional, algumas padarias buscam contato com comunidades que mantêm as tradições gastronômicas, como as boleiras de Riacho Doce, bairro localizado no litoral norte de Maceió. As boleiras fazem o pé-de-moleque revestido em folha de bananeira no forno a lenha. “Na padaria, eles sabem que se fizerem no forno comum não vai sair igual. O processo que dá a textura certa ao doce é artesanal e eles querem preservar essa qualidade”, explica Nide. 

 

Educação e divulgação como pilares da memória

Para que as festas continuem a reforçar o sentimento de identidade com a cultura e os produtos locais, é preciso que os organizadores do festejo se atentem às características e aos ciclos de cada lugar. Maria Alice destaca que o caráter cronológico da festa é muito relevante no Nordeste. “Conversando com meus amigos de Pernambuco, percebo que a ligação deles com a festa de São João e o mês de junho é muito forte, algo que não é tão presente em Minas Gerais, onde a data parece não importar muito. Fazemos festa junina, julina e até mesmo agostina”, diz. 

A apresentação das comidas de festa junina geralmente é acompanhada por outros elementos da cultura regional, como tecidos e cestos. [Imagem: Rita Barreto/Fotos Públicas]

A apresentação das comidas de festa junina geralmente é acompanhada por outros elementos da cultura regional, como tecidos e cestos. [Imagem: Rita Barreto/Fotos Públicas]

Entender os ciclos e significados além do entretenimento passa por um trabalho educativo sobre as festas, inclusive nas escolas. Maria de Lourdes defende que não basta organizar o evento e as brincadeiras. É preciso trabalhar os sentidos a respeito dos processos de plantio e colheita. “A escola tem o papel de valorizar o território, o contexto geográfico e cultural de onde se vive, voltando o olhar também para o que se produz nele e para as pessoas que produzem. É preciso compreender que as coisas não dão no supermercado e, às vezes, não dão o ano inteiro”, diz. 

Divulgar as tradições populares, incluindo as gastronômicas, também é fundamental para ampliar sua preservação na memória coletiva e agregar valor a elas. Afinal, produzir os sabores que nos permitem viajar na cultura muitas vezes é um processo trabalhoso, que requer esforço e habilidade. Nide ressalta que o trabalho de divulgação é um caminho duplo de gratidão. Para quem executa a arte culinária, é uma alegria ver seus pratos reconhecidos. Para quem divulga e consome os sabores, que também são memórias, fica a gratidão por uma riqueza que não queremos perder.

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