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Faroeste ao sugo: o nascimento e a morte do spaghetti western
CINÉFILOS
05 jun 2020 | Por Júlia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br)

Um prato suculento de macarronada no almoço de domingo, cheiro de molho de tomate que inunda a casa. Com a mesma rapidez que ele vai da cozinha à mesa, para não esfriar, acaba no prato de cada membro da família, sedento por mais uma colherada. Assim foi com o spaghetti western. Apesar de nada comestível, o subgênero enchia os olhos de muitos amantes do cinema e fazia muito sucesso nas telonas de todo o mundo. Mas por que ele desapareceu se era tão bem aceito entre os fãs?


Bang bang à italiana

O subgênero do spaghetti western surgiu no final dos anos 1950, período de decadência do western americano. Os clássicos filmes de velho oeste americano, que por muitos anos estiveram entre os mais populares do cinema hollywoodiano, já não entusiasmavam os espectadores como antes. Os westerns chegaram a representar 25% de toda a produção filmográfica de Hollywood entre as décadas de 1920 e 1960, mas, a partir da década de 1950, houve uma queda significativa nos lançamentos desse gênero.

É, então, que surge o spaghetti western. Chamado também de faroeste italiano ou faroeste espaguete, é considerado um subgênero dos filmes de faroeste americano. Esse nome faz referência justamente à origem da produção desses longas, em sua maioria dirigidos e produzidos por italianos. Apesar da ligação evidente entre a comida – espaguete – e a procedência desse novo subgênero, o nome spaghetti western era considerado depreciativo, pois o título tinha como objetivo inferiorizar a produção do faroeste europeu. Esse movimento de diminuição da produção europeia foi algo feito por um extenso período pelos críticos de cinema, já que eles temiam certa contaminação do western clássico pelos faroestes europeus.

Entretanto, a opinião do público era oposta à da crítica, pelo menos à maneira que os críticos analisavam as primeiras produções do subgênero. Com a cultura se tornando algo cada vez mais globalizado, os longas ficaram extremamente populares em todo o mundo entre as décadas de 1960 e 1970. O faroeste italiano crescia, então, como gênero marginalizado, mas que agradava a massa espectadora.

Cena do filme Por uns Dólares a Mais, de Sergio Leone, grande diretor do subgênero [Foto: Divulgação]


Fartura de violência e música

Contando com muitas influências das produções do faroeste americano, o western spaghetti foi ganhando, a cada longa, características únicas que o diferenciava dos clássicos norte-americanos. Se comparados aos filmes americanos, os italianos tinham um nível de violência muito maior. Os tiroteios e mortes de diversos personagens eram bastante recorrentes nessas produções, sempre com a presença do herói que pretendia fazer justiça com as próprias mãos.

Em oposição a esse justiceiro existia o bandido, aquele que tornava possível a ocorrência da marca registrada tanto dos faroestes americanos como dos europeus: o duelo. Mas, se nos norte-americanos havia a presença de apenas dois personagens que protagonizavam a disputa, é no faroeste italiano que surge o trielo. Nessa nova modalidade, havia mais um integrante, normalmente um personagem com características que o colocavam entre o mocinho e o bandido. E, embalados por longos minutos de tiros, closes e assobios, eles se enfrentavam em um ambiente seco e empoeirado, no qual somente um poderia ser o vencedor.

A música e os efeitos sonoros são outro ponto que se sobressai no faroeste italiano. No subgênero, os diálogos são escassos e a trilha sonora é utilizada como elemento de construção da narrativa. E nesse cenário de valorização da música como fundamental para o clima de cada cena, se destaca Ennio Morricone, o mais famoso compositor de músicas para o spaghetti western. As composições dele foram pano de fundo para grande parte das produções de Sergio Leone, outro grande nome dentro do subgênero e um dos responsáveis pelo sucesso estrondoso de muitas produções italianas.   

É dessa parceria entre o diretor e o compositor que nasceu a chamada Trilogia dos Dólares (Trilogia del Dollaro). Composta pelos longas Por um Punhado de Dólares (Per un pugno di dollari, 1964), Por uns Dólares a mais (Per qualche dollaro in più, 1965) e Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo, 1966), a trilogia é uma das mais marcantes do spaghetti western. Os filmes, todos dirigidos por Leone e com as trilhas marcantes de Morricone, são responsáveis por retratar um velho oeste totalmente novo, repleto de detalhes e uma visão real da violência presente no faroeste.

Mas nem só de grandes parcerias nos bastidores viveu o spaghetti western. Outra dupla extremamente marcante desse subgênero – dessa vez à frente das câmeras – foi Bud Spencer e Terence Hill. Originalmente Caio Pedersoli e Mario Girotti, respectivamente, ambos adotaram nomes artísticos em inglês e atingiram um sucesso bastante significativo principalmente a partir da produção Trinity é o Meu Nome (Lo chiamavano Trinità, 1970). A dupla seguiu atuando junta em diversos outros longas do faroeste italiano, com uma sintonia que ultrapassava as telas e concretizava a participação dos dois como parceiros, sem nunca serem substituídos.

Bud Spencer e Terence Hill em Trinity é o Meu Nome [Foto: Divulgação]


Tiro de misericórdia

Após passar por uma fase de glória, com os já citados longas de Leone e os filmes Django (1966) e O Vingador Silencioso (Il grande silenzio, 1968), de Sergio Corbucci, o faroeste italiano entrou em um período de produções cômicas. Apesar de muitos desses filmes serem protagonizados pela dupla inseparável Bud Spencer e Terence Hill, essa nova era do cinema italiano anunciou a decadência do spaghetti western.

As paródias e versões cômicas no subgênero trouxeram um ar novo ao cinema italiano, mas de nada serviram para a continuidade do subgênero inspirado nos longas americanos. Mesmo sendo responsáveis por tornar a parceria dos atores internacionalmente conhecida, os filmes contavam cada vez mais com uma produção de baixa qualidade. Os longas perdiam suas características à medida que ganhavam humor.

Os filmes foram se afastando do que inicialmente havia sido o spaghetti western que chegou a preocupar críticos por ameaçar o western tradicional. Os cômicos ainda atraíam multidões em busca dos títulos de faroeste italiano, mas, com o passar dos anos, nenhum desses longas se tornou um verdadeiro clássico, como os de Leone ou Corbucci. Se nos anos glória do subgênero – entre 1966 e 1968 – se produziram mais de 70 longas, no ano de 1973 apenas dois filmes foram lançados.

O baixo investimento que o subgênero passou a receber no início da década de 1970 fez com que se tornasse ainda mais difícil a produção de novos grandes clássicos. Já em meados dos anos 1980, o spaghetti tinha praticamente desaparecido das telas e dos estúdios de cinema, com não mais do que duas ou três produções por ano.

Mais recentemente, uma nova geração de cineastas foi responsável por redescobrir o subgênero e fazer referências a ele em suas produções. Um representante importante nesse movimento é Quentin Tarantino. Músicas de Ennio Morricone compostas para a Trilogia de Dólares estão presentes no filme Kill Bill: Volume 2 (2004). Outra homenagem clara é o longa Django Livre (Django Unchained, 2012), produzido em referência à obra de Corbucci.

Mesmo com as produções de um diretor renomado como Tarantino trazendo o spaghetti western de volta às telonas e grandes diretores – como Martin Scorsese e Steve Spielberg – confirmando sua admiração por Sergio Leone, o faroeste italiano caiu no esquecimento. Apesar de Leone ser reconhecidamente um dos maiores cineastas de todos os tempos, suas obras que antes eram aguardadas como a macarronada de domingo ficaram esquecidas, como num velho livro de receitas que ninguém mais consulta.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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