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Futebol feminino: primeiros passos após a obrigatoriedade
ARQUIBANCADA
28 set 2020 | Por João Pedro Barreto (joaobf@usp.br)

Em meados de 1941, durante o governo Getúlio Vargas, um decreto feito pelo presidente determinou a proibição do futebol feminino em território nacional. Passados longos 38 anos da decisão, em meio a abertura democrática brasileira, o decreto foi revogado e o esporte pôde ser praticado dentro das leis.

Jornal do ano em que a prática do futebol feminino foi proibida, 1941

Jornal do ano em que a prática do futebol feminino foi proibida, 1941 [Imagem: Arquivo/Jornal O Imparcial]

Apesar da revogação, a prática do futebol feminino no Brasil nunca foi vista com bons olhos pela sociedade. O machismo, o preconceito e a falta de incentivo e investimentos são barreiras que as mulheres sempre tiveram que superar para poderem exercer a atividade. Em 2019, uma nova etapa dessa luta foi vencida: a CBF definiu que todos os times da série A do Campeonato Brasileiro seriam obrigados a manter um time feminino adulto e um de base.

A participação das categorias de base nessa decisão pode ser ponto crucial no desenvolvimento da modalidade no país. O envolvimento de garotas desde cedo no esporte ajuda tanto em um quesito técnico das jogadoras quanto em um fortalecimento da cultura da prática do futebol por mulheres. Entretanto, com apenas um ano da medida da Confederação Brasileira de Futebol, a realidade para as atletas ainda é dura: os projetos dos grandes times ainda são pequenos e progridem lentamente.


Uma nova realidade?

No início de 2019, o Licenciamento de Times da Confederação Brasileira de Futebol passou a estabelecer uma nova exigência para os clubes da Série A do Brasileirão: a manutenção de um time feminino adulto e de um de base. A medida foi importante porque se adequou, ainda, a uma demanda da FIFA para que as confederações nacionais incluíssem artigos em seus estatutos de governança que aumentassem a igualdade de gênero no esporte.

A realidade, até então, entre as grandes equipes brasileiras, era de poucos times femininos firmados no cenário nacional. Apenas sete dos 20 times que participariam da série A em 2019 tinham a categoria já estruturada em 2018. Logo, a nova legislação fez com que pelo menos 13 times precisassem ir atrás da montagem de equipes femininas para 2019 – além de três dos quatro que subiram para a primeira divisão em 2020.

Porém, o desenvolvimento da modalidade no país ainda é lento em um cenário de crise financeira que muitos clubes brasileiros enfrentam. Alê Xavier, influenciadora e apresentadora do canal Desimpedidos, no YouTube, acredita que o futebol vem mudando, mas ainda está longe do ideal.  Entretanto, ela se mostra esperançosa para os próximos anos: “ A obrigatoriedade da CBF vai ajudar no surgimento de mais times femininos e, consequentemente, vai haver mais jogos e mais atletas profissionais. Com isso, a qualidade vai aumentar.  Isso aconteceu na França e na Itália, onde o nível do futebol feminino subiu muito”. 

Camila Gozzi, coordenadora do futebol feminino no projeto do Red Bull Bragantino e com passagem vitoriosa pelo Corinthians, também é otimista com relação à categoria. Ela acredita que, se não fosse a pandemia, a temporada 2020 seria a melhor da modalidade e haveria uma superação gradativa com o passar dos anos. “Podemos inferir isso por fatores financeiros – com altos orçamentos dos clubes e aumento dos salários médios das atletas – e de consumo, com grandes marcas patrocinando os diversos campeonatos e times, altos índices de engajamento em redes sociais e expressivos números de audiência em transmissões em rede nacional”, comenta.

O caráter de obrigatoriedade da medida traz desconfiança acerca do real interesse dos clubes no investimento no futebol feminino – algo que pode ser percebido ao se analisar quantos eram os clubes que tinham equipes femininas até serem obrigados pelo licenciamento de clubes da série A. No meu entendimento, não é a obrigatoriedade que reflete na criação de equipes femininas amadoras, mas a forma com que alguns clubes são geridos no país, somado ao desinteresse e falta de conhecimento específico da modalidade”, opina Camila.

Outro ponto importante nessa discussão são as parcerias que grandes clubes fazem com times menores ou com prefeituras municipais para a manutenção da modalidade feminina. Equipes como Palmeiras, Flamengo e Atlético Mineiro, que têm muita força no masculino, ainda mantêm parcerias, terceirizando algumas funções e responsabilidades. 

Entretanto, nos últimos anos, diversos clubes vêm deixando seus parceiros para seguir projetos independentes. São Paulo e Corinthians começaram suas gestões autônomas no início de 2019 e 2018, respectivamente, e foram exemplos de sucesso na categoria após a mudança. Para a temporada de 2020, mais três equipes da elite do futebol nacional, que tinham formado parcerias para 2019 com a nova legislação, decidiram rompê-las: Bahia, Goiás e Athletico-PR.

Além disso, é visível a falta de interesse por parte dos clubes da série A com apenas uma rápida olhada em seus sites oficiais. Alguns times (cinco dos 20 participantes) nem ao menos tem uma seção dedicada, exclusivamente, para informações das jogadoras da categoria adulta. Ainda mais raras são as informações sobre as divisões de base – apenas três possuem um segmento dedicado a esse grupo. Concomitantemente, sobram informações sobre as mais variadas categorias em relação ao futebol masculino. Categorias de base, comissão técnica completa e história do time, por exemplo, são quesitos que raramente não estão presentes.

Site oficial do Ceará Sporting Club. Nenhum tópico designado à categoria feminina

Site oficial do Ceará Sporting Club. Nenhum tópico designado à categoria feminina [Imagem: Site do Ceará Sporting Club]


O futebol “profissional”

O termo “futebol profissional” ou “equipe profissional” é comumente utilizado quando se refere às equipes da categoria adulta do futebol masculino. Entretanto, quando se trata de futebol feminino, a palavra “profissional” nem sempre pode ser usada. Nem todos os times estabelecem contratos com carteira assinada com as jogadoras. 

Camila acredita que essa situação prejudica  o crescimento da modalidade. “O registro amador ainda acontece, pois é algo permitido, uma vez que a categoria não é profissionalizada no Brasil. Essa é uma alternativa para diminuir de forma representativa o custo das equipes”, explica.

O primeiro clube brasileiro a profissionalizar uma atleta mulher foi o Santos Futebol Clube, apenas em 2015. O clube da baixada é, inclusive, o time da elite do brasileirão que mantém uma equipe feminina há mais tempo de forma contínua – também desde de 2015, ou seja, há 6 temporadas. A profissionalização do futebol masculino no país, no entanto, data da década de 1930, mais de 80 anos antes.

O cenário que se desenhava para este ano de 2020, entretanto, era muito promissor até a paralisação por causa do coronavírus. Dez dos 16 times que participavam do Campeonato Brasileiro Feminino A1 já eram considerados equipes profissionais, superando os sete do ano anterior. Esse dado mostra que, apenas cinco anos após o início da profissionalização no país, já houve uma grande melhora nas condições de trabalho das jogadoras.

é Alves, jogadora do Grêmio, comemora a assinatura de sua carteira de trabalho como jogadora

Jé Alves, jogadora do Grêmio, comemora a assinatura de sua carteira de trabalho como jogadora [Imagem: Tadeu Vilani/Agencia RBS]


Divisões de base

Como já citado, é fundamental o fortalecimento das categorias de base para que o esporte realmente cresça no Brasil. “As categorias de base são o futuro do esporte no país, sendo um fator fundamental para mantermos esse crescimento contínuo”, reforça Camila. 

No futebol masculino, o número de categorias é enorme, indo de sub-20 a sub-11. Muitos jogadores sobem para o profissional e vários outros são vendidos para o mercado nacional e internacional. A Copa São Paulo de Futebol Júnior, maior campeonato de divisões de base do masculino, mostra como é amplo investimento na categoria pelo país: 128 clubes brasileiros participam do torneio anualmente.

No caso do futebol feminino, ainda existem times da série A que, mesmo com a exigência da CBF, não tinham divisões de base organizadas para 2020. Goiás, Palmeiras e Atlético Goianiense, quando contatados pelo Arquibancada no início de maio, afirmaram que não possuíam time formado para a atual temporada, muito por conta da paralisação das atividades em decorrência da pandemia. Além desses, o Atlético Mineiro informou no dia 27 de maio a desativação de suas categorias de formação femininas por conta de uma reestruturação no clube.

Até o ano passado, as competições para essa categoria eram organizadas, apenas, pelas federações estaduais de futebol. Dessa forma, as garotas não tinham um campeonato nacional para disputar – com exceção de 2016, quando a CBF organizou uma competição semelhante com 12 equipes, mas sem continuidade. Em 2019, com a nova legislação, a entidade organizou os primeiros torneios nacionais sub-18 e sub-16 da história. 

O campeonato sub-18 contou com grande adesão dos times da elite do futebol brasileiro, com 24 equipes no total. Já o sub-16, um torneio menor e que teve alguns problemas de organização prévia por parte dos times e da CBF, foi disputado por apenas 12 times. Camila comenta sobre o impacto desses torneios no planejamento das equipes: “Como consequência à criação de um calendário competitivo em âmbito nacional e estadual, os clubes passaram a adicionar essas categorias inferiores, oportunizando a prática a um número maior de meninas.”

Jogadoras perfiladas para o hino nacional na final do Brasileirão Sub-18. Ao fundo, o estádio vazio

Jogadoras perfiladas para o hino nacional na final do Brasileirão Sub-18. Ao fundo, o estádio vazio [Imagem: Thais Magalhães/ CBF]


Próximos passos

A Confederação Brasileira de Futebol manteve, no início da sanção, uma postura de orientação com os clubes e não de punição. Em comunicado dado ao GloboEsporte.com, a entidade relatou: “A CBF está preocupada com o primeiro papel que é de orientador, aconselhamento. Os clubes estão se mexendo e a primeira preocupação é auxiliar. A primeira intenção não é punir. É orientar para que seja cumprido. O Licenciamento é um processo gradativo. A UEFA, para implementar 100%, levou de 10 a 15 anos. A cada ano vai aumentando as exigências e entrando nas outras séries (divisões do Brasileiro)”.

Ainda serão necessários alguns anos para que se possa ver o futebol feminino tendo o merecido destaque no Brasil. Para Alê Xavier, a mídia é fundamental nesse processo: “Todo meio de comunicação é muito importante para ajudar a dar visibilidade e, consequentemente, ajudar a modalidade crescer. A Copa do Mundo do ano passado é um exemplo disso. Só da Globo ter transmitido uma final que o Brasil não estava jogando, já mostra que o futebol feminino foi visto durante a competição e deu resultados como audiência”.

Camila Gozzi, por sua vez, fala  sobre os próximos passos para que aconteça esse crescimento: “A resposta é simples, tratar a categoria de uma maneira profissional.[…] Vale pontuar que a profissionalização requer não só a forma de contratação das atletas, mas condições para que elas se desenvolvam, boas estruturas físicas e fundamentalmente um fator humano capacitado para os respectivos cargos diretivos e da comissão técnica”.

Arquibancada
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