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Israel x Palestina: uma guerra colonial?

Os reflexos de um nacionalismo extremo que parte de dois lados

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10 mar 2020 | Por Karina Tarasiuk (karinatarasiuk@usp.br)

O conflito entre israelenses e palestinos completou sete décadas em 2018. Sim, são mais de 70 anos de um conflito para o qual as soluções propostas não foram aceitas, o que me deixou curiosa sobre sua permanência. Após conversar com cinco especialistas, pude entender uma questão que eu não tinha imaginado antes.

Não se trata de uma simples guerra (isso se alguma guerra pode ser considerada “simples”), mas, sim, de um conflito colonial. Nessa situação, uma nação impõe sua “soberania” racial e cultural sobre a outra. Se levarmos em conta esse pretexto, podemos mudar o nosso entendimento acerca do problema.

Um aspecto importante para considerar o conflito como colonial é a violação de direitos. Havana Marinho, doutora em economia política internacional,  estuda em sua tese de doutorado as principais políticas aplicadas pelo governo israelense  que violam os direitos palestinos. A principal consiste em deslocamentos forçados de modo sistemático e contínuo. A questão da propriedade das terras é, nesse caso, fundamental para a consolidação do movimento de expulsão dos palestinos.

Assim, “a limpeza étnica dos palestinos leva ao deslocamento forçado planejado para apagar qualquer vestígio de existência da sociedade palestina”. Ela explica que com tais invenções jurídicas, o governo israelense ‘adquire’ a propriedade dos refugiados, a qual é considerada abandonada. Com relação aos deslocados internos, “criaram o conceito paradoxal da abstenção presente; afinal, o deslocado encontra-se dentro das fronteiras de Israel, mas ausentes de seu local de origem.” A pesquisadora ressalta que cerca de 78% do território da Palestina histórica se tornou parte de Israel.

Há também a existência de Zonas planejadas de discriminação e segregação, com institucionalização do racismo. No primeiro caso, são poucos os palestinos que adquirem autorização para construir dentro do território israelense, o que torna a maioria das propriedades  ilegais e sujeitas a serem confiscadas. Já no segundo, a Lei de nacionalidade israelense é utilizada pelo país para diferenciar nacionalidade de cidadania. A nacionalidade é judaica, mas a cidadania é israelense, “ou seja, o judeu é um nacional e o não-judeu é cidadão. Essa diferença legal permite que os nacionais tenham direitos diferenciados. Esse vácuo jurídico viabiliza o regime de apartheid aplicado à população palestina dos Territórios Ocupados Palestinos (TOP) e residente em Israel.”

Porém, para analisar qualquer problemática geopolítica, precisamos entender suas origens.

De forma resumida, poderíamos dizer que o conflito se inicia com a criação de Israel na região da Palestina em 1947, como consequência do nacionalismo judaico iniciado no século XIX. Mas não é tão simples assim. 

Para Marinho essa origem remete aos tempos bíblicos, de modo que há obstáculos subjetivos quanto aos parâmetros acadêmicos e científicos. “Israel vai argumentar com pesquisas arqueológicas que eles chegaram ali primeiro. Por outro lado, estudos palestinos no mesmo sentido irão também garantir que eles estavam ali originalmente.”

Gabriel Steinberg, professor de Língua e Literatura Hebraica da Universidade de São Paulo (USP), também comenta que a região da Palestina, a qual compreende o Estado de Israel, a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, é a terra ancestral dos judeus. “A antiga Canaã, lugar no qual eles viveram de forma independente por centenas de anos até o grande exílio provocado pela conquista da região pelos romanos no século I da Era Comum.”

A partir disso, os judeus se espalharam pelo mundo, enquanto a região foi ocupada por diversos povos. No século XIX, desenvolveu-se o Sionismo, movimento nacional judaico criado por Theodor Herzl, com o qual os judeus iniciaram a procura por um novo lar. Foram sugeridas regiões nos Estados Unidos e na África, mas optou-se por ocupar a área da Palestina. 

No mesmo momento, este território era ocupado por povos árabes, os palestinos, sob o domínio do Império Otomano. Após a Primeira Guerra Mundial, o Império caiu e a região passou a ser controlada pela Inglaterra até 1948.

O movimento Sionista permaneceu, mas foi afetado durante a Segunda Guerra e o Holocausto Judaico. Após a derrota da Alemanha e a conscientização dos campos de concentração, houve uma comoção mundial para encontrar um lar para os judeus. A região escolhida foi a da Palestina, e a Inglaterra auxiliou no processo.

Em 1947, houve uma Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) para dividir a região entre israelenses e palestinos. Os territórios definidos para os cerca de 700 mil judeus correspondiam a de 53% da área. O restante, 47%, foi destinado a 1,4 milhão de palestinos, de maneira que a cidade de Jerusalém ficasse sob controle internacional.

Desde 2004, Israel apresenta IDH maior que o da Palestina [Imagem: Gabriella Sales]

Como uma população maior foi colocada em um território menor, os palestinos e a maioria dos países árabes não ficaram satisfeitos com o acordo. No ano seguinte, houve a Guerra de Independência de Israel, na qual israelenses tomaram posse de regiões até então habitadas por palestinos. Esse dia, comenta Havana Marinho, ficou conhecido como Atzmaut (dia de celebração) para os israelenses e como Al-Nakba (grande catástrofe) para os palestinos.

A questão de Jerusalém também é bastante polêmica. Embora esteja sob controle da ONU, possui grande significação religiosa, tendo em vista abrigar importantes elementos históricos das três maiores religiões monoteístas do mundo: Judaísmo (com o Muro das Lamentações, construção remanescente do Templo Sagrado), Cristianismo (com a Basílica do Santo Sepulcro) e Islamismo (com o Domo da Rocha e a mesquita de al-Aqsa). Além disso, os palestinos proclamam Jerusalém Oriental como capital de seu futuro Estado. No entanto, a divisão da cidade não seria tão fácil quanto possa parecer. 

Os conflitos se perpetuaram pelo século XX, sob influência das potências da Guerra Fria, e permanecem até hoje. A aliança dos Estados Unidos com Israel foi fortalecida após a eleição de Donald Trump, e muitos países árabes, com exceção das monarquias do Golfo Pérsico, continuam apoiando os palestinos – embora haja grupos divergentes na causa palestina.

Em 1987 houve a Primeira Intifada (palavra que, em árabe, significa “agitar”), na qual palestinos utilizaram paus e pedras em sua revolta contra o Exército israelense, um dos maiores do mundo. O acontecimento resultou na morte de aproximadamente 1200 palestinos e 176 israelenses, gerando comoção mundial. Em 2000, houve uma Segunda Intifada, com ainda mais mortes: cerca de 3300 palestinos e 1300 israelenses.

“Uma consequência da expansão capitalista”

Segundo Fábio Bacila Sahd, doutor em história e professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), “o conflito entre Israel e Palestina é gerado pela expansão do capitalismo pelo globo sob égide ‘ocidental’ (imperialismo) e pelo colonialismo europeu, com todas suas implicações raciais e de violação dos direitos humanos.” Para ele, Israel é um Estado colonizador, assim como a África do Sul foi durante o Apartheid, política de segregação racial, constitucional entre 1948 e 1993.

Sahd ressalta também que a fundação de Israel foi baseada em um processo de limpeza étnica, o qual gerou milhares de refugiados palestinos para garantir uma maioria demográfica judaica. Inicialmente, o número desses refugiados era de cerca de 750 mil. Hoje, são mais de 5 milhões, e seus principais destinos são a Síria, o Líbano e a Jordânia.

Evolução das áreas de ocupação dos israelenses e palestinos [Imagem: Júlia Carvalho]

Bruno Huberman, doutorando em Relações Internacionais, considera essencial relacionar a perpetuidade do conflito com o seu caráter colonial, porque o movimento sionista criou um Estado Nação dentro do território palestino. Junto a isso, surgiram também assentamentos judaicos em regiões que, com base na divisão da ONU, pertenceriam aos palestinos. Tais assentamentos, ele ressalta, são ilegais segundo o direito internacional.

Huberman caracteriza o processo ocorrido na Palestina como uma colonização de povoamento, por “buscar a transformação total do seu país de destino”. Nesse sentido, há a  “judaização” da Palestina por meio da criação do Estado de Israel, com expropriação de terras e imposição do hebraico (os nomes das ruas e dos locais, por exemplo, deixam de ser árabes e se tornam predominantemente hebraicos). Esse processo estrutural é ininterrupto: “enquanto os palestinos continuarem existindo e continuarem nas terras deles, sempre haverá um ímpeto colonial de controle dessa população, porque ela sempre resistirá à colonização.” O pesquisador relembra a questão como um “orientalismo”, baseando-se na visão de Edward Said, intelectual e ativista político-social palestino.

As motivações econômicas do conflito são incertas. Enquanto Steinberg diz não ver motivações econômicas que justifiquem a perpetuação da guerra, visto a região ser seca e desértica, Danilo Guiral Bassi, historiador e pesquisador das relações entre Israel e Palestina, comenta que sempre há motivações econômicas nos conflitos. Neste caso, a questão se concentra no controle da água, sobretudo a do Rio Jordão, e das áreas férteis presentes na região. 

E a influência religiosa?

Bassi afirma que, nesse conflito, é “importante separar o étnico e o religioso”, pois, até o início dos anos 80, o conflito possuía um caráter mais étnico, já que os dois movimentos nacionais envolvidos eram laicos. Porém, a partir dos anos 90, a justificativa religiosa se torna mais evidente, surgindo grupos extremistas de ambos os lados. Segundo Steinberg, procura-se afirmar um caráter religioso à guerra, quando, na verdade, ela é política.

E não podemos generalizar: nem todo palestino é muçulmano, assim como nem todo israelense é judeu. 

Dentre os movimentos palestinos, há dois principais: O Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e o Fatah, aliado à Organização pela Libertação Palestina e responsável pelo controle da Cisjordânia.

A forma de entender esse conflito pode ajudar a resolvê-lo

Steinberg diz que “a disputa deve ser entendida como um conflito político e somente desta forma será possível chegar algum dia a um tipo de resolução”. Além disso, para Danilo Bassi, “o mais importante quando se pensa nesse conflito ou em qualquer outro é que sejam garantidos os direitos”, independentemente das decisões tomadas, que devem ser pautadas nas leis dos direitos internacionais.

Bassi acredita que “a maneira mais justa de resolver, ou, pelo menos, amenizar a guerra, seria redistribuir alguns territórios”, mantendo Israel sob controle dos judeus e a Cisjordânia e a Faixa de Gaza sob controle integral dos Palestinos, de modo que as duas áreas pudessem ser conectadas de alguma forma.

Mas isso não garante o fim da guerra. É preciso que os dois lados, no mínimo, se respeitem, mesmo sem se compreenderem. Bassi relembra o que alguns palestinos dizem: “só paz não basta, porque a paz não é necessariamente justa, e se ela não for justa e aniquilar ou oprimir uma das partes, então o conflito não foi resolvido de fato.”

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