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Kobe: os últimos anos de um campeão
ARQUIBANCADA
26 jan 2021 | Por João Timm (joaotimm@usp.br) e Wálace de Jesus (walace.jesus@usp.br)

No dia 26 de janeiro de 2020, morre o ex-jogador Kobe Bryant. Por volta das 9h45 da manhã, um acidente de helicóptero em Calabasas, na Califórnia, deixou 9 vítimas e chocou o mundo do esporte. Os tripulantes eram o piloto Ara Zobayan; o casal John e Kira Altobelli e sua filha, Alyssa; Sarah Chester e a filha, Payton; Christina Mauser; e Gianna Bryant e seu pai, Kobe Bryant.

O astro do basquete foi cinco vezes campeão da National Basketball Association (NBA), venceu uma vez o prêmio de Most Valuable Player (concedido anualmente ao melhor jogador da liga), na temporada 2007/2008, e duas vezes o de MVP das Finais, nas temporadas 2008/2009 e 2009/2010. Hoje, um ano depois do acidente, relembramos os últimos anos da carreira do jogador após seu quinto título, em 2010, que foi a última vez que Bryant apareceu nos noticiários como campeão.


Expectativas e desilusões

Após o bicampeonato de 2009 e 2010, o Los Angeles Lakers entrava na temporada de 2010/2011 em busca do tricampeonato — feito que não ocorria há uma década, quando o Lakers venceu os campeonatos de 2000 a 2002, time do qual Kobe fez parte, mas protagonizado por Shaquille O’Neal.

A companhia se manteve quase o mesmo dos anos anteriores: Kobe era o astro, Pau Gasol ocupava o cargo de segundo melhor jogador, e a equipe ainda contava com outros bons jogadores que completavam o elenco, como Derek Fisher, Lamar Odom e Ron Artest (este último mudaria seu nome para Metta World Peace naquele ano). Além dos jogadores, o time era liderado por Phil Jackson, que já havia ganhado 11 títulos como técnico.

Caio Gasparetto, torcedor do Lakers e criador da página de basquete Camisa 23, conta sobre a temporada daquele ano: “A expectativa era alta, porque sempre quem defende o título na NBA tem um alvo nas costas (…) ainda mais por ser o Lakers, que é a franquia mais midiática da NBA, se tem dois alvos nas costas: a expectativa era 100%”. Ao fim da temporada regular estava cumprindo com o esperado: terminou em segundo lugar na conferência Oeste, com 57 vitórias e 25 derrotas.

No primeiro round dos playoffs, os atuais campeões enfrentaram a equipe do New Orleans Hornets, estrelada pelo armador Chris Paul, e venceram a série por 4 a 2. Na segunda rodada, porém, o resultado foi diferente. O Lakers jogou contra o Dallas Mavericks de Dirk Nowitzki — time que viria a ganhar o título daquele ano — e sofreu uma dura derrota: perdeu quatro jogos seguidos, o que marcou o fim da temporada do time. “Foi muito decepcionante. (…) A maneira com que o Lakers foi eliminado acabou não combinando com o alto nível que o time estava jogando antes”, completou o torcedor.

No ano seguinte, também houve a manutenção do elenco como na temporada anterior, mas as expectativas não eram tão altas pela forma  como o time foi eliminado no ano anterior. Ainda assim, era esperado um bom desempenho da equipe, em especial porque Kobe seguia jogando em alto nível.

O Lakers terminou a temporada regular em terceiro lugar, novamente indo para os playoffs. Nas quartas de final da conferência, derrotaram o Denver Nuggets em 7 jogos, mas, no round seguinte, foram eliminados pelo Oklahoma City Thunder por 4 a 1.


O começo do fim

Após duas temporadas longe das finais, o Lakers foi atrás de reforços que pudessem levá-lo novamente ao posto de campeão da NBA. Primeiro veio a troca pelo armador Steve Nash: ele chegava do Phoenix Suns já tendo vencido dois prêmios de MVP das temporadas 2004/2005 e 2005/2006. Logo depois, o time realizou outra troca que, a princípio, completaria um time pronto para disputar títulos: Dwight Howard, pivô do Orlando Magic, e que ganhou três vezes seguidas o prêmio de Defensor do Ano entre 2009 e 2011.

Com a chegada de astros para acompanhar Kobe e Gasol, as expectativas de vencer o campeonato naquele ano foram renovadas. O início da temporada regular, no entanto, foi conturbado: o time perdeu quatro dos primeiros cinco jogos, o que levou à demissão do então técnico Mike Brown (Phil Jackson já havia saído do time ao fim da temporada de 2011). Para ocupar a posição de treinador, chegou Mike D’Antoni, que completou a formação do time para o resto do ano.

Porém, mesmo com um elenco repleto de grandes nomes e um técnico que já havia obtido certo sucesso na liga, o time não atingiu o entrosamento desejado. Nash sofreu com uma série de lesões nas costas ao longo do ano, reflexo de seus 38 anos de idade e indicação de que o fim de sua carreira estava próximo — ele viria a se aposentar no ano seguinte. Além disso, Kobe, que seguia sendo o melhor jogador do time, nunca conseguiu criar uma boa relação com Howard e D’Antoni, o que causou alguns problemas internos na equipe.

Por não vencerem jogos da forma que esperavam — o time tinha um histórico negativo até a 60ª partida da temporada — Bryant começou a ter cada vez mais tempo em quadra, sendo ainda mais protagonista. Ele chegou a atingir uma média de 38 minutos por partida, o que culminou no rompimento de seu tendão de Aquiles em abril daquele ano.

Após a lesão, o Lakers lutou para entrar nos playoffs, e ficaram com o sétimo lugar de sua conferência. Logo no primeiro round, porém, o time foi eliminado, tendo perdido de 4 a 0 para o San Antonio Spurs.

“A lesão no tendão de Aquiles do Kobe, na minha opinião, parece ter acabado com a carreira dele de fato”, conta Caio. O rompimento desse tendão é considerado a lesão mais grave que pode ocorrer com um jogador de basquete. Segundo um estudo realizado pelo American Journal of Sports Medicine, de 62 atletas que sofreram a lesão e se encaixaram nos critérios estabelecidos, sendo 25 deles jogadores da NBA, 30% nunca voltaram a jogar. Além disso, o estudo também indicou que jogadores de basquete são os mais afetados, apresentando maior declínio em partidas jogadas, tempo de jogo e performance em comparação a outros esportes. E Kobe não foi uma exceção.

“Pela idade e pela gravidade da lesão, ele nunca mais voltou jogando a mesma coisa em termos de minutagem (…) era poupado em alguns jogos, treinava menos. Então a gente já percebia que era o último ato, sabe?”, explicou o criador do Camisa 23.


A hora de dizer adeus

Com queda de performance em quadra desde 2013, o ala-armador do Los Angeles Lakers anunciou em 29 de novembro de 2015, aos 38 anos, que se aposentaria ao final da temporada, que acabaria em abril do ano seguinte. Dear Basketball foi o título do comunicado em forma de poema que noticiava o final do ciclo dentro do basquete profissional para Kobe. “Minha cabeça pode lidar com a rotina, mas meu corpo sabe que está na hora de dizer adeus”, escreveu Bryant em um trecho do poema.

O último jogo do astro foi contra o Utah Jazz em 13 de abril de 2016, com um placar vitorioso do Lakers de 101 pontos a 96. “O Lakers estava perdendo e ele acertou arremessos decisivos”, descreve Caio. Também naquela despedida das quadras, Kobe quebrou novos recordes: se tornou o jogador mais velho a chegar à marca de 50 pontos em uma partida pela NBA, alcançando 60 pontos.

O último ato de Kobe foi prestigiado por grandes figuras públicas. Nas arquibancadas, estavam  os rappers Jay-Z, Kanye West e Snoop Dogg; o vocalista do Maroon 5, Adam Levine, acompanhado de sua esposa, a modelo Behati Prinsloo; o ator Jack Nicholson; o modelo e ex-jogador de futebol David Beckham; o cantor The Weeknd; e a modelo Bella Hadid.

Snoop Dogg com o nome de Kobe.

Snoop Dogg na arquibancada segurando um letreiro com o nome de Kobe. [Image: Reprodução/ YouTube/ iKobeSilvan24]


Carreira fora da NBA

Depois de sua aposentadoria, Bryant ainda brilhava dentro do basquete, desta vez às bordas das quadras. Em dezembro de 2017, em uma cerimônia durante o jogo do Lakers contra o Golden State Warriors, Kobe teve a honra de aposentar suas camisas 8 e 24 pelo time. Na ocasião, o astro também se tornou o primeiro jogador na história do basquete profissional a ter dois números aposentados por uma única franquia. 

Com esta marca, Bryant tornou-se o décimo jogador a aposentar camisas pela equipe, se equiparando a grandes nomes do basquete que passaram por lá, como Magic Johnson (n° 32), Shaquille O’Neal (n° 34),  Kareem Abdul-Jabbar (n° 33), entre outros. A cerimônia não foi laureada com a vitória do Lakers, que anotou 114 pontos contra os 116 dos Warriors, mas ficou marcada na história da NBA. 

Mesmo longe do basquete profissional, a modalidade nunca esteve distante dos seus projetos. Outro marco na carreira do ex-jogador foi a coprodução ao lado de Glen Keane. Kobe e Keane transformaram seu comunicado de aposentadoria em uma animação, também intitulada Dear Basketball, pela qual levou a estatueta de melhor curta-metragem de animação do Oscar  de 2018. Ao levar o prêmio, Bryant também se tornou o primeiro jogador de basquete a consegui-lo. Também em 2018, produziu o programa de televisão Detail para o canal ESPN+, no qual analisa lances, jogadores e partidas dos playoffs da NBA.

Kobe Bryant no Oscar

Kobe Bryant e Glen Keane recebendo as estatuetas pelo melhor curta-metragem animado de 2018. [Imagem: Reprodução/ YouTube/ Oscars]

Além de ganhar um Oscar e ter um programa na TV, o Black Mamba também publicou um livro, no ano de 2019. Voltado para o público infanto-juvenil, a obra The Wizenard Series: Training Camp aborda de forma mágica e fantasiosa a história do treinador de basquete Robali Wizenard, e tem o objetivo de ensinar as crianças a lidar com as emoções e princípios como compaixão, empatia e ética no ambiente de trabalho. “Deu para a gente ver como o cara era dedicado a qualquer coisa que ele produzia”, explica Caio.

Ainda no ano de 2019 ele também firmou uma parceria com a empresa Sports Academy, abrindo a Mamba Sports Academy em Thousand Oaks, na Califórnia. A academia oferecia treinamento para jovens que sonhavam com uma carreira esportiva profissional, principalmente dentro do basquete. 

Kobe Bryant no Mamba Academy

Kobe Bryant nas instalações da Mamba Sports Academy. [Imagem: Divulgação/ Mamba Sports Academy]

“A grande dedicação dele depois da carreira profissional foi a filha, Gigi, e o time que ela treinava junto com uma série de garotas”, lembra Gasparetto. Gianna Maria-Onore Bryant, ou Gigi, foi a filha do meio do astro do basquete e tinha 12 anos de idade quando o pai passou a treiná-la junto a um time de basquete feminino amador aos finais de semana. Para Kobe, o treino era a base principal para a modalidade e queria repassar essa mentalidade para as jovens jogadoras. O time da filha acabou o aproximando do basquete feminino, e, em 2018, ele declarou que o destino de Gigi era dentro da Women’s National Basketball Association (WNBA). 

Além de treinar o time da filha, ele também foi mentor de atuais jogadores profissionais da NBA. Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, e Kawhi Leonard, do Los Angeles Clippers, são dois de uma série de nomes da nova geração do basquete profissional que Kobe guiou em 2018. Além deles, Devin Booker, do Phoenix Suns, Jayson Tatum, do Boston Celtics, e Kyrie Irving, do Brooklyn Nets, também merecem destaque entre os jogadores que tiveram o privilégio de treinar com o Black Mamba

No basquete feminino, também treinou a jogadora de basquete universitário norte-americano Sabrina Ionescu, que foi draftada em 2020 para jogar pelo New York Liberty, franquia que defende atualmente. De acordo com Caio, para um jogador do porte de Kobe, é impossível se desligar do esporte, e que foi através desses treinamentos que Bryant encontrou uma forma de transmitir suas habilidades para a nova geração. “Ele abraçou a ideia da filha, ele abraçou a ideia dos jovens jogadores”, complementa.


Acidente e homenagens

Kobe Bryant morreu em um acidente de helicóptero em 26 de janeiro de 2020 aos 41 anos. As informações iniciais eram nebulosas e muito se especulava a respeito das vítimas do acidente que aconteceu na cidade de Calabasas, na Califórnia. Ao final do dia já se sabia que a queda do helicóptero havia deixado nove vítimas, entre elas Kobe e sua filha do meio, Gianna. “Foi muito triste. Lembro das notícias chegando e da possibilidade da filha dela estar junto também, a gente ficou mais para baixo ainda”, complementa Caio. O astro, a filha e as outras sete vítimas morreram a caminho do Mamba Sports Academy. 

O acidente gerou comoção mundial nas redes sociais.Fãs, admiradores e colegas de modalidade expressaram sua dor pela internet. Em um comunicado, o hexacampeão da NBA Michael Jordan escreveu: “Estou em choque com a trágica notícia sobre Kobe e Gianna. Palavras não podem descrever a dor que estou sentindo. Eu amava o Kobe, ele era como meu irmão mais novo”. 

Kobe Bryant morreu aos 41 anos, mas o legado de um dos maiores jogadores da NBA continua vivo. A morte do astro movimentou todas as esferas sociais. Jogadores de futebol, ex-presidentes, músicos, atores e atletas do mundo todo lamentaram o acidente e a perda do Mamba Negra e sua filha Gigi. Ainda no dia do acidente, fãs se aglomeraram em frente à arena do Los Angeles Lakers, o Staples Center, em Los Angeles, para homenagear o astro. 

“Lembro de ter sido bem difícil porque tinham jogos da NBA naquele dia. Tinham jogadores e técnicos chorando em quadra antes de acontecer o jogo”, lembra Caio Gasparetto. Mesmo diante da morte de Kobe, a NBA manteve as partidas marcadas para o domingo (26), que foram repletas de homenagens ao craque do Lakers. No primeiro jogo da noite, entre Denver Nuggets e Houston Rockets, Kobe foi homenageado com um minuto de silêncio antes do início da partida. Todas as partidas da rodada foram repletas de homenagens. O jogador Lonzo Ball, do New Orleans Pelicans, por exemplo, escreveu os números das camisas de Kobe e o primeiro nome de Gianna antes de entrar em quadra contra o Boston Celtics. 

Também no início da partida entre o Toronto Raptors e San Antonio Spurs, os jogadores das franquias homenagearam Kobe estourando o tempo de posse de bola em 8 e depois em 24 segundos — os número que usou em sua carreira . A torcida gritava o nome de Kobe durante o ato. 

No dia 24 de fevereiro de 2020 foi realizada a cerimônia de despedida em homenagem ao jogador e sua filha no ginásio do Lakers. O evento mobilizou milhares de pessoas até Los Angeles para homenageá-lo, semanas depois da NBA divulgar que o troféu MVP do All-Star Game receberia um novo nome: Kobe Bryant MVP Award.

Vanessa Bryant, viúva de Kobe, celebrou a vida dele como pai, marido, jogador e suas diversas outras funções. A abertura da cerimônia contou com a participação das cantoras Beyoncé e Alicia Keys, e foi finalizada com a exibição do curta-metragem que lhe rendeu o Oscar. Além delas, outros grandes nomes do basquete e da mídia também estavam presentes: Kareem Abdul Jabbar, Magic Johnson, Sabrina Ionescu, Stephen Curry, Michael Jordan, Shaquille O’Neal, Kanye West, Kim Kardashian e Jennifer Lopez são algumas das personalidades presentes.

 As homenagens continuaram. Em agosto de 2020, a franquia do Lakers anunciou que o uniforme idealizado por ele durante a temporada de 2017/2018 seria utilizado na final contra o Miami Heat. O mamba mentality estava presente e servia como pano de fundo para motivar os jogadores. 

 

Com textura semelhante à mamba negra, cobra venenosa e ágil do continente africano  que deu origem ao apelido Black Mamba, nas cores preto, roxo e dourado, a vestimenta dos jogadores da franquia californiana também contava com um coração inscrito o número 2,  número que Gianna usava em sua camisa. 

Com a vitória sobre o Heat, o Lakers conquistou seu 17° título da NBA, após um jejum de quase dez anos, quando Kobe levou a conquista do título para a franquia em 2010. O evento também fez com que a franquia se igualasse ao Celtics em relação a títulos de campeonatos na NBA. A partida foi simbólica e em tributo ao Kobe, e representou também o primeiro título para Lebron James e Anthony Davis dentro da franquia. “Quando eu lembro em Kobe Bryant eu penso em inspiração, ele é a maior fonte de inspiração na minha vida, porque a mentalidade dele era de ser melhor a cada dia”, comenta o criador do Camisa 23. 

 O legado e a mentalidade de Kobe Bryant permanecem, assim como a dor de tê-lo perdido em meio a um acidente brutal, descreve Caio. “Foi um momento para a gente honrar e compartilhar a dor na época. Todo muito estava sentindo a mesma coisa e foi muito bonito tudo que aconteceu depois do acidente”, finaliza.

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COMENTÁRIOS
Paulo Eduardo
A morte de Kobe Bryant é um pesadelo sem fim. Não dá para esquece-lo.
20 fev 2021
 
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