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NFTs: entre a revolução artística e a ameaça ao meio ambiente

Nova tecnologia promete transformar o mercado da arte digital, mas seu impacto ambiental é alvo de críticas

I'm Sorry, Dave
14 dez 2021 | Por Mariana Carneiro (marianacarneiro@usp.br)

Você provavelmente já salvou um meme em seu celular ou computador. A novidade é que as figuras engraçadas que circulam na internet vêm ganhando a atenção de colecionadores de arte, dispostos a pagar para possui-las em seu acervo. Recentemente, “Disaster Girl”, foto de uma menina com expressão maliciosa em frente a uma casa em chamas, foi leiloada por cerca de 2 milhões e meio de reais. O mesmo aconteceu com Nyan Cat, gif animado de um gato voando pelo espaço, cuja venda rendeu cerca de 3 milhões de reais a seu criador. Tais situações se tornaram possíveis por meio dos NFTs, ou “non fungible tokens (tokens não fungíveis, em inglês), tecnologia que abriu uma vasta gama de possibilidades no comércio de arte on-line.

Basicamente, o NFT é um certificado digital da posse de um item, que pode ser uma ilustração, canção, vídeo ou até mesmo um meme. Por mais que outras pessoas possam visualizar a obra ou até mesmo baixá-la, o recurso assegura que essa pertence apenas a seu comprador. É algo similar ao que já acontece com as artes tradicionais: todos podem ver, fotografar ou comprar cópias de artes expostas em museus, mas isso não os transforma em proprietários da peça.

Exemplo de NFTs. Gif original do Nyan Cat, que em 2021 foi remasterizado e vendido a um comprador anônimo por 300 Ether, um tipo de criptomoeda cujo valor equivale a 3 milhões de reais.

Gif original do Nyan Cat, que em 2021 foi remasterizado e vendido a um comprador anônimo por 300 Ether, um tipo de criptomoeda cujo valor equivale a 3 milhões de reais. [Imagem: Reprodução/Chris Torres]

Como os NFTs funcionam?

O conceito de “token não fungível” corresponde a algo único e insubstituível. Assim como na vida real não existem duas pinturas da Mona Lisa, os NFTs partem do mesmo princípio para atestar sua singularidade. A tecnologia utiliza o sistema blockchain, uma espécie de livro que guarda o histórico completo de compras e vendas de um item pela internet. Cada transferência é registrada como um bloco de dados, que é então adicionado à corrente de informação referente a determinada peça.

Para impedir que as informações da corrente sofram modificações, o sistema recorre à criptografia — equações matemáticas únicas e complexas, impossíveis de serem decifradas ou alteradas por terceiros, que são atreladas aos blocos de dados. Esse processo garante a segurança da rede, mas consome uma grande quantidade de energia. 

Por esse motivo, as obras comercializadas em NFTs ficaram conhecidas como criptoarte. Assim como uma arte tradicional possui elementos que a tornam legítima, como a assinatura de seu autor, a criptoarte dispõe da tecnologia blockchain como garantia de que é única. A possibilidade de rastrear a origem inalterada do produto é o que comprova sua autenticidade.

 

Quais são as vantagens dos NFTs para artistas?

Em entrevista ao Laboratório, o artista carioca Fesq relata que, inicialmente, ficou desconfiado com a novidade. “Justamente por ter cursado engenharia de software, eu comecei a pesquisar sobre a tecnologia para entender como sua mecânica funcionava. Quando eu entendi que tinha um blockchain por trás, percebi o potencial dos NFTs na arte e entrei de cabeça”, conta.

O artista, que produz ilustrações e animações em 3D, considera que a maior vantagem da tecnologia é a possibilidade de artistas independentes lucrarem com seu trabalho autoral. 

Até pouco tempo atrás, a venda de artes digitais, que existem apenas como um arquivo em computador, era inconcebível. A situação mudou com o surgimento dos NFTs, que solucionaram tal desafio com a autenticidade proporcionada pelos blockchains. “Antes, eu postava minhas obras em redes sociais para conseguir exposição e, como consequência, ser chamado para trabalhos. O que era apenas um meio de divulgação para conseguir clientes virou minha principal fonte de renda”, diz Fesq.

 

“Double Sided”, ilustração 3D de Fesq. [Imagem: Divulgação/Fesq]

“Double Sided”, ilustração 3D de Fesq. [Imagem: Divulgação/Fesq]

Além disso, o registro de transações no blockchain permite que os autores da obra, ou seja, seus vendedores originais, recebam uma porcentagem do valor em todas as vendas futuras. “É um mercado gigantesco com o qual artistas digitais não tinham contato. As vendas aconteciam todas no âmbito da arte tradicional, sendo contemporânea ou clássica. Agora, a gente também tem acesso a isso, de uma forma democrática”, completa Uno de Oliveira, artista e curador de criptoarte. 

Em março de 2021, Mike Winkelmann, artista digital e designer gráfico conhecido profissionalmente como Beeple, consagrou-se com a venda do NFT mais caro da história. O artista recebeu 69 milhões de dólares por sua obra “Everydays: The First 5000 Days“, um compilado de milhares de ilustrações produzidas ao longo das últimas décadas. A empresa britânica Christie’s, considerada uma das mais importantes no ramo da arte, foi responsável pela venda. 

Uno conta que algumas galerias tradicionais brasileiras também estão iniciando um processo de transição para vender e expor NFTs. É o caso do Festival Internacional de Arte de São Paulo, principal feira de arte da América Latina, que em 2021 contou com criptoartes em meio às diversas obras apresentadas ao público. 

 

Exemplo de NFTs. “Everydays - The First 5000 Days”, de Beeple. Mesmo existindo apenas no âmbito digital, a arte é considerada enorme, pois possui 21.069 x 21.069 pixels.[Imagem: Divulgação/Christie’s]


“Everydays – The First 5000 Days”, de Beeple. Mesmo existindo apenas no âmbito digital, a arte é considerada enorme, pois possui 21.069 x 21.069 pixels. [Imagem: Divulgação/Christie’s]

A tecnologia também abriu espaço para polêmicas. Recentemente, um coletivo de artistas estadunidenses adquiriu uma obra original de Pablo Picasso para então destruí-la e vender sua versão em NFT. De forma similar, a ilustração do artista britânico Banksy, “Morons” (2006), que conta com uma crítica ao mercado da arte, foi queimada em uma transmissão ao vivo e comercializada em NFT por quase 400 mil dólares.

 

Ilustração em serigrafia de Banksy retratava um leilão de arte. Entre as obras à venda, estava um quadro com os dizeres “Não acredito que vocês idiotas realmente compram essa porcaria”. [Imagem: Divulgação/Open Sea/Burnt Banksy]

 

Impactos ambientais da criptoarte

A maior crítica referente aos NFTs está no alto consumo de energia elétrica exigido pelos blockchains, que utilizam grandes máquinas de funcionamento ininterrupto para assegurar a segurança da rede. Esse é um custo escondido da tecnologia, uma vez que o valor do gasto não é repassado para os artistas que produzem NFTs, mas para “mineradores” – os investidores que efetuam a verificação da criptografia de blockchains em troca de criptomoedas. 

Fesq explica que o alto gasto energético vem especificamente dos blockchains que utilizam o sistema Proof Of Work, conhecido como PoW: “Esse sistema propositalmente consome energia para garantir a segurança. Então, os blockchains que utilizam esse sistema, como o Ethereum (principal rede utilizada para NFTs), têm um grande impacto ambiental“.

O gráfico abaixo exemplifica, através de comparações, os impactos ambientais do uso da rede de blockchain Ethereum, comumente utilizada para a criação de NFTs

O PoW promove uma espécie de corrida entre os mineradores: apenas o primeiro a processar as equações da criptografia e, assim, assegurar a segurança do sistema, é recompensado com criptomoedas. Dessa forma, máquinas de diversos investidores trabalham simultaneamente na expectativa de garantir o lucro, o que resulta em um grande gasto energético. 

Modelos mais sustentáveis vêm surgindo como alternativa ao PoW, o que pode melhorar a situação no futuro. No entanto, o gasto energético não é o único efeito da tecnologia no meio ambiente: a produção dos aparelhos necessários para a verificação, assim como seu eventual descarte, contribuem para o aumento da emissão de carbono e acúmulo de lixo eletrônico no mundo.

Tudo isso é muito recente. O boom da criptoarte aconteceu do começo do ano pra cá, então a gente ainda vai ver muita coisa rolando”, diz Uno. “A tecnologia está evoluindo, e acredito que as coisas vão ficar melhores daqui pra frente”, completa o artista.  

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