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Remakes: como os filmes estrangeiros são replicados no cinema estadunidense

A necessidade de manutenção do protagonismo dos Estados Unidos no cinema se reflete na refilmagem de sucessos internacionais

CINÉFILOS
18 set 2021 | Por Adrielly Kilryann (adriellykilryann@usp.br)

A produção de remakes não é novidade no cinema, sobretudo, no estadunidense. O país é conhecido por muitos de seus filmes que recriam histórias — muitas vezes, provindas de outros lugares do mundo —, sejam aquelas que podem ter ficado datadas, ou, então, que não tiveram uma execução tão boa a princípio. Entretanto, a necessidade de um remake, por vezes, é contestada pelo público, principalmente quando a obra original é atual e  aparentemente  não carece de alterações. A coisa piora quando, por ser um dos epicentros da sétima arte, Hollywood exagera na dose e reproduz uma grande quantidade de sucessos, particularmente, estrangeiros, em vários casos, sem uma explicação plausível.

Um dos mais recentes exemplos é o anúncio do remake de Druk – Mais uma Rodada (Druk, 2020), cujos direitos foram adquiridos pela Appian Way, produtora de cinema e televisão do ator Leonardo DiCaprio, logo após o longa dinamarquês vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2021. Por ser um filme recém produzido e premiado, internautas criticaram a atitude nas redes sociais e questionaram o porquê da imediata reprodução por mãos estadunidenses.

Mads Mikkelsen como Martin em Druk - Mais uma Rodada. [Imagem: Reprodução/Zentropa Entertainments]

Mads Mikkelsen como Martin em Druk – Mais uma Rodada. [Imagem: Reprodução/Zentropa Entertainments]

O cinema estadunidense é amplamente consumido mundo afora, e o Brasil não é uma exceção desse fato. Somos rodeados por referências da Disney desde a infância, consumimos filmes dos mais variados gêneros que refletem os elementos culturais e comportamentos norte-americanos aos montes, embora não tenhamos carência de obras produzidas em solo nacional.

O protagonismo dos Estados Unidos frente ao cinema internacional é evidente e vai além da esfera artística, como explica o historiador, professor e crítico de cinema Wallace Andrioli, em entrevista ao Cinéfilos: “historicamente, essa hegemonia se construiu vinculada a fatores de outras ordens: política, econômica, ideológica. O que, vale ressaltar, não elimina o desenvolvimento estético e a importância dos filmes realizados nos Estados Unidos na história do cinema mundial”.

No entanto, uma das consequências dessa hegemonia é a produção desenfreada de remakes, em função do alto poder tanto aquisitivo quanto de influência que o país tem no meio. O que pode contribuir para a manutenção de sua posição, muitas vezes, é a reprodução de sucessos estrangeiros, que nem sempre é elogiada.

Muitos sucessos internacionais já foram replicados por Hollywood, mas nem todos tiveram uma boa avaliação pelo público. Ao comparar as notas que as obras receberam no IMDb, fica perceptível que algumas das refilmagens não obtiveram com o público o mesmo êxito que seus filmes originais.

 

Oldboy: Dias de Vingança (Oldboy, 2013) 5,7 / Oldboy (Oldeuboi, 2003) 8,4

Josh Brolin, como Joe Doucett, e Elizabeth Olsen, como Marie Sebastian em Oldboy. [Imagem: Reprodução/40 Acres and a Mule Filmworks]

Josh Brolin, como Joe Doucett, e Elizabeth Olsen, como Marie Sebastian em Oldboy. [Imagem: Reprodução/40 Acres and a Mule Filmworks]

Hollywood adora refilmar sucessos quando se trata do cinema asiático. Porém, um dos grandes exemplos de que um remake talvez não fosse uma boa opção é Oldboy. A direção da refilmagem foi rejeitada por grandes nomes do cinema ocidental, até que quem a assumiu foi Spike Lee. Entretanto, o diretor não conseguiu convencer da mesma forma que Park Chan-Wook. A adaptação original do mangá japonês de mesmo título é amplamente elogiada, em detrimento do remake que não conseguiu reproduzir a mesma genialidade e unicidade do original, o que fica perceptível pela grande diferença de pontuação de ambos.


Táxi (Taxi, 2004) 4,5 / Táxi – Velocidade nas Ruas (Taxi, 1998) 7,0

Ruiva (Ana Cristina de Oliveira) e Vanessa (Gisele Bündchen) em Táxi [Imagem: Reprodução/EuropaCorp]

Ruiva (Ana Cristina de Oliveira) e Vanessa (Gisele Bündchen) em Táxi [Imagem: Reprodução/EuropaCorp]

O clássico da Sessão da Tarde estrelado pelo famoso — e inusitado — elenco, que conta com personalidades como Queen Latifah, Jimmy Fallon e Gisele Bündchen é, na verdade, uma adaptação de uma comédia francesa, cujo sucesso foi tanto que resultou em uma franquia de 5 filmes no total. Embora as suas sequências não sejam tão bem avaliadas, o filme inicial conta com uma grande vantagem de pontos em relação ao seu remake.

 

Olhos da Justiça (Secret in Their Eyes, 2015) 6,3 / O Segredo dos Seus Olhos (El secreto de sus ojos, 2009) 8,2

Jess (Julia Roberts), Ray (Chiwetel Ejiofor) e Claire (Nicole Kidman) de Olhos da Justiça. [Imagem: Reprodução/Gran Via Productions]

Jess (Julia Roberts), Ray (Chiwetel Ejiofor) e Claire (Nicole Kidman) de Olhos da Justiça. [Imagem: Reprodução/Gran Via Productions]

Remake da película argentina vencedora do Oscar em 2010 por Melhor Filme Estrangeiro, a versão americana não agradou a alguns por apresentar mudanças significativas quanto ao enredo original.

 

Quarentena (Quarantine, 2008) 5,9 / [Rec] (2007) 7,4

Jennifer Carpenter como a repórter Angela em Quarentena. [Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Jennifer Carpenter como a repórter Angela em Quarentena. [Imagem: Reprodução/Sony Pictures]

Um exemplo passível de questionamento sobre a sua necessidade é Quarentena. Lançado apenas um ano após [Rec], que lhe originou, ainda que apreciado por muitos fãs de terror, é descrito por alguns como não tendo a mesma essência do longa espanhol.

 

Amigos para Sempre (The Upside, 2017) 7,0 / Intocáveis (Intouchables, 2011) 8,5

Dell (Kevin Hart) e Phillip (Bryan Cranston) se divertindo com a cadeira de rodas em Amigos para Sempre. [Imagem: Reprodução/Escape Artists]

Dell (Kevin Hart) e Phillip (Bryan Cranston) se divertindo com a cadeira de rodas em Amigos para Sempre. [Imagem: Reprodução/Escape Artists]

O filme francês Intocáveis conta com ótimas notas e emocionou pessoas ao redor de todo o mundo com o seu enredo. Anos depois, seu remake estadunidense não teve um desempenho ruim, mas novamente levou a questionar se sua existência foi necessária, tendo em vista o alcance e o prestígio mundial que a obra original obteve. 

 

Violência Gratuita (Funny Games, 2007) 6,6 / Violência Gratuita (Funny Games, 1997) 7,6

Ann (Naomi Watts), Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet) de Violência Gratuita. [Imagem: Reprodução/Celulloid Dreams]

Ann (Naomi Watts), Paul (Michael Pitt) e Peter (Brady Corbet) de Violência Gratuita. [Imagem: Reprodução/Celulloid Dreams]

Embora a diferença de pontos não seja exorbitante e o remake não seja uma produção unicamente estadunidense, o que é intrigante quanto aos dois filmes é que ambos foram dirigidos pelo austríaco Michael Haneke e não são muito diferentes entre si, o que leva a concluir que a intenção do diretor era atingir o público anglófono, visto que a primeira versão é falada em alemão.

A insistência nos remakes

O feedback negativo pode indicar a resistência que os espectadores têm em assistir a remakes de filmes admirados, justamente por compararem os resultados das obras entre si. De forma complementar, Wallace Andrioli opina: “acho que existe uma tendência de nossa parte (críticos, cinéfilos e espectadores) de rejeição imediata desses filmes, o que é compreensível considerando que muitos se mostram bem pouco criativos nessa apropriação de histórias anteriormente filmadas”. Então, por que os EUA insistem tanto nesse tipo de produção?

Uma das respostas — e provavelmente a principal delas — que logo vem à mente é a lucratividade. A indústria cinematográfica movimenta bilhões de dólares todos os anos e parece ser uma saída fácil e garantida recriar filmes já reconhecidos pelo público, ao invés de arriscar em histórias inovadoras, a fim de garantir um lucro ainda mais expressivo para o país norte-americano.

“Dá para afirmar que boa parte desses remakes são feitos a partir da percepção de produtores de que há num filme estrangeiro X uma história interessante, mas a princípio pouco acessível a um público que rejeita obras legendadas. Daí os remakes se tornam meras traduções preguiçosas, protocolares.”, acrescenta o crítico, ressaltando outra possível resposta para a numerosa quantidade de remakes produzidos por Hollywood. 

Em meio a seu discurso em Los Angeles, ao vencer o Globo de Ouro em 2020 de Melhor Filme Estrangeiro por Parasita (Gisaengchung, 2019), — que, inclusive, ganhará uma série produzida pela HBO, o diretor sul-coreano Bong Joon-Ho afirmou que “quando vocês superarem a barreira de uma polegada das legendas, serão introduzidos a tantos outros filmes incríveis”. Sua fala foi uma crítica expressa à falta de costume dos americanos de assistir a obras produzidas em língua não-inglesa. Embora esse cenário esteja se alterando, sobretudo, por conta do avanço expressivo dos streamings, muitas pessoas ainda não estão habituadas a consumir filmes legendados.

Cena de Parasita em que dois jovens mexem em celulares no banheiro. [Imagem: Reprodução/Barunson E&A Corp]

Cena de Parasita, vencedor do Globo de Ouro em 2020. [Imagem: Reprodução/Barunson E&A Corp]

Essa “barreira” citada por Bong Joon-Ho pode acarretar na acomodação por parte desse público. Como analisa Andrioli, “considerando essa motivação de atender à demanda de um público que tem preguiça de ler legenda, talvez esses filmes acabem reforçando esse tipo de comportamento, essa falta de abertura ao cinema estrangeiro, a outros mundos e tipos de narrativas”.

No entanto, para muitos cidadãos americanos, esse não é o único obstáculo. A dublagem, embora mais aceita pelo público do que as legendas, ainda é uma indústria fraca nos EUA. Devido ao sucesso de La Casa de Papel, a Netflix passou a tentar reverter esse cenário ao investir no mercado de dublagem no país, a fim de estimular mais anglófonos a consumir séries não faladas em inglês. Apesar disso, essa ação pode ser considerada recente em comparação a países que dedicam-se amplamente a esse meio há anos, como é o caso do Brasil, cuja dublagem é reconhecida e valorizada mundialmente.

Como consequência, o excesso de adaptações americanizadas pode gerar uma homogeneização do cinema, o que cria certos padrões e acarreta na perda de identidade e pluralidade cultural. Visto que os mais variados países enxergam, através dessa arte, uma oportunidade de exibir sua cultura e olhar artístico ao restante do mundo. Como adiciona Andrioli, essa influência gerada pelo protagonismo estadunidense afeta o mercado cinematográfico “pela restrição de espaços às produções nacionais, pela hegemonização do consumo de cinema por tipos específicos de filmes, provenientes de um único grande centro produtor, e, consequentemente, pela conformação de olhares que tendem a rejeitar o que diverge desse estilo dominante”.

Por outro lado, o crítico ressalta que a reprodução estadunidense de sucessos estrangeiros não é, necessariamente, ruim: “é possível refilmar obras de outros realizadores e países com criatividade, deixando uma marca própria, constituindo mais propriamente uma releitura do que uma mera transposição”. Segundo Wallace, há alguns exemplos em Hollywood nesse sentido: Os Infiltrados (The Departed, 2006), de Martin Scorsese, Suspíria: A Dança do Medo (Suspiria, 2018), de Luca Guadagnino, Os 12 Macacos (Twelve Monkeys, 1995), de Terry Gilliam, Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011), de David Fincher. E há outros que, mesmo não sendo inventivos, são bastante dignos, como Perfume de Mulher (Scent of a Woman, 1992), O Chamado (The Ring, 2002), A Casa do Lago (The Lake House, 2006), Água Negra (Dark Water, 2005), Insônia (Insomnia, 2002) e Vanilla Sky (2001). “No fim das contas, tudo depende do propósito do projeto, dos profissionais envolvidos e da liberdade que eles têm”, acrescenta, Andrioli.

Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) e Frank Costello (Jack Nicholson) em Os Infiltrados, de Martin Scorsese. [Imagem: Reprodução/Plan B Entertainment]

Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) e Frank Costello (Jack Nicholson) em Os Infiltrados, de Martin Scorsese. [Imagem: Reprodução/Plan B Entertainment]

Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) e Frank Costello (Jack Nicholson) em Os Infiltrados, de Martin Scorsese. [Imagem: Reprodução/Plan B Entertainment]

Ele reforça, ainda, que os remakes são uma chance de aprimorar uma ideia que a princípio pode não ter sido tão bem executada: “me parece mais produtiva a ideia de pegar um filme não tão bom, mas que tem algum aspecto interessante, e refilmar melhorando do que fazer novas versões de obras-primas”.

“É possível fazer bons filmes a partir de outros filmes já existentes e acho que os remakes ruins tendem a ser reconhecidos enquanto tal e rechaçados pelas instâncias de legitimação (crítica, jornalismo cultural, festivais e premiações). Também é ruim uma postura de recusa automática dos remakes: todo filme, original ou não, merece ser visto, merece uma chance.”

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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COMENTÁRIOS
Caio Oliveira
Essa frase do Bong Joon-Ho é perfeita e resume bem a situação, adorei o texto, muito bem escrito, ja botando todos os filmes na lista pra ver mais tarde!!
23 set 2021
 
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