Home Controle Remoto ‘Watchmen’ leva 11 prêmios e deixa claro que será lembrada para além do Emmy 2020
‘Watchmen’ leva 11 prêmios e deixa claro que será lembrada para além do Emmy 2020
Controle Remoto
21 set 2020 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br)

A minissérie Watchmen (2019), da HBO, tem um elenco formidável e conta com Regina King, Yahya Abdul-Mateen II, Louis Gossett Jr., Jovan Adepo, Jean Smart e Jeremy Irons, todos indicados ao Emmy 2020,  além de outras 20 indicações. Dessa forma, a produção se torna a segunda mais indicada da história. 

A obra não apresenta nenhum episódio “abaixo da média”, ainda que dois episódios foquem em personagens específicos. Esses episódios focalizados foram ambos, inclusive, indicados ao prêmio de melhor direção de minissérie ontem à noite. Watchmen é certeira em praticamente tudo o que se propõe a realizar. A produção da HBO bebe da obra-prima de Alan Moore e Dave Gibbons na quantidade correta, adicionando novos elementos àquele universo. 

A minissérie amplia seu universo com sucesso ao incorporar as personagens e história da HQ com o contexto contemporâneo, 34 anos depois.

A protagonista Angela Abar,  que rendeu o prêmio de melhor atriz de minissérie a Regina King, fala no primeiro episódio de um suspeito que “cheira tanto a supremacia branca que parece uma cândida”. Fazendo um trocadilho da fala da personagem com a palavra cândido, pode-se dizer que um dos objetivos do criador da série e vencedor do prêmio de melhor roteiro, Damon Lindelof, é o de expor aqueles que, até então, eram os cândidos da sociedade, ainda que se mantivessem no anonimato.

O primeiro episódio começa com o massacre da “Wall Street Negra” em 1921, na cidade de Tulsa. O ocorrido corresponde a um acontecimento verídico, mas que se mostrou inédito para muitos dos espectadores da série. Ainda que finalizada no início de 2019, a produção era uma das mais atuais da edição da premiação Emmy 2020.

O broche utilizado pelo Comediante na obra original e o distintivo de Judd na minissérie. Ambos acontecimentos marcam o início das tramas no primeiro capítulo e primeiro episódio, respectivamente.  [Imagem: Reprodução/HQ Watchmen/Alan Moore Dave Gibbons/HBO]

O broche utilizado pelo Comediante na obra original e o distintivo de Judd na minissérie. Ambos acontecimentos marcam o início das tramas no primeiro capítulo e primeiro episódio, respectivamente.  [Imagem: Reprodução/HQ Watchmen/Alan Moore e Dave Gibbons/HBO]

Não é “mimimi”, é a minissérie colocando personagens – históricos ou fictícios – em seus devidos lugares. Não seria nenhum absurdo pensar que atualmente a figura de Rorschach fosse utilizada por um grupo supremacista, uma vez que, na obra original, muitas de suas reflexões divididas com o leitor apresentam convicções, no mínimo, problemáticas. 

Sétima Kavalaria usando as mesma máscara que Rorscharch na série Watchmen. [Imagem: Divulgação/HBO]

Sétima Kavalaria usando a mesma máscara que Rorschach. [Imagem: Divulgação/HBO]

É difícil não lembrar de nossa apropriação de símbolos problemáticos, como no caso das numerosas pessoas utilizando-se de maquiagens do Coringa em manifestações de 2019 e 2020.

O melhor episódio da minissérie é, sem questionamentos, o sexto. Este, que é uma das melhores horas do audiovisual produzidas nos últimos tempos, foi premiado nas categorias de melhor direção e de melhor ator coadjuvante para o trabalho primoroso de Jovan Adepo como o jovem Will Reeves, que assim como Angela, fazia justiça encapuzado. Ele é, inclusive, um dos personagens colocados em seu devido lugar de destaque e que, como tantas outras figuras negras de relevância, foram apagados da história.

Cena do sexto episódio de Watchmen. [Imagem: Reprodução/HBO]

Cena do sexto episódio de Watchmen. [Imagem: Reprodução/HBO]

Nos levemos a sério, aqueles que consideraram errada a escalação de Yahya Abdul-Mateen II vencedor por seu papel de Cal Abar, baseando-se apenas no argumento de que ia contra a obra original, além de exporem seu racismo, como muitos dos “cândidos” da série, não entenderam suas motivações e seu relacionamento com Angela. 

Angela viveu em Saigon, no Vietnã, onde não havia muitas pessoas que se pareciam com ela, e percebemos o quanto o pertencimento é importante para a protagonista. Daí sua afeição pela personagem Sister Knight, que, na infância, era uma das únicas pessoas com quem tinha essa identificação. Cal, mais tarde, pergunta a Angela qual dos corpos ela deseja que ele incorpore, e ela escolhe aquele que traz a ela uma sensação maior de pertencimento. Esse traço da personalidade de Cal deve ser levado em consideração em seu desenvolvimento em Watchmen, e tornam ainda mais acertada a escalação de um ator negro para o papel.

Em seu discurso de aceitação,  Yahya comentou que “Watchmen foi sobre alguém que veio para a Terra dar amor para uma mulher negra, e ele fez isso no corpo de um homem negro, e sou muito orgulhoso disso. Eu dedico esse prêmio às mulheres negras na minha vida”.

 Capa de Sister Night, obra fictícia que inspira o disfarce de Angela na série Watchmen. [Imagem: Reprodução/HBO]

Capa de Sister Night, obra fictícia que inspira o disfarce de Angela. [Imagem: Reprodução/HBO]

O final da série não é conclusivo, pois não nos dá uma definição do que acontecerá com Angela. Mas talvez a incerteza seja realmente a melhor resposta. Assim como Calvin, a escolha pela incerteza lhe permitiu uma das mais belas jornadas.

Watchmen saiu da cerimônia do Emmy com 11 prêmios – sete técnicos e quatro em categorias principais, incluindo melhor minissérie – e com um legado para o conteúdo de super-heróis. Talvez esteja na hora de todos a conhecerem.

 

[Imagem de capa: Divulgação/HBO Brasil]

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