Por Lorenzo Souza (lorenzosouza@usp.br)
Na Síria da década de 30, Yacub passa seus dias ao lado de Butrus, capinando e colhendo folhas de uva da terra de seu tio. Aproveitam com frequência as tardes após o trabalho no jardim de uma casa abandonada. Conversam, fumam e casualmente se deixam encostar um no outro. Após receber uma proposta de seu tio Mikhail, Butrus anuncia que irá embora: vai para o Brasil. É assim que começa Vou sumir quando a vela se apagar (Intrínseca, 2022), romance de Diogo Bercito. Ao retratar aspectos não discutidos da imigração síria para o Brasil, Diogo constrói uma história que passeia entre a fantasia e a realidade, e lança uma pergunta: o que é que define quem somos?
A experiência árabe na Síria é frequentemente comparada à vivência brasileira dentro da trama. Seja pela utilização do idioma árabe nas conversas — como quando Jurj se refere à Yacub como habibi (“amado” ou “querido” em tradução livre do árabe para o português) —, ou pela comparação entre os ambientes, a fidelidade com o mundo real não é por acaso. Diogo Bercito é mestre em Estudos Árabes pela Universidade Autónoma de Madrid e cursa o seu doutorado em história com especialização em Oriente Médio na Universidade Georgetown. É jornalista na Folha de S. Paulo e na revista Quatro Cinco Um, onde escreve sobre literatura árabe e israelense.
Um dos principais pontos da narrativa é a figura do jinni (ou djinn), um ser, de acordo com o descrito por Yacub, formado por labaredas, que vive em um poço fechado no espaço abandonado do jardim em que ele e Butrus passavam os dias. Após uma situação complicada, o jinni passa a atordoar os sonhos do protagonista, o fazendo sentir culpa por um acontecimento-chave na história.
Anjos são almas sopradas em luzes
Jinns são almas sopradas em ventos
Humanos são almas sopradas em corpos
Poema introdutório da trama, de Ibn Arabi (1165-1240)
O amor entre dois homens
Além da questão de Yacub com o jinni, sua sexualidade é o tema mais explorado na obra. As experiências na Síria e no Brasil refletem uma época em que, mesmo que pessoas LGBTQ+ existissem, a discussão sobre o tema era escassa ou até inexistente. Sem referências ou compreensão dos próprios sentimentos, Yacub via Butrus como seu melhor amigo, porém, corava ao encostar nele e chegaram até a se masturbar juntos. Yacub era contra a ida de Brutus ao Brasil, por medo do abandono. O protagonista preferia continuar na vida que levava, colhendo folhas em seu vilarejo.

A sexualidade é um fator importante para a narrativa. Todos os acontecimentos da trama derivam do fato de Yacub, conscientemente ou não, amar Butrus. Ele é o principal motivo de todas as decisões e sentimentos do protagonista. Desde de como reage aos acontecimentos iniciais da trama, sua ida ao Brasil até o desfecho da obra, tudo é feito levando em conta o amigo. A escrita harmônica de Bercito permite que os momentos de ternura e sexualidade entre os dois sejam fatos importantes e demonstrações verdadeiras de um companheirismo entre indivíduos órfãos do próprio passado ao imigrarem para o Brasil.
Aquela vontade louca de tomar cada fio de cabelo de Butrus entre os dedos, brincar com eles, puxá-los de leve até quase machucar.
p. 96
O que define quem somos
Partir da Síria para o Brasil marca Yacub na mesma força que impacta qualquer imigrante que sai de seu país contra a própria vontade. Na narrativa, ele deixa o lugar porque não vê sentido em continuar na vila. A marca da terra natal é forte, e a comunidade síria em São Paulo corrobora para que Yacub nunca esqueça de onde veio. Ainda assim, viver no Brasil, experimentar comidas novas, ter uma vida diferente em um espaço imenso, distinto da Síria que conhecia, o dava a sensação de que “estava traindo alguma coisa ou alguém. Tinha a impressão de que estava traindo ele mesmo, o Yacub do vilarejo, aquele que tinha sonhado com outras coisas”.
Queria saber quão diferentes dois homens podem ser, um vivendo na Síria e o outro ali. Talvez com o passar do tempo ele virasse outra pessoa também.
p.78
O dilema principal que Yacub enfrenta e que o jinni representa é sobre sua identidade: quem será aquele homem a partir de agora? Para se tornar um homem brasileiro e abandonar sua existência como sírio, deveria rejeitar o vilarejo, a Síria, seu passado, seus familiares e, principalmente, Butrus. Em contrapartida, continuar preso à vida antes do Brasil era impedir uma vivência plena com Jurj — novo amigo que conheceu ao chegar no País —, a espanhola Remédios — mulher com quem nutre uma amizade que passeia entre o flerte e o companheirismo —, o tio Mikhail, o trabalho no armazém, e as outras nuances do seu dia-a-dia brasileiro.

Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons
A identidade de Yacub passa a transitar entre fantasia e realidade. A narrativa, por sua vez, cria questionamentos no leitor: o quão verdadeiros eram os sonhos com o jinni, o quanto era sua culpa os acontecimentos anteriores a vinda ao Brasil?
Para Yacub existe a possibilidade de uma nova vida, distante das dores do passado na Síria, mas esse futuro significa abdicar de aspectos de quem ele era, como sua língua materna e suas vivências tradicionais, seja frequentar o bar do Raduan, comer mjadara ou tomar áraque. É esse o dilema que o personagem enfrenta com o passar da narrativa, numa sequência exponencial de acontecimentos culminando em sua decisão final.
Não sabia ao certo como articular aquela ideia. Parecia próximo de conseguir explicá-la, e então ela fugia, por ser maior que as outras. Mas entendia, ainda assim, que sua felicidade em São Paulo descia pela garganta como se fosse uma ofensa. Uma deslealdade.
p. 105
A escrita de Diogo Bercito é característica fundamental para que o texto tenha o caráter singelo, puro e harmônico que apresenta ao leitor. As descrições trazem para quem lê exatamente os mesmos gostos, cheiros e sentidos que passam as personagens. Onde há gentileza, sente-se gentileza, onde há raiva, sente-se raiva, e onde há sensualidade, sente-se sensualidade. A narrativa é construída e detalhada quase como se um mito antigo estivesse sendo descoberto, e os personagens fossem figuras históricas, complexas e recheadas de sentimentos por natureza.
