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Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’ | Fernando Coni Campos vive como vários sonham

Vida e obra do cineasta são narradas por diretores, atores, críticos de cinema e família em documentário regado à memória
Por Leticia Yamakami (leticiayamakami@usp.br)

Fernando Coni Campos era descrito como um “homem delicado” pelas suas irmãs. Cresceu em um universo feminino no interior da Bahia, com mãe, pai, seis irmãs e um irmão. A sua sensibilidade aflorada pode ter sido um sintoma desse ambiente, ou apenas uma característica inata, ou mesmo fruto de sua forte afeição à literatura desde moço. Fato é que era na poesia em que residiam as intenções do autor-cineasta.

A partir desse sentimento, resgatado por meio de entrevistas com o crítico cinematográfico Jean-Claude Bernardet, o diretor Júlio Bressane — amigo e “homem com quem mais tinha ligações de ideias”, como o próprio Coni uma vez descreveu — e familiares, Luís Abramo e Pedro Rossi montam Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha (2026), estreado na 31º edição do Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”.

O longa revisita extratos e significados da vida e da obra do cineasta, com a ajuda de mais colegas de profissão, como os atores Antônio Pitanga e Helena Ignez — ambos dirigidos por Coni no passado — e outros realizadores e pesquisadores do setor. Embora resuma, em uma hora e meia, uma vida de 55 anos e uma carreira de pouco mais de 20, é justamente pela sucintez que funciona, talvez mais ainda para quem possui pouco contato prévio com seus filmes.

Isso porque o documentário se sustenta de maneira prática, perpassando por temas que são figurinhas carimbadas quando se discute audiovisual brasileiro do século 20. A filmografia do diretor é apresentada em ordem cronológica de lançamento, e cada um dos longas-metragens abre uma espécie de subtópico presente no seu fazer cinematográfico, que nunca se enquadrou em movimento específico.

“Não sou um cineasta experimental. O que busco é o cinemapoesia”, afirmou Fernando Coni Campos (1933 – 1988) no período de lançamento de seus primeiros longas-metragens [Imagem: Reprodução/TMDB]

O sucesso está em evitar, intencionalmente ou não, um tom didatista que poderia perdurar por inteiro e em assumir-se como uma revisita principalmente poética, moldando-se à personalidade de seu protagonista. É claro que também o trata como um ser político, condição quase inevitável à época. Deslanchou no auge do cinema novo com Morte em Três Tempos (1964), filme de gênero cujas cenas estampadas por violência física e nudez foram extirpadas pela censura.

Ao abordar Viagem ao Fim do Mundo (1968), longa influenciado pelo capítulo “O Delírio” de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Tipografia Nacional, 1881), o documentário tenta fazer um paralelismo com o conceito de cinema-ensaio e mistura imagens encenadas (pessoas no cinema, gravadas de frente e assistindo a algo não identificado), pinçadas (cenas do longa em questão e de outros clássicos, para lembrar o espectador que se fala sobre cinema) e captadas (as entrevistas). Tudo isso é menos impactante do que o momento em que o assunto principal é Ladrões de Cinema (1977).

No longa de 77, o povo do Morro do Pavãozinho, no Rio de Janeiro, rouba equipamentos cinematográficos de uma equipe hollywoodiana e realiza um filme sobre o revolucionário Tiradentes [Imagem: Reprodução/TMDB]

Em Cinema: sonho e lucidez (Azougue Editorial, 2003), coletânea de textos escritos por Coni, quando se refere ao seu penúltimo lançamento, o autor pontua que “sempre houve uma enorme defasagem entre a idealização e a realização”. Então, concretizar uma obra à base de arte-pobre, cinema-negro e improvisação enfim alinharia os dois pilares. Ao final, Abramo e Rossi cumprem sem afetação a responsabilidade de admitir a predileção do cineasta por contar histórias sobre o que se imaginava ser a sociedade brasileira pela boca da sociedade brasileira.

A inclusão de uma entrevista do diretor gravada na época de divulgação de Ladrões de Cinema, em que diz que estava interessado na mitologia popular e não nos fatos históricos, sintetiza a sua memória e diz mais do que qualquer nome de peso do audiovisual poderia comentar em uma entrevista. É a demonstração sem rodeios do que suas irmãs querem dizer quando elogiam sua delicadeza enquanto homem.

Esse filme fez parte do Festival Internacional de Documentários ‘É Tudo Verdade’. Para mais resenhas do festival, clique na tag no início do texto.

*Imagem de capa: Reprodução/TMDB

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