Por Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) marrocos
Quase quatro anos após trajetória memorável no Catar, quando se tornou a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal de Copa do Mundo, Marrocos desembarca nos Estados Unidos com a missão de confirmar sua ascensão no cenário internacional. Com a manutenção do elenco semifinalista de 2022 e uma geração de atletas consolidada no futebol europeu, os Leões do Atlas aparecem novamente como uma das principais forças fora do eixo tradicional. A Seleção Marroquina estreia em 13 de junho, às 19h (BRT), diante do Brasil.
Trajetória recente
Na Copa de 2022, Marrocos surpreendeu ao avançar na liderança do grupo com Croácia, Bélgica e Canadá. Nas oitavas de final, a seleção segurou um empate sem gols com a Espanha no tempo regulamentar e garantiu a classificação nos pênaltis. Depois de vencer Portugal por 1 a 0 nas quartas, encerrou a campanha na quarta colocação, após derrotas para a França, na semifinal, e para a Croácia, na disputa pelo terceiro lugar.
Em 2023, apesar da histórica campanha no Mundial do Catar, os marroquinos decepcionaram no Campeonato das Nações Africanas (CHAN) e foram eliminados ainda na fase de grupos. Diferentemente da Copa Africana de Nações, o CHAN permite apenas atletas que atuam em seus países de origem.
Ainda em 2023, Marrocos venceu o Brasil por 2 a 1 em amistoso. Já na Copa Africana de Nações, realizada no início de 2024, a seleção voltou a decepcionar e foi eliminada nas oitavas de final, após derrota para a África do Sul.
A reação veio em 2025, quando os Leões do Atlas conquistaram o Campeonato das Nações Africanas ao vencerem Madagascar na final. Nas Eliminatórias Africanas para a Copa, Marrocos fez campanha perfeita e garantiu a vaga com 100% de aproveitamento. Foram oito vitórias em oito jogos, com 22 gols marcados e apenas dois sofridos. Na sequência da boa fase, ainda no fim de 2025, os marroquinos conquistaram a Copa das Nações Árabes após vitória sobre a Jordânia na decisão.

A Copa de 2026 marca a sétima participação de Marrocos em Mundiais, a primeira ocorreu em 1970 [Imagem: Reprodução/X/@amecrdEn]
Polêmica na Copa Africana de Nações
No torneio realizado em Marrocos, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, os anfitriões chegaram à final contra Senegal. A partida caminhava para um empate sem gols quando, aos quarenta minutos do segundo tempo, um gol senegalês foi anulado e o árbitro assinalou um pênalti para Marrocos após revisão do VAR. Revoltados com a decisão, os jogadores de Senegal deixaram o gramado, mas retornaram após intervenção do capitão Sadio Mané. A cobrança foi defendida, e os senegaleses venceram por 1 a 0 na prorrogação.
Após a partida, a Federação Marroquina recorreu à Confederação Africana de Futebol (CAF), sob a alegação de que a ameaça de abandono da partida por parte da equipe senegalesa violava o regulamento do torneio. Dois meses depois, a entidade acolheu o recurso, considerou irregular a conduta de Senegal e decretou derrota por W.O. Com isso, retirou o título dos senegaleses e declarou Marrocos campeão. O governo do Senegal condenou a decisão e pediu investigação internacional por suspeitas de corrupção nos bastidores do futebol africano. A Federação Senegalesa recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte e afirmou que permanecerá com o troféu até o veredito final.
Convocação para o Mundial
O técnico Mohamed Ouahbi divulgou, no dia 26 de maio, a lista com os 26 jogadores que representarão o Marrocos na Copa do Mundo. Os convocados foram:
Goleiros:
- Bono (Al Hilal, SAU)
- El Kajoui (RS Berkane, MAR)
- Tagnaouti (AS FAR, MAR)
Defensores:
- Mazraoui (Manchester United, ING)
- Salah-Eddine (PSV, HOL)
- Belammari (Al Ahly, EGI)
- Hakimi (Paris Saint-Germain, FRA)
- El Ouahdi (Genk, BEL)
- Aguerd (Olympique de Marselha, FRA)
- Riad (Crystal Palace, ING)
- Halhal (KV Mechelen, BEL)
- Diop (Fulham, ING)
Meio-campistas:
- El Mourabet (Strasbourg, FRA)
- Bouaddi (Lille, FRA)
- El Aynaoui (Roma, ITA)
- Amrabat (Betis, ESP)
- Ounahi (Girona, ESP)
- El Khannouss (Stuttgart, ALE)
- Saibari (PSV, HOL)
Atacantes:
- Ez Abde (Betis, ESP)
- Talbi (Sunderland, ING)
- Rahimi (Al Ain, EAU)
- El Kaabi (Olympiacos, GRE)
- Brahim Díaz (Real Madrid, ESP)
- Gessime (Strasbourg, FRA)
- Echghouyabe (Eintracht Frankfurt, ALE)
Estilo de jogo do Marrocos
A pouco mais de três meses da Copa, na primeira semana de março, a seleção de Marrocos demitiu o então treinador, Walid Regragui. Apesar dos bons resultados conquistados sob seu comando, a federação marroquina estava insatisfeita com o estilo de jogo defensivo da equipe e decidiu apostar em Mohamed Ouahbi, técnico da seleção sub-20 e campeão da Copa do Mundo da categoria em 2025.
A escolha de Ouahbi indica mudança de direção. A federação marroquina busca um treinador que privilegie um estilo de jogo mais ofensivo e abra espaço para os jovens campeões mundiais da categoria sub-20. O desafio será implementar essa proposta sem comprometer a solidez defensiva que marcou a equipe nos últimos anos. Assim, diferentemente da última Copa, quando apostou em um sistema mais seguro, a tendência é que Marrocos adote postura mais agressiva e assuma maior controle das partidas.
O esquema tático mais provável é o 4-2-3-1 ou o 4-3-3. Outra possibilidade é a utilização de um falso 9, estratégia adotada por Ouahbi nos amistosos disputados em março. Nesse modelo, o atacante mais avançado não atua fixo na área como referência ofensiva. Em vez disso, recua com frequência para o meio-campo a fim de atrair a marcação adversária e abrir espaços para infiltrações dos companheiros.

A diferença entre os esquemas 4-2-3-1 (à esquerda) e 4-3-3 (à direita) está no triângulo do meio-campo. No primeiro, dois volantes atuam atrás de um meia. No segundo, apenas um volante joga mais recuado [Arte: Lucas Miranda/buildlineup.com]
Principais destaques
Achraf Hakimi
Eleito o melhor lateral-direito do mundo pela Fifa, após ajudar o Paris Saint-Germain a conquistar o bicampeonato da Champions League, Hakimi é uma das principais referências técnicas da Seleção Marroquina. O jogador se destaca pela velocidade, capacidade de apoio ao ataque e inteligência tática, que lhe permitem atuar pelo meio, na construção das jogadas, ou explorar espaços às costas da defesa adversária.

Apesar de ter nascido na Espanha, Hakimi optou por representar a seleção de Marrocos. A decisão teve forte influência de sua criação e das tradições árabe-muçulmanas presentes em seu ambiente familiar [Imagem: Reprodução/X/@EnMaroc]
Brahim Díaz
O camisa 10 da Seleção Marroquina exerce as funções de meia-atacante e ponta-armador. Visão de jogo, drible curto e velocidade são os pontos fortes do jogador do Real Madrid. Brahim costuma atuar de forma centralizada ou pelo lado direito do campo, posição na qual aproveita a habilidade com os dois pés para conduzir a bola em direção ao centro e criar oportunidades de ataque.

Nascido na Espanha, Brahim defendeu a seleção espanhola nas categorias de base. No entanto, por possuir ascendência marroquina, optou por mudar sua nacionalidade esportiva e passou a defender a seleção de Marrocos [Imagem: Reprodução/X/@EnMaroc]
Bono
O goleiro do Al-Hilal é um verdadeiro paredão. Com 1,95 m de altura, destaca-se pelo excelente posicionamento, pelos reflexos em finalizações à queima-roupa e por ser um exímio pegador de pênaltis.

Nas oitavas de final da Copa de 2022, Bono foi decisivo na disputa de pênaltis contra a Espanha. O goleiro defendeu duas cobranças e viu outra acertar a trave, resultado que garantiu a classificação de Marrocos para as quartas de final [Imagem: Reprodução/X/@MutwiriMutuota]
Expectativas de Marrocos para 2026
As boas atuações recentes, tanto nas Eliminatórias quanto na Copa Africana de Nações — apesar da final polêmica —, dão confiança aos Leões do Atlas, que buscam superar o quarto lugar conquistado em 2022. O desafio, porém, será grande. Marrocos terá pela frente Brasil, Escócia e Haiti no Grupo C. A vitória sobre a Seleção Brasileira em 2023 serve de referência para os marroquinos, que esperam repetir o resultado agora em uma Copa do Mundo.
Apoiada em uma geração experiente, resultados consistentes nos últimos anos e jogadores consolidados nas principais ligas europeias, a seleção de Marrocos chega ao Mundial entre as equipes mais respeitadas fora do grupo de favoritos tradicionais. Desta vez, o desafio será provar que a campanha de 2022 marcou o início de uma nova fase para o futebol do país.
*Imagem de capa: Reprodução/X/@EnMaroc
