Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br), João Zogobi (jvznogueira@usp.br), Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br) e Loren Tangi Emerenciano (lorentangi@usp.br )
Uma nova variante do vírus ebola, denominada Bundibugyo, circula pela República Democrática do Congo (RDC) e por Uganda. A epidemia, classificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, soma 1.077 casos e 246 mortes suspeitas, categorizada como o terceiro maior surto da doença até hoje. No início de maio, um hospital em Bunia, capital da província de Ituri, no nordeste da RDC, identificou um surto de doenças graves afetando profissionais de saúde. Autoridades do país acreditam que o primeiro caso conhecido foi o de uma enfermeira que desenvolveu sintomas em 24 de abril e veio a falecer. Entretanto, a disseminação do ebola só foi confirmada no dia 15 de maio, o que significa que o vírus já se espalhava sem ser detectado há semanas.
Bundibugyo: nova variante no Congo
O vírus Bundibugyo é uma espécie rara de Ebola. Identificado pela primeira vez em 2007, foi responsável por dois surtos da doença até agora, sendo o primeiro na Uganda em 2002 e o segundo na cidade de Isiro, RDC, no ano de 2012. Com mortalidade de cerca de 30%, é uma zoonose, cujo reservatório natural são morcegos frugívoros, os quais se alimentam de frutas, néctar e pólen.
Segundo Tânia Vergara, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), em entrevista à Jornalismo Júnior, três vírus diferentes, mas da mesma família, já provocaram surtos sanitários de Ebola desde 1976, sendo esta última variante recente e rara. A nova cepa não tem vacina nem tratamentos aprovados, diferentemente da variante mais antiga, a Zaire. Apesar disso, cientistas da Universidade de Oxford (Reino Unido) trabalham de forma acelerada para o desenvolvimento de uma nova vacina.

[Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
A confirmação da epidemia tem causado preocupação internacional. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) atualizou as diretrizes a respeito do Ebola. Em nota técnica publicada, o órgão afirma que “a resposta e o controle do surto dependem inteiramente de uma série de intervenções e medidas de saúde pública que precisam ser implementadas de forma rigorosa”.
Em entrevista à Jornalismo Júnior, a infectologista Marília Turchi, membro da SBI, destacou a importância do monitoramento de viajantes, considerando que pessoas expostas podem desenvolver sintomas apenas após sua chegada, o que demanda acompanhamento contínuo por parte das autoridades sanitárias.
“Precisamos estar preparados. Possivelmente o vírus não chegará aqui, mas o cenário epidemiológico deve ser avaliado continuamente.”
Marília Turchi, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)
Ebola: perspectiva histórica, transmissão e procedimentos indicados
Em 1976, o gerente de uma fábrica no município de Nzara, no Sudão, procurou autoridades de saúde após sentir sintomas semelhantes aos de uma gripe, seguidos de vômitos, diarréia, fraqueza e febre alta. O caso inaugurou o primeiro do que viriam a ser 284 casos de ebola na primeira epidemia oficial do vírus no mundo. O responsável foi a cepa Sudanense do Ebola (Orthoebolavirus sudanense).
No entanto, o maior surto da doença só aconteceu em 2014, quando outra cepa, a Zaire, se espalhou por muitos países da África Ocidental, da Europa e da América do Norte. Até que a doença fosse controlada, foram registradas mais de 11 mil mortes.
Assim como o sucessor, Bundibugyo, as duas cepas pertencem ao gênero Orthoebolavirus e são uma zoonose, que tem como reservatório natural os morcegos de base alimentar frugífera.
A infecção humana pode ocorrer por meio do contato direto com o sangue ou secreções de animais selvagens infectados, como os próprios morcegos e primatas não humanos, e pela contaminação de pessoa para pessoa, por meio do contato com fluidos corporais de indivíduos infectados ou superfícies contaminadas.
Caso o paciente se depare com febre alta, dores intensas de cabeça e musculares, fraqueza, dor de garganta e, principalmente, vômitos, diarréia ou desconfortos abdominais, o Ministério da Saúde sugere duas frentes de ações que devem ocorrer simultaneamente: isolamento imediato e contato com as autoridades sanitárias feito pelo Disque Saúde (136) ou terceiros.

Vergara explica que o número médio de pessoas saudáveis que um único doente pode infectar (R0), considerando uma população suscetível, pode variar entre 1,2 e 10. Por isso, ainda segundo a pesquisadora, é necessário isolar casos suspeitos e proteger enfermeiros e médicos de forma adequada com uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
“O tratamento de suporte é a base do manejo clínico. É necessária reposição hidroeletrolítica adequada, manter a oxigenação necessária, controlar a pressão arterial, usar antitérmico e analgésicos, e vigilância e tratamento de infecções secundárias que poderão ocorrer.”
Tânia Vergara, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)
Em caso de óbito, é fundamental a preparação de profissionais para lidarem com o cadáver, dado que o mesmo deve ser minuciosamente manejado, contando com desinfecção do corpo e das superfícies utilizadas no processo. A infectologista ressalta que os procedimentos mais indicados são sepultamentos em locais seguros ou cremação imediata, de forma que têm impacto importante na redução da transmissão.

Cenário internacional
Em um mundo globalizado, conter a transmissão do Ebola em uma determinada área geográfica, considerando que seus sintomas são semelhantes aos de outras enfermidades – como dengue hemorrágica e malária – pode ser um desafio.
A OMS se mobilizou através do envio de equipamentos e médicos, porém, com seu alcance debilitado pela saída dos Estados Unidos, um dos maiores financiadores, o órgão se viu sem nenhuma saída a não ser diminuir seus gastos. Outros países, como a Alemanha, a maior contribuidora, reduziram o valor enviado.
A relação de cooperação global diante da crise não está sendo eficiente. O diretor-geral da Central Africana para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), Jean Kaseya, declarou que alguns parceiros da organização que haviam se comprometido com ajuda financeira diminuíram em quase 50% os valores.
Com a Copa do Mundo, o cenário se torna ainda mais rígido. De acordo com a República Democrática do Congo, após diálogos com a FIFA, o time estará presente e dentro dos parâmetros de saúde, após cumprirem 21 dias de isolamento antes de entrarem nos Estados Unidos. Nesse caso em especial, foi de extrema importância o diálogo e colaboração entre os países. O Ministro dos Esportes, Didier Budimbu, afirma que o país colocou muito esforço para que seus jogadores cheguem ao destino protegidos e preparados para competir.

Turchi destaca que a cooperação internacional é essencial para combater epidemias como o Ebola. Segundo ela, em um contexto de crescente interdependência global, alterações ambientais e sanitárias em uma região podem produzir impactos que ultrapassem as fronteiras nacionais. Nesse cenário, a atuação de organismos internacionais, junto com o apoio financeiro e tecnológico de países com maior capacidade econômica, tornam-se fundamentais para a detecção e o controle da doença.
“A Terra é nossa casa e, felizmente, não vivemos em uma caixa isolada. Então, tudo que acontece tem algum reflexo”
Marília Turchi, membro da SBI
A pesquisadora também enfatiza que a transparência na notificação de casos é indispensável, uma vez que falhas ou atrasos na comunicação de informações podem comprometer a resposta global a surtos e permitir sua disseminação para outras regiões.
Casos suspeitos no Brasil
No Brasil, foram identificados dois casos suspeitos, no Rio de Janeiro e em São Paulo. De acordo com as autoridades de saúde que acompanharam os casos, ambos os pacientes haviam passado por países da África em que o vírus foi detectado e apresentam sintomas similares. Mas, no dia 30 de março, o paciente de São Paulo, internado no Instituto de Infectologia do hospital Emílio Ribas, foi diagnosticado com meningite, e o do Rio, um viajante natural da Bélgica, foi diagnosticado com malária, pela Fiocruz.
Embora a doença não tenha sido detectada, considerando a situação de alerta, os pacientes continuam em isolamento e as pessoas que tiveram contato com o homem de São Paulo, no avião ou na UPA, estão sendo monitoradas até que a possibilidade de Ebola esteja totalmente descartada.

[Imagem da capa: Arlette Bashizi/Agência Brasil]
