Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

II Semana do Audiovisual | Dia 1 – O sonho do avestruz: uma conversa com as criadoras do podcast ‘Avestruz Master’

O primeiro dia da II Semana de Audiovisual contou com os bastidores da nova produção da Rádio Novelo sobre um dos maiores crimes financeiros goianos
Jornalistas da Rádio Novelo e participantes do evento
Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)

Na terça-feira (9), teve início a II Semana de Audiovisual na Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). O evento é promovido pela Jornalismo Júnior e é patrocinado por Vipão, Reserva Cultural, Olhavê, Lepok, Copy set, Academia Internacional de Cinema, Rádio Novelo, Summus Editorial, Phantastika e Editora Polytheama. Os presentes puderam assistir à palestra ‘Rádio Novelo: criação e produção do podcast ‘Avestruz Master”.

A primeira mesa foi mediada pela repórter Alícia Simões e teve como convidadas Carolina Moraes, Flora Thomson-DeVeaux e Paula Scarpin. Elas são responsáveis pela elaboração da narrativa documental que acompanha a trajetória da empresa Avestruz Master, desde sua fundação até seu colapso. Acusado de operar um esquema de pirâmide, o negócio lesou milhares de investidores e fez parte da febre de investimentos em avestruzes que aconteceu em Goiás no início dos anos 2000.

Ao longo da conversa, elas compartilharam histórias, métodos, desafios do processo criativo e responderam a perguntas do público. No final, o núcleo de Eventos da Jornalismo Júnior sorteou um par de ingressos para o cinema Reserva Cultural e um ano de assinatura do Clube da Novelo.

O trio e a escolha do tema

Flora Thomson-DeVeaux, Paula Scarpin, Alícia Simões e Carolina Moraes, respectivamente, na mesa [Imagem: Gabrielle Pinter/Jornalismo Júnior]

Paula Scarpin explicou como surgiu a ideia de falar sobre a fraude financeira goiana relacionada à estrutiocultura — nome dado à criação de avestruzes. “Um amigo começou a enviar notícias sobre uma pirâmide de avestruzes. Só levamos a história a sério quando ele mandou a informação em um veículo confiável. Ficamos muito intrigadas”, disse. Flora complementou que esse amigo tinha uma conexão com a médica veterinária dos animais da Avestruz Master. 

“Era uma história tão doida… Surgiram tantas informações e perguntas que vimos robustez na narrativa”, relatou Thomson-DeVeaux. Além disso, outro elemento que as motivou foi o fato que a história abarcava muitas áreas — ambiental, econômica e social.

Paula e Flora, na época, faziam o podcast semanal Rádio Novelo Apresenta. Quando decidiram que a história dos avestruzes seria uma série, buscaram mais uma companheira de trabalho. “Lembro que o podcast do Caso das 10 mil,  aquele sobre aborto no Brasil, estava muito em alta. A Carol era uma das repórteres do projeto e achamos que seria perfeita para se juntar ao nosso caso Master”, contou Scarpin. 

A produção

As criadoras destacaram que o trabalho foi coletivo e se deu em várias etapas. A equipe recebeu suporte da roteirista Valentina Castello Branco, que ajudou a lapidar entrevistas e a construir a progressão dramática dos episódios. Para Scarpin, a presença de alguém com olhar voltado ao roteiro foi essencial para manter o público envolvido. Carolina acrescentou que diálogo ajudou a definir o tom de cada capítulo — mais leve e bem-humorado, como nas participações de Milton Cunha, ou mais fechado e investigativo. 

A escolha pelo formato em áudio se deu pelas possibilidades que o material oferecia. Thomson-DeVeaux explicou que o desafio foi construir um jogo entre as três vozes: ela assumia o papel de pesquisadora, Carolina aparecia mais ligada à estrutura da empresa e Paula se interessava especialmente pelos personagens.

Após definirem o formato em áudio, mergulharam no processo criminal de cerca de 15 mil páginas contra a Avestruz Master. Em meio à documentação, encontraram recortes de jornais e materiais sonoros, incluindo antigas propagandas da empresa, o que permitiu reconstruir a cronologia dos acontecimentos, compreender a dinâmica da fazenda e mapear personagens. Para organizarem a apuração, usaram planilhas detalhadas.

Espectadores da mesa Rádio Novelo
A palestra foi aberta ao público geral. Na plateia, havia alunos de dentro e fora da USP e professores universitários [Imagem: Gabrielle Pinter/Jornalismo Júnior]

O rumo da produção mudou quando conseguiram o número de Nicole, veterinária responsável pelos animais da Avestruz Master. A busca pela personagem não foi fácil: envolveu inúmeras tentativas de contato e viagens até Bela Vista de Goiás. “Liguei para Deus e o mundo tentando encontrá-la”, relembrou Scarpin. Segundo as jornalistas, Nicole foi peça-chave para acessarem a dimensão afetiva da história e compreenderem início, auge e derrocada do empreendimento. 

“A história virou série por ter uma pergunta central e duradoura: os personagens agiam de má-fé ou acreditavam genuinamente no negócio que ajudavam a sustentar?
  Carolina Moraes, jornalista da Rádio Novelo 

Outro desafio foi apresentar conteúdos – que elas desconheciam – de forma que especialistas e pessoas leigas entendessem, o que tornaria o podcast mais acessível. Para isso, aproveitaram as entrevistas com economistas, por exemplo, que explicavam alguns termos aparecidos durante as pesquisas.

As diferentes visões sobre o caso

A opinião das apresentadoras divergia em um ponto central. Scarpin acha que pessoas fazem coisas ruins por incompetência ou por covardia. Logo, acredita que o esquema não foi construído com má-fé. Já Moraes revelou ser pessimista e pensa ter confirmado que a história foi pautada por maldade quando descobriu que Jerson Maciel foi a Goiânia para fugir das consequências de seu primeiro golpe em IlhaBela (SP).

“Faz diferença se foi pensado ou não? Eles fizeram um estrago na vida de muita gente e de vários animais. Viveram o sonho até o fim e, mesmo percebendo que estavam errados, acreditaram que no final ficaria tudo bem.”                                Carolina Moraes, jornalista da Rádio Novelo 

Segundo Flora, as interpretações distintas coexistem dentro do próprio podcast, que não tem uma resposta definitiva. Para algumas, o caso pode ser lido como fruto de despreparo e negligência. Para outras, há indícios de fraude deliberada. O consenso é que o desfecho foi trágico.

Caroline Moraes da Rádio Novelo
Durante o evento, Caroline disse ter pensado na necessidade de responsabilização dos envolvidos no esquema da Avestruz Master  [Imagem: Gabrielle Pinter/Jornalismo Júnior]

Repertórios individuais 

As jornalistas relataram como as experiências profissionais anteriores as ajudaram no novo projeto. Flora, formada em Letras, acredita que a literatura e o fazer jornalístico compartilham entre si a necessidade de exercitar o pensamento crítico e a curiosidade insaciável. 

Carol, que trabalhava no Café da Manhã, da Folha de São Paulo, chamou atenção para a diferença de elaboração das duas gravações. “No caso Master tínhamos uma quantidade alucinante de informações para processar e, diferentemente de minha experiência anterior, consegui conviver com a história por mais tempo”, reiterou Moraes. 

Já Paula contou sobre as distinções entre o fazer audiovisual e a escrita e defendeu que, em entrevistas de áudio, sempre se deve tentar tirar o máximo possível da fonte, para que se possa ter falas longas que explicitem percepções em relação ao ocorrido.

Imagem de capa: [Gabrielle Pinter/Jornalismo Júnior]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima