Por Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br) espanha
Última campeã da Eurocopa, em 2024, a Espanha chega à Copa do Mundo de 2026 embalada por uma trajetória consistente e dominante. A seleção comandada por Luis de la Fuente encerrou as Eliminatórias na liderança do Grupo E, com uma campanha quase perfeita: foram cinco vitórias em seis partidas.
Além da força ofensiva já conhecida, a Fúria corrigiu fragilidades e apresentou uma evolução significativa no sistema defensivo em comparação ao torneio continental. Durante a classificação para Copa, acumulou goleadas e sofreu poucos gols, o que consolidou uma equipe marcada pelo equilíbrio entre intensidade e solidez. No Mundial, os espanhóis integram o Grupo H ao lado de Cabo Verde, Arábia Saudita e Uruguai.
Invicta há dois anos, a Seleção Espanhola chega ao Mundial como uma das principais favoritas. Após a amarga eliminação nas oitavas de final em 2022, a equipe tenta substituir os recentes fracassos pelas memórias de seu maior feito: o título mundial conquistado em 2010.
Histórico da Fúria no Mundial
Em sua 17° participação em Copas do Mundo, a Espanha chega como uma das mais cotadas a levantar a taça neste ano. Porém, apesar da boa fase atual, as últimas campanhas da seleção no campeonato ficaram abaixo das expectativas.
Assombrada pelo fantasma dos pênaltis, a Fúria é a seleção que mais acumula eliminações por penalidades na história das Copas do Mundo. Suas duas últimas participações terminaram dessa forma: em 2018, diante da Rússia, e em 2022, contra Marrocos, ambas nas oitavas de final. Ainda na maré de resultados negativos, em 2014 os espanhóis sequer avançaram da fase de grupos, o que ficou marcado como sua pior campanha no torneio.
Diante disso, a equipe de Luis de la Fuente se ancora na edição que trouxe a primeira estrela dos espanhóis: a taça de 2010. A Copa sediada na África do Sul foi o momento em que a Espanha superou suas frustrações históricas e conquistou pela primeira vez o título mundial. Após décadas de expectativa, fracassos precoces e promessas não cumpridas, a geração liderada por Xavi, Iniesta, Casillas e companhia transformou o sonho em realidade.

Até o momento, o atacante David Villa é o maior artilheiro da Seleção Espanhola. Integrante da equipe campeã do mundo em 2010, o camisa sete tem em seu currículo 59 gols pela equipe [Imagem: Reprodução/X/@FutbolBolivia_]
Nessa ocasião, a Seleção Espanhola chegou à competição motivada pelo título da Eurocopa de 2008, porém uma derrota por 1 a 0 para Suíça logo na estreia abalou a confiança depositada no elenco. As próximas vitórias, diante do Chile e Honduras, foram consideradas obrigatórias e garantiram para seleção europeia uma vaga no mata-mata.
A partir daí, a Espanha ainda enfrentou dificuldades com jogos truncados e placares justos. A equipe triunfou sobre a Seleção Portuguesa nas oitavas de final e, em seguida, venceu o Paraguai, o que a fez voltar a figurar como potencial de destaque. No entanto, o estilo de jogo espanhol só emplacou na reta final da competição, com um belo desempenho do elenco durante a semifinal contra a Alemanha.
Por fim, foi contra a Seleção Holandesa que os espanhóis se consagraram. Em uma partida equilibrada e desafiadora, com gol de Iniesta na prorrogação, a Fúria garantiu a vitória por 1 a 0 e finalmente se provou diante do futebol mundial.
Na edição atual, o retrospecto é semelhante ao da campanha que resultou na conquista da taça. Também impulsionada pelo sucesso na última Eurocopa, a Seleção Espanhola encontra-se em um grupo favorável para classificação, ao lado de Cabo Verde, Arábia Saudita e Uruguai. Além disso, desde 2022 no comando, o técnico Luis de la Fuente teve tempo de construir um elenco estruturado e ofensivo, que alia a posse de bola típica do estilo espanhol com uma produtividade consistente.

A Seleção Espanhola conquistou o título europeu em 2024 com vitória de 2 a 1 sobre a Inglaterra e se consagrou como a maior vencedora do torneio, com quatro títulos [Imagem: Reprodução/X/@daniolmo7]
A herança do ‘Tiki-Taka’: entre tradição e evolução
Popularizado no início do século, o estilo de jogo conhecido como Tiki-Taka se tornou típico de clubes espanhóis e, consequentemente, da própria seleção. O modelo consistia basicamente em manter a posse de bola a partir da superioridade técnica e na troca de passes curtos a fim de desestabilizar as linhas adversárias.
O padrão se tornou marca registrada do sucesso da Fúria, muito atrelado às conquistas da Eurocopa de 2008 e 2012 e do título mundial de 2010. Com o passar dos anos, porém, o modelo passou por críticas e transformações. Atualmente, embora a posse ainda seja parte importante da identidade espanhola, a equipe busca maior objetividade e intensidade nas ações ofensivas.
No ciclo presente, sob o comando de la Fuente, a Espanha preservou a tradicional qualidade técnica, mas incorporou uma postura mais vertical. O resultado é uma equipe capaz de controlar a posse de bola sem abrir mão da velocidade nas transições ofensivas. Isso se deve, principalmente, ao entrosamento do elenco e aos mecanismos coletivos bem definidos, que fazem a seleção atuar de forma muito próxima à dinâmica de um clube.
Nesse contexto, o meio-campo segue como o principal ponto forte da seleção. Pedri, Rodri e Fabián Ruiz formam um dos setores mais qualificados do futebol mundial e são responsáveis por comandar a circulação da bola, controlar o ritmo das partidas e encontrar soluções diante de defesas compactas.
Para atender a essa lógica, o esquema tático espanhol normalmente se organiza em um 4-3-3, que pode variar para um 4-2-3-1 de acordo com o adversário. A estrutura prioriza a superioridade numérica no setor central e permite equilibrar o controle do jogo com a agressividade dos pontas.

Sem a posse, a pressão alta continua como uma das principais marcas da seleção, o que dificulta a saída adversária, força erros em zonas perigosas e permite recuperações rápidas próximas à área rival [Arte: Lais Fernandes/build lineup.com]
Nesse sistema, os laterais exercem uma função fundamental na conexão entre meio-campo e ataque. Eles criam linhas de passe para os meias e oferecem apoio constante aos pontas, o que favorece a verticalidade da seleção e amplia as opções de construção ofensiva. Sem a bola, também assumem papel importante na recomposição defensiva por meio da recuperação da posse e da pressão sobre o adversário.
No Grupo H, a Espanha entra como principal favorita e deve controlar a maior parte dos confrontos. O principal teste da primeira fase tende a ser o duelo contra o Uruguai, seleção muito organizada defensivamente que pode desafiar a circulação espanhola. Já diante de Cabo Verde e Arábia Saudita, a Fúria tende a encontrar cenários mais favoráveis para impor seu ritmo e explorar a diferença técnica entre os elencos.
Convocação da Espanha
O técnico Luis de la Fuente anunciou a convocação oficial da Seleção Espanhola para o Mundial no dia 25 de Maio. Confira a lista abaixo:
Goleiros:
- Unai Simón (Athletic Bilbao, ESP),
- David Raya (Arsenal, ENG),
- Joan García (Barcelona, ESP),
Defensores:
- Cucurella (Chelsea, ENG),
- Grimaldo (Bayer Leverkusen, ALE),
- Cubarsí (Barcelona, ESP),
- Laporte (Athletic Bilbao, ESP),
- Pubill (Atlético de Madrid, ESP),
- Eric García (Barcelona, ESP),
- Marcos Llorente (Atlético de Madrid, ESP),
- Pedro Porro (Tottenham, ENG),
Meio-campistas:
- Pedri (Barcelona, ESP),
- Fabián Ruiz (PSG, FRA),
- Martín Zubimendi (Arsenal, ENG),
- Gavi (Barcelona, ESP),
- Rodri (Manchester City, ENG),
- Álex Baena (Atlético de Madrid, ESP),
- Mikel Merino (Arsenal, ENG),
Atacantes
- Mikel Oyarzabal (Real Sociedad, ESP),
- Dani Olmo (Barcelona, ESP),
- Nico Williams (Athletic Bilbao, ESP),
- Yeremy Pino (Crystal Palace, ENG),
- Ferran Torres (Barcelona, ESP),
- Borja Iglesias (Celta de Vigo, ESP),
- Víctor Muñoz (Osasuna, ESP),
- Lamine Yamal (Barcelona, ESP).
Apesar da qualidade do elenco, Luis de la Fuente precisou lidar com problemas físicos ao longo do ciclo. Rodri, Fabián Ruiz, Nico Williams e Lamine Yamal enfrentaram lesões ou períodos de instabilidade, fatores que afetaram a continuidade da equipe em determinados momentos. Diante desse cenário, a seleção precisou desenvolver alternativas e aumentar sua versatilidade para lidar com possíveis imprevistos.
Destaques
Lamine Yamal

O jovem foi eleito ‘Jogador da Temporada’ pela La Liga e terminou o torneio como artilheiro do Barcelona, com 16 gols e 11 assistências [Imagem: Reprodução/X/@FCBarcelona]
Com apenas 18 anos, Lamine Yamal já acumula títulos, recordes e o status de uma das maiores promessas do futebol mundial. Revelado pelas categorias de base do Barcelona, o atacante estreou profissionalmente aos 15 anos e rapidamente se consolidou como uma das principais estrelas de seu país. Sua ascensão meteórica também o transformou no jogador mais jovem a atuar pela Seleção Espanhola.
Decisivo, Yamal não sente a pressão de grandes partidas e cria oportunidades por meio de sua velocidade, capacidade de drible e visão de jogo. Já sua habilidade no um-contra-um e nas finalizações precisas garantem imprevisibilidade ao setor ofensivo da Fúria. Atualmente, porém, o atleta se recupera de uma lesão muscular na coxa esquerda. Apesar de chegar à Copa do Mundo como uma das principais referências da nova geração, o espanhol foi poupado dos últimos amistosos e não deve ser titular no jogo de estreia da seleção contra o Cabo Verde.
Rodri Hernández

Apesar de já atuar como jogador profissional, o volante espanhol ainda se dedicou aos estudos no início da carreira e conseguiu se formar em administração de empresas pela Universidade de Castellón [Imagem: Reprodução/Instagram/@Sefutbol]
Vencedor da Bola de Ouro de 2024, Rodri é o novo capitão da Seleção Espanhola e uma das principais lideranças do elenco. Revelado pelo Villarreal, o volante alcançou projeção internacional no Manchester City, clube em que se tornou peça fundamental e protagonizou a conquista da primeira Liga dos Campeões da história dos Citizens.
Dono de grande inteligência tática, qualidade nos passes e força física, Rodri atua como o equilíbrio da equipe espanhola. O volante, porém, enfrenta complicações ao retornar de uma lesão grave e busca restabelecer seu ritmo e apresentar uma performance digna de seu auge.
Pedri González

O time do coração do jogador é o Barcelona desde sempre. Isso graças à família, já que o avô de Pedri fundou a torcida organizada do Barcelona do município de Tegueste, situado na ilha em que o jovem nasceu [Imagem: Reprodução/X/@Pedri]
Mesmo aos 23 anos, Pedri já é uma das referências técnicas da Seleção Espanhola. Revelado pelo Las Palmas, clube da segunda divisão espanhola, o meio-campista chamou atenção ainda muito jovem e rapidamente foi contratado pelo Barcelona. Seu talento incontestável recebeu cada vez mais visibilidade a partir desse momento e, desde 2021, o atleta tem marcado presença nas convocações da Espanha.
Um jogador preciso, com grande habilidade técnica e visão de jogo refinada, Pedri tem a capacidade de ditar o ritmo das partidas e movimentar as linhas adversárias. Marcado pela estratégia, segurança e tomada de decisão rápida, pressionar o time espanhol torna-se quase impossível na presença de Pedri. Isso faz dele uma peça fundamental para o funcionamento do meio-campo da seleção.
Programação da Espanha
A Fúria faz sua estreia no Mundial nesta segunda-feira (15), às 13h (BRT), diante de Cabo Verde, em um confronto que tende a ser favorável aos espanhóis. Em seguida, a seleção europeia encara a Arábia Saudita, também às 13h (BRT), no dia 21 de junho, e novamente se apresenta como favorita.
Já na última rodada da fase de grupos, a Espanha terá seu principal desafio ao enfrentar a Seleção Uruguaia, no dia 26 de junho, às 21h (BRT). O duelo promete ser o mais equilibrado da chave e pode servir como o primeiro grande teste da Espanha rumo ao sonhado bicampeonato mundial.
* Fotos da Capa: [Imagem: Reprodução/X/@FerranTorres] e [Imagem: Reprodução/X/@UEFAEURO]
