Por Estela Bughay (estelabhupalo@usp.br), Guilherme Hofer (guihofer@usp.br) e Mayara Felisardo (mayarafelisardo@usp.br)
No dia 28 de maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos da América anunciou a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs). O governo norte-americano também determinou que, a partir de 5 de julho, as facções serão classificadas como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs).
A decisão foi divulgada por meio de uma nota oficial do secretário de Estado Marco Rubio. O governo brasileiro é contra a medida e acredita que ela ameaça a soberania nacional, visto que abre espaço para possíveis ações militares dos EUA no país.
O posicionamento dos Estados Unidos
A nota lançada pela gestão estadunidense afirma que o PCC e o CV estão entre as organizações criminosas mais perigosas e violentas do Brasil, com milhares de integrantes e participações em ataques brutais contra policiais, autoridades públicas e civis. Rubio afirma que a influência e as redes ilícitas das facções atingem também os EUA, com alcance além das fronteiras brasileiras.
No documento, o presidente Donald Trump e seu gabinete deixaram claro que continuarão a utilizar “todas as ferramentas disponíveis” para garantir a segurança nacional, impedir a entrada de drogas ilícitas no país e interromper os fluxos de receita que financiam grupos narcoterroristas. Em 5 de junho, a classificação foi oficializada por meio de uma publicação no Federal Register, o Diário Oficial norte-americano, também assinada pelo secretário de Estado.
Além disso, o documento divulgado apresentou uma nova decisão: o congelamento, sem aviso prévio, de bens e ativos, que estejam sob jurisdição dos Estados Unidos, pertencentes a pessoas com possível ligação ao PCC ou ao CV. A deliberação ainda proíbe transações financeiras entre pessoas ou empresas estadunidenses e tais facções, bem como prevê sanções contra indivíduos ou entidades caso forneçam apoio material, financeiro ou logístico a essas organizações.
Cronologia da designação
A ideia de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas não surgiu durante a administração de Trump. Trata-se, na verdade, de uma questão discutida já há alguns anos. Em 2021, com Joe Biden no poder, a Secretaria do Tesouro dos EUA incluiu o PCC na lista de “entidades designadas”, classificação que permite impor sanções aos seus integrantes ou a empresas que mantivessem negócios com o grupo.
Com o retorno de Donald Trump à presidência em 2025, a associação com o terrorismo voltou à tona. A ideia seguiu em discussão pelos estadunidenses e com auxílio de promotores brasileiros especializados no combate ao crime organizado já acontecia desde maio do ano passado, com apoio da família Bolsonaro.
Lula, por sua vez, adotou posição contrária à designação desde o início. O atual governo do Brasil defende a soberania brasileira e acredita que a decisão dos EUA não será efetiva no combate ao crime organizado. Em setembro de 2025, o presidente criticou o plano em discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). “Nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”, declarou.
Depois de meses de negociações e diversas tentativas de cooperação entre os líderes dos países, a ideia da designação parecia ter sido deixada de lado. Porém, o assunto ressurgiu após a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca, em 28 de maio. O senador e pré-candidato à presidência declarou que defendeu a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas ao governo dos Estados Unidos.

Histórico recente de classificações na América Latina
Além do PCC e do CV, outras 94 organizações estão na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras dos Estados Unidos. Dentre elas, os cartéis mexicanos Sinaloa e Jalisco Nova Geração (CJNG) e o venezuelano Cartel de los Soles. A inclusão dos grupos mexicanos e venezuelanos na lista culminou em intervenções estadunidenses nos países.
Em janeiro de 2026, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, disse que Trump não iria realizar ações militares contra cartéis de drogas no país. No mês seguinte, depois de “El Mencho”, líder do CJNG, ser morto em ação do governo mexicano, Sheinbaum reforçou que toda a operação aconteceu no âmbito federal, mesmo que tenha contado com informações fornecidas pelos EUA. Logo após a operação, Trump afirmou que o país precisava intensificar esforços na luta contra os cartéis.
A contribuição com a morte do líder do CJNG não foi a única intervenção no México. Em maio de 2026, a CNN Internacional disse que a CIA está travando uma guerra secreta contra cartéis de drogas mexicanos, que se assemelha a operações estadunidenses em outros países e que foca em desmantelar a logística dos cartéis e suas redes financeiras. Contudo, a CIA afirmou que a reportagem é “falsa e sensacionalista”, e o Secretário de Segurança do México, Omar García Harfuch, foi incisivo ao rejeitar a ideia de agências estrangeiras operarem de forma letal, secreta e unilateral no país.

[Imagem: Reprodução/Eneas de Troya/Flickr]
Já na Venezuela, a intervenção foi diferente. Em novembro de 2025, em meio a tensões com o governo de Maduro, o Departamento de Estado dos EUA incluiu o Cartel de los Soles na lista de organizações terroristas. Um mês depois, os Estados Unidos atacaram um porto venezuelano que, de acordo com o governo estadunidense, era uma base de operação da gangue Tren de Aragua, que já integrava a lista de organizações terroristas desde fevereiro do mesmo ano.
Por fim, na madrugada de 3 de janeiro de 2026, Maduro e sua esposa foram capturados e levados para Nova York, onde o ex-presidente aguarda julgamento de acusações relacionadas ao narcoterrorismo.
Para a pesquisadora de segurança internacional e professora da UNESP Marília Souza Pimenta, a prisão de Maduro e a entrada de Delcy Rodríguez como presidente interina não causaram mudanças na segurança pública e no combate ao crime organizado na Venezuela. “À medida que interesses norte-americanos são satisfeitos, Delcy Rodríguez se mantém sem alterar as estruturas da democracia ou da experiência democrática, ou mesmo do combate ao crime”, afirma em entrevista à Jornalismo Júnior.
Ela comenta que a mudança que está, de fato, acontecendo no país é a desestatização das fontes de petróleo, o que facilita que empresas estadunidenses invistam e comercializem o combustível.

[Imagem: Reprodução/Flickr]
Consequências da designação para o Brasil
“Ainda há muita incerteza no sentido do que é um efeito que pode ser prático e o que é mais uma questão retórica”, aponta André Mancha, doutor em Economia e professor da USP à Jornalismo Júnior. Segundo ele, o principal impacto é o bloqueio de transações econômicas consideradas suspeitas pelos Estados Unidos.
Mancha explica que os efeitos não são imediatos, mas afetam tanto as transações das próprias organizações criminosas quanto a movimentação de dinheiro lavado pelo tráfico em postos de gasolina ou fintechs, que somente em 2025 passaram a ter o mesmo sistema de transparência que bancos comuns. De todo modo, qualquer operação monetária de empresa que apresente ligação direta, como a compra de um fornecedor da facção, ou indireta, como o depósito em uma fintech que também abriga capital de grupos criminosos, pode ser levada como suspeita.

O bloqueio fará com que empresários brasileiros aumentem o rigor com relação a negócios realizados por suas companhias, o que aumentará os custos de compliance. A professora Pimenta alega que essa vistoria já deveria ser padrão há muito tempo no Brasil: “Não colocaria que é um lado bom, mas está fazendo, de fato, stakeholders e atores envolvidos pensarem na responsabilidade em torno do ecossistema das empresas.”
No entanto, Mancha detalha que a classificação pode ser usada como argumento para classificar o PIX como um facilitador do tráfico. “Eles podem pedir o bloqueio de todas as operações realizadas via PIX por causa da baixa transparência, a dificuldade de rastrear o que é dinheiro criminoso ou não. Então, essa é a grande preocupação, mas não está muito certo que isso será de imediato”, afirma.
O governo Lula já considera esse risco e lida com a situação de forma similar ao tarifaço de 2025, ou seja, encara como uma ameaça à soberania nacional e um desrespeito à diplomacia brasileira.
Ainda sobre os impactos da designação, a administração das operações e os dados estadunidenses sobre as facções serão transferidos do Departamento Federal de Investigação (FBI) e da Agência de Combate às Drogas (DEA) para a Agência Central de Inteligência (CIA). Isso dificulta a comunicação com órgãos do Brasil e possibilita a realização de operações secretas no país.
“Não acho que uma intervenção possa acontecer no Brasil. Acredito que temos instituições, estrutura e força internacional que impedem. Mas a Venezuela é um laboratório que não pode ser desprezado”
Marília Souza Pimenta, pesquisadora de segurança internacional e professora da UNESP
*Imagem de capa: Reprodução/Wikimedia Commons






