Home Antroposofia Cartografia: o poder na rota dos mapas
Cartografia: o poder na rota dos mapas

Para além de meras representações dos continentes, mapas são espaços de disputa de interesses e de poder geopolítico

Antroposofia
14 jul 2021 | Por Gabriel Gama Teixeira (gabriel.gama.teixeira@usp.br)

Dos recentes conflitos entre Israel e Palestina até o aclamado filme Bacurau, a influência dos mapas no cotidiano das pessoas pode ser percebida de diversas formas. Mas, longe de uma simples replicação do mundo em que vivemos, os mapas são palco de disputas de poder, denunciam interesses geopolíticos de dominação e dão voz a visões de mundo com impactos diretos na percepção que temos do planeta.

Há pelo menos 4.000 anos, a produção de representações envolvendo símbolos, traçados e formas da paisagem tem grande importância na experiência da humanidade no espaço geográfico. Os instrumentos que vêm atravessando séculos no contato entre a sociedade e o planeta são os mapas: representações bidimensionais com a tentativa de apresentar — sem distorções — a Terra, que, embora neguem, é um corpo esférico. Junto disso, esses pedaços de papéis e imagens no celular trazem importantes questões relacionadas à dominação e podem impor uma única visão do globo terrestre.

Já nas escolas, é apresentada a versão do mapa-múndi que provavelmente repousa no subconsciente da maioria das pessoas: a Europa localizada no centro e acima da África, a América do Norte ao lado e todo o Hemisfério Norte com tamanho questionável. Ocorre que o uso exclusivo dessa representação pode trazer consequências culturais e políticas, a começar pelo eurocentrismo — o privilégio de uma versão específica mostra escolhas, pois não uma única representação possível do planeta. O perigo de uma história única se traduz em relações de poder e ocultamento das múltiplas formas de se enxergar o mundo, como já disse a escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Com a cartografia, não é nada muito diferente disso.

 

Origens e fundamentos da cartografia

Os primeiros registros de transposições das formas da paisagem para um plano em duas dimensões são bastante difíceis de saber ao certo, mas a primeira referência mais explícita ao que hoje se chama de mapa data aproximadamente de 2.500 a.C., na região da Mesopotâmia. Trata-se de uma placa de argila representando a região.

Esquema do mais antigo dos mapas já encontrado, com indicações dos elementos

Esquema do mapa de Ga-Sur, o mais antigo já encontrado, com indicações dos elementos. [Imagem: Reprodução/WikimediaCommons]

Séculos depois, o Renascimento (séc. XIV-XVI) se mostrou um momento importante na trajetória da cartografia. Nessa época, os mapas eram tidos como segredo entre os impérios e ocorria até mesmo o contrabando desses materiais entre os governantes, como aponta o geógrafo estadunidense Trevor Paglen em uma de suas obras. “A cartografia era um saber oculto, reservado e poderoso, que sem dúvida alguma ajudou na constituição do mundo naqueles tempos”, enfatiza André Mesquita, pesquisador, curador do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) e autor do livro Mapas Dissidentes: Contracartografia, poder e resistência, em entrevista ao Laboratório.

Cristiane Francisco, especialista em mapas

[Imagem: Reprodução/ Cristiane Francisco]

Com as Grandes Navegações, a produção cartográfica ganhou importância ainda maior, ao se tornar imprescindível para a locomoção no mar e para a exploração das colônias. Esse conhecimento passou a ter um olhar cada vez mais técnico, já que sua aplicação dependia da precisão das distâncias e orientações de navegação. Nesse período, surgem as primeiras projeções cartográficas mais elaboradas, que podem ser definidas como modos de “representar a esfericidade da Terra em um plano”, diz Cristiane Francisco, professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), e pesquisadora na área de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento em estudos ambientais. A professora destaca a impossibilidade de se projetar uma esfera em uma superfície plana sem que haja distorções nas distâncias, ângulos ou áreas: “Não existem mapas livres de deformações”.

Mas a impossibilidade de evitar distorções na representação de países e continentes não significa que essas imperfeições são aleatórias ou despropositadas. De acordo com pesquisadores da área, as distorções nos mapas, desde o início, sustentavam projetos geopolíticos de dominação. A infidelidade dos desenhos foi aproveitada para promover uma visão de mundo direcionada aos olhos do autor.

 

Na trilha do poder: os indícios de dominação nos mapas 

Se você acha que o Norte fica para cima e o Sul para baixo, saiba que isso é consequência direta de uma mentalidade difundida há séculos, que privilegia certos países e prejudica outros. Conforme detalha Cristiane, “nosso planeta ‘não tem cabeça’, pois a representação tradicional dos mapas-múndi, retratando o Hemisfério Norte na parte de cima da ilustração, pode ser explicada por uma visão eurocêntrica construída historicamente, já que não há explicação de ordem cartográfica que explique essa posição nortista”. Ou seja, há muito tempo, alguém decidiu que o Hemisfério Norte seria representado na parte superior da folha de papel e isso dá força à ideia popular, presente até hoje, de que essa região é mais importante que o Sul.

[Imagem: Reprodução/ Marcos Rosa, especialista em mapas]

[Imagem: Reprodução/ Marcos Rosa]

Outra abordagem que repercute em relações de hierarquia é a projeção de Mercator, datada do século XVI. Esse mapa preserva a forma dos continentes e as distâncias, ponto positivo para a navegação, mas distorce as áreas mais próximas aos polos e aumenta o tamanho dos continentes europeu e norte-americano, o que pode sustentar a noção de que essas regiões possuem maior valor e importância em comparação com as demais. Além disso, ao centralizar a Europa como origem do sistema de coordenadas geográficas, “essa representação dá a compreensão de que a Europa é o centro do mundo, fruto de uma construção histórica e geopolítica”, explica Cristiane. Contudo, conforme ressalta Marcos Rosa, doutor em Geografia Física pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenador técnico do projeto MapBiomas, “quando se analisa essa projeção, é preciso tomar cuidado para não ver só a interpretação política, há também fundamento técnico com aplicação na navegação”.

Mapa de Mercartor

Mapa-múndi na projeção Mercator, com a Europa ao centro. [Imagem: WikiImages/Pixabay]

Talvez um exemplo ainda mais gritante da dominação praticada através dos mapas seja o ocultamento de áreas ou populações específicas. Estar presente nos mapas significa existir politicamente. O pesquisador André explica que várias produções cartográficas renascentistas continham manchas vazias ou borrões em vez dos territórios ali presentes, o que demonstra uma estratégia de apagamento sistemático da existência daquele pedaço do mundo. Algo muito semelhante é visto em Bacurau, obra cinematográfica de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, na qual a cidade que intitula o filme desaparece do mapa de satélite e fica vulnerável a ataques por conta dessa eliminação. E engana-se quem pensa que esse tipo de ação se restringe ao passado remoto ou à ficção: “Poucos anos atrás, o Governo do Estado do Rio de Janeiro tentou proibir que o Google Maps, plataforma de mapeamento terrestre, mostrasse partes de favelas nas imagens de satélite, com a justificativa de que essa intervenção ajudaria no turismo da região”, diz André. Uma agência turística chegou a colocar isso em prática, ao eliminar mais de 1 milhão de habitantes do mapa da cidade do Rio. A presença das comunidades nos mapas é tão importante que há iniciativas que buscam mapear esses locais e afirmar sua existência nos registros.

Cabe ainda ressaltar o papel da cartografia na delimitação das fronteiras internacionais e a manipulação dos mapas em situações estratégicas. Afinal, está no poder de algumas linhas decidir quem é o dono de cada porção de terra.  A tensão entre Israel e Palestina, que persiste desde o século passado, deve-se em grande parte a uma questão territorial, com conflitos envolvendo anexações e ocupações. Marcos refere-se à confecção de mapas por parte de Israel e Palestina e avalia que essa é uma disputa política na qual o mapa entra como uma informação relevante, ao resgatar perspectivas e visões que dão suporte aos discursos de ambos os lados com o objetivo de promover um interesse específico.

Mapas não são sinônimos de inocência ou imparcialidade: eles podem ser  influenciados por objetivos e interesses bem demarcados, embora isso não seja óbvio em uma primeira observação.

 

“Caminhar perguntando”: novas perspectivas

No início de 2021, uma nova proposta de mapa-múndi de pesquisadores das universidades de Princeton e Drexel ganhou espaço na mídia internacional e nacional (veja o modelo acima). Essa projeção promete uma visão repaginada do globo terrestre, ao trazer os polos para o centro da representação em vez da Europa. Os idealizadores consideram tal mudança de ponto de vista de fundamental importância para compor uma outra forma de enxergar o mundo, menos viciada em hierarquias do período colonial, como o eurocentrismo já discutido. Mas é realmente necessário descartar as produções anteriores e buscar uma única representação abrangente?

Nova projeção do globo terrestre apresentada em 2021 [Imagem: Reprodução/ J. R. Gott, R. Vanderbei e D. Goldberg]

Nova projeção do globo terrestre apresentada em 2021 [Imagem: Reprodução/ J. R. Gott, R. Vanderbei e D. Goldberg]

Segundo Marcos, a resposta mais adequada é não: o importante é apresentar nas escolas as diferentes projeções e a finalidade de cada uma delas. “Mais do que criar uma projeção única, o que não acontecerá, é essencial explicar quais deformações ocorrem em cada mapa para que se entenda o objetivo técnico por trás da criação”, completa.

“Acho que a educação do olhar é um processo fundamental para descolonizar a visão que temos do mundo e isso passa incontornavelmente pela formação das pessoas”, enfatiza André, ao atribuir valor a uma posição crítica em relação aos mapas.

Cristiane analisa que “a questão não está na parcialidade em si, mas achar que a isenção exista e, desta forma, interpretar a representação como a realidade. Como cidadãos, temos que ter a clareza de que todas as representações cartográficas estão imbuídas de formas de enxergar a realidade e cabe a nós percebermos se concordamos ou não com os projetos aos quais estão submetidas”.

O lema do movimento zapatista pela libertação do México referente à educação, “caminhar perguntando”, sintetiza a história da cartografia. Enquanto sociedade, o mais importante é questionar a imposição de verdades únicas e estimular a diversidade de perspectivas da representação do mundo, com o respaldo do conhecimento científico.

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
COMENTÁRIOS
Leticia da Silva Teixeira
Muito interessante a sua abordagem, texto claro, muito boa a sua explanação.
18 jul 2021
 
Renato Silveira
Excelente texto . Parabens
17 jul 2021
 
Priscila Moreira
Texto claro e elucidativo sobre o real uso dos mapas.
15 jul 2021
 
Salete
Gabriel, através da sua matéria aprendi muito. É um tema que não nos aprofundamos, porém seu texto é esclarecedor. Parabéns!
14 jul 2021
 
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*