por Sara da Franca (saradafranca@usp.br)
Um bom filho a casa torna, e uma hora é preciso retornar — seja para se reconciliar com o passado ou aceitar os presentes do futuro, envoltos em laços sanguíneos. E é no horror de tentar desatar os nós que Clarissa Appelt e Daniel Dias, diretores de Herança de Narcisa (2025) constroem a narrativa de um terror catártico, vencedor do prêmio do júri popular na 27ª edição do Festival do Rio, que chega às salas dos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (09).
Na trama, Ana (Paolla Oliveira) volta à casa em que passou sua infância junto à mãe, a ex-vedete Narcisa (Paolla Oliveira; Rosamaria Murtinho), que deixou o imóvel como herança. Lá, enquanto arruma a casa para uma possível venda, ela confronta as relações conturbadas que teve no passado com a matriarca e reflete sobre o seu presente, mágoas e memórias.
Da piscina ao camarim, há algo no som das marchinhas cantadas no auge da carreira de Narcisa, e até no tom do batom escarlate, que chamam e puxam a protagonista para a aceitação das relíquias físicas e etéreas que herdou da mãe.
Ana é, na verdade, Narcisa — mas não suporta ser chamada pelo mesmo nome da mãe. Mesmo assim, ao ver sua face no espelho, não há para onde correr: não só o espírito daquela que já se foi está impregnado em todos os lugares da casa, como na própria filha, que reluta em perceber as conexões físicas e sentimentais com o glamour decadente da ex-vedete.

[Imagem: Divulgação/Olhar Filmes]
É natural que, como no mito de Narciso, ao encontrar a si mesmo no que é apenas reflexo, Ana se veja possuída pelo que então não encarava de frente. Quando a personagem olha para sua própria imagem, já não sabe bem se vê a si mesma ou a mãe. Ela pode querer se esquivar o quanto puder das recordações que tem com Narcisa, mas continuará a refletir a figura da mãe por onde vá.
Esse é o horror da reconciliação: no roteiro assinado pelas veias dramáticas de Daniel Dias e nas tendências ao cinema de gênero de Clarissa Appelt, aterrorizante é ter que perceber e lidar com o fato de que as mais difíceis lutas são contra os próprios demônios, e que para viver em paz, é necessário tê-los domesticados.
E o processo é único, tem de ser atravessado sozinho. Nisso, Paolla Oliveira, que atua com coerência tanto como mãe quanto como filha, aparece em todas as cenas, enquanto os outros poucos personagens, que até poderiam ser melhor trabalhados para agregar aos empecilhos dos diferentes pontos de vista que aparecem no caminho, são uma intersecção momentânea no isolamento do casarão e da vida que está em conflito.
Mas não só de mitologia grega se limitam os simbolismos do filme: as bendições de casa usando um punhado de ervas, os laços vermelho-sangue que adornam o pescoço de Narcisa e amarram Ana de volta para seus embates, o fogo que queima o resto de passado preso nas fotografias e diários e a voz de quem gravou uma música que sempre estará tocando, de alguma forma, pelo ar, trazem os resquícios da matriarca que sempre estarão intrínsecos à filha. A proposta inicial de um “terror tropical” é aproveitada nesses artifícios, que adicionam de forma sutil o incômodo de uma nostalgia depreciada e realçam a personalidade do longa.

[Imagem: Divulgação/Olhar Filmes]
Com a subjetividade presente em toda a narrativa, Appelt e Dias criam o que chamam de “terror-terapia” — o uso emocional do horror, não apenas com o sentido de aterrorizar, mas refletir sobre os dramas internos. E conseguem, mas de forma aberta. Isso porque as questões pessoais de Ana são visíveis, mas não necessariamente entendíveis.
É notável que a protagonista teve problemas com a mãe, mas quais? Como Narcisa realmente era quando não estava performando? Ela era apenas performance? Por que o irmão de Ana, que aparece e escafede-se de forma ligeira, tem uma visão diferente da mãe? Quem era Narcisa e quem é Ana, de fato?
É como se o que fosse possível capturar da trama fosse o momento de transição da protagonista para ser quem antes negava, sem saber como foi seu passado e tendo um relance de seu futuro — o que afeta uma empatia e aproximação com a personagem. Por mais que seja um momento importante na vida da protagonista, e é possível que se entenda a situação atual adversa que ela passa, é difícil compreender os porquês que a levaram a se sentir assim.
Narcisa pode ter sido uma mãe horrível em diversos aspectos, mas não se sabe em quais. Ana pode não ter sido a filha ideal aos olhos de Narcisa, mas não há como saber. Ao abordar uma personagem peculiar como a ex-vedete, seria preferível representar mais camadas à vida dela, para que os próprios conflitos de Ana fossem aprofundados.
Os realizadores concordam que no cinema brasileiro há muito didatismo enquanto a situações que devem ser percebidas: justo, mas a noção de mais generalização do que pode ter acontecido entre mãe e filha do que uma particularidade da situação dificulta a própria construção de singularidade da história. Afinal, identificação é causada por precisão.
Entretanto, Herança de Narcisa traz uma bela proposta para o cinema brasileiro. Com construções de cenas densas em estética e conteúdo. Relata o bonito ato de olhar de frente para o que nos afetou e afrouxar as amarras dos laços que nos unem aos nossos para sempre, pois no fim essas conexões são vivas e continuam a correr em nossas veias, nos chamando para aceitar o que é nosso por herança. Um terror embalado em drama, decorado com fita vermelha.

Herança de Narcisa já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: [Divulgação/Olhar Filmes]
