Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Última temporada de Outer Banks abre discussão para o desenvolvimento emocional dos adolescentes 

Entenda sobre os desdobramentos dos personagens ao longo de cinco temporadas e a influência dessa história de aventura no comportamento jovial
Fotografia em plano médio e em cores de uma jovem mulher de pele parda, na casa dos vinte anos, sentada de perfil em uma mesa de madeira clara ao lado de uma grande janela iluminada pela luz do sol. Ela segura uma xícara de cerâmica branca com as duas mãos na altura do peito, sorrindo suavemente enquanto olha para fora. Usa um suéter de tricô beige de gola alta e cabelos cacheados castanhos presos em um coque despojado, com alguns fios soltos caindo sobre o rosto. Ao fundo, fora do foco, percebe-se a prateleira de um café com plantas pendentes em vasos de cerâmica e livros empilhados, enquanto a iluminação natural que entra pela janela destaca a textura do tecido de sua roupa e o vapor sutil que sobe da xícara.

Por Bianca Candido (biancasantoscandido@usp.br) 

A estreia da quinta e última temporada de Outer Banks (2020 – 2026) está prevista para o dia 20 de agosto. O anúncio oficial foi confirmado com o lançamento do teaser, em 18 de junho, e desde então, a comunidade de fãs especula sobre os últimos passos da trajetória dos Pogues.

Nessa última aventura, os personagens principais John B (Chase Stokes), Sarah (Madelyn Cline), Kiara (Madison Bailey), Pope (Jonathan Davis) e Cleo (Carlacia Grant) seguem sua jornada mais determinante e perigosa, comovidos pelo luto e pela busca por vingança após os eventos marcantes da temporada anterior, como a morte de um dos personagens mais queridos pelo público, JJ, protagonizado pelo ator Rudy Pankow.

Fotografia em cores, em plano médio e horizontal, tirada dentro de uma loja, onde o balcão escuro ocupa o primeiro plano. Cinco jovens estão reunidos atrás do balcão, olhando com atenção para algo que o jovem no centro segura com as duas mãos. A iluminação predominante é em tom verde-azulado, dando uma atmosfera fria e noturna ao ambiente. O jovem no centro, de boné preto virado para trás e regata verde, segura e examina um objeto pequeno e branco, talvez um papel ou um pano dobrado. No balcão, ao seu lado, há duas embalagens cor-de-rosa empilhadas e, na outra extremidade, alguns objetos brancos dentro de um recipiente. Ao fundo, as paredes estão decoradas com várias fotos em molduras retangulares. Há duas grandes portas de vidro no centro, que parecem dar para o exterior, e prateleiras com mercadorias do lado esquerdo.
O nome do grupo, Pogues, vem dos peixes pogie, que geralmente são usados como isca para peixes maiores, simbolizando como eles se sentem marginalizados na ilha de Outer Banks [Imagem:Reprodução/IMDB]

O enredo, que conta a história de 4 amigos que saem em busca de um tesouro antigo com o objetivo de achar o pai desaparecido do líder do grupo, está perto do fim. Nas contas oficiais nas redes sociais da série, os criadores Shannon Burke, Joana Pate e Josh Pate publicaram uma carta aberta aos fãs, onde revelaram que a trajetória de mistério e de caça ao tesouro duraria apenas cinco temporadas. Ainda na carta, eles citam que a amizade entre os Pogues e a diversão do surf no paraíso da Carolina do Norte foram propostas para a construção da estética da série.

O fim de uma Era

Em entrevista à Jornalismo Júnior, Israel, dono da página Outer Banks Brasil no Instagram, contou que os fãs estão ansiosos para acompanhar os episódios finais da série. O próprio entusiasmo do fã demonstra o nível de animação do público para o desfecho: “Conheci a série em 2023 e minha ansiedade está a mil, para ver como vão encerrar a história dos Pogues”.

De acordo com Israel, a amizade e a lealdade que os personagens têm uns com os outros é o que mais atrai a comunidade de fãs. Cada temporada conseguiu evoluir sem perder a essência da série, sempre trazendo novos desafios, vilões e diferentes aventuras. Ao longo de cada episódio, os criadores trouxeram novos tesouros e uma história mais perigosa, e é isso que aproxima o público, segundo ele.

Sobre o desenvolvimento dos personagens, ele comenta que houve um amadurecimento perceptível entre Sarah (Madelyn Cline) e John B (Chase Stokes), que enfrentaram a perda dos pais, situação comum na realidade de muitos adolescentes, com impactos no senso de identidade e isolamento social.

Na opinião do fã, todos os arcos narrativos foram bem desenvolvidos e cada um teve sua importância para a história. “Prefiro um final totalmente fechado, sem deixar nada em aberto”, comenta.

Fotografia em plano médio e em cores, com tom amarelado e quente, de seis jovens sentados em linha no chão sobre a grama, ao pé do tronco grosso de uma árvore frondosa. No tronco, há uma gravação entalhada na madeira no formato de um coração com a inscrição "2003 JOHN B ROUTLEDGE 2020". Da esquerda para a direita: uma jovem negra de regata preta e shorts escuros; uma jovem de pele parda e regata amarela; uma jovem loira de regata verde com a cabeça apoiada no ombro do rapaz ao seu lado; um jovem de cabelo ondulado castanho e camisa estampada aberta; um jovem negro de camisa polo listrada em tons alaranjados; e um jovem loiro de camiseta vermelha segurando uma garrafa. Ao fundo, no lado direito, há uma rede de descanso pendurada no galho da árvore sob a luz suave do sol.
A busca pelo pai desaparecido do líder da turma, romances proibidos, uma caça ao tesouro e conflitos entre o grupo e seus rivais marcam a história desses adolescentes [Imagem:Reprodução/IMDB]

Na última temporada, o foco será a vingança pela morte do personagem de Rudy Pankow e a recuperação da Coroa Azul, o tesouro perdido da quarta temporada. Essa abordagem de aventura e caça ao tesouro funcionou durante todas as temporadas e se tornou essencial para a manutenção do público da série.

Lições e valores tratados 

Outer Banks é uma produção que traz reflexões sobre as desigualdades existentes em uma mesma região, a diferenciação entre Kooks (elite local) e Pogues (trabalhadores comuns) evidencia os problemas estruturais na sociedade ficcional. Os Kooks são os moradores ricos e privilegiados da classe alta que vivem na parte nobre. Eles representam um contraste social e econômico direto em relação aos Pogues, que pertencem à classe trabalhadora e moram na região periférica da ilha.

Além disso, problemas com os pais, questões emocionais e a representação da adolescência são tópicos abordados no roteiro de Outer Banks. A maioria deles contextualiza a realidade dessa faixa etária, aponta a psicóloga e terapeuta ocupacional Ila Linares, em entrevista à Jornalismo Júnior.

A psicóloga ressalta que séries que retratam esse tipo de fase podem ser interessantes, na visão de tradução dos sentimentos e sensações de um grupo que é pouco colocado como objeto de estudo, os adolescentes. 

Ila Linares tem a adolescência como foco de sua pesquisa de pós-doutorado, também as questões psicológicas e causalidades de certos comportamentos que ocorrem nessa fase. Ela afirma que esses programas conseguem transmitir a validação e um debate útil para os pais desses adolescentes, quando eles se dispõem a assistir esse tipo de conteúdo para compreender certos comportamentos e eventualmente, abrir um diálogo com esse adolescente sobre esse tipo de série.

“Conteúdos que retratam, de alguma maneira, a realidade que essa faixa etária vivencia, podem ser úteis até para o diálogo entre gerações”
Ila Linares

Rebeldia e inserção de perigo

A busca pela sensação de risco é inerente à condição da adolescência. Do ponto de vista psicológico,  o distanciamento da base familiar é comum e isso nasce da tentativa de começar um processo de construção de identidade. 

Outer Banks é o tipo de série que mostra adolescentes que não necessariamente lidam com  os problemas da melhor maneira. Ila acentua que esse tipo de conteúdo pode sinalizar ao telespectador que séries são apenas ficção, e que nem tudo precisa ser reproduzido, por mais que a narrativa dos personagens se assemelhe com a realidade de comunidades marginalizadas.

Fotografia em primeiro plano fechado com iluminação amarelada e dramática, focada no rosto de um jovem rapaz loiro à esquerda e no perfil de um homem mais velho à direita. O jovem, que veste uma camiseta escura com finas listras horizontais claras, olha de forma séria e tensa para o homem à sua frente, com a boca cerrada e expressão concentrada. O homem mais velho, visto de perfil no canto direito da imagem, tem cabelo escuro, barba curta e grisalha e segura firme a nuca ou ombro do jovem com a mão esquerda, em um gesto de confrontação ou conselho tenso. Ao fundo, fora de foco, há janelas que deixam passar uma luz suave, criando um forte contraste com os tons quentes e sombras na cena.
O personagem Rafe Cameron (Drew Starkey) é um dos exemplos de adolescente na série que lida com o abuso de drogas e transtornos de conduta sem o devido apoio emocional e psicológico [Imagem:Reprodução/IMDB]

A redenção do anti-herói Rafe é a mais esperada pelo fandom da série. Suas ações extremas contra sua própria irmã, Sarah, para obter a aprovação do pai, mostram o desenvolvimento do antagonista como um personagem de temperamento explosivo.  A evolução de Rafe e sua necessidade de validação familiar fazem a página da série no Brasil acreditar que seu destino será ajudar a irmã e se sacrificar pelo grupo que tanto prejudicou ao longo da história.

Em Outer Banks, o desenvolvimento emocional dos personagens é impulsionado por traumas profundos de abandono, dinâmicas familiares abusivas e a necessidade urgente de sobrevivência. Em vez de uma adolescência comum, o grupo enfrenta perdas intensas, o que resulta em comportamentos impulsivos, mecanismos de defesa e laços de lealdade fortificados.

“Quando a gente tem um adolescente numa condição de maior vulnerabilidade, sem interlocução e com atravessamentos, não só socioeconômicos, mas também psicológicos, esse tipo de série pode ter um peso maior”
Ila Linares

O apoio fraterno é apontado na série como um caminho para instabilidade nas relações familiares, a ausência e o combate da fragilidade dessas relações. As pressões dessas amizades podem influenciar as escolhas e o comportamento dos jovens,  porém, a psicóloga argumenta que a influência não é somente condicionada a adolescentes com estruturas familiares instáveis. O ambiente social, em alguns momentos, pode permitir o indivíduo a ser influenciado por coisas que não condizem com a base que ele está inserido.

Fotografia em plano médio e tons quentes de três jovens amigos reunidos em tom descontraído e afetuoso sob a cobertura de madeira de um trapiche ou cais. À esquerda, um jovem negro de camisa de mangas curtas bege estampada sorri de perfil para o amigo do meio. No centro, um jovem loiro de camiseta cinza-escura sorri com os olhos semicerrados, com o braço sobre os ombros do amigo à sua direita e a mão esquerda erguida na altura do peito. À direita, um jovem de boné escuro aba reta virado para trás e camisa amarela de mangas curtas estampada com folhagens verdes encosta o rosto carinhosamente na cabeça do jovem central. Ao fundo, sob a estrutura de madeira onde há uma placa informativa com o texto "SALTWATER FISH RULES", percebe-se uma rede de pesca pendurada e uma boia de resgate vermelha.
O grupo de amigos Pogues é a base escolhida para ser o apoio emocional e encoraja a lealdade incondicional e o sacrifício pessoal, para o enfrentamento das ameaças dos Kooks e os perigos da caça ao tesouro [Imagem:Reprodução/IMDB]

O processo de estruturação de personalidade tem inúmeras variáveis que contribuem para essa consolidação: ambientais, sociais e biológicas. No ponto de vista da psicóloga, indivíduos que cresceram em contextos considerados de risco socioeconômico, político, de violência ou de traumas têm maior disposição à vulnerabilidade. No entanto, essas questões não podem ser vistas como relações de causalidade, e sim, de predisposição.

“Não é todo adolescente que cresceu num ambiente de vulnerabilidade que vai ser mais influenciado para um comportamento negativo”
Ila Linares

Segundo a Ila, a visão crítica deve começar na infância. “A gente não é ensinado a pensar o porquê das coisas né? Mais do que dizer o que é certo e o que é errado, devemos promover a reflexão porque eu acho que, com adolescentes, quanto mais temos um tom prescritivo, pior é o efeito do que a gente produz.”, destaca a especialista. 

O papel psicológico de um evento traumático

Ila aponta a diferenciação de um estresse tolerável de um estresse tóxico. O estresse tóxico vai além das adversidades da vida, a exposição a violência que pode gerar um trauma. O trauma tem ligação com a falta de controle de variáveis prejudiciais e persuasivas na vida do indivíduo. 

Ele pode afetar tanto o desenvolvimento psicológico quanto fisiológico de um indivíduo. De acordo com a psicóloga, esse acontecimento determina como o adolescente vai se relacionar dali em diante, e grande parte das atitudes dele vão ser em torno da proteção, para evitar outros traumas e situações de risco emocional.

“O maior aprendizado dessas histórias para os adolescentes é sobre lealdade e resiliência. Sobre o que é realmente uma amizade e o que vale a pena”
Ila Linares

Fotografia noturna em plano geral de um grupo de seis jovens reunidos ao redor de uma fogueira acesa na areia de uma praia, com ondas do mar quebrando ao fundo sob a escuridão do céu. No canto esquerdo, um paredão rochoso escuro delimita o espaço onde o grupo está. Um rapaz de bermuda permanece em pé à esquerda, enquanto os outros cinco amigos estão assentados em troncos de madeira e na areia ao redor do fogo, rindo e interagindo descontraídos. A luz alaranjada das chamas ilumina o grupo no centro, destacando um rapaz sem camisa apontando uma vara de madeira em direção ao fogo enquanto os amigos observam e se divertem.
As amizades exercem um papel fundamental no desenvolvimento emocional e social dos adolescentes, já que conexões positivas reforçam o sentimento de pertencimento, fortalecem a autoestima e ajudam adolescentes a lidar melhor com desafios e inseguranças [Imagem:Reprodução/IMDB]

Ila salienta que quando um adolescente pensa na sua própria narrativa já é um excelente convite para ele não reproduzir o comportamento de alguns personagens, mesmo que ele se identifique com alguns aspectos mostrados na ficção. Conforme a profissional, é necessário a criação de uma resiliência, que se desenvolve a partir do suporte emocional encontrado por muitos adolescentes, não só na família, mas também nos amigos e nas relações que acontecem fora do ambiente familiar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima