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‘As Meninas’: ser jovem não é igual para todas

Clássico romance da literatura brasileira atravessa gerações ao transformar vivências de três jovens em retrato da condição feminina no país
Imagem de divulgação do filme As Meninas (1995)
Por Kaylaine Farias (kaylainemdsf@usp.br

As Meninas (Companhia das Letras, 1973), de Lygia Fagundes Telles, é conhecida como uma das obras mais relevantes da literatura brasileira, mesmo 53 anos após seu lançamento. O livro foi publicado em território nacional em 1973, durante o regime militar, e discute questões que, mesmo após décadas, ainda fazem parte da realidade de muitas mulheres, como violência de gênero, desigualdade social, conflitos familiares, repressão política e o difícil processo de construção da identidade durante a juventude.

Considerado um dos principais romances brasileiros do século 20, o livro acompanha a trajetória de três jovens universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara, que vivem em um pensionato de freiras na cidade de São Paulo. Embora compartilhem o mesmo espaço, cada uma enfrenta desafios particulares, marcados por suas diferentes origens sociais, formas de enxergar o mundo e experiências pessoais. A partir dessas perspectivas, a narrativa constrói um retrato complexo da juventude feminina brasileira em um período de intensas transformações políticas e culturais.

O contexto histórico, a profundidade psicológica e os assuntos abordados em As Meninas fazem com que a obra permaneça como leitura obrigatória em vestibulares e cursos de literatura. O romance convida o leitor a refletir sobre permanências e mudanças na sociedade brasileira ao mostrar como diferentes formas de opressão e desigualdade influenciam a vida das mulheres, ainda que sob novas configurações.

Contexto social e histórico

Lygia começou a publicar ainda jovem: seu primeiro livro de contos foi lançado quando tinha apenas 15 anos [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A autora, Lygia Fagundes Telles (1923–2022), foi romancista, contista, ensaísta e construiu uma carreira marcada pela exploração da psicologia de seus personagens e pela atenção às relações humanas. Ao longo de sua trajetória, recebeu importantes premiações, como o Prêmio Jabuti em 1974 — por As Meninas —, o Prêmio Camões, em 2005, considerado a principal distinção da literatura em língua portuguesa, além de ter se tornado a terceira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras. Suas obras frequentemente abordam conflitos existenciais, memória, solidão, desigualdades sociais e a perspectiva feminina em variadas situações.

Em As Meninas, esses elementos aparecem inseridos em um dos momentos mais delicados da história brasileira. O romance foi publicado durante a ditadura militar instaurada em 1964, período caracterizado pela censura à imprensa, perseguição a opositores políticos, prisões arbitrárias, tortura e restrição das liberdades civis. Embora o regime desempenhe um papel crucial na narrativa, ele não aparece apenas como cenário histórico. A repressão política influencia diretamente a vida das personagens, suas escolhas, seus medos e suas relações e demonstra como acontecimentos coletivos podem atravessar experiências individuais.

Ao mesmo tempo em que retrata a repressão política, a obra acompanha um período de mudanças nos costumes da sociedade brasileira. A juventude dos anos 1970 vivia debates sobre liberdade, sexualidade, participação política e novos papéis sociais para as mulheres, enquanto também enfrentava estruturas profundamente conservadoras, onde expectativas sobre casamento, maternidade e comportamento feminino continuavam sendo impostas de maneira rígida. A narrativa se fortalece ao apresentar jovens que tentam construir seus próprios caminhos enquanto enfrentam limitações impostas tanto pela sociedade quanto por suas histórias pessoais.

Embora muitas jovens buscassem maior independência, ainda era comum que a sociedade esperasse que seu principal objetivo fosse o casamento e a maternidade [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Estrutura narrativa

Outro aspecto que contribui para a relevância da obra é sua escrita. Em vez de seguir uma sequência linear de acontecimentos, Lygia constrói a história com alterações entre diferentes vozes e pontos de vista. Os pensamentos das personagens, suas lembranças, diálogos e reflexões se misturam constantemente, com a exploração de recursos como o fluxo de consciência e o discurso indireto livre. Essa escolha busca aproximar o leitor do universo psicológico das protagonistas e permite compreender não apenas suas atitudes, mas também suas inseguranças, desejos e contradições.

A autora reproduz os pensamentos das protagonistas de uma forma humanizada ao retratar suas próprias opiniões, questionamentos e lembranças que vêm à tona simultaneamente durante as interações com outros personagens. Esta abordagem está presente no monólogo introspectivo da personagem Lia ao refletir sobre seu parceiro e o sentimento de sofrimento. A maneira como o texto se desenvolve nestas fases da narrativa é igual para as três personagens, o que difere os narradores é o tipo de linguagem adotada.

“Não sei aguentar sofrimento dos outros, entende? O seu sofrimento, Miguel. O meu aguentaria bem, sou dura. Mas se penso em você, fico uma droga, quero chorar. Morrer. E estamos morrendo. Dessa ou de outra maneira não estamos morrendo?”

As Meninas, p. 13

Em entrevista ao Sala33, a professora de língua portuguesa Luciana Migliaccio, formada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e proprietária do Centro Cultural Margem da Palavra, explicou os detalhes por trás da escolha estrutural do livro pela autora. Segundo a professora, Lygia possui uma escrita elaborada, ao considerar o ponto de vista gramatical e estrutural, e o desenvolvimento do raciocínio das personagens, com destaque para o uso da polifonia para marcar o tom de cada personagem e o fluxo de consciência presente na obra como fatores de grande importância. 

“A linguagem dela (Lorena) é uma linguagem mais poética. A Lia, que era militante, tinha uma linguagem muito objetiva.”, afirma. Ela explica que, nesse caso, a construção sintática era mais objetiva — sujeito, verbo e complemento. “A Ana Clara já era mais confusa. Você percebe que a narrativa dela talvez seja uma das mais difíceis de entender. Ela era uma pessoa que sofria, altamente impulsiva, então, a linguagem também, truncada, mal elaborada, é fruto dessa impulsividade”, explica Migliaccio.

Essa construção narrativa faz com que nenhuma personagem seja apresentada de forma simplificada. As três jovens possuem personalidades marcantes, visões de mundo distintas e maneiras diferentes de enfrentar os desafios da vida adulta. Apesar das diferenças, compartilham inquietações comuns sobre o amor, a família e o futuro, temas que continuam presentes na experiência de muitas jovens atualmente.

Mesmo durante o regime militar, grupos de mulheres organizaram jornais, associações e movimentos que contribuíram para a redemocratização do país [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

As meninas

Entre as três protagonistas, Lorena representa a juventude pertencente à elite brasileira. A jovem estudante de Direito vive cercada por privilégios materiais, mas enfrenta conflitos emocionais que revelam uma profunda sensação de solidão. Romântica, introspectiva e idealista, cultiva um amor quase impossível por um homem casado, com expectativas que dificilmente se concretizam e sua relação distante com a família, marcada pela ausência afetiva e pelo peso de acontecimentos traumáticos do passado, contribui para sua dificuldade em estabelecer vínculos saudáveis. Ao longo da narrativa, Lorena demonstra sensibilidade diante das dores das amigas e, muitas vezes, se torna um ponto de acolhimento dentro do grupo, ainda que também carregue suas próprias feridas.

Já Lia, filha de mãe baiana e pai alemão, estudante de Ciências Sociais e militante política, representa a juventude engajada em movimentos sociais. Lia é determinada, crítica, racional e participa da luta contra o regime vigente naquele período enquanto lida com as consequências da repressão política e convive com o medo constante da perseguição e da violência do Estado. Ao contrário de Lorena, demonstra maior preocupação com questões coletivas do que com conflitos pessoais. Sua história evidencia que o compromisso político também exige renúncias, provoca angústias e interfere diretamente nas relações afetivas, especialmente em seu relacionamento com o personagem Miguel, igualmente envolvido na militância.

A terceira protagonista, Ana Clara, reúne algumas das situações mais delicadas retratadas pela autora ao simbolizar uma juventude vulnerável, cujas escolhas são constantemente condicionadas pelas circunstâncias em que cresceu. Vinda de uma infância marcada pela pobreza, pelo abandono e pela violência sexual, ela tenta ascender socialmente por meio de relacionamentos com homens ricos, crente de que o casamento poderá oferecer estabilidade e uma nova vida. Dependente de drogas e emocionalmente fragilizada, a garota vive um intenso conflito entre seus sonhos e a dura realidade e sua trajetória evidencia como desigualdades sociais e traumas podem afetar profundamente a saúde mental. 

Juntas, as três protagonistas revelam que a juventude feminina não pode ser compreendida como uma experiência única. Enquanto uma enfrenta o peso das expectativas da elite, outra vive a repressão política e a terceira lida com a pobreza e a violência. Ao colocar essas trajetórias lado a lado, Lygia evidencia como fatores políticos, sociais, econômicos e familiares moldam trajetórias distintas, ainda que todas sejam atravessadas por pressões semelhantes.

Nos anos 1970, cresceu a participação feminina nas universidades brasileiras, ampliando debates sobre igualdade de direitos e autonomia das mulheres [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Aspectos que moldam a juventude feminina

Ao longo do romance, diversos fatores influenciam a vida e a personalidade das protagonistas, o que demonstra que a juventude feminina é construída por diferentes fatores sociais e culturais. Entre eles, o ambiente familiar aparece como um dos principais pontos. Lorena convive com relações frias e emocionalmente distantes, Ana Clara carrega marcas profundas de abandono e violência desde a infância e Lia, por sua vez, encontra na família uma influência ligada às discussões políticas e à formação de seu pensamento crítico. Essas diferentes estruturas familiares demonstram como as experiências vividas dentro de casa podem impactar autoestima, relações interpessoais e perspectivas de futuro.

“Nem pai nem mãe. Nem ao menos um primo. Não tem ninguém. Pelo visto, a Bahia inteira deve ser da parentela de Lião, mas Ana Clara é o avesso do quadro familiar.”

As Meninas, p. 16

Outro aspecto recorrente é a presença do machismo e da misoginia na obra, que se manifestam de maneiras distintas na vida de cada personagem. Em várias ocasiões, o gênero é utilizado como parâmetro para julgar os comportamentos, sexualidade e escolhas das protagonistas, além de suas relações afetivas, que são frequentemente marcadas por desigualdades de poder. Mesmo quando buscam autonomia, ainda precisam lidar com expectativas sociais rígidas e que não atingem todas da mesma maneira, agravadas por fatores como condição econômica e posição.

“Fico virgem, pomba. Caso com o escamoso, destranco a matrícula e faço meu curso. Brilhante.”

As Meninas, p. 33

Os relacionamentos amorosos também ocupam um papel central na narrativa, pois o amor aparece distante da idealização romântica e está frequentemente acompanhado por frustrações, dependência emocional, desencontros e perdas. Em vez de apresentar relacionamentos perfeitos, o romance aponta como esses vínculos podem refletir inseguranças pessoais e desigualdades presentes na própria sociedade. A narrativa amplia a discussão sobre o processo de amadurecimento e mostra que crescer também significa enfrentar decepções, rever expectativas e lidar com escolhas difíceis.

A amizade construída entre Lorena, Lia e Ana Clara funciona como um importante contraponto a essas dificuldades. Apesar das diferenças de personalidades, ideologias e origens sociais, elas encontram umas nas outras espaços de apoio, escuta e solidariedade. Em diversos momentos, a convivência entre as três demonstra que laços de amizade podem oferecer amparo diante das adversidades, ainda que não sejam suficientes para eliminar os problemas individuais enfrentados por cada uma.

As garotas demonstram afeto umas pelas outras em variados momentos da obra, apesar de suas vivências e opiniões diferentes. Na grande maioria das vezes, Lorena é quem oferece apoio às amigas, como na ocasião em que ofereceu e preparou um banho, chá e biscoitos para Lia (p. 43), ou quando cedeu seu xale para que Ana Clara se cobrisse durante o sono (p. 54). 

“As personagens são muito humanas, então elas são sempre atuais.”

Nina Miliauskas Bozic, estudante de Jornalismo

A amizade feminina retratada por Lygia Fagundes Telles rompe estereótipos de rivalidade entre mulheres e valoriza o diálogo, a escuta e o cuidado mútuo [Imagem: Reprodução/Pexels]

Diálogo com a atualidade

Embora ambientado na década de 1970, As Meninas permanece atual porque muitos dos conflitos vividos pelas protagonistas continuam presentes na realidade das jovens contemporâneas. Questões relacionadas à violência contra a mulher, saúde mental, abuso de substâncias, desigualdade social, assédio, pressão estética e busca por independência ainda fazem parte da experiência de inúmeras jovens brasileiras. Ao mesmo tempo, debates sobre igualdade de gênero, autonomia feminina e direitos das mulheres ganharam maior visibilidade nas últimas décadas, o que gerou novas formas de enfrentamento de problemas que antes permaneciam invisíveis. 

Para Nina Miliauskas Bozic, estudante de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e ex-vestibulanda, As Meninas é um livro impactante, que pode desencadear uma identificação do leitor com as personagens e que aborda situações que ainda são vivenciadas por muitas jovens atualmente, mas em novos contextos e realidades. “Você não vai estar ouvindo, necessariamente, disco no quarto se você for uma Lorena, mas você vai estar deitada ouvindo música no Spotify. Tem muitas Lias por aí que estão militando, mesmo que não estejam lutando contra uma ditadura, estão lutando por causas muito importantes”, afirma Bozic. 

Segundo a estudante, a personagem com quem ela mais se identificou foi Lorena, devido aos seus devaneios excessivos e ao tédio que ela expressa nestes pensamentos. “Eu acho que pega muito a questão de estar isolada enquanto você tem amigos. Você está numa cidade grande, tem várias possibilidades, mas ao mesmo tempo, se sente entediada, presa na própria cabeça e fica pensando, pensando, pensando… querendo mudar as coisas”, afirma. 

Para a estudante, outro fator que contribui para essa identificação durante a leitura é a humanização das personagens através da abordagem de questões como amizade, amor, ódio e mentiras. “Ela [obra] influenciou a forma como eu vejo a juventude de outras mulheres, a experiência, no sentido de refletir até como minhas amigas leram esse texto, como outras pessoas podem ter lido esse texto, quais pessoas se identificam com que parte desse texto”, acrescenta Nina.

As redes sociais mudaram a forma como jovens constroem sua identidade, mas dilemas relacionados ao pertencimento, autoestima e relações afetivas permanecem presentes [Imagem: Reprodução/Pexels]

As Meninas é uma obra que convida o leitor a refletir sobre a complexidade da condição feminina e dos desafios enfrentados pelas mulheres durante a juventude ao combinar contexto histórico, crítica social e profundidade psicológica para construir um romance que ainda dialoga com novas gerações de leitores e reafirma seu lugar entre os grandes clássicos da literatura brasileira. A busca por autonomia, o medo do julgamento, as dificuldades nas relações afetivas e a tentativa de construir uma identidade própria ainda fazem parte das vivências de muitas jovens, o que mantém a narrativa viva até os dias de hoje.

*Imagem de capa: Reprodução/Imdb

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