Grazielli Costa (grazielli.hcosta@usp.br)
O último sábado (12) da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi marcado por um grande fluxo de pessoas e nomes da literatura contemporânea. Sediado no Distrito Anhembi, o evento causou comoção entre a comunidade leitora do país. Prova disso são os ingressos desse sábado, que esgotaram no dia 19 de agosto — quase um mês antes do evento.
Quem garantiu o ingresso a tempo ainda teve de lidar com os impactos da chuva sobre a cidade para chegar à Bienal. Segundo funcionários, o transfer gratuito oferecido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) precisou mudar de rota, a fim de evitar a Marginal Tietê, que estava sob iminência de alagamento. Assim como nos demais dias, o transfer realizou ida e volta entre a Estação Portuguesa-Tietê do Metrô (Linha 1-Azul) e a porta do evento.

Um fenômeno chamado Raphael Montes
A programação do penúltimo dia retomou a atração do primeiro dia de Bienal: o escritor Raphael Montes. Carioca, Montes ficou popular tanto por seus trabalhos literários quanto audiovisuais. A adaptação da Netflix de Bom dia, Verônica (2022)”, livro que ajudou a escrever, , o romance Dias perfeitos (2014) que virou minissérie do Globoplay e a novela Beleza Fatal (2025) da HBO Max são alguns exemplos do destaque de seu trabalho na mídia.

No stand da Companhia das Letras, editora responsável pelos livros do autor, a aparição do autor pela manhã foi o bastante para tornar a Rua D em uma das mais movimentadas da feira. Certos visitantes comentaram que desistiram de chegar até o escritor e preferem descansar para encarar o resto do dia e das filas. Durante a tarde, os dois stands da editora seguiram lotados e a prateleira com as histórias assustadoras de Montes era a mais visitada.

O mal entre nós: uma conversa entre Raphael Montes e Ana Paula Maia
A partir das 12h30, a Arena Cultural recebeu figuras relevantes da literatura sombria nacional. Além de Montes, a mesa mediada pela pesquisadora Dayhara Martins recebeu Ana Paula Maia, autora de obras como Assim na terra como embaixo da terra (Record, 2017) e Enterre seus mortos (Companhia das Letras, 2018), que virou filme em 2024. A finalista do International Booker Prize 2026 agora aposta no subgênero folk horror.
O bate-papo abordou o processo de criação dos autores e a recepção das obras pelo público. Para os autores, esse é um tipo de literatura que faz o leitor questionar os próprios limites morais e se colocar no lugar dos personagens.

Em relação a produção das obras, Ana compartilhou que escreve rapidamente, mas precisa de um tempo entre uma obra e outra. Montes disse que está acostumado a emendar um projeto no outro, e reconhece que, diferente de Ana Paula Maia, não segue a imagem introvertida que se espera de um escritor. “Desde que eu comecei eu gostava da ideia de ser popular”, apontou.
O livro e o filme de nome A Estranha na Cama — ambos de 2026 — foram os trabalhos mais divulgados pelo escritor nesse dia de Bienal. Ele se surpreendeu com desejo sexual feminino ser o tema mais polêmico que já abordou, pela visão de terceiros sobre sua obra. O autor recebe críticas quanto às situações que faz suas personagens femininas passarem e ao “choque pelo choque” em suas histórias. Sobre isso, Montes contou que realiza pesquisas e consulta especialistas durante a escrita, porém ressalta que a percepção de quem lê foge de seu controle.
“Tenho mais medo de seres humanos do que de fantasmas”
Raphael Montes
O autor relata a transformação que viu ao longo dos anos que frequenta a Bienal: antes, só escritores internacionais enchiam as plateias do evento, atualmente, por conta das redes sociais, autores nacionais como ele também são capazes dessa façanha. Para ele, “as redes sociais colocaram a literatura no cotidiano”.

Feminismos Plurais: ideias que transformam o Brasil
Djamila Ribeiro comandou a conversa entre o jurista e autor Adilson José Moreira e Carla Akotirene, que é pesquisadora e ativista dos temas de raça e gênero. Na palestra, enquanto Adilson falou sobre a edição ampliada de sua obra Racismo Recreativo (Pólen Livros, 2019), Carla, abordou seu recém-lançado livro: Amor Preto: Escrevivências sobre racismo e interseccionalidades (Editora Record, 2026). Os dois autores têm uma ligação importante com a mediadora, já que Racismo Recreativo e outro livro de Carla, o Interseccionalidade (2019), fazem parte da Coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro, publicada pelo selo Rosa dos Tempos da Editora Record.

Amor Preto é a minha oferenda de amor”, foi o que Akotirene declarou no começo da discussão. O livro busca descentralizar o amor do aspecto amoroso, reconhecendo a ação grave do filtro ocidentalizado, patriarcal e normativo na visão do amor que, para ela, é algo espiritual. Lutar contra o racismo é uma prova de amor que a escritora faz para a comunidade negra, que tem seus corpos subjugados no “mercado amoroso”.
Carla Akotirene ainda indicou a importância da análise interseccional da vivência humana no contexto racista, capitalista e patriarcal. Apontou que separar a questão racial da análise de gênero é, portanto, uma prática excludente e analisou as similaridades, em relação a vulnerabilidade social, que possui em relação a mulheres brancas e homens negros.
“Amor é tudo que a gente consegue fazer para não nos distanciarmos dos nossos”
Carla Akotirene
Na época que idealizou a primeira edição de Racismo Recreativo, em 2019, o magistrado não dava continuidade aos processos contra o racismo em forma de piada. Adilson cita que argumentos como “era só uma brincadeira” e “[o acusado] tem até amigos que são negros” eram o bastante para o descarte das denúncias. Desde seu lançamento, a obra transformou o modo de entender o preconceito no Brasil. O racismo recreativo foi criminalizado no país em 2023, um êxito social que seu trabalho político-literário ajudou a alcançar. “O sucesso desse livro é o sucesso da ancestralidade”, concluiu.

Adilson José Moreira mencionou o termo “salário psicológico da brancura”, que se trata de um reforço no senso de superioridade branca. “Não há nada acidental em piadas racistas”, apontou o escritor. Para ele, o racismo recreativo deseja obter prazer emocional ou ser um modo de manutenção de privilégio e restaurar o sensação de superioridade do agressor. O Pânico Racial gera a necessidade de reforçar que pessoas não brancas não são capazes de serem atores competentes para a sociedade.
*Imagem de capa: Grazielli Costa/ Acervo pessoal
