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DIA 09 | 28ª Bienal do Livro de SP: terror, sociologia e redes sociais atraíram o público jovem

Além da presença de Raphael Montes, os visitantes conferiram discussões sobre sexualidade feminina e racismo recreativo
Fotografia em plano médio de uma parede inteiramente coberta por uma colagem de cartazes e painéis gráficos coloridos. Os cartazes exibem frases inspiradoras e literárias em letras garrafais brancas sobre fundos de cores variadas como verde, azul, vermelho e amarelo, intercalados com o logotipo oficial da "28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo".

Grazielli Costa (grazielli.hcosta@usp.br

O último sábado (12) da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo foi marcado por um grande fluxo de pessoas e nomes da literatura contemporânea. Sediado no Distrito Anhembi, o evento causou comoção entre a comunidade leitora do país. Prova disso são os ingressos desse sábado, que esgotaram no dia 19 de agosto — quase um mês antes do evento.

Quem garantiu o ingresso a tempo ainda teve de lidar com os impactos da chuva sobre a cidade para chegar à Bienal. Segundo funcionários, o transfer gratuito oferecido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) precisou mudar de rota, a fim de evitar a Marginal Tietê, que estava sob iminência de alagamento. Assim como nos demais dias, o transfer realizou ida e volta entre a Estação Portuguesa-Tietê do Metrô (Linha 1-Azul) e a porta do evento. 

Fotografia em plano geral e ângulo levemente elevado mostrando um grande fluxo de visitantes caminhando pelos corredores de um pavilhão de exposições. Acima da multidão, destacam-se luminosos no teto com logotipos de editoras, como um cubo rosa com a sigla "JBC", além de estandes decorados com capas de livros e quadrinhos em grande formato.
O galpão que abriga o evento foi organizado em ruas, nomeadas por letras que vão de A à K [imagem: Grazielli Costa/ Acervo pessoal]

Um fenômeno chamado Raphael Montes 

A programação do penúltimo dia retomou a atração do primeiro dia de Bienal: o escritor Raphael Montes. Carioca, Montes ficou popular tanto por seus trabalhos literários quanto audiovisuais. A adaptação da Netflix de Bom dia, Verônica (2022)”, livro que ajudou a escrever, , o romance Dias perfeitos (2014) que virou minissérie do Globoplay e a novela Beleza Fatal (2025) da HBO Max são alguns exemplos do destaque de seu trabalho na mídia.

Fotografia em plano médio capturada no meio da multidão de um evento com máscaras de Raphael Montes. Em destaque ao centro, uma pessoa com a máscara do rosto do autor, onde podemos ver os detalhes de seu rosto: cabelo com entradas de calvície, óculos de armação preta e barba. Ao redor dele, diversas pessoas transitam pelo espaço, com algumas erguendo celulares para registrar o momento.
Antes do início da palestra, máscaras com o rosto de Raphael Montes foram distribuídas na platéia [imagem: Grazielli Costa/ Acervo pessoal]

No stand da Companhia das Letras, editora responsável pelos livros do autor, a aparição do autor pela manhã foi o bastante para tornar a Rua D em uma das mais movimentadas da feira. Certos visitantes comentaram que desistiram de chegar até o escritor e preferem descansar para encarar o resto do dia e das filas. Durante a tarde, os dois stands da editora seguiram lotados e a prateleira com as histórias assustadoras de Montes era a mais visitada.

Fotografia em plano detalhe de uma estante de livraria iluminada por fitas de LED amareladas, repleta de exemplares de romances do autor Raphael Montes. Na prateleira do meio, uma mão com tatuagens nos dedos e no braço alcança a capa do livro "Suicidas", posicionado ao lado de outros títulos conhecidos como "Jantar Secreto" e "Uma Família Feliz".
Jantar Secreto (Companhia das Letras, 2016) é o livro de maior sucesso de Montes, com mais de 200 mil cópias vendidas no Brasil [imagem: Grazielli Costa/ Acervo pessoal]

O mal entre nós: uma conversa entre Raphael Montes e Ana Paula Maia

A partir das 12h30, a Arena Cultural recebeu figuras relevantes da literatura sombria nacional. Além de Montes, a mesa mediada pela pesquisadora Dayhara Martins recebeu Ana Paula Maia, autora de obras como Assim na terra como embaixo da terra (Record, 2017) e Enterre seus mortos (Companhia das Letras, 2018), que virou filme em 2024. A finalista do International Booker Prize 2026 agora aposta no subgênero folk horror.

O bate-papo abordou o processo de criação dos autores e a recepção das obras pelo público. Para os autores, esse é um tipo de literatura que faz o leitor questionar os próprios limites morais e se colocar no lugar dos personagens. 

Fotografia em plano geral da plateia lotada de um auditório em uma feira literária. Ao fundo, no palco, sobressai-se um enorme telão de LED verde que exibe a transmissão ao vivo de um palestrante de óculos e camisa escura conversando com convidados no palco. Acima da estrutura do palco, banners suspensos destacam a marca "Pólen 30 anos" e a comunicação visual do evento com luzes de neon.
O filme A Estranha na Cama (2026) tem em seu elenco as atrizes Paola Oliveira e Bella Campos [imagem: Grazielli Costa/ Acervo pessoal]

Em relação a produção das obras, Ana compartilhou que escreve rapidamente, mas precisa de um tempo entre uma obra e outra. Montes disse que está acostumado a emendar um projeto no outro, e reconhece que, diferente de Ana Paula Maia, não segue a imagem introvertida que se espera de um escritor. “Desde que eu comecei eu gostava da ideia de ser popular”, apontou.

O livro e o filme de nome A Estranha na Cama — ambos de 2026 — foram os trabalhos mais divulgados pelo escritor nesse dia de Bienal. Ele se surpreendeu com desejo sexual feminino ser o tema mais polêmico que já abordou, pela visão de terceiros sobre sua obra. O autor recebe críticas quanto às situações que faz suas personagens femininas passarem e ao “choque pelo choque” em suas histórias. Sobre isso, Montes contou que realiza pesquisas e consulta especialistas durante a escrita, porém ressalta que a percepção de quem lê foge de seu controle. 

“Tenho mais medo de seres humanos do que de fantasmas”
Raphael Montes

O autor relata a transformação que viu ao longo dos anos que frequenta a Bienal: antes, só escritores internacionais enchiam as plateias do evento, atualmente, por conta das redes sociais, autores nacionais como ele também são capazes dessa façanha. Para ele, “as redes sociais colocaram a literatura no cotidiano”.

Fotografia em plano detalhe e vista superior mostrando uma pilha densa de pequenos pintinhos de pelúcia amarelos dentro de um saco plástico transparente. Cada pintinho possui um bico alaranjado e pequenos laços coloridos — em tons de rosa, roxo, vermelho com bolinhas ou azul — presos ao topo de suas cabeças por prendedores de cabelo pretos.
Durante a Bienal, os Patos Literários faziam parte do visual de muitos leitores [imagem: Grazielli Costa/ Acervo pessoal]

Feminismos Plurais: ideias que transformam o Brasil

Djamila Ribeiro comandou a conversa entre o jurista e autor Adilson José Moreira e Carla Akotirene, que é pesquisadora e ativista dos temas de raça e gênero. Na palestra, enquanto Adilson falou sobre a edição ampliada de sua obra Racismo Recreativo (Pólen Livros, 2019), Carla, abordou seu recém-lançado livro: Amor Preto: Escrevivências sobre racismo e interseccionalidades (Editora Record, 2026). Os dois autores têm uma ligação importante com a mediadora, já que Racismo Recreativo e outro livro de Carla, o Interseccionalidade (2019), fazem parte da Coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro, publicada pelo selo Rosa dos Tempos da Editora Record.

A imagem mostra a Arena Literária, um espaço que tem um grande palco com um telão de cores fortes que, no momento da foto, apresenta a logo da bienal do livro sp 2026. A platéia está localizada abaixo do palco.
A Arena Cultural é o maior palco de palestras da 28ª edição da Bienal do Livro de São Paulo [imagem: Grazielli Costa/ Acervo pessoal]

Amor Preto é a minha oferenda de amor”, foi o que Akotirene declarou no começo da discussão. O livro busca descentralizar o amor do aspecto amoroso, reconhecendo a ação grave do filtro ocidentalizado, patriarcal e normativo na visão do amor que, para ela, é algo espiritual. Lutar contra o racismo é uma prova de amor que a escritora faz para a comunidade negra, que tem seus corpos subjugados no “mercado amoroso”.

Carla Akotirene ainda indicou a importância da análise interseccional da vivência humana no contexto racista, capitalista e patriarcal. Apontou que separar a questão racial da análise de gênero é, portanto, uma prática excludente e analisou as similaridades, em relação a vulnerabilidade social, que possui em relação a mulheres brancas e homens negros.

“Amor é tudo que a gente consegue fazer para não nos distanciarmos dos nossos”
Carla Akotirene

Na época que idealizou a primeira edição de Racismo Recreativo, em 2019, o magistrado não dava continuidade aos processos contra o racismo em forma de piada. Adilson cita que argumentos como “era só uma brincadeira” e “[o acusado] tem até amigos que são negros” eram o bastante para o descarte das denúncias. Desde seu lançamento, a obra transformou o modo de entender o preconceito no Brasil. O racismo recreativo foi criminalizado no país em 2023, um êxito social que seu trabalho político-literário ajudou a alcançar. “O sucesso desse livro é o sucesso da ancestralidade”, concluiu. 

Fotografia em plano geral os palestrantes e a mediadora posando sorridentes em primeiro plano, enquanto atrás deles uma multidão de visitantes ergue os braços em sinal de celebração. O espaço amplo é decorado com grandes banners suspensos no teto referentes à "28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo" e patrocínios do evento.
Os palestrantes reconhecem o agravante que ser mulher adiciona na vivência negra [Imagem: Reprodução/Instagram/@djamilaribeiro1]

Adilson José Moreira mencionou o termo “salário psicológico da brancura”, que se trata de um reforço no senso de superioridade branca. “Não há nada acidental em piadas racistas”, apontou o escritor. Para ele, o racismo recreativo deseja obter prazer emocional ou ser um modo de manutenção de privilégio e restaurar o sensação de superioridade do agressor. O Pânico Racial gera a necessidade de reforçar que pessoas não brancas não são capazes de serem atores competentes para a sociedade.

*Imagem de capa: Grazielli Costa/ Acervo pessoal

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