Por Yuri Umemaru (yuri.umemaru@usp.br)*
No dia 27 de outubro de 1945, na cidade de Caetés, interior de Pernambuco, nasceu Luiz Inácio da Silva (PT). Sétimo filho do casal de agricultores Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello — popularmente chamada de Dona Lindu —, o menino teve uma infância difícil ao lado de sua família: viviam em uma casa feita de estuque, com apenas dois cômodos e chão de terra, sem luz, banheiro ou água encanada. A fome também foi uma presença constante nesse período de sua vida.
Conheceu o pai apenas aos cinco anos de idade. Aristides, pouco tempo antes do parto do filho Luiz Inácio, havia se mudado para o litoral de São Paulo à procura de emprego e se estabeleceu no Guarujá, cidade vizinha a Santos, onde atuou como estivador no porto. Nessa visita ao sertão pernambucano, quando conheceu Luiz Inácio, ele chegou com dois meninos, frutos de uma segunda família, e acabou retornando com Jaime — filho mais velho do casal.
Em 1952, Dona Lindu decidiu fazer o mesmo e migrou para o Guarujá para fugir da seca e da fome com os filhos. A viagem foi feita em um “pau-de-arara” e durou cerca de 13 dias. No novo endereço, Luiz Inácio viveu até os 12 anos, quando, junto com seu irmão, foi para a capital paulista. Lá, além do primeiro emprego em uma tinturaria, também serviu como engraxate. Depois, no ano de 1961, foi trabalhar na fábrica Parafusos Marte e conseguiu uma vaga no curso técnico de tornearia mecânica pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI).
Após a conclusão do curso, mudou para a Metalúrgica Independência — onde, em 1964, perdeu seu dedo mindinho. No mesmo período, com a chegada do governo militar ao poder e um período de “desorganização econômica, com desequilíbrio fiscal, inflação alta e desemprego”, ele alterna em diferentes empregos até se estabelecer nas Indústrias Villares, uma das principais metalúrgicas do país na época, localizada em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.
Sindicato dos Metalúrgicos
O jovem Luiz Inácio começou a entrar em contato com a política na nova fábrica, quando filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (SMABC) e foi eleito suplente na votação para a diretoria em 1969. A vocação para a vida pública era notável pelas pessoas em seu entorno, sendo reconhecido por colegas por ter “bom trânsito com todos”. Foi nesse momento, entre os companheiros do chão de fábrica, que ganhou o famoso apelido: Lula.
Após três anos como primeiro-secretário, foi eleito presidente do sindicato em 1975 — sem chapa opositora — e reeleito em 1978, quando passou a ganhar projeção nacional. Neste ano, o índice de inflação do Brasil estava próximo dos 40%, segundo dados do Almanaque da Folha, e os trabalhadores sofriam com o arrocho salarial — uma política de aumento de salários que era insuficiente para cobrir as perdas causadas pela inflação.
A situação fez com que o sindicato passasse a organizar greves no final da década de 1970, mesmo sendo algo expressamente proibido pela ditadura militar. A maior delas aconteceu em 1979, quando cerca de 200 mil trabalhadores participaram e forçaram a paralisação da produção das indústrias automobilísticas, de autopeças, entre outras. As empresas, pressionadas, concederam um reajuste salarial de 63%, em uma vitória para a classe trabalhadora.
“Que ninguém, nunca mais, ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores.”
Lula, durante discurso no Estádio Municipal 1º de Maio (São Bernardo do Campo)
Um ano mais tarde, no contexto de enfraquecimento do regime militar e das conquistas das chamadas “Greves do ABC”, encontros que envolviam desde operários como Lula até intelectuais de esquerda — Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido são alguns exemplos — apresentaram ao Brasil o que viria a ser o Partido dos Trabalhadores, cuja “certidão de nascimento” foi dada em 11 de fevereiro de 1982 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Foi nessa época que Lula, que incluiu o apelido em seu nome de registro, concorreu à sua primeira eleição: a de governador de São Paulo, na qual ficou em quarto lugar no pleito. Participou também como uma das principais lideranças do movimento das “Diretas Já!”, e foi eleito deputado federal no pleito de 1986 com 650 mil votos, onde integrou a assembleia que elaborou a Constituição Federal de 1988.
Presidência da República
Lula disputou as eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998 e foi derrotado em todas — para Fernando Collor de Mello (à época, filiado ao PRN) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), respectivamente. Foi somente em 2002, com 61% dos votos no segundo turno, que Lula conseguiu a vitória. Para a Folha de São Paulo, foi o primeiro governante considerado de esquerda eleito no país.
“E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de Presidente da República do meu país.”
Lula, durante discurso na cerimônia de diplomação do TSE em 2002
Seu primeiro mandato (2003-2006) foi marcado pelo lançamento de alguns programas sociais, como Bolsa Família, cujo principal objetivo era o combate à extrema pobreza; Farmácia Popular, que ampliou o acesso gratuito a medicamentos essenciais; e Luz Para Todos, lançado para acabar com a exclusão elétrica no meio rural. No plano econômico, manteve algumas políticas da gestão anterior — como o tripé macroeconômico — para dar segurança aos investidores, e conseguiu um período de bons números graças ao “boom das commodities”.
Entretanto, crises também ocorreram, como o “Escândalo do Mensalão”. Revelado em 2005 durante uma entrevista à Folha pelo então deputado federal Roberto Jefferson (à época, filiado ao PTB), tratava-se de um esquema de pagamento de propina a parlamentares para que apoiassem pautas do governo. Entre os acusados de participar do processo, estava o chefe da Casa Civil à época, José Dirceu (PT). O presidente Lula negou saber de qualquer coisa a respeito e, após as investigações, não foi denunciado criminalmente. Já Dirceu e outros 23 réus foram condenados.
Reeleito com 60,83% dos votos no segundo turno da disputa de 2006, o segundo mandato de Lula (2007-2010) teve novos programas federais, como o Minha Casa, Minha Vida, criado para facilitar a compra de um imóvel por famílias de baixa e média renda, e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Este último tinha como meta a retomada de investimentos em infraestrutura pelo governo e, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), tornou o gasto público o principal motor de crescimento da economia brasileira.
O PAC teve como uma de suas figuras de coordenação a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT) — que foi, inclusive, chamada de “mãe do PAC”. O apelido foi utilizado em massa na campanha presidencial de 2010, em que Dilma foi eleita. Lula deixou o cargo no mesmo ano, com aprovação de 83%, segundo números do Datafolha, além de taxa de desemprego em 6,7%, média anual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 4% e inflação em 5,91%.
Operação Lava-Jato
Com os desdobramentos da Operação Lava Jato, uma investigação iniciada em 2014 contra um esquema de corrupção na Petrobras, a pós-presidência de Lula foi turbulenta. Ele passou a ser investigado pelo então juiz federal do Paraná, Sergio Moro (hoje, senador filiado ao PL), em março de 2016, após denúncias de que havia recebido repasses milionários e um triplex no Guarujá como propina em troca de vantagens à empreiteira OAS em contratos com a Petrobras. Ainda no final daquele ano, uma segunda denúncia pelo Ministério Público ocorreu, com a acusação de que Lula teria ganhado um apartamento da Odebrecht — empresa investigada por liderar um esquema de corrupção.
Em 12 de julho de 2017, Moro condenou Lula em 1ª Instância a nove anos e seis meses de prisão no caso do triplex pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Mais tarde, uma nova denúncia: o então ex-presidente foi acusado de ter um sítio em Atibaia, que teria passado por reformas bancadas pela Odebrecht e OAS como pagamento de propina.
No começo de 2018, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região de Porto Alegre manteve a decisão de Moro e aumentou a pena para 12 anos e um mês, com início em regime fechado. Em 5 de abril, o mandado de prisão foi expedido após uma negativa de habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e Lula, dois dias depois, foi levado preso para a sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Posteriormente, também houve sua condenação pelo caso do sítio pela juíza Gabriela Hardt. Sergio Moro deixou a Lava Jato para se tornar Ministro da Justiça no governo de Jair Bolsonaro (PL), eleito em 2018.
Retorno à Presidência
Lula ficou 580 dias preso, até 8 de novembro de 2019 — um dia após o STF decidir que réus só podem ser presos após o trânsito em julgado e esgotamento de todos os recursos jurídicos. Assim que saiu, fez um primeiro discurso para militantes presentes no local: “Saio daqui sem ódio. Aos 74 anos, meu coração só tem espaço para o amor, porque o amor vencerá nesse país”.
“Eles têm que saber que o nordestino que nasceu em Garanhuns, que passou fome e veio para São Paulo e não morreu de fome até os 74 anos de idade, não tem nada que lhe vença.”
Lula em seu pronunciamento após a saída da prisão
Em 2021, o ministro Edson Fachin anulou todas as condenações da Lava Jato relacionadas a Lula por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos. A corte também considerou Moro suspeito/parcial para atuar como juiz no caso do triplex. Por isso, o ex-presidente recuperou seus direitos políticos e, por não ter mais nenhuma sentença válida contra si, voltou a exercer a presunção de inocência.
Com a chegada das eleições de 2022, ele foi o candidato escolhido pelo PT para a disputa contra Jair Bolsonaro, que vinha apresentando falas consideradas de tom golpistas e cujo governo sofreu diversas críticas na condução da pandemia de Covid-19. Com uma coligação que reuniu nove partidos, Lula teve Geraldo Alckmin (PSB), um dos fundadores do PSDB, como candidato à vice-presidência. A chapa buscou um discurso de “frente ampla” e obteve apoios expressivos ao decorrer do processo, incluindo de Simone Tebet (à época, do MDB; atualmente filiada ao PSB), também candidata ao Planalto que ficou em terceiro lugar no primeiro turno.
Lula venceu no segundo turno com 50,9% dos votos contra os 49,1% de Bolsonaro. “De todas as vitórias que eu tive, essa é a vitória mais consagradora, porque derrotamos o autoritarismo e o fascismo”, afirmou em seu discurso ainda na noite do segundo turno, quando também enfatizou que “não existem dois ‘Brasis’; somos um único país, um único povo, uma grande nação”.
Seu terceiro mandato iniciou em janeiro de 2023, mês em que, no dia oito, aconteceu a invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília, por apoiadores radicais de Jair Bolsonaro inconformados com a derrota. Mais de 1,4 mil pessoas foram presas e, mais tarde, com o andamento das investigações e a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) de que havia um grupo coordenador para tentar impedir a posse de Lula, o ex-presidente Bolsonaro e outros sete réus foram condenados por tentativa de golpe de Estado.
Com o slogan “União e Reconstrução”, no início da gestão, e “Do lado do povo brasileiro”, após as tarifas do presidente norte-americano Donald Trump, o atual governo emplacou marcas. Junto da saída do Mapa da Fome, da aprovação da Reforma Tributária e da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, além da queda nos alertas de desmatamento, a economia tem apresentado dados positivos. A média do PIB foi de 2,85% ao ano entre 2024 e 2025 e o desemprego atingiu 5,4% no trimestre encerrado em junho deste ano — menor número da série histórica.
Porém, há também críticas ao cenário econômico por parte de alguns segmentos, principalmente em relação às contas públicas. De acordo com números oficiais, foi registrado um déficit primário — crescimento de despesas maior do que receitas — de R$ 55,021 bilhões no ano passado. O patamar ocorreu mesmo diante da estimativa do Tesouro Nacional de que a carga tributária tenha atingido seu maior valor.
Ao mesmo tempo, ocorreu um aumento da inflação de itens essenciais, como alimentos e gastos de saúde, em ritmo maior do que a inflação geral. Isso traz desvalorização do poder de compra, o que ofusca a percepção do recorde de rendimento. Segundo pesquisa do BTG/Nexus de abril de 2026, esse cenário, aliado à polarização e à avaliação negativa, dificulta a reeleição de Lula — nesta, que é sua oitava (e provavelmente última) eleição presidencial.
“Essa eleição serve para definir o que faremos do ponto de vista das coisas que ainda não realizamos. Minha quarta presidência é para mudar muita coisa.”
Lula, durante discurso na convenção partidária do PT em agosto de 2026
[Imagem de capa: Ricardo Stuckert/PR]
*Esta reportagem foi produzida pelo repórter Yuri Umemaru sob a supervisão da diretora de redação Gabriela César.





