Por João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br)
Lançado em 1971, o quarto disco da cantora canadense Joni Mitchell, Blue, é citado por diversas revistas e críticos como um dos melhores álbuns já feitos. Todas as letras são composições solo de Joni, junto ao seu dulcimer, um instrumento medieval, usado na maioria das faixas. O cenário de suas aventuras é pintado com cores vivas e traços suaves, que compõem um universo vasto em que o amor é um objeto de estudo explorado por uma protagonista esperançosa e ao mesmo tempo melancólica, que explora o mundo com suas feridas ainda abertas.
“Eu meio que transformei isso no trabalho da minha vida. Descobrir o que era o amor e analisar a minha capacidade de amar, com esperanças de que, se eu fosse capaz de amar, o amor viria até mim.”
Joni Mitchell, compositora e cantora
Uma boa parte do álbum foi escrita sobre a perspectiva de uma apaixonada que anda pelo mundo com o coração partido. A faixa de abertura All I Want tem uma letra melancólica e romântica, em que Joni expressa a sua vontade de se sentir novamente pertencente aos vivos, de cantar, de se divertir e de dançar após o fim de um relacionamento conturbado. A cantora chama o seu parceiro para uma dança, o questiona sobre o futuro do seu amor, e, por fim, inicia a última estrofe do mesmo jeito que começou a música, dizendo que está trilhando um caminho solitário e está viajando, e viajando…
A primeira música apresenta temas que são aprofundados mais tarde em outras faixas. Joni mostra seu interesse em desenvolver o melhor entre ela e seu amado, algo explorado logo na trama seguinte, My Old Man. A música também explora as inseguranças e medos de se apaixonar e de se entregar, um assunto abordado deste momento até a faixa final, The Last Time I Saw Richard. Mas há um tópico inexplorado em qualquer uma dessas músicas, que é um tema central da vida da cantora e assunto da canção Little Green, a única escrita antes de 1969, que aborda a maternidade “secreta” da cantora.
A filha perdida
Quando Joni estava na faculdade, engravidou e deu à luz a uma menina, e, aos oito meses, decidiu encaminhá-la para adoção. “O escândalo era muito intenso. Uma filha não poderia ser nada além de algo desgraçado, te arruinaria no sentido social. Você não tem ideia como era o estigma, era como se você tivesse matado alguém”, afirmou a cantora, em entrevista ao Los Angeles Times. Em Little Green, ela narra esse momento “Born with the moon in cancer/ choose her a name she will answer to” (“Nascida com a lua em câncer/ escolha um nome pelo qual ela irá responder”, em tradução livre)
Em 1965, quando teve Kilauren Gibb — nomeada Kelly Dale por Joni, e depois renomeada por seus pais adotivos — ela não teve apoio do pai da bebê, nem de seus próprios pais. Na canção, ela se descreve como uma “criança com uma criança”, e insinua que era muito nova quando a teve — 22 anos, à época. Além da falta de suporte familiar, a cantora também não tinha dinheiro, e não conseguia pagar nem a sua entrada no comitê de artistas, para dar um pontapé em sua carreira.
Anos depois, uma colega de quarto dos tempos da faculdade contou o caso para um tabloide britânico, expondo o segredo de Joni. Segundo a artista, ela se sentiu traída, mas estava finalmente “limpa” e livre disso, e poderia ir atrás do paradeiro da filha, que foi encontrada com ajuda de fãs. “O reencontro foi um grande alívio para mim, me fez sentir completa”, segundo Kilauren, que disse que Joni pediu desculpas por ter a colocado para adoção.
“Então você assina os papéis
No nome da família
Você está triste e arrependida
Mas você não está envergonhada
Pequena Verde
Tenha um final feliz”
Trecho de Little Green, de Joni Mitchell
Califórnia, Paris e outras histórias de viagem
Após um término conturbado com o músico Graham Nash, Joni decidiu buscar a sua própria independência. Assim, partiu para a Europa no final de 1969, o que inspirou diversas músicas do Blue, como California e Carey. Na primeira, é perceptível a atmosfera do mediterrâneo logo nas palavras iniciais da música, quando ela canta “The wind is in from Africa/ Last night, I couldn’t sleep” (“O vento está vindo da África/ Na noite passada, eu não consegui dormir”). Essa é uma característica clássica da escrita confessional de Joni: mostre, não fale. A cantora costuma descrever cenas de forma a fazer com que o ouvinte se sinta parte da história, mesmo sem nunca ter pisado em seus cenários.
Carey, segundo Joni, foi escrita sobre um homem de cabelo vermelho e grande apetite por vinhos, o qual conheceu quando estava em Matala, uma vila hippie em Creta, Grécia. A narrativa da canção traz um ar fresco sobre um álbum majoritariamente triste. É possível sentir a felicidade de Joni cantando os versos sobre “brindar à toa” no Café da Sereia, sobre pedir novas rodadas de bebida para os amigos e para o “bright red devil” (“demônio vermelho-claro”) que a mantém nessa cidade turística, na qual rock n’ roll é tocado sob a lua cheia e restaurantes são explodidos por ruivos hippies.
É perceptível que a nossa narradora ainda sente saudades de sua casa durante essa jornada. California é uma carta de amor ao estado americano, escrita em Paris, enquanto ela lê um jornal com notícias sobre a guerra e reflete sobre as terras que ainda irá conhecer. Ela comenta sobre um ruivo de uma ilha grega que a fez recuperar o seu sorriso, e que talvez a fizesse ficar por lá mesmo, mas o seu coração não parava de clamar por sua casa. A música ainda vai além na viagem de Joni: mostra que ela foi para a Espanha e lá continuou com saudades de seu país.
Colocada entre essas duas músicas, está o coração do álbum, a faixa-título, Blue. Os lugares descritos por ela em Creta reaparecem aqui, mas, desta vez, a escritora reflete sobre o seu antigo relacionamento que deixou para trás antes de ir à Europa. As imagens pintadas são facilmente reconhecidas, sem necessidade de repetir descrições sobre a sua localização. O mesmo lugar em que ela observava o mar com sua amiga ao conhecer Cary Raditz, o cozinheiro ruivo e o seu romance de verão, é agora um cenário de reflexão.
A faixa seguinte, This Flight Tonight, tem a produção mais dinâmica do álbum. Guitarras elétricas e distorções vocais narram a chegada de Joni à Califórnia após a sua longa viagem. A narrativa da cantora atinge um novo pico nesta parte final do disco, quando ela consegue descrever o cenário do avião descendo e toda a angústia e medo que ela sente ao pousar em sua casa. Joni termina em um verso pouco otimista: “I shouldn’t have got on this flight tonight” (“Eu não deveria ter pegado esse vôo nesta noite”).
A última vez que vi Joni
River se inicia com um piano que incorpora uma melodia natalina, que faz parte do cenário da música. Nesta faixa, Joni reflete sobre seu relacionamento fracassado e se culpa pelo fim, dizendo que é egoísta e difícil de lidar e, por isso, perdeu o melhor homem que já teve. Além dos pensamentos amorosos, a compositora lamenta a falta de neve no estado da Califórnia, e clama por um dia em que terá dinheiro o suficiente para abandonar essa vida e voltar para seu país, o Canadá.
O fato de Joni não se adaptar a essa vida de holofotes parece ser um dos principais motivos de seu término. Mesmo com saudade de seu Old Man (“companheiro”), e dizendo que ela o amou muito, a cantora escreve majoritariamente sobre fuga e escapismo. Ela deseja ter um rio em que ela possa patinar e voar.
A penúltima música, A Case of You, é uma das mais conhecidas do disco. A melodia do dulcimer nunca soou tão bem como nessa faixa. A saudade de sua terra canadense ainda está presente nos primeiros versos da canção, em que ela desenha o mapa de seu país e imagina-se nele com o seu ex amado.
A composição é recheada de metáforas e referências. No início, pouco antes do fim do relacionamento, o seu então namorado cita uma frase da peça shakespeariana Júlio César (1599), dizendo que Joni é “constante como uma estrela do norte”. Uma referência utilizada, também, na música This Flight Tonight, em que ela narra o momento em que avista uma estrela cadente no céu de Las Vegas, e afirma não ser aquela que seu namorado havia “lhe dado”.
Joni se compara com uma outra forma de fazer arte, diz ser uma “pintora solitária” que vive numa caixa de pinturas e é desafiada pelo diabo. Na letra original, ela afirma que é “drawn to those ones that ain’t afraid” (“atraída por aqueles que não têm medo”). A palavra drawn é usada como um trocadilho da língua, pois sua similaridade com o verbo desenhar (draw) cria uma ligação com a pintura citada anteriormente.
Nos próximos versos, a cantora relembra o seu amado dizendo que “o amor é tocar almas”. Logo em seguida, ela diz que ele claramente tocou a dela, pois “part of you pours out of me from these lines from time to time” (“parte de você escorre de mim nessas linhas de tempo em tempo).
Talvez a missão de Joni Mitchell em Blue — e de muitas cantoras e compositoras que retratam suas vidas em letras — possa ser contemplada por esses últimos versos. Seu ex amado foi uma força muito presente em sua vida e, ao escrever, parece ser natural a forma na qual as suas histórias, seus momentos juntos, as coisas que disseram e os lugares nos quais foram são refletidos em sua escrita, como se jorrasse dela para o papel.
A faixa final, The Last Time I Saw Richard, é um confronto direto de Joni com um tipo de pessoa a qual tem medo de se tornar. Ela encontra Richard pela última vez em um bar, onde ele diz a marcante frase “todos os românticos encontram o mesmo destino algum dia”. Ele afirma que Joni gosta de homens que lhe trazem flores e contam mentiras bonitas, e ela o rebate, dizendo que ele não mudou desde a última vez que se viram, mas hoje em dia está romantizando a dor.
Na segunda parte da canção, Joni relata sua raiva com a tamanha arrogância de Richard, e também com o fato dele ter se casado com uma mulher mediana e viver uma vida medíocre na frente da televisão. Logo nos versos finais, Joni mostra seu medo de se tornar vazia e sozinha como Richard, parado em cafeterias escuras. No fim, ela toma uma postura de não se deixar render fácil a esse destino e cria esperanças de que os dias escuros possam ser somente uma fase.
Blue encontrou bem o público pois veio de uma narradora aberta às experiências da vida, aos erros do amor e às belezas de se entregar para novas situações. Joni percorreu parte da Europa para a escrita do disco, reviveu momentos sombrios de seu passado e mostrou suas feridas abertas aos ouvintes, que se identificaram com a fragilidade da experiência humana descrita em suas letras e que continuam escutando as aventuras de uma viajante em sua lonely road (“estrada solitária”).
“O álbum Blue tem poucas notas desonestas nos vocais. Naquele período da minha vida, eu não tinha defesas pessoais. Sentia não ter nenhum segredo com o mundo, e não poderia fingir estar feliz ou forte”
Joni Mitchell, compositora e cantora



