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‘A Palavra que Resta’: decifra-me ou devoro-te

No romance de Stênio Gardel, Raimundo tem seu amor interrompido, e o que lhe resta é uma carta cujas palavras ele não sabe ler. A obra inédita é um manifesto sobre amor e educação no Brasil contemporâneo.

Na Estante
16 jun 2021 | Por Luisa Costa (luisa.mc@usp.br)

Uma carta guardada a vida inteira. O envelope dobrado e desdobrado um punhado de vezes, mantido sempre por perto, no bolso do casaco ou na caixa debaixo da cama. Uma carta nunca lida. Ali estão as últimas palavras de um amor brutalmente interrompido na juventude, que atormentam o analfabeto Raimundo. Decifra-me ou devoro-te.

A Palavra que Resta (2021) é mesmo um livro para se devorar. O romance de estreia do cearense Stênio Gardel conta a história de Raimundo, cuja trajetória de desencontros e descobertas evidencia o impacto do amor, a potência das palavras e a angústia da falta e da distância.

Raimundo e Cícero dividem aventuras desde a infância e percebem que entre eles há mais que um amor amigo. Há desejo, que transborda os olhares e aproxima os corpos. E mesmo a completude dessa união não é capaz de resolver aquilo que, inevitavelmente, sempre vem à cabeça dos jovens: aos olhos de todos ao seu redor, esta não era a forma certa do amor.

Eles são flagrados. Descobertos por suas famílias, são repreendidos com violência. Como se o amor fosse algo a se corrigir, os pais agridem os filhos com medo de que, no futuro, o mundo o faça. Dessa cruel ironia – que infelizmente parece atemporal – só restam medo, vergonha e vários desencontros.

Os jovens são separados, e Raimundo se vê obrigado a ir embora de casa. Sem conseguir se encontrar com Cícero antes de partir, só recebe uma carta dele, por intermédio de sua irmã.

A Palavra que Resta: imagem em preto e branco do rosto do escritor Stênio Gardel, com óculos.

O escritor cearense Stênio Gardel recebeu muitas críticas positivas sobre seu livro de estreia. [Imagem: Reprodução/Twitter/Companhia das Letras]

“Tu quer aprender a ler e escrever? Te ensino.” Cícero prometia a Raimundo, mas não deu tempo. E o que restou ao analfabeto foram as respostas para sua vida escritas em uma carta indecifrável. 

Você que está lendo pode imaginar? Raimundo não pôde frequentar a escola, e o mundo das letras ficou inacessível para o personagem – como é para tantos brasileiros. O analfabetismo, com seu profundo impacto, impediu também a resolução do amor de sua juventude. Para Raimundo, eram palavras impossíveis de ler, e respostas para questões impossíveis de lidar.

A partir do amor interrompido e da fuga de tudo e de si mesmo, Raimundo passa a vida perambulando de lugar em lugar, tentando se encaixar nos moldes que a sociedade impõe. Mas ele nunca tem sucesso. Sempre a falta de Cícero. Sempre a vergonha, o medo da perseguição e as feridas que não cicatrizavam.     

As palavras que restam na carta são uma espécie de protagonista e uma angústia que acompanha Raimundo até sua velhice. O que Cícero teria escrito? Ele sabia que Raimundo não deixaria que ninguém desvendasse aquelas letras para ele? Estava ali uma declaração de amor, um convite para a fuga?

Aquelas palavras eram um mistério a que Raimundo se agarrava e resistia a resolver. Não só por desconhecer o bê-á-bá, mas porque como ele ficaria, depois de tanto tempo – e cada vez mais tempo –, ao descobrir como sua vida poderia ter sido? 

Após muitos anos, Raimundo passa a frequentar a escola e aprende a ler. Desvendar cada palavra traz um mundo de possibilidades. Mas revisitar o passado e resolver de vez questões tão sensíveis ainda exige muita coragem. 

A Palavra que Resta traz histórias impactantes que carregam elementos relacionados à própria biografia do autor, nordestino e homossexual. A transcrição do dialeto nordestino e o analfabetismo são alguns exemplos – Stênio afirma que uma das origens da narrativa foi sua experiência lidando com pessoas analfabetas no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará, onde trabalha. 

É um livro para ser lido em voz alta e com o coração atento. É para se pensar na potência da palavra e desejar construir um mundo em que o amor não seja forçosamente interrompido e submetido a distâncias, mas sempre celebrado.

*Imagem de capa: Luisa Costa

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