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Constelações indígenas: ciência e cultura desenhadas nas estrelas

Os indígenas brasileiros conhecem muito sobre o céu e, a partir dele, podem nos ensinar sobre astronomia, mitologia e sobre nós mesmos

Galáxia
22 mar 2022 | Por Diogo Leite (diogoleite@usp.br)

Os povos indígenas brasileiros possuem um conhecimento milenar sobre astronomia. Por meio da observação do céu, eles são capazes de se orientar no tempo e no espaço, e, espelhando nas suas constelações o que veem na vida terrestre, eles contam suas histórias e se encontram com suas crenças. Entender essa astronomia é conhecer nossa cultura e ancestralidade.

 

Por que existem constelações?

“As constelações são como um Sol à noite”, diz o astrônomo Germano Bruno Afonso, referência na pesquisa de astronomia indígena no Brasil e professor do Centro Universitário Internacional (Uninter). O pesquisador diz isso porque o Sol, devido à rotação e à translação da Terra, aparece em diferentes posições no céu ao longo do dia e do ano. Observando sua localização no céu, é possível se orientar no espaço e no tempo. É assim para os povos indígenas. “Saindo para pescar, para caçar ou mesmo para se dirigir à cidade ou voltar para casa, as pessoas se orientam pelo caminho do Sol”, afirma Priscila Faulhaber, antropóloga e pesquisadora do Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST). 

Mas, à noite, é preciso um “outro Sol” para nos orientar, e as constelações são úteis nesse sentido. Isso porque, como explica o astrônomo, o movimento da Terra também faz com que vejamos estrelas diferentes em épocas diferentes, e agrupar as estrelas em constelações, para poder identificá-las, serve para orientação da mesma forma que a observação do Sol. “Muitas civilizações conseguem viajar à noite se guiando a partir das constelações, além de reconhecer a passagem do tempo e em que estação do ano estão, por exemplo, só olhando as posições das estrelas”, completa.

 

A arapuca de Monte Alto: uma história da astronomia indígena

Germano conta a história de um alinhamento de 365 pedras encontrado em Palmas de Monte Alto, município no sudoeste da Bahia. Elas formam um desenho semelhante a uma arapuca, cuja haste aponta para o local onde nascem as Plêiades.

As Plêiades nada mais são do que um conjunto de estrelas bem próximas umas das outras (do nosso ponto de vista aqui na Terra). O conjunto é astronomicamente classificado como um aglomerado aberto, que fica na chamada constelação de Touro – famosa na astrologia por determinar o signo dos nascidos entre abril e maio.

Para alguns indígenas, no entanto, as Plêiades provavelmente marcavam o início do ano. Como explica o professor Germano, observando o nascer helíaco das plêiades – seu surgimento no horizonte logo antes do nascer do Sol –, é possível demarcar um primeiro dia para um calendário de 365 dias. Apesar de não existirem registros que comprovem que os indígenas utilizavam esse método, a hipótese é reforçada pelo fato de serem utilizadas 365 pedras no monumento e pela semelhança com o método egípcio de demarcação do início do ano (o nascer helíaco da estrela Sirius, a mais brilhante do céu). “Eu não estou dizendo que eles faziam assim, mas que é possível calcular o primeiro dia do ano por esse método que eu aprendi estudando a astronomia indígena”, diz Germano.

E quanto ao formato de arapuca? “Eu mostrei a imagem do alinhamento a pajés guaranis no Paraná, e eles falaram que o formato é da ‘constelação da arapuca’. Então, eles mostraram que uma parte corresponde ao grande quadrado de Pégaso e há uma espécie de pequeno barbante que aponta para as Plêiades”, conta o astrônomo. O grande quadrado de Pégaso é uma formação importante na astronomia ocidental, ao contrário da constelação da arapuca – que, no entanto, é mais fácil de observar no céu.

 

Representação da Constelação da Arapuca

A Constelação da Arapuca, representada artisticamente na imagem, é uma importante constelação de etnias Guarani. [Imagem: Diogo Leite]

 

Olhar para as constelações

E observar o céu é muito importante na astronomia indígena. “O que a gente conhece mais, na astronomia ocidental, são as constelações zodiacais, dos signos da astrologia”, afirma Germano. Ele explica que antigamente se fez um mapa a partir das posições do Sol ao longo do ano, dividindo seu caminho em 12 partes iguais – essas partes são as constelações zodiacais. 

“Se você olhar de noite para o céu, não vai ver essa linha que é o caminho do Sol. Ela é imaginária, como a linha do Equador. Mas, se não estiver chovendo, você pode enxergar uma outra faixa, e se surpreenderá: ‘O que é aquela marca que tem lá no céu que parece nuvem?’. É o cinturão da Via Láctea, nossa galáxia. É nessa faixa que os índios encontravam todas as principais constelações deles,” explica Germano.

 

A terra no céu

Conhecida por muitas populações indígenas como o “caminho da anta” (em alusão a uma constelação que se parece com esse animal), a Via Láctea, justamente por ser fácil de se observar, é o lugar de outras constelações importantes, como a da Ema e a do Homem Velho. Essa última traz consigo uma história interessante: um homem velho teria se casado com uma indígena bem mais jovem, que acaba se apaixonando pelo irmão caçula de seu marido. Para concretizar esse amor, ela tenta matar o homem velho cortando sua perna. Os deuses, comovidos com a história, teriam colocado o homem no céu, onde o vemos com a perna cortada na altura da estrela Betelgeuse – uma supergigante vermelha cuja cor remete ao sangue do indígena.

 

Fotomontagem com Constelação da Anta, Constelação da Ema e Constelação do Homem Velho

Da esquerda para a direita: a Constelação da Anta, a Constelação da Ema e a Constelação do Homem Velho, importantes constelações indígenas avistadas no cinturão da Via Láctea. [Imagem: Reprodução/Stellarium]

 

Outra simbologia interessante é a das constelações da Onça e do Tamanduá, que fazem parte da astronomia do povo Tikuna, o mais numeroso povo indígena da Amazônia brasileira. Priscila, que estuda a astronomia Tikuna desde os anos 1990, afirma: “No começo da estiagem, a Onça é vista acima do Tamanduá. No final, o Tamanduá está em cima da Onça. Isso significa, para o povo Tikuna, que a inteligência vence a força”.

 

Constelações Tikuna da Onça e do Tamanduá

As constelações Tikuna da Onça e do Tamanduá [Imagem: Diogo Leite]

 

Além de refletirem histórias e ensinamentos, outra característica marca as constelações indígenas: elas representam elementos do cotidiano desses povos. Como afirma Germano Afonso, para os indígenas tudo o que existe na terra, existe no céu. Ele conta que, em aldeias onde já realizou suas pesquisas, lhe foram apresentadas mais de 88 constelações, que é o número de constelações que conhecemos na astronomia ocidental. 

“Às vezes você pergunta: ‘tem constelação do jabuti?’ ‘Tem.’ ‘ E onde que está?’ E aí eles te mostram. ‘E da cigarra?’ E aí tem também. Então, quase qualquer animal ou planta tem uma constelação, e eles [indígenas] te mostram e parece, de fato. E a maioria dessas constelações está na Via Láctea”, conta Germano. Assim, o céu indígena mostra a fauna e a flora brasileiras, com desenhos que nos parecem bem mais óbvios do que os leões e centauros das constelações da astronomia ocidental.

Essa forte ligação com a observação do céu e com aspectos do cotidiano na astronomia indígena é muito atrelada à sua relação com as práticas do dia a dia desses povos. Como aponta Priscila, a observação serve para entender como o tempo e o clima vão afetar a sobrevivência, além de orientar práticas rituais. “Os Tikuna dizem que observam a lua e os astros que estão ao seu redor para saber qual o melhor momento para realizar a festa da moça nova [celebração ligada à menarca de jovens da aldeia]”, explica a antropóloga.

 

A astronomia indígena é sobre todos nós

Mas essas características também fazem da observação do céu algo importante para a sociedade como um todo. Germano explica que, em suas aulas para mestrandos em educação, que preparam professores da educação básica, ele ensina muito sobre a etnoastronomia – área que estuda a astronomia de diferentes etnias, como as indígenas. Isso porque a observação, tão importante para os povos indígenas, é um ótimo método de ensino. “Você pode achar até interessante ouvir sobre astronomia, mas quando você vê no céu, especialmente quem está iniciando suas observações, é maravilhoso. É um método de ensino muito bom”, afirma o professor. “Isso não quer dizer que a pessoa vai ser astrônoma, mas vai se interessar pela astronomia. E isso serve também para áreas como biologia, química, geografia e muitas outras”, completa.

Além disso, como Germano destaca, aprender astronomia indígena é conhecer a nossa própria cultura e ancestralidade, pois todos nós brasileiros somos descendentes desses povos. Ele cita a Lei nº 11645, de 2008, que incluiu no currículo do ensino brasileiro a temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. “Tem cientistas mais ortodoxos que questionam o ensino de uma disciplina de história e cultura indígena, em vez de matemática ou física. Mas aí é que está o erro: não é uma disciplina. Um biólogo, por exemplo, pode falar de etnobiologia em suas aulas: tem muitas plantas cujo nome é indígena, por exemplo”, afirma o professor. “Isso vale para geólogos, biólogos, historiadores da arte, linguistas, para todos os cientistas. A lei quer que pelo menos um pouco daquilo que você fala se refira à nossa própria cultura. E o que isso te traz? Mais conhecimentos, porque muito do que sabemos provém de conhecimentos indígenas”, afirma.

“Antropologicamente, deve-se colocar sob suspeita a ideia de que a ciência moderna – ou a chamada astronomia ocidental – seja a única universalmente válida. Sem descartar a relevância das revoluções científicas, quando se fala no diálogo entre culturas, sempre haverá coexistência de paradigmas e a correlação entre diferentes formas de conhecimento”, ressalta Priscila. A desconstrução dessa hegemonia da astronomia ocidental no ensino pode ser positiva em muitos níveis, especialmente em um momento em que o preconceito contra indígenas ganha força no país. Como afirma Germano Afonso, “[Quando] você começa a contar essas histórias das constelações indígenas, o estudante começa a se encantar por isso e vê que o indígena não é um ignorante como afirmam alguns estereótipos”.

Infelizmente, muitas vezes, mesmo dentro da academia, a etnoastronomia é menosprezada. “Eu sou astrônomo formal, cursei física, ciências geodésicas e tenho doutorado em astronomia ocidental. Quando faço um artigo sobre astronomia ocidental, sou referenciado no Brasil e em outros países. Mas se eu publico sobre astronomia indígena, praticamente não tem visualização nenhuma”, relata Germano.

No entanto, o trabalho de pesquisadores como Germano, Priscila e tantos outros tem facilitado cada vez mais nosso contato com os saberes indígenas. A antropóloga participou recentemente da produção de um vídeo sobre a cosmovisão dos Tikuna, com depoimentos dos próprios indígenas e de outros pesquisadores. Há alguns anos, Germano também participou de um documentário sobre o céu Tupi Guarani

E graças ao trabalho de vários pesquisadores, por meio do software de código aberto Stellarium é possível ter acesso gratuito a uma visualização detalhada das constelações Tupi Guarani – algumas das quais foram mencionadas aqui – e Tukano – povo que habita o noroeste da Amazônia –, além de informações sobre a simbologia por trás dessas astronomias.

Se a astronomia indígena não chega até nós, podemos ir até ela e aprender um pouco mais sobre o céu e sobre nós mesmos.

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