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Das telas para o mundo real: a ciência nos filmes de super heróis

Seres humanos fantásticos podem não existir fora da ficção, mas não se pode dizer o mesmo sobre alguns elementos de seus universos cinematográficos

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09 jun 2021 | Por Beatriz Sardinha (biagsardinha@usp.br) e Rebeca Alencar (rebs.alencar@usp.br)

Como o nome do gênero sugere, há muitos elementos inverídicos na ficção científica. Mas há também aquilo que é conhecido em nossa realidade e que é capaz de explicar as coisas mirabolantes de roteiros de filmes blockbusterSe desde a infância você ficava admirado com automóveis extraordinários, super poderes e uma transformação física mais impressionante que a outra nos filmes de herói, com certeza em algum momento se perguntou: “O que é real? E o que não é?”.

Com o passar do tempo, é certo que deve ter concluído que boa parte do universo dos super heróis não passa de mera fantasia. Mas e se você descobrisse algumas coisas podem ser reais? Nesta matéria do Laboratório você irá viajar pelo universo cinematográfico desses seres fantásticos e descobrirá que ele também possui semelhanças com a realidade.

 

O Incrível Hulk e a radiação no corpo humano

Quem nunca ouviu falar do grande monstro verde que se transforma em momentos de fúria? Antes de tudo, não se engane: Hulk não é mal. Na verdade, é um dos super heróis mais queridos da Marvel.

Criado em 1962 por Stan Lee, “Hulk” é o alter-ego do cientista Dr. Bruce Banner. Durante testes para a formulação de uma bomba nuclear de alta energia, uma criança invade o laboratório e fica exposta à radioatividade. Na tentativa de salvá-la, Bruce não esperava que seria atingido por ondas de radiação gama, que o transformaram em um super herói.

O incrível Hulk

O cientista Bruce Banner se transforma no incrível Hulk em momentos de fúria [Imagem: Divulgação/Marvel Studios]

 

Enquanto na ficção a radiação foi a responsável por transformar Bruce Banner no Incrível Hulk, no mundo real a principal consequência seria a ocorrência de mutações em seu DNA, como explica Ricardo De Marco, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo em São Carlos (IFSC-USP). Nesse caso, segundo De Marco, a alteração provavelmente afetaria negativamente a sobrevivência do indivíduo.

Os aminoácidos são componentes do código genético e se combinam de forma variada, resultando em proteínas. O professor explica o impacto da modificação de informações do DNA: “Na mutação de um aminoácido a proteína irá mudar e pode deixar de cumprir sua função corretamente. Assim, surgem alguns problemas. Não é por acaso que o excesso de mutações causa câncer, porque existem sistemas no nosso corpo que o previne”. 

Um dos sistemas aos quais De Marco se refere é o imunológico. Ele afirma que quando uma célula não está funcionando corretamente ou se multiplicando mais do que o ideal, ela pode se autodestruir ou o sistema imunológico é encarregado para fazer isso. “Em muitos casos, quando acontecem as mutações e alguns sistemas são afetados, as células deixam de reconhecer seu mau funcionamento e mandar sinais ao sistema imune”, completa.

O professor afirma ainda que, para as mutações da radiação serem favoráveis ao desenvolvimento de um organismo fora dos padrões físicos como o do super herói verde, todas as células do corpo humano deveriam ser modificadas igualmente. Considerando que existem trilhões de células em nosso corpo, De Marco aponta essa possibilidade como inviável. Modificar uma única célula contando com a sua multiplicação em meio ao organismo também não é cogitável, uma vez que o processo de divisão celular é limitado. 

Diante disso, é possível que altas doses de exposição à radiação transformem um ser humano no Incrível Hulk? Ricardo diz que não. “Quando a exposição é alta, o estrago no DNA é muito maior. Então, o que aconteceria seria um grande evento que bagunçaria todo o organismo. De um evento tão caótico como esse, esperar que o resultado seja alguma coisa como o Hulk é muito difícil”, afirma.

 

Jarvis, Batmóvel e a inteligência artificial

Jarvis é a inteligência artificial que comanda a armadura do herói Homem de Ferro – ou Tony Stark – e o auxilia em seu laboratório. Além de atender a comandos específicos do super herói, o sistema também tem autonomia para opinar em algumas situações e realizar pesquisas ao lado de seu dono. 

Quem já assistiu aos filmes do herói, com certeza ficou maravilhado com a capacidade de Jarvis e já se perguntou se algo parecido existe no mundo real. Lucas Cabral, programador e pesquisador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), discutiu com o Laboratório se isso pode acontecer.

Tony Stark em sua armadura

Tony Stark tem o auxílio da inteligência artificial Jarvis em sua armadura e em seu laboratório [Imagem: Divulgação/Marvel Studios]

 

Para início de conversa, Lucas alerta a necessidade de diferenciar os dois tipos de inteligência artificial existentes, uma mais potente e outra mais limitada. A primeira realiza funções muito específicas e restritas; já a segunda é uma inteligência artificial utópica, que processa comandos de forma automática e realiza conclusões a partir da própria coleta de dados, assim como Jarvis. 

“Existem vários estudos que mostram que a gente ainda não tem nenhuma inteligência artificial potente, e a maioria das nossas inteligências de hoje funcionam como assistentes virtuais”, explica Cabral. Cortana, Siri e Alexa, respectivamente assistentes virtuais da Microsoft, Apple e Amazon, são alguns dos exemplos que ele cita. Por mais que elas possuam banco de dados próprio, não possuem autonomia no processamento de informações e nas tomadas de decisão como Jarvis.

Mas, caso existisse um sistema similar ao Jarvis, no que ele seria útil? Levando em consideração a história do Homem de Ferro, o programador afirma que a inteligência artificial seria proveitosa na educação, principalmente nos moldes do ensino a distância. “Com certeza se você conseguisse conectar o Jarvis no fone de ouvido para revisar conteúdos com você dizendo quais pontos estão errados, isso seria uma coisa bem construtiva”, opina.  

A inteligência artificial também está presente no ramo automotivo. O batmóvel, por exemplo, automóvel utilizado pelo super herói Batman, tem direção automática e diversos recursos que auxiliam o homem-morcego em situações de conflito. Diferente da inteligência artificial de Jarvis, a do batmóvel, segundo Lucas, está mais próxima da realidade.

 

Batmóvel, automóvel do super herói Batman

A inteligência artificial também está presente no Batmóvel, automóvel do super herói Batman [Imagem: Divulgação/DC Comics]

 

A Domino’s Pizza, rede de fast foods americana, já realiza entregas em carros autônomos. Quando o pedido chega à casa do cliente, ele pode abrir o compartimento e retirá-lo a partir de uma senha gerada pelo aplicativo da empresa. Mas apesar de ser algo prático, a margem de erro para eventuais acidentes é grande e não oferece segurança. “Em um cenário utópico, a melhor forma de você usar carros autônomos nas grandes cidades seria com faixas exclusivas para eles nas ruas, porque o trânsito é muito imprevisível”, afirma Lucas.

Assim como o Batmóvel foi construído de modo similar a um tanque de guerra, a inteligência artificial também é uma possibilidade de tecnologia a ser empregada no poder bélico – algo também bastante próximo da realidade. Mas Lucas alerta para a necessidade de cautela no desenvolvimento dessa combinação.

“Existe um conceito que se chama ‘Ética por Padrão’, que é você tentar pensar eticamente, desde a concepção da tecnologia até a sua entrega. Sem esse processo, aumenta a chance de ocorrerem erros devido a fatores raciais e étnicos. Nós vemos vários casos dessa tecnologia falhando”, afirma o programador. 

“Colocar essa inteligência no poder bélico é uma grande vantagem para quem está usando por conta da agilidade, mas é preciso pensar nas questões sociais. Sem pensar nelas, a utilização da inteligência artificial pode gerar um genocídio sem igual, como no filme Vingadores: a Era de Ultron”, compara o programador.

 

O uniforme do herói Pantera Negra

Dentro do universo cinematográfico da Marvel, talvez algumas das tecnologias mais refinadas presentes nos filmes sejam aquelas presentes em Wakanda. O país fictício é localizado na África Ocidental e detém um precioso metal, o vibranium – também fictício. O material é a base para o traje do super herói Pantera Negra.

 

Traje do super herói Pantera Negra

O traje do super herói Pantera Negra é baseado em um metal precioso – e fictício – chamado vibranium [Imagem: Divulgação/Marvel Studios]

 

Embora o vibranium seja fictício, seria possível atingirmos um resultado semelhante na vida real com um material já existente? Sim, e uma das possibilidades seria o grafeno. O material foi descoberto de forma acidental em 2004 por dois cientistas russos, André Geim e Konstantin Novoselov. A descoberta fez com que eles ganhassem o Prêmio Nobel de Física em 2010.

O grafeno constitui um material bidimensional (2D). O doutorando em Física pela USP e divulgador científico Bruno Ipaves explica que o material tornou-se popular devido às suas propriedades: “Ele é muito fino (com a espessura de um átomo), flexível, leve e resistente, centenas de vezes mais forte que o aço. Também conduz eletricidade melhor do que o cobre, que é um dos metais mais importantes industrialmente”.

Além disso, as propriedades do grafeno podem ser combinadas às de outros materiais, originando os materiais compósitos. O físico comenta os usos variados do grafeno na indústria. Recentemente o material passou a ser utilizado nas raquetes do tenista Novak Djokovic, tornando-as mais leves e resistentes, quase inquebráveis.

Bruno destaca um texto de sua autoria que aborda a máscara de grafeno, que seria capaz de diminuir o risco de transmissão do coronavírus, a partir de tratamentos de luz e calor. 

O doutorando destaca seu tema de pesquisa a aplicação mais recorrente do grafeno: suas aplicações em baterias de íons de lítio, utilizadas nos celulares.

 

Grafeno e sua estrutura bidimensional

Grafeno e sua estrutura bidimensional [Imagem: Reprodução/Creative Commons]

 

Bruno afirma que, em 2017, a Nature Nanotechnology publicou um artigo que descreve um processo de criação de um material utilizando 2 folhas de grafeno que temporariamente se tornam impenetráveis e mais duras que o diamante. Esse material flexível e leve como uma folha metálica torna-se rígido e duro, capaz de parar uma bala no impacto. Apesar de reconhecer que o traje não seria esteticamente semelhante ao do Pantera Negra, o pesquisador afirma que a folha metálica poderia ter muitas utilidades dentro de serviços da atualidade.

 

Thanos e Thomas Malthus

Os filmes Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Vingadores: Ultimato (2019) têm como vilão principal Thanos, temeroso conquistador de planetas. A doutoranda em Geografia pela  Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Debora Lima ressalta que a disputa de poderes e recursos naturais não é nova. Para ela, é importante analisar os poderes envolvidos nas Joias do Infinito: o próprio poder, o espaço, o tempo, a realidade, a mente e a alma. Estes aspectos são muito caros à sociedade e estão relacionados à forma como interagimos com o espaço e com a natureza.

O Thanos não tem uma motivação guiada pelo ódio. É importante entender que a ideia que ele tem de unir as joias para eliminar a metade da população tem como fim, na verdade, evitar um mal. “É quase maquiavélico”, comenta Debora. 

Os pensamentos de Thanos – personagem originário do planeta fictício Titã, destruído pelo esgotamento de recursos – podem ser relacionados em alguns pontos com as teorias de Thomas Malthus, importante economista britânico do século 18. 

Malthus consolida sua teoria após a Revolução Industrial, momento de grande migração da população para as cidades, expulsa dos campos pelos cercamentos na Inglaterra. Uma de suas proposições mais importantes estava no problema do crescimento populacional: a população cresce em ritmo maior e desproporcional à produção de alimentos. O economista acreditava que as catástrofes e as epidemias eram necessárias para o controle populacional.

No entanto, há diferenças entre as motivações do personagem e as teorias de Malthus. Debora ressalta que, na concepção do economista, a eliminação populacional deveria ser feita a partir das camadas mais pobres: “Em vários de seus textos, ele [Malthus] fala sobre a manutenção de uma ‘mentalidade da pobreza’ que faria com que, mesmo tendo uma ascensão financeira, as pessoas continuassem a não preservar os recursos naturais. Essa permanência estaria também vinculada à divisão internacional do trabalho’’, pontua Debora.

Já Thanos deseja realizar uma eliminação aleatória de parte da população global. O vilão, inclusive, chega a se prejudicar intensamente a partir do sacrifício de sua filha adotiva Gamora – o que, na narrativa, era um passo necessário para que Thanos adquirisse a joia da Alma como desejava.

 

Thanos e Gamora jovem

Thanos e sua filha adotiva Gamora [Imagem: Reprodução/Marvel Studios]

Tais questões trazem complexidade ao personagem, uma vez que seu objetivo na trama não é apenas o de dominação, mas de um “equilíbrio cósmico” entre os recursos disponíveis e as espécies que habitam os planetas.

Debora diz que devemos nos questionar sobre o que estamos produzindo em nossas terras e como estamos usando nossos recursos, dado que nossos alimentos  possuem valor nutricional cada vez menor e elementos como a concentração de terras e a divisão internacional do trabalho perpetuam uma lógica produtiva insustentável, além de provocarem a manutenção da pobreza e da desigualdade.

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