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Um outro olhar sobre a placenta: vida, medicina e arte
Corpo e Mente
03 mar 2021 | Por Natane Cavalcante (natanecp13@usp.br)

Muitas pessoas, ao menos uma vez na vida, já ouviram falar da placenta, mas poucos sabem o que de fato ela faz e qual a sua importância para a vida humana. A placenta ou, como também é conhecida, a Árvore da Vida, devido ao seu formato semelhante a uma árvore. Visto que o cordão umbilical seria o tronco, os vasos sanguíneos são como os galhos ramificados e o disco placentário é parecido com uma copa. Ela é um órgão efêmero que surge em um determinado momento da vida, o único que, ao completar o seu ciclo, separa-se do organismo da mulher. 

Nesta reportagem para o Laboratório, vamos conhecer mais sobre a placenta, sua função durante a gestação, além de abordar as suas possíveis finalidades medicinais e os direitos da mulher sobre o órgão.  

 

O que é a placenta e quais são as suas funções?

A placenta é um órgão formado durante a gestação e dura somente o tempo da gravidez, por volta de 40 semanas. Sua formação faz parte do estudo da embriologia, portanto, em termos gerais, o embrião é implantado no útero após o processo de fecundação. Essa etapa é conhecida como nidação, é a partir desse momento que se inicia a formação da placenta. De acordo com Nathalia Passos, obstetriz formada pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP), “a placenta tem o formato de um disco e com o avançar da gestação esse ‘disco’ fica mais espesso e cresce em diâmetro”.  O órgão é constituído por duas faces: uma materna e outra fetal. Nathalia explica que a face materna é o lado que fica “grudado” ao útero da mulher e por onde acontece as trocas entre ela e o feto. Já a face fetal é o lado que está em contato direto com o feto, por meio do cordão umbilical. 

A placenta não envolve o embrião, essa tarefa fica a cargo da bolsa amniótica ou bolsa d’água, onde o feto fica imerso no líquido amniótico, e tem como função a proteção mecânica. A comunicação entre a placenta e o feto acontece por meio do cordão umbilical, que é composto por uma veia e duas artérias. De acordo com Nathalia, são por esses vasos que o sangue materno passa e as trocas entre ela e o feto acontecem. As artérias são responsáveis pelo transporte na direção do feto para quem gesta. Já a veia é o contrário, transporta de quem gesta para o feto. Mas, o sangue materno e o fetal não se misturam. 

Muitas funções são de responsabilidade da placenta, que opera como diversos órgãos durante a gestação, como o pulmão, rim e fígado. Ela fornece nutrientes, anticorpos, transporta oxigênio e outras substâncias como água, glicose e aminoácidos, além de eliminar o monóxido de carbono, ureia e outros dejetos produzidos pelo feto. Também atua como um filtro que bloqueia algumas substâncias e agentes infecciosos e produz diversos hormônios que auxiliam na gestação. Segundo Nathalia, alguns deles são: a progesterona, que é responsável por não deixar que o útero se contraia provocando uma possível expulsão do feto; os estrógenos, que atuam no crescimento da musculatura e no aumento dos níveis de prolactina (hormônio envolvido na amamentação); e também a gonadotrofina coriônica (HCG), que impede o corpo da gestante de rejeitar o embrião, já que ele é visto pelo organismo como algo “estranho”. Por ser um órgão presente no corpo da mulher apenas no período da gestação, a placenta após o nascimento do bebê na maioria dos casos é descartada como lixo hospitalar. Mas, ela pode ser utilizada para outras finalidades que vão de variedades medicinais à arte.

Placenta humana [Imagem: Reprodução/ Iara Silveira - Placentar

Placenta humana [Imagem: Reprodução/ Iara Silveira – Placentar

 A manipulação da placenta para o consumo no pós-parto

A placentofagia é o ato de ingerir a placenta após o parto, um hábito comum entre os mamíferos. Em diversas culturas, o órgão era tratado com importância e utilizado de diferentes maneiras, algumas vertentes da medicina acreditavam que ela possuía propriedades curativas. Hoje, existem pessoas especializadas em manipular a placenta, as placenteiras, que exercem a medicina placentária. Segundo a educadora perinatal e doula Pâmella Souza, “a placenta é um órgão transitório repleto de substâncias de fator regenerativo, por isso ela é cobiçada para a finalidade medicinal”. Pâmella, junto com sua parceira de pesquisa Raquel Carvalho, obstetriz formada pela USP, criaram a organização Segredos da Placenta, que oferece os serviços de arte e terapias naturais a partir da manipulação do órgão. “Hoje, esse hábito está sendo reinventado, e o sentido é o mesmo de antigamente, ele só está se adaptando com a modernidade”, comenta Pâmella. 

O consumo da placenta não está restrito à sua forma in natura [estado natural], muito pelo contrário, existem diversas alternativas e cada uma possui a sua função. Um exemplo são as cápsulas que dispõem de um período de conservação maior em relação ao estado natural, que tem rápida deterioração. As cápsulas da placenta auxiliam no período de pós-parto, repondo  nutrientes como vitaminas e ferro que ajudam a combater a anemia ,  hormônios como a ocitocina e a progesterona que atuam na recuperação física e emocional da mulher. Além disso, diminuem a fadiga, o “baby blues” [tristeza] e a depressão pós-parto. Vale lembrar que as cápsulas são produzidas a pedido da portadora do órgão e são para o seu consumo exclusivo. 

De acordo com Iara Silveira, mestra em enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o processo de encapsulamento da placenta consiste em limpar o órgão, ou seja, retirar coágulos, membranas, destacar o cordão umbilical e drenar o sangue. Depois, é preciso desidratá-la por cerca de 14 horas a 16 horas em uma desidratadora, triturar e, por fim, encapsular. “Para quem presta esse serviço, é mais complexo, tendo em vista os critérios de higiene, assepsia, biossegurança e responsabilidade em manipular uma placenta para consumo”, ressalta Iara, uma das fundadoras da Luz de Candeeiro, que realiza a técnica de encapsular a placenta.

Cápsulas de placenta [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Cápsulas de placenta [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Outra forma de consumo é a tintura da placenta, um líquido utilizado como um floral que possui longa durabilidade. Ele é produzido a partir de um extrato alcoólico feito com fragmentos da placenta, e dela extrai propriedades curativas. Segundo as informações da Segredos da Placenta, a tintura é usada para restabelecer o equilíbrio emocional, físico e hormonal da mulher no período de pós-parto, além de ajudar nos sintomas de insônia, estresse e menopausa. Há também outros medicinais de consumo, como o óleo terapêutico de placenta, utilizado para as demandas dermatológicas, como assaduras, queimaduras, psoríase, entre outros. Assim como a pomada, utilizada na regeneração e hidratação da pele. 

Alguns procedimentos devem ser realizados antes da placenta ser manipulada para o consumo no pós-parto. Pâmella explica que o primeiro passo é armazenar a placenta em um pote limpo ou um saco estéril sem adicionar nenhum componente como éter ou soro. Em seguida, ela precisa ser congelada o quanto antes, porque é de fácil decomposição. “A manipulação para o consumo deve acontecer em até seis meses se ela estiver congelada”, completa. Caso esse período estimado para sua conservação seja ultrapassado, de acordo com as informações da Segredos da Placenta, ela não deve ser manipulada para o consumo, porém ainda pode ser transformada em arte de recordação. Assim como, a Segredos da Placenta, não manipula o órgão para o consumo sem o conhecimento da saúde da mulher no pré-natal e no pós-parto. 

Iara Silveira também reforça que é importante buscar esse serviço de quem tem um espaço próprio para o manuseio e preparo da placenta com pia e bancada apropriada; verificar se o prestador do serviço tem um procedimento operacional padrão para a manipulação, descarte adequado do material, esterilização de superfície e equipamentos; protocolo de biossegurança e responsabilidade com o armazenamento adequado até o preparo da placenta. “Tudo isso favorece a segurança para quem prepara, mas principalmente para quem consome”, completa Iara.

Tinturas de placenta [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

O que diz a ciência?

Hoje, a prática da placentofagia ainda não possui evidências científicas definitivas em relação a todos os seus benefícios. O assunto é pauta de discussão entre médicos e especialistas, mas faltam estudos científicos aprofundados que comprovem a sua eficácia ou risco no que diz respeito à saúde.

A Faculdade de Medicina de Northwestern, em Chicago, por exemplo, analisou dez pesquisas sobre o tema publicadas recentemente e não encontrou evidências dos benefícios do consumo da placenta. Em 2017, O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, divulgou um alerta para os possíveis riscos da ingestão da placenta após um caso de infecção bacteriana no bebê. 

Em contrapartida, a National Center for Biotechnology Information (NCBI), em 2016 publicou estudos que encontraram nutrientes e hormônios ativos em amostras da placenta após o processo de desidratação. No ano seguinte, um estudo piloto duplo-cego comparando cápsulas de placenta com placebo encontrou maiores níveis séricos de ferro no sangue das mulheres que ingeriram as cápsulas do que no grupo que ingeriu o placebo. Assim como pesquisadores da Universidade de Nevada e da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, mostraram que a ingestão da placenta por mulheres no pós-parto não oferecia riscos aos recém-nascidos. A pesquisa analisou cerca de 23 mil registros de nascimentos.

Portanto, a placentofagia, no que diz respeito à ciência, é um tema que será muito explorado em pesquisas futuras, “se tivermos mais estudos comprovando a sua eficácia, a procura por essa prática vai aumentar muito”, comenta Iara.

 

É um direito da mulher decidir o destino da sua placenta

Caso a mulher deseje dar outra finalidade a sua placenta que não seja o descarte hospitalar, é um direito dela requerer o órgão. As recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o nascimento estabelecem que as Instituições de Saúde devem “preservar o direito das mulheres parirem em instituições, de decidir sobre a sua roupa e o bebê, a alimentação, o destino da placenta, e outras práticas culturalmente significantes”. 

Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina que “havendo a requisição da placenta pela família, o material não deve ser considerado como Resíduo de Serviço de Saúde (RSS), conforme define a Resolução 306/2004”. E complementa, “assim, o serviço deve dispor de procedimentos próprios para garantir que o paciente ou a sua família recebam um material com a segurança de que ficará preservado com o tempo, pois é de fácil putrefação. Na maior parte dos casos, a placenta não apresenta risco da presença de agentes infectantes, a não ser que a grávida esteja contaminada, o que levaria a problemas também com o bebê. Nesse caso, o resíduo deve ser encaminhado para tratamento antes da disposição final e a criança deve ser encaminhada para tratamento médico.

A Segredos da Placenta emite um requerimento para as mulheres que têm interesse em utilizar suas placentas. Contudo, é importante ressaltar que é crime vender o órgão, conforme a Lei 9.434/97, no Art. 15. Por isso, a mulher que solicitar a placenta deve utilizá-la para uma finalidade que não seja comercial.

Carimbo da placenta com pintura em aquarela [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Carimbo da placenta com pintura em aquarela [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Tabu e preconceito X aceitação e autoconhecimento

Além das questões do embasamento científico e a falta de informação sobre o processo de manipulação da placenta no pós-parto, há também o tabu e o preconceito acerca do consumo do órgão. É fato que existem diferentes meios de consumo e arte, mas a placentofagia em cápsula ou in natura são as que mais enfrentam aversões. Para Pâmella, esse tabu é uma herança histórica de uma sociedade medieval, machista e patriarcal na qual as mulheres eram perseguidas e queimadas por seus conhecimentos e resistência acerca da cura natural. “A partir disso, o entendimento de que o corpo da mulher é sujo, com seus pelos, menstruação e fluidos corporais se instalou”, completa.

Esse estigma também prejudica quem faz o consumo da placenta, que, por conta de uma reação muitas vezes preconceituosa por parte da sociedade, tem receio de compartilhar sua experiência. “A maioria das mulheres que encapsulam suas placentas não fazem propaganda disso, talvez não queiram ser taxadas de ‘canibais’, o que não faz o menor sentido, a placenta é dela e volta para ela”, comenta Iara.

Nathalia também ressalta que faltam informações sobre como a placenta é formada, como funciona e do que ela é composta. “Muitas pessoas nem sequer sabem da possibilidade de ver e/ou tocar na placenta”.

Por outro lado, aos poucos o tabu e o preconceito são superados, principalmente entre as mulheres. De acordo com Pâmella, o crescente interesse ou mesmo a simples aceitação da prática acontece junto ao movimento das mulheres na busca por nascimentos mais saudáveis, práticas de autoconhecimento e valorização de si mesma como pessoa geradora. “Até quem escolhe não consumir a placenta, ao se informar sobre seu papel fisiológico na gestação, geralmente passa a querer ao menos ter contato com ela, ver, tocar ou até mesmo plantar”. 

 Carimbo da placenta com pintura em aquarela [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Carimbo da placenta com pintura em aquarela [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Do corpo à arte

Pâmella explica que as artes placentárias são uma recordação lúdica que promove muita informação através da curiosidade dos familiares, amigos e até da criança que, conforme cresce, tem contato com algo que reconta e explica a origem do seu nascimento.

Existem diversas artes placentárias, uma delas é o carimbo da placenta ou print, em que o sangue do órgão marca sua forma sobre uma tela ou um papel em branco. Podem ser acrescentadas pinturas com aquarela sobre o local em que a placenta foi carimbada. “O carimbo é como uma lembrança que eterniza esse momento de uma maneira diferente das fotos”, comenta Nathalia, que também é integrante da equipe Gaisa, que realiza a técnica de arte com a placenta. 

Carimbo da placenta [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Carimbo da placenta [Imagem: Reprodução/ Instagram; Segredos da Placenta]

Além disso, a placenta pode ser plantada com uma árvore ou enterrada em um lugar especial para a família. De acordo com Nathalia, a plantação da placenta também é uma lembrança que na maioria das vezes está ligada ao entendimento de que a placenta, como órgão que gerou, nutriu e carregou a criança, possa seguir nutrindo a vida. A pediatra Ana Paula Caldas, compartilha que sua placenta precisava de um destino e, por conta da simbologia, ela optou por plantar, assim escolheu uma árvore que possui um significado para ela. “A árvore da placenta está lá até hoje, cada um dos meus filhos tem a sua, e eles podem ir visitá-las”, comenta Ana. A placenta é um material orgânico, portanto vai adubar e estimular o crescimento da árvore. A família pode optar por plantar assim que o bebê nascer para que ela acompanhe o seu crescimento, ou congelar e esperar a criança ter idade suficiente para plantarem juntos. “A placenta humana é incrível, é o órgão que inicia a nossa vida”, comenta Iara Silveira.

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COMENTÁRIOS
João Bueno
Eu achei incrivel a delicadeza e a forma até lúdica que o texto tratou sobre o assunto. Apesar de ser um assunto de certa forma até polêmico, o texto trouxe leveza e clareza para a discussão. Parabéns!!
04 mar 2021
 
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