Home Na Estante Romance de Formação: de Wilhelm a Naruto, como amadurecemos
Romance de Formação: de Wilhelm a Naruto, como amadurecemos

Entre séculos de literatura e expansão para outras mídias, conheça mais sobre esse gênero que continua se reinventando

Na Estante
09 ago 2021 | Por Diogo Bachega Paiva (bachegapaiva@usp.br)

Como humanos, tendemos a interpretar nossas vidas sob um olhar narrativo. A narrativa do amadurecimento é uma das mais tradicionais. Através das histórias, quem ouve ou lê busca enxergar no protagonista reflexões que colaborem para o entendimento da própria vida. O romance de formação é um gênero literário que surgiu oficialmente no final do século 18 e busca lidar com essa questão tão fundamental para o entendimento humano.

 

A origem do gênero

Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (1796), escrito por Johann Wolfgang von Goethe, é considerada a primeira obra do gênero Bildungsroman, frequentemente chamado de romance de formação no Brasil. O livro conta a história de Wilhelm, jovem pertencente à burguesia alemã que decide contrariar as expectativas da família e ingressar em uma trupe de comediantes. A partir disso, o personagem é levado a uma série de encontros e acontecimentos que marcam sua passagem para a vida adulta. O livro ganha grande importância e influencia a criação de diversas outras obras na Alemanha e, em um segundo momento, no resto da Europa e no mundo.

Recorte de fotografia da capa de uma edição de Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, livro tido como fundador do Bildungsroman. [Imagem: Reprodução/Wikipedia]

Recorte de fotografia da capa de uma edição de Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, livro tido como fundador do Bildungsroman. [Imagem: Reprodução/Wikipedia]

Wilhelm Dilthey, importante teórico que analisou o gênero, o define como romances onde o protagonista “ingressa na vida num alvorecer feliz, procura por almas afins, encontra a amizade e o amor, mas também entra em conflito com a dura realidade e assim, sob as mais variadas experiências, vai amadurecendo, encontra-se a si mesmo e conscientiza-se da sua tarefa no mundo”.

 

Uma breve recapitulação

Como dito, o livro de Goethe é considerado o primeiro romance de formação. É possível, no entanto, identificar predecessores do gênero. O professor da USP Marcus Mazzari, doutor em  Germanística e Literatura Comparada pela Universidade Livre de Berlim, cita o exemplo de Dom Quixote (1605), de Miguel de Cervantes, e o romance História de Agatão (1767), de Christoph Martin Wieland.

O professor Marcus Mazzari, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – Foto: USP Imagens [Imagem: Reprodução/ Jornal da USP]

O professor Marcus Mazzari, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP – Foto: USP Imagens [Imagem: Reprodução/ Jornal da USP]

Após a publicação de Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, inúmeras outras obras deram continuidade ao gênero dentro da Alemanha. Um exemplo é Heinrich von Ofterdingen (1802), de Novalis, que Marcus define como “uma resposta romântica” ao romance de Goethe. 

Outra obra muito importante na tradição alemã tem origem na Suíça. O verde Henrique, de Gottfried Keller, é o romance mais importante da segunda metade do século 19 para a história do romance de formação.

Saindo da Alemanha, ainda no século 19, alguns escritores britânicos se destacam no gênero. Autores  marcantes são Jane Austen, Charles Dickens e Charlotte Brontë. Na França, O Vermelho e o Negro (1830), de Stendhal, e As Ilusões Perdidas (1837), de Balzac, são exemplos notórios. 

Na primeira metade do século 20, a obra mais significativa é A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann. Marcus chama atenção à representação pelo romance da “impossibilidade de formação numa sociedade que produziu a Primeira Guerra Mundial, em que morreram centenas de milhares de jovens em formação”.

Na segunda metade do século, um romance importante é O tambor de lata (1959), de Günter Grass, a história de uma criança que se recusa a crescer após os três anos de idade. O livro tem tom crítico e parodia a ideia de formação em uma sociedade fascista.

Chama atenção, também no século 20, O Apanhador no Campo de Centeio (1951), do escritor estadunidense J. D. Salinger, sucesso de vendas e até hoje marcante na ficção jovem adulta. No final do século 20, o escritor japonês Haruki Murakami publicou Norwegian Wood (1987), que retrata a transição para a vida adulta no Japão do final dos anos 60. No século atual, é possível mencionar livros da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Marcus Mazzari cita O Grande Sertão Veredas (1956), de Guimarães Rosa, como a obra mais importante brasileira entre as que podem ser lidas dentro da tradição do romance de formação. Outras obras notáveis são O Ateneu (1888), de Raul Pompéia, o romance de estreia de Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem (1943), Ponciá Vicêncio (2003), de Conceição Evaristo. Alguns contos de Clarice Lispector e Sargento Garcia, de Caio Fernando Abreu, também podem ser lidos como romance de formação.

Vale ressaltar que inúmeras outras obras de inúmeros países podem ser consideradas pertencentes ao gênero. Como diz Mazzari, “em sentido amplo, todo romance que é significativo conta também uma história de formação, de desenvolvimento, de aperfeiçoamento”.

 

A formação do leitor

Um papel importante do romance de formação está em seu impacto no leitor. Através da trajetória dos protagonistas, quem lê é provocado a reflexões diretas ou sutis sobre o próprio amadurecimento. Está aí um potencial cativante do gênero: acompanhar a jornada de formação do próprio leitor.

Lara Paiva, estudante de Jornalismo na Universidade de São Paulo, comenta sobre sua experiência com o gênero literário. Ela diz que o Bildungsroman representou o amadurecimento das suas leituras, pois, diferente de alguns outros tipos de literatura, os personagens eram mais reais, tinham seus defeitos e sua jornada de aprendizado. “Como uma pessoa que sempre gostou de ler — e a maioria das pessoas com quem eu me espelhava eram da literatura — o contato com o romance de formação foi muito importante para mim. Principalmente na minha adolescência, por que todo mundo é inseguro na adolescência, né? Todo mundo tem dificuldades”.

O gênero, assim, tem sua relevância não por trazer respostas prontas para o dilema da formação, mas por abrir espaço para questionamentos. Como diz Marcus Mazzari, os melhores livros não dão receitas ao leitor, mas “formulam as questões e mostram os embates do jovem com as arestas da sociedade e da vida”.

 

Além da literatura

Os retratos de formação não estão presentes apenas nos romances e nos contos. Vários outros formatos narrativos retratam o amadurecimento, sob a influência da literatura e da necessidade humana de entender a própria jornada. 

No cinema, são exemplos a saga As Aventuras de Antoine Doinel e Boyhood (2014). As Aventuras de Antoine Doinel são filmes do diretor François Truffaut interligados pelo protagonista, Antoine, representado em várias fases da vida. Todos os filmes retratam momentos chave no amadurecimento de Antoine. Boyhood é um filme do diretor Richard Linklater que retrata a vida de um garoto, Mason, dos seis aos dezoito anos. O filme, indicado ao Oscar de melhor filme em 2015, chama a atenção por ter contado com os mesmos atores durante todo o amadurecimento dos personagens, gravado de 2002 à 2013.

[Imagem: Diogo Bachega Paiva]

[Imagem: Diogo Bachega Paiva]

Nos quadrinhos, dois exemplos marcantes são Naruto (1997-)e Persépolis (2000). Naruto, de Masashi Kishimoto, que está entre os mangás mais lidos do mundo e que baseou o anime homônimo, fenômeno mundial, acompanha a vida do jovem ninja Naruto Uzumaki, que, ao longo dos 72 volumes, vai de criança órfã rejeitada a líder de Konoha, aldeia onde mora. Atualmente, mangá e anime acompanham a saga de Boruto, seu filho. Já Persépolis é uma história em quadrinhos autobiográfica escrita por Marjane Satrapi que acompanha seu amadurecimento no Irã durante a Revolução Islâmica. 

[Imagem: Diogo Bachega Paiva]

Nos desenhos animados, é possível citar a jornada de Steven Universo (2013-2019), que mistura fantasia e realidade, retratando temas como relacionamento abusivo, ansiedade, depressão, amor próprio, autoconhecimento, entre muitos outros. No começo, Steven, ainda criança, é apresentado como um garoto deslocado, que tenta entender o seu lugar na vida. Ao longo de seis temporadas e um filme, Steven amadurece e envelhece, entendendo melhor quem é, qual a sua relação com o mundo e como pode interferir nele. Nas séries, exemplos atuais são Sex Education (2019-), que acompanha o despertar sexual e o amadurecimento de Otis e das pessoas ao seu redor, e Atypical (2017-2021), que acompanha a busca por independência e autonomia de Sam, um adolescente autista, bem como de sua família e amigos. 

[Imagem: Reprodução/ Twitter Cartoon Network Brasil]

[Imagem: Reprodução/ Twitter Cartoon Network Brasil]

 

Um gênero em constante metamorfose

Como esse texto buscou expor, o tema da formação é universal. Nós, humanos, amadurecemos como indivíduos e sociedades. Existimos em várias formas de organização cultural, que variam em países, cidades, bairros e núcleos sociais. Discutir a formação é discutir concordâncias e discordâncias do indivíduo com o funcionamento da realidade em que ele habita. É discutir como o indivíduo molda o meio e é moldado por ele. 

Narrativas sobre formação permitem que compartilhemos nossas trajetórias, possibilitando que nos ajudemos nos nossos processos de amadurecimento, além de nos ajudar a reconhecer nossas diferenças. Longe de ser um gênero obsoleto, o romance de formação está vivo e, por isso mesmo, em constante metamorfose. Continuaremos vendo obras de diversos formatos buscando representar esse que é um dos temas fundamentais da humanidade.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*