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A Feira do Livro: mitos, memórias, paternidade e democracia

Realizada pela revista QuatroCincoUm, A Feira do Livro reúne, em seu primeiro dia, Lilia Schwarcz e Mia Couto em conversa sobre livros em praça pública

Eu Fui
15 jun 2022 | Por Maria Vitória Faria (mvitoriafaria@usp.br)

“As ruas do Brasil contam histórias”

 

Com esta frase, o escritor e jornalista moçambicano Mia Couto abriu, ao lado da historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, a primeira conversa de A Feira do Livro, fruto de uma parceria entre a revista QuatroCincoUm e a Maré Produções Culturais. Na Praça Charles Miller, em São Paulo, a feira, realizada entre os dias 08 e 12 de junho de 2022, reuniu diversos autores, pensadores, estudiosos e artistas, como Ailton Krenak, Yussef Campos, Letrux e Sidarta Ribeiro. Os estandes estavam repletos de editoras de relevância nacional e internacional, como a Editora Record, a Todavia, a Antofágica e a Editora Aleph. 

Convidados a dialogarem sobre livros em praça pública, Mia Couto e Lilia Schwarcz dissertaram sobre o passado e o presente, ao trazer tanto a história do Brasil, quanto a de Moçambique para o debate. Um dos questionamentos desenvolvidos, por exemplo, foi sobre o silêncio. Qual a diferença entre esquecer para se ter paz, e esquecer para silenciar e repetir?

 

O pai e o mito

O Mapeador de Ausências (Companhia das Letras, 2021), foi o propulsor para iniciar o diálogo sobre paternidade em A Feira do Livro. O escritor moçambicano contou que, inicialmente, enquanto escrevia a obra, acreditava que estava tratando sobre sua infância, mas, depois, percebeu que se centrou em seu pai. A figura paterna passou a basear o debate , a partir do momento em que Couto percebeu a influência deste nas vidas de todos, embora, como ele mesmo afirmou, haja uma certa romantização de tais figuras — paterna e materna — em sua obra. O autor de Antes de Nascer o Mundo (Companhia das Letras, 2016) conta que seu pai era um sujeito que via e respeitava todas as pessoas, o que, em uma Moçambique extremamente racista — e que não escondia essa vertente, como faz o Brasil, segundo Mia — em que os pretos tinham horários restritos para circular pela cidade, era uma postura diferenciada. 

O ideário paterno é, então, analisado pela antropóloga, a qual afirma ser um costume da sociedade brasileira idealizar o “pai” como alguém superior, o que possibilita a criação de “mitos”. Para ela, o perigo em tal perspectiva é que “com mito, não há contrato; o mito está sob nós”. Schwarcz também acredita que o erro de sua geração foi o de supor, erroneamente, que a democracia era um processo concluído, o que, para ela, justifica o clima político das eleições presidenciais de 2018. Há poucos meses da próxima ida dos brasileiros às urnas, os palestrantes de A Feira do Livro lembram que a única arma da democracia é o voto — tema reforçado em outros momentos da conversa. 

Voltando às guerras, Couto, o qual vivenciou a Guerra de Independência de Moçambique iniciada na década de 1960, comenta sobre a diferença no tratamento midiático entre o conflito de Moçambique e o que ocorre atualmente na Ucrânia,, em que esta é noticiada com muito mais fervor e empatia do que a primeira. Para o escritor, “algumas guerras são mais visíveis que outras”. O poeta compartilha, também, quão difícil foi o processo de 

escrita de seu livro mais famoso, Terra Sonâmbula (Companhia das Letras, 2016), haja vista o período turbulento em que Moçambique encontrava-se. Lutando diariamente para sobreviver enquanto amigos jornalistas eram assassinados, o escritor compartilha com o público como acreditava, naquele período, que a guerra em sua terra natal seria como na Somália, em que o combate não tinha fim previsto. 

 

Memória e recomeço

“São 10 anos da política de avaliação das contas, 100 anos da Semana de 22, 100 anos da morte de Lima Barreto — que não foi convidado para a Semana! — 200 anos da Independência e ano de eleição”. Ao retomar todas essas datas significativas, Lilia Schwarcz traz a importância do ano de 2022 e questiona qual será a história contada a partir de agora. “Será a mesma?”, pergunta a historiadora. Neste momento, a importância da lembrança histórica é abordada pelos palestrantes. No caso de Couto, o esquecimento acerca do conflito foi fundamental para a recuperação do país, mas ele e Schwartz concordam que, no Brasil, o esquecimento é utilizado como via para que os mesmos erros sejam cometidos diversas vezes na política. 

Em contrapartida aos 11 anos de fundação da Comissão Nacional da Verdade, a antropóloga afirma que está sendo criado um Brasil “odioso e dicotômico”, em que os órgãos públicos minam a República, e o Presidente aplica um golpe a cada dia, usa seu veto para “tirar algema de presidiário” e já afirmou que a única saída para ele é vencer as próximas eleições. Questionada sobre seu posicionamento nas redes sociais, Schwarcz contou para os participantes de A Feira do Livro que nunca irá se silenciar, pois isso seria “corroborar com a perversão que está no poder”. Por fim, ela afirma: “não podemos achar que é normal conviver com um presidente que é golpista. [..] Temos duas pessoas desaparecidas, um jornalista e um indígena, e não há afeto por parte do presidente. Ele afirma que eles ‘se meteram em uma aventura que não deveriam ter se metido’, mas foi ele que se meteu em uma aventura que não deveria. Ele vai pra escória da História”.

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