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A vida transgênero nas telas
CINÉFILOS
20 mar 2021 | Por Ana Paula Alves (anapsantos@usp.br)

Tratada como tabu, a transexualidade, ou seja, a existência de pessoas transgênero – indivíduos que não se identificam com o gênero imposto no nascimento – ainda é pouco falada e discutida. Mesmo que a transfobia seja um problema social de proporções absurdas, que impede, literalmente, que pessoas trans vivam, ela não é tão comentada como o preconceito sofrido por outras minorias.

Entretanto, o cinema pode ajudar a reverter essa situação. Com o uso de narrativas que envolvem positivamente a transexualidade, o tema vem ganhando mais espaço, dando mais força para as vozes de transgêneros reais. A existência e a popularidade desses filmes pode trazer diversos benefícios sociais para essa parcela da população, muitas vezes esquecida.

 

Por que esses filmes são importantes?

Para entender o que faz esses filmes terem grandes papéis sociais, primeiro é necessário saber o histórico e o contexto atual no qual vivem os transgêneros.

A transexualidade não se trata de um fenômeno recente, mas algo que esteve presente na humanidade por muito tempo. Há registros da existência de pessoas transgênero desde a Antiguidade, com referências do filósofo Filo, que viveu no século 1, descrevendo homens que se vestiam e viviam como mulheres, chegando até mesmo a retirar o pênis, os chamados eunucos. Esses registros continuam através dos séculos e milênios, sendo encontrados em diversos momentos históricos e sociedades.

Entretanto, as discussões sobre gênero são algo relativamente novo. Além de ser considerado um tema “tabu”, sendo muitas vezes reprimido.

Uma prova do quão recente é o reconhecimento dos direitos das pessoas transgênero: as cirurgias de redesignação sexual – em que ocorre a adequação do órgão sexual para o gênero com o qual a pessoa se identifica – foram liberadas no período de 1998 e 2002. Antes disso, estas eram consideradas ilegais e feitas de forma clandestina.

Assim, muitos ainda não entendem o que são pessoas trans, nem compreendem ou sequer tentam saber sobre suas vivências, já que o tema não é discutido tão abertamente e nem com tanta frequência. Mesmo no meio LGBTQIA+, há relatos de que elas são deixadas de lado ou sofrem discriminações dentro do movimento.

[Imagem: Reprodução/Sharon McCutcheon]

Por conta de todo esse histórico de repressão e não aceitação, quando se fala sobre o assunto, não se pode deixar de lado o preconceito extremo ao qual essas pessoas são submetidas.

A marginalização desses indivíduos na sociedade é imensa. Isso começa já no período escolar e muitas vezes, com o preconceito sofrido e a falta de tato das instituições para lidar com a situação, causa um sério problema de evasão escolar. Cerca de 72% deles não concluíram o ensino médio, e somente 0,02% frequentaram uma universidade.

Isso se estende então, para o mercado de trabalho, sem acesso à universidade e ainda convivendo com o preconceito na busca por emprego, 90% da pessoas transgênero recorrem ou já recorreram à prostituição, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O que coloca a saúde e a segurança delas em grande risco e as marginaliza ainda mais.

Principalmente no Brasil, ainda há a questão da violência, que no período entre 2008 e 2017 liderou as estatísticas como o país que mais assassinou transexuais, segundo pesquisa da ONG Transgender Europe. De todos os assassinatos que puderam ser computados ao redor do mundo, cerca de 40% ocorreram no Brasil.

Como um dos dados mais recentes sobre o assunto no contexto brasileiro, há o boletim produzido pela Antra que contabiliza assassinatos contra travestis e transexuais brasileiras. De Janeiro até Agosto de 2020, houve um aumento de 70% na taxa de assassinatos, em relação ao mesmo período de 2019, totalizando 129 vítimas em oito meses.

Ainda assim, a contagem desses assassinatos é difícil, já que não há uma qualificação específica, como, por exemplo, ocorre na questão do feminicídio. Dessa forma, ela depende de notícias e casos que tenham sido publicados para ser realizada, gerando números que dificilmente vão refletir a realidade, já que muitos casos podem ficar fora da contagem.

Isso é um dos fatores que faz com que a expectativa de vida de pessoas trans caia para 35 anos, menos da metade da média brasileira.

[Imagem: Reprodução/Instagram Transludica]

Filmes são um bom meio de falar sobre esse assunto, agindo de forma benéfica tanto para pessoas cisgênero – que se identificam com o gênero imposto no nascimento – quanto para pessoas transgênero.

Para o espectador cis, o longa pode proporcionar uma maior compreensão do que são pessoas trans. Isso porque o cinema tem o poder de conduzir o espectador por sua narrativa, de forma que, durante o filme, ele fique totalmente imerso naquela realidade, o que permite um afastamento de suas ideias pré concebidas.

Se torna mais fácil criar empatia com os personagens, pois o espectador vê sua trajetória, seus conflitos, suas alegrias e tristezas e está mais aberto para se identificar e entender o personagem, o que muitas vezes não acontece em relações reais.

Assim, é possível que essas obras desfaçam preconceitos nos espectadores de forma mais eficiente do que discursos e textos sobre o assunto. O cinema é capaz de envolver as pessoas em sua atmosfera, e isso pode ser utilizado para fins de combate à transfobia e desinformação sobre o assunto.

Já para o espectador trans, esses longas têm um papel muito mais pessoal e interior. É comum ver pessoas transgênero que, por muito tempo, não sabiam o que estava “errado”, não entendiam que apenas não se identificavam com o gênero imposto. Isso provavelmente ocorre pela falta de exemplos, de representatividade. É muito difícil se identificar como transgênero quando simplesmente não se sabe da existência de pessoas transgênero.

Por isso, filmes que têm essa representatividade são tão importantes: eles ajudam no entendimento pessoal, fazem as pessoas perceberem que não são apenas elas que se sentem dessa forma, que há outros que compartilham do seu sentimento, e principalmente, que não há nada de errado com elas. Seu incômodo é apenas fruto de uma identidade não expressada, reprimida.

Essas obras podem promover uma auto aceitação, que faz uma grande diferença em suas vidas.

Esses são alguns dos pontos que tornam a representatividade no cinema algo tão necessário. Ela pode levar a uma verdadeira mudança de perspectiva para todos os tipos de espectadores, trazendo benefícios tanto na esfera social como na da individualidade.


[Imagem: Reprodução/Pixabay – geralt]

Visão de pessoas reais

Quando falamos sobre grupos que fazem parte de minorias, é essencial que escutemos os participantes desses grupos, pois suas vozes e opiniões se formaram a partir de uma vivência que quem é “de fora” não pode compreender totalmente.

Por isso, esse espaço será dedicado às vivências de Tryanda Verenna e Gabriela sobre a representação trans no cinema.

Tryanda tem 35 anos, é um homem trans, fundador do perfil no Instagram @homemtransbr_, além de ativista, palestrante, escritor e colunista. Ele também trabalha com Turismo, e por isso sentiu fortemente os impactos da pandemia. Costumava jogar Handebol semanalmente com as amigas, mas como muitas pessoas, também vem enfrentando dificuldades em se manter ativo durante o isolamento social.

Gabriela por sua vez, tem 20 anos, era estudante de letras, mas, durante a quarentena, trancou o curso por perceber que não era o que queria. Ela se vê em uma fase de descobertas e experimentos, ainda definindo o que gosta e o que quer para sua vida. Ela gosta de estudar línguas estrangeiras, jogar online e editar vídeos. Inclusive, tem um canal no YouTube chamado gabisuk.

Dadas as devidas apresentações, eles falam sobre suas visões dos filmes que demonstram personagens transgêneros.

“É bom se sentir representada, certo? Acredito que a representatividade de nossas vidas em filmes seja de grande importância para não nos sentirmos pessoas anormais, e percebermos que existem outros que passam pela mesma coisa”, diz Gabriela sobre como é ver pessoas trans nas telas. “Esse sentimento de pertencer a algo, nesse caso, um grupo social, é importante, já que nos sentimos muito isolados, sozinhos na vida e à parte da sociedade. Fico feliz em assistir algo assim”.

Quando se fala de representatividade, é comum falarmos sobre seu impacto na autoimagem dos indivíduos, no caso de pessoas trans, isso pode fazer toda a diferença no processo de descoberta e na forma de lidar com o corpo. Infelizmente, essa representatividade é bem recente, havendo poucas exceções de produções que adquiriram uma fama real antes de meados de 2010. Por isso, muitas pessoas transgênero só tiveram contato com elas após a transição, que é o caso de Tryanda e Gabriela .

“Comecei a ter contato com filmes sobre vidas trans quando já tinha transicionado, e já possuía todos os pensamentos sobre minha identidade consolidados. Logo, não afetaram muito a forma que eu me via, o que ocorreu foi mais momentos de identificação. Mas a autoestima e o amor próprio com certeza melhoraram”, diz Gabriela. “Se eu tivesse tido contato com esses filmes no processo de descoberta da minha identidade de gênero, teria ajudado bastante a forma que eu lidaria com sofrimentos e angústias que passei na época, já que eu não conhecia ninguém como eu, vidas semelhantes a minha”.

“Eu sou humano(a)”

“Eu sou humano(a)” [Imagem: Reprodução/Freepik]

Tryanda teve uma experiência semelhante. “Eu tenho 35 anos e nunca nenhum filme foi capaz de representar a minha luta. Eu só fui ver filmes com pessoas trans quando iniciei a minha transição”. Assim como Gabriela, ele também pensa na diferença que esses longas teriam feito em seu processo quando mais jovem. “Se eu tivesse visto filmes em que meninas transicionavam para meninos, a minha vida teria sido muito mais leve e eu não levaria tanto tempo para me entender como homem trans. Eu precisei de 30 anos para entender porque ter seios, ser chamado no feminino, e ter aspecto feminino me incomodavam tanto”

Por isso, é importante criar referências, personagens com os quais pessoas reais possam se identificar, fazendo com que seja possível que pessoas como Gabriela e Tryanda se reconheçam nas telas.

“É importante a produção de filmes que retratam vidas trans, pela questão da representatividade, e, além disso, para mostrar para o mundo que somos pessoas como qualquer outra, com sentimentos, com preocupações, com necessidades, com objetivos de vida, com sonhos, não apenas ‘pessoas trans’. Não somos seres problemáticos e diferentes, como muitos veem. Naturalizar nossas vidas é importante”, completa Gabriela.

Tryanda, como dito anteriormente, sente falta de algo que represente melhor sua história, de forma mais real. “Acho que seria legal tratar de forma real como funciona a descoberta, como contar para pais preconceituosos e famílias que não apoiam, mostrar o lado de quem tem uma família ok e é aceito, os problemas da infância, escola, adolescência, mostrar de fato quais são as pessoas que podem nos influenciar, as dificuldades que vivemos na sociedade, trabalho, troca de documentação. Como um homem trans não pode ser homem por ter uma vagina. Quebrar os padrões. Mas é claro que isso tudo é uma grande utopia”

E apesar da representatividade conquistada nos últimos anos ser um grande avanço, para alguns ela pode não ser considerada completa. Isso porque muitos filmes com personagens trans são apenas isso… filmes sobre personagens trans. Parece ser obrigatório, se o roteiro inserir um personagem assim, abordar constantemente sua transexualidade.

Longas que abordam as nuances da descoberta, da transição e do preconceito vivido são importantíssimos para falar sobre o assunto. Trazer informação e permitir que pessoas trans falem de suas vivências como parte de uma minoria, mas não sendo o único contexto para personagens transgênero aparecerem.

“É claro que sempre que aparece um filme em que um homem trans ou uma mulher trans aparecem a gente tenta se sentir representado”, afinal, a aparição de uma pessoa trans em uma obra, de uma forma positiva, já é um progresso, mas que “talvez, se um dia  em um futuro tivéssemos um ‘50 tons de cinza’ sendo atuado por um homem trans, aí sim, nos sentiríamos representados”, diz Tryanda.

Gabriela também sente essa falta que Tryanda coloca sob questão. “Algo que eu quero ver nas produções futuras, é que o tema, a história dos filmes, não seja só a vivência de uma pessoa trans se descobrindo trans e todo o processo. Eu gostaria de ver pessoas trans realizando grandes feitos, conseguindo realizar sonhos, sendo um super-herói, estando em relacionamentos saudáveis, me entende? Não quero ver apenas o quanto nossas vidas são sofridas, como a maioria dos filmes retratam”.

Ainda há muito em que avançar: as pessoas trans devem ter seu lugar nas telas, não apenas como “o personagem trans”, sempre discutindo sobre sua transexualidade, mas simplesmente como pessoas, com outras questões e preocupações a serem tratadas.

“Estamos demorando muito tempo para avançar na arte”, diz Tryanda.

 

Filmes para conhecer mais do universo da transexualidade

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl, 2016)

[Imagem: Reprodução/Agatha A. Nitecka – Focus Features]

Gabriela diz que foi o primeiro filme que viu e que retratava pessoas trans. “Com certeza esse foi o que mais me marcou, visto que era o meu primeiro contato com produções desse tipo. Chorei bastante e me emocionei em vários momentos, me vi no filme”.

Essa produção, que se passa nos anos 1920, conta a história de Lili Elbe (Eddie Redmayne), uma das primeiras mulheres transgênero a realizar a cirurgia de redesignação sexual – no caso, uma cirurgia para a construção de uma vagina a partir do órgão sexual original – e passa por toda sua trajetória de autodescoberta e transição.

O que mais chama a atenção é a atuação de Eddie, que através de seus movimentos e expressões, é capaz de passar ao espectador todo o sentimento da personagem. É possível ver claramente o contraste entre os sentimentos de Lili. Quando ela é obrigada a se vestir e se portar como um homem, ela tem uma movimentação “travada”, olhares inseguros e sem brilho, e quando ela pode expressar sua identidade livremente como uma mulher, sua movimentação parece mais natural, mais confiante, e principalmente mais feliz.

Os conflitos internos da protagonista são transmitidos de forma gradual, sendo intensificados ao longo da trama, se tornando mais explícitos e potentes no seu cotidiano. É como se a obra levasse o espectador junto de Lili na sua trajetória de tentar entender seus sentimentos.

Outra questão é o relacionamento de Lili com Gerda (Alicia Vikander), retratado de uma forma muito real, sem idealizações ou total destruição da relação das duas. É notável o amor entre elas, que faz com que Gerda esteja com Lili em sua jornada de muitas formas, ainda que isso signifique certa perda para ela.

No total, é um filme extremamente emocionante e doloroso, que transmite bem os aspectos da trajetória de muitas pessoas transgênero. Os conflitos internos e a forma como outras pessoas enxergam a identidade de Lili são muito parecidos com a vivência de pessoas trans na atualidade, o que torna o longa ainda mais dramático.

 

Laerte-se (2017)

[Imagem: Reprodução/Netflix]

Trata-se de um documentário sobre a cartunista Laerte Coutinho, que se assume como uma mulher trans aos 57 anos. Durante a produção, Laerte fala de suas experiências pessoais com sua transição, como isso afetou sua vida e seu trabalho, além de fazer diversas reflexões sobre identidade, gênero e corpo.

O aspecto mais interessante do filme é que ele traz uma pessoa transgênero “fora dos padrões”. A maioria das pessoas, quando pensa em alguém transgênero, pensa em uma pessoa jovem e que esse indivíduo precisa mudar totalmente seu corpo para ser trans. Laerte não é assim. É uma mulher trans idosa, que não pretende fazer várias cirurgias e tratamentos para se sentir feliz como mulher. Isso é muito importante para tirar da mente dos espectadores a concepção de que todo transgênero odeia seu corpo e quer mudá-lo totalmente.

Durante o documentário, o espectador experimenta a sensação de estar indo até a casa de Laerte visitá-la para tomar um café, passar a tarde e conversar sobre a vida, como se faz com um parente ou amigo próximo. Isso se dá pela construção de uma atmosfera extremamente pessoal durante a produção, além de ângulos de câmera que favorecem esse sentimento.

É uma produção com um clima extremamente leve. Não é um documentário que busca abordar sobre como a violência e preconceito contra pessoas trans é horrível, mas sim como foi a trajetória como transgênero para uma pessoa em específico. Portanto, não é o melhor filme para entender o contexto social da causa, uma perspectiva extremamente importante de se ter, mas é uma boa obra para entender a individualidade de cada transgênero, uma perspectiva tão importante quanto a anterior.

 

Tomboy (2011)

[Imagem: Reprodução/Bénédicte Couvreur]

Diferente da maioria, Tomboy (2011) representa o que é ser trans na infância. A trama se desenrola em torno de uma criança (Zoé Heran), que nasceu como sendo do sexo feminino, mas que só se sente à vontade e feliz sendo vista como um menino, tanto por si como pelas pessoas ao seu redor. Por isso, após se mudar para um novo local, ela se apresenta como Michael para as outras crianças da vizinhança.

O espectador passa a acompanhar as descobertas e experiências dela sobre como expressar sua identidade de gênero. Tudo é tratado sob a visão infantil, mostrando a inocência e simplicidade com as quais o protagonista lida com as situações. Ele sabe que o que está fazendo seria considerado errado, uma enganação, mas não parece saber a razão.

Isso é o maior atrativo do filme: abordar de maneira delicada a visão do protagonista, pois mesmo sem ter um nome, uma definição para o que sente, ele apenas quer agir e ser tratado da forma como se sente mais confortável, mais feliz.

A obra mostra que mesmo sem saber o que é a transexualidade, pessoas transgênero continuarão existindo e tentando se expressar. Simplesmente deixar de falar sobre o assunto não as fará desaparecer.

 

Meninos Não Choram (Boys Don’t Cry, 1999)

[Imagem: Reprodução/Fox Searchlight Pictures]

Baseado em uma história real, Meninos não Choram traz para o espectador a história de Brandon Teena (Hilary Swank), um homem trans que apenas quer ser ele mesmo e viver sem preocupações. O filme retrata sua trajetória quando ele vai para Falls City, Nebraska, e começa a se enturmar com outros jovens da cidade, fugindo de problemas que teve em sua cidade natal.

De muitas formas, Brandon se torna um dos caras da turma: eles saem juntos, se divertem, se relacionam, tudo de forma muito espontânea e natural. Apesar de já ser claro para o espectador que há personagens preocupantes na trama, tudo parece estar sob controle, já que Brandon se sente muito inserido e acolhido ali.

Mas há uma tensão sempre presente na obra. O espectador fica imaginando se em algum momento, alguém acabará descobrindo que Brandon é um homem trans, o que parece ser inevitável, mesmo que ele busque várias formas de esconder. Não há como ele estar coberto por roupas masculinas e largas para sempre.

A produção tem uma carga emocional forte, que retrata bem o medo e violência sofridos por pessoas trans. Ele faz o espectador entender todo o mal e dor que a transfobia traz e como esse preconceito impede muitos transgêneros de ter uma vida comum e estável.

Uma das reflexões causadas pelo filme é como, mesmo estando entre personagens tão problemáticos e realmente perigosos, cruéis até, Brandon sempre seria o objeto de maior ódio e julgamento, mesmo sendo bom, gentil e preocupado com os outros. Nada disso importaria enquanto ele fosse um homem trans.

 

Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantastica, 2017)

[Imagem: Reprodução/AccuSoft Inc]

Ao retratar Marina (Daniela Vega), Uma Mulher Fantástica leva o espectador por uma trajetória de luto e preconceito, em que fica claro todo o desrespeito sofrido pela personagem.

Já nos primeiros minutos do filme, vemos a vida de Marina se revirar com a morte inesperada de seu namorado, Orlando (Eugenio Francisco Reyes). O luto já parece sofrimento o bastante, mas há ainda outras complicações para Marina. Por ser consideravelmente mais jovem que Orlando, além de ser tida como “a outra” e ser uma mulher trans, a família de seu falecido companheiro não tem empatia alguma por ela.

Sua dor é desrespeitada a todo momento, assim como seu corpo e sua intimidade. Ao decorrer do filme, Marina sofre todo tipo de humilhação, a maioria delas motivadas por ser uma mulher transgênero. A visão da família de Orlando sobre ela é puramente feita de raiva, nojo e desconfiança.

Com algumas cenas mais lúdicas e simbólicas em conjunto às verossímeis, a produção gera várias passagens de reflexão, mostrando como o preconceito transforma os momentos vividos, como coisas essenciais são simplesmente negadas à Marina.

Uma das reflexões que pode ser tida como a principal da obra é: não importa como é seu corpo, o que ela tem entre as pernas. Marina é Marina. E ela merece ser respeitada, pois sua dor é tão válida como a de qualquer outra pessoa.

Bandeira trans [Imagem: Sharon McCutcheon]

Como dito anteriormente, é importante que o público tenha contato com produções que se proponham a fazer uma boa representação das pessoas transgênero. Acima estão alguns filmes que trazem visões e aprendizados muito importantes sobre o assunto, tanto para quem já está familiarizado, quanto para quem nunca buscou nem teve acesso a informações sobre a comunidade trans.

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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