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América Latina animada: uma relação de destaque
CINÉFILOS
15 ago 2020 | Por Giulia Portelinha (giuliaportelinha@usp.br) e Luiz Attié (laattiecjj@usp.br)

A ideia de animação, ou seja, de figuras em movimento já existe há mais de um século. Na realidade, as origens do cinema se encontram em desenhos com a ilusão de movimento, que depois foram substituídos por fotos, gerando os filmes como os conhecemos. Esse estilo teve anos para se aprimorar e expandir e, atualmente, é possível encontrar desde obras 3D até desenhos aquarelados ou em tinta à óleo.

Antenados nas tendências na arte, as Américas não demoraram para colaborarem com suas próprias produções, mas foi apenas nas últimas décadas, mais especificamente a partir da década de 1970, que elas começaram a ganhar mais relevância, inclusive internacional. Desde então, longas e curtas de diferentes nações latino-americanas têm sido destaque em festivais e premiações.

 

O Brasil

A animação brasileira começa em 1917 com Kaiser do cartunista Álvaro Martins. O curta foi exibido no cinema e se perdeu, restando apenas uma foto dele. As produções continuaram escassas e de modo independente, feitas apenas pelo animador. Desse modo, o primeiro longa, Sinfonia Amazônica (1953), foi criado apenas pelo animador Anélio Latini Filho e seu irmão, Mário Latini.

Única imagem que restou do filme Kaiser. [Imagem: Reprodução/Álvaro Martins]

O cenário da animação brasileira se manteve desse modo até os anos 1990, quando houve um crescimento considerável: até esse ano, raros eram os longas animados nacionais. Como nunca existiu uma indústria de animação grande no país, as produtoras, ainda pequenas, dependem de editais públicos para produzir. “Como a gente não tem uma indústria, a gente não seguiu um padrão gráfico visual, cada artista tinha sua forma de desenhar”, disse Simon Brethé, coordenador do curso de Cinema de Animação e Artes Digitais (CAAD) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Essa mistura de estilos pode ser vista atualmente, basta perceber como cada obra possui um traço característico que reflete seu animador. Inclusive, foi criado em 1993 um festival nacional apenas para animações: o Anima Mundi. Esse festival era realizado todo ano e foi importante para divulgar o trabalho de muitos artistas, mas, por falta de patrocínio, não se sabe se ele vai continuar acontecendo.

Um desses artistas foi Alê Abreu, que ganhou reconhecimento internacional por seu trabalho em O Menino e o Mundo (2013). O estilo que parece pintado a mão e a delicadeza de uma história bem brasileira contada por uma criança fizeram com que o filme fosse aclamado pelo público e pela crítica. O espaço por ele conquistado serviu também para mostrar ao mundo a qualidade das produções brasileiras, abrindo caminho para novas obras.

[Imagem: GKIDS/Filme de Papel]

As séries também são relevantes quando se trata do Brasil. Desde a criação do Anima TV, um concurso para o fomento de séries de animação brasileira que existiu até 2010, o mercado vem crescendo no país. Séries de sucesso internacional como O Irmão do Jorel (2014) e O Show da Luna (2014) também existem graças ao apoio de canais fechados como o Cartoon Network e o Discovery Kids. Outro apoiador de produções nacionais é a Netflix, que ainda está se consolidando no cenário atual.

Um dos maiores símbolos do entretenimento brasileiro, a Turma da Mônica, não pode ficar de fora. As personagens de Maurício de Sousa tiveram sua primeira aparição nos comerciais da CICA, em que Jotalhão, o elefante mais amado do Brasil, aparece. A turminha ganhou seu primeiro filme em 1982: As Aventuras da Turma da Mônica. Com o tempo, a franquia foi se reinventando, ganhando algumas séries que continuam até hoje, inclusive, com a saga Cinegibi sendo lançada , uma reunião de várias historinhas dos gibis, agora animadas. Um dos maiores sucessos foi Uma Aventura no Tempo (2007), que é lembrado até hoje pelos fãs.

 

Para crianças

O público infantil é um grande consumidor de animações, desta forma, grande parte das produções são destinadas para eles. Canais infantis como o Cartoon e o Discovery Kids investem em produções nacionais e conseguem um bom retorno com isso.

Ainda que o principal foco para essa audiência seja a produção seriada, tanto nos canais de TV e serviços de streaming, quanto em canais do youtube, existem ainda bons exemplos de filmes nesse nicho. De um lado, temos os longas que derivaram dessas séries e, do outro, as produções originais.

É comum que uma série de sucesso ganhe um filme para acompanhar a franquia, isso não é exclusividade do Brasil e geralmente é reflexo do sucesso de determinado programa. Peixonauta, o Filme (2016) é um bom exemplo disso. A série animada é um sucesso do canal pago Discovery Kids, ficando quase uma década com episódios novos, e ganhou longas que passaram diretamente no canal e, por fim, um que estreou nos cinemas. Para um público mais infanto-juvenil, um bom destaque vai para Historietas Assombradas: o Filme (2017), do Copa Studio, que acompanha o sucesso do desenho no Cartoon Network.

Cena de Historietas Assombradas: O Filme [Imagem: Divulgação/Universo produção]

O caminho inverso também acontece: franquias que nascem nos cinemas ou que lançam um longa antes da série para sua promoção. Por exemplo, antes da série do Gui & Estopa, foi lançado o filme As Aventuras de Gui e Estopa (2008), baseado nos personagens feitos para o site Iguinho, do Ig. Dentre outras franquias que se aventuraram na sétima arte animada, pode-se destacar a da Xuxa, em Xuxinha e Guto contra os Monstros do Espaço (2005) e até mesmo Mafalda, dos quadrinhos do Quino, que ganhou um filme em 1980.

Existem também, e tão importantes quanto, os filmes que não fazem parte de nenhuma franquia. Cada um deles tem suas particularidades estilísticas e uma mensagem distinta para o público. Desde produções mais comerciais, como o argentino Um Time Show de Bola (2013), animação 3D lançada pela Universal e que conta com nomes famosos como Ariana Grande e Shawn Mendes na dublagem estadunidense; até filmes que concorrem em amostras de cinema infantil, trazendo uma abordagem mais profunda dos temas.

Festivais de animação costumam ter uma parte destinada para o público infantil, como o Anima Mundi, mas também há festivais de filmes infantis, que possuem uma quantidade considerável de animações em seu catálogo, como a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis.

Anina (2013) é um filme uruguaio que se encaixa nesse padrão. O longa conta com um traço estilizado único e uma história bonita que usa metáforas e liberdades da animação com uma bela mensagem no fim. O brasileiro Tito e os Pássaros (2019) também trabalha com alegorias e protagonistas infantis, se mostrando mais profundo do que o esperado, mas ainda assim tem o seu atrativo para o público infantil, especialmente pela moral passada.

 

Experimentando

“O público mais leigo entende que animação é coisa para criança”, diz Simon Brethé. Segundo o professor, isso se deve à questão de os desenhos e personagens lúdicos cativarem as crianças. Porém, na realidade, várias produções que tratam de questões extremamente profundas são pensadas para o público adulto. Virus Tropical (2017), do diretor colombiano Santiago Caicedo, não é nada infantil, a começar pela estética: traços excêntricos e sem cor. No filme, Paola, filha de pai padre e mãe médium, luta contra o preconceito numa sociedade repleta de estereótipos sobre a sua origem e seu gênero.

[Imagem: Divulgação/Timbo Estudio]

A valorização da cultura e da história é um outro elemento marcante nas produções sul-americanas experimentais. Assim, as animações são uma forma de mostrar ao resto do mundo um panorama da realidade latina. Em 2013, através do romance de um homem imortal apaixonado desde 1500 até 2096 por Janaína, Uma História de Amor e Fúria fez exatamente isso. O longa passa por momentos importantes da história brasileira, colonização, escravidão, ditadura militar, além de uma viagem ao futuro distópico. Com essa maneira criativa de contar o passado do país abençoado por Deus e bonito por natureza, o longa conquistou vários prêmios, incluindo o de melhor animação no festival Annecy, na França.

Fugir do convencional também significa usar diferentes métodos e estilos de animação. Na América Latina, onde nunca houve uma indústria padronizada como a da Pixar, alguns animadores exploraram técnicas alternativas visualmente impressionantes. Dia Estrelado (2011) de Nara Normande e O Quebra Cabeça de Tarik (2015) de Maria Leite usam a técnica do stop motion, que consiste em utilizar modelos reais de qualquer material para fotografar quadro-a-quadro da cena. Infelizmente, poucos escolhem trabalhar com stop motion na América Latina, pois essa técnica consiste em um longo trabalho minimalista.

Entretanto, existem ainda diversas maneiras de se fazer produções fora do comum. Mesmo na animação tradicional, o animador tem a possibilidade de ousar nos traços. Marcelo Marão demonstra isso com Até a China (2005), em que ele conta a vez que viajou para a China apenas com a bagagem de mão, mostrando suas impressões da cultura chinesa.

 

Curtas

Apesar de não ser muito divulgado, a América Latina tem produzido uma quantidade notável de curta-metragens de animação. Muitos deles destacaram-se em grandes festivais como o Annecy e até no Oscar. Na própria América Latina, vários curtas, que normalmente fogem do clássico modelo Disney, receberam prêmios e foram elogiados tanto regionalmente, quanto mundo afora.

No Brasil, os curtas representam a esmagadora maioria das animações, o que também acontece em quase todos os outros países latinos. Não é difícil de imaginar o porquê. Normalmente, o custo de produção final de um curta resulta numa quantia consideravelmente menor do que se gastaria em um longa, e esses países geralmente dependem de fundos públicos e de patrocínio de grandes empresas. Mas mesmo com todas as complicações de países de terceiro mundo, trabalhos considerados excelentes pela crítica foram feitos.

História de um urso. [Imagem: Divulgação/Gabriel Vargas]

Em 2016, Historia de un Oso (2014), dirigido pelo chileno Gabriel Osorio Vargas, conquistou o Oscar de melhor curta-metragem de animação. Ele se baseia na história do avô do cineasta que ficou dois anos encarcerado durante a ditadura de Augusto Pinochet, porém utiliza a triste metáfora de um urso preso no circo para contar a história de uma forma única e comovente.

Guida (2014) também conquistou  prêmios ao redor do mundo, incluindo dois no festival de Annecy. O curta brasileiro é dirigido por Rosana Urbes e conta a história de uma senhora que trabalhava como arquivista no Fórum da cidade há trinta anos até que um anúncio para aulas de modelo vivo muda sua rotina monótona e a faz descobrir novas formas de ver a si mesma. O lado artístico e a beleza são conceitos que o filme se propõe a discutir e o faz muito bem com uma animação leve e fluida.

Uma das vantagens de se produzir um curta-metragem é a liberdade que o artista tem de experimentar. Ou seja, ele pode usar técnicas e estilos diferentes de animação que não seriam possíveis em um longa-metragem, devido ao alto custo. A diretora Nara Normande aproveitou-se disso ao animar o autobiográfico Guaxuma (2018), em que conta como foi crescer na praia com sua melhor amiga Tayra. Para dar vida às memórias, Nara utiliza técnicas de animação em areia, mesclando stop motion com animação 2D.

Os curtas merecem também créditos por inserir novos animadores no mercado. Não haveria O Menino e o Mundo se Alê Abreu não tivesse se aventurado em Passo (2007), de três minutos e meio. Os traços simples como os de uma criança por cima de uma branca folha de papel seriam futuramente a inspiração de um projeto maior. Como afirma Simon Brethé, “o curta é o portfólio do animador”.

 

Futuro

Além de produções nacionais, esses países também contribuem com colaborações entre diferentes nações, tanto exportando animadores quanto criando para empresas europeias e estadunidenses. Embora esse não seja o assunto principal do texto, é importante ressaltar a influência e participação da América Latina em grandes produções hollywoodianas, como Rio (2011) e A Era do Gelo (2002), de Carlos Saldanha para a Blue Sky Studios.

Atualmente, ainda que alguns estúdios já tenham crescido o bastante para se manterem sozinhos com suas produções, a grande maioria ainda depende de editais públicos de incentivo à cultura. Ou seja, é provável que animadores encontrem dificuldades de acordo com o momento político. Apesar disso, existe futuro para esse nicho e ele ainda tem muito espaço para crescer. Sobre isso, Simon comenta: “eu vejo um futuro promissor, porque o audiovisual é cultura e a gente consome cultura mesmo dentro de casa”.

 

*Capa [Imagem ursos: Cartaz do filme História de um Urso/Reprodução] [Imagem menina de roxo: Cartaz do filme O Livro de Lila/Reprodução] [Imagem menino acenando: imagem de divulgação do filme O Menino e o Mundo/Reprodução] [Imagem Turma da Mônica: Cartaz do filme Cinegibi 3 (Mauricio de Sousa Produções)/Reprodução] [Imagem bonequinhos: imagem de divulgação do filme Um time Show de Bola/Reprodução]

Especial América Latina | Jornalismo Júnior

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