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Especial Alien
CINÉFILOS
09 maio 2017 | Por Jornalismo Júnior

O menino estava de castigo. Alguma malcriação, tão normal nesta idade, mas duramente repreendida pela professora do jardim de infância. Nada de mais a ser esperado, um bom comportamento é tudo que se espera de um menino cristão, ainda mais naquela época, anos 40, na Suíça. Provavelmente o menino esperneava, sacudia as mãozinhas e abria o berreiro, deixando lágrimas de travesso arrependido escorrerem pelo rostinho, vindas desses olhos tão pequenos, mas firmes feito pedra, ainda mais quando emoldurados por fundas olheiras negras, como essas que leva na cara. Não adiantava chorar, castigo é castigo, só papai do céu para perdoá-lo agora. E em frente à papai do céu ficou, mas um papai do céu agonizante, uma cabeça sanguinolenta de um Cristo entristecido pela malcriação do pequeno Hans. Era apenas uma imagem, mas ela encontrou um espaço profundo nas dobras daquele cérebro que, um dia, ainda faria a gênese de um mundo em tudo peculiar: universo assustador, erótico e sanguinolento, onde a carne se funde à tecnologia em uma orgia sexual. Mais tarde, perguntariam a Hans Hudolf Giger muitos porquês relacionados à violência de seus temas, e a resposta seria a cabeça daquele Cristo, no longínquo jardim de infância da pequena cidade de Chur.

H.R.Giger é como melhor ficaria conhecido esse pintor surrealista, mestre do pincel pneumático e pai de uma das criaturas mais fantásticas da história do cinema: o xenomorfo de Alien. Mas o mundo que Giger criou tem uma existência muito além do espaço cinematográfico, habitando telas, esboços e esculturas. Classificou seu trabalho como biomecânica, uma fusão da técnica com os seres vivos. Fusão fálica e violenta.

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Os trabalhos de Giger são povoados de criaturas alienígenas, seres deformados trespassados por cabos, quimeras entre o gozo e o espanto. Seu universo geométrico é fálico, em tudo remetendo ao instante exato da criação, o ápice da fecundidade. Artista único, habitante do limiar entre a loucura e a genialidade, foi profundamente inspirado pelo trabalho de artistas como Salvador Dalí, encontrando a matéria pulsante de seus trabalhos no sombrio e misterioso. O começo da carreira de Giger no cinema foi um projeto ambicioso, mas nunca realizado: Duna, de Alejandro Jodorowsky. O artista suíço ficaria responsável por dar vida ao universo da obra de Frank Herbert, projetando planetas, personagens e figurinos. Muitos esquetes foram feitos para o filme, mas com a recusa de estúdios em financiar a obra, o projeto foi por água abaixo. Mas o destino, ou seja lá o que, ainda uniria Giger à sétima arte. Também envolvido com o ambicioso projeto de Jodorowsky estava o jovem Dan O’ Bannon, que alguns anos mais tarde teria a ideia para um projeto de nome Alien. A história encontrou espaço na 20th Century Fox, e logo Bannon mostrou ao diretor do filme, o ainda desconhecido Ridley Scott, o livro de gravuras de Giger, Necronomicon, dizendo ser o suíço a melhor pessoa para fazer as artes do filme. O resultado já se sabe: Scott e os produtores aceitaram a indicação de Bannon e logo Giger já estava desenvolvendo os traços do que seria um sucesso de crítica e público, e um dos mais importantes filmes hollywoodianos já feitos.

Logo foi levado para os estúdios degiger (2)
Shepperton, na Inglaterra, onde pôde trabalhar com afinco em sua criatura. Foram produzidas maquetes das naves do filme e inúmeros estudos (muitos em tamanho real) do alienígena. Giger relataria a experiência como um trabalho árduo, dedicando-se ao projeto mesmo nos finais de semana. O processo de desenvolvimento da anatomia do xenomorfo foi complexo – até mesmo um crânio humano real foi usado.Como resultado de seu trabalho, levou o Oscar de melhores efeitos especiais no ano
de 1980.

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Giger montando o “esqueleto” do Alien no estúdio de Shepperton

 

Não se poderia começar a falar nos filmes da franquia sem devidamente apresentar seu criador, pois o Alien nada mais é do que o fruto das obsessões estéticas de Giger. Toda a força motora da criatura, e também a razão de ser tão fascinante, é produto exclusivo das ideias dele. Mesmo assim, o artista confessaria guardar alguns ressentimentos sobre sua experiência hollywoodiana, sobretudo em relação a autoria de seus trabalhos, que influenciou, direta ou indiretamente, outras produções. Morreu em 2014, na cidade de Zurique.

 

Alien – o oitavo passageiro (Alien, 1979), de Ridley Scott.

Alien é uma obra prima, não apenas do terror, mas também da ficção científica. São muitos os fatores que podem explicar o tamanho sucesso do filme. Muitos deles podem ser entendidos somente pelas pessoas daquela época. Ver Alien hoje em dia é uma experiência muito distante do horror que o filme transmitiu na época, ficando “apenas” um excelente filme de suspense, mas não menos fascinante. O que Alien fez foi trazer algo novo, pouco visto. Um terror muito além do medo da morte, da mutilação, um terror cuja força vinha mesmo do desconhecido e do abjeto, onde o que estava em jogo não era apenas a vida, mas a integridade física do ser. Dan O’Bannon, comentando sobre seu processo criativo, diria que buscou atingir as pessoas por um assunto universal: o sexo. Toda anatomia do xenomorfo é fálica e violadora, desde os facehuggers que se grudam ao rosto da vítima, metendo um embrião goela adentro, ou os chestbursters que rasgam o abdômen de seu hospedeiro, transformando-se em uma criatura temerosa, anatomicamente fálica e perfeita em sua tarefa de matar pessoas. Alien é uma metáfora de vida e espanto. Na trama, uma espaço-nave cargueiro vaga pelo espaço em uma viagem de volta à terra. No meio do trajeto, intercepta uma transmissão desconhecida vinda de um asteróide, e sua tripulação é obrigada a investigar sua origem. No local, se deparam com uma enorme nave alienígena repleta de ovos de alguma criatura desconhecida. Ao eclodir, um dos tripulantes é infectado pelo embrião, sendo trazido de volta à nave, onde a criatura assume sua nova forma e começa a caçar os demais tripulantes.

A direção teve muitos méritos, especialmente no processo de dar o tom do filme. O segredo do suspense está na forma pelo qual os elementos vão sendo revelados e a sequência em que são apresentados. As decisões de Scott são fundamentais para isso. Em primeiro lugar, nunca o xenomorfo é mostrado de corpo inteiro (ao menos não até o final), desnecessariamente. Fica ao público a apreensão e a curiosidade fascinada em ver o parasita apresentado como uma criatura perfeita, forte e com ácido corrosivo no lugar de sangue. A escolha do elenco também foi muito importante no processo de se gerar tensão. Naquela época, a maioria dos atores do filme, mesmo Sigourney Weaver e Jonh Hurt, ainda não eram conhecidos pelo grande público. Além do mais, diferentemente de outros filmes, Alien demora para definir quais são os seus protagonistas, tornando palpável para o público da época, a hipótese de que todos os tripulantes poderiam morrer, a qualquer instante.

Usando-se desse jogo de apreensão e repulsa decorrente do imaginário de Giger,  Alien redefiniu seu gênero e se colocou como um dos mais importantes filmes da época, hoje sendo um clássico inquestionável e obrigatório de ser visitado.

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Aliens, O  Resgate (Aliens, 1986), de James Cameron

Com o sucesso de Alien, uma sequência era mais do que esperada, e o mais cedo possível. Alguns desenlaces burocráticos na Fox, produtora detentora dos direitos da franquia, fizeram que a produção da sequência fosse adiada por mais um tempo. A partir de 1983 assumiram o projeto de vez, e para dirigi-lo escolheram um diretor que se mostrava cada vez mais promissor, James Cameron, que, anos mais tarde, seria reconhecido por fazer dois dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema, Titanic (Titanic, 1997) e Avatar (Avatar, 2009). É inegável, Cameron tem um talento especial para dirigir bons blockbusters, à sua própria maneira. Qualquer cineasta que assumisse o projeto teria em mãos uma enorme responsabilidade e provavelmente muitos ficariam tentados e intimidados à tentar reconstruir a atmosfera de suspense do primeiro filme. Cameron, por sua vez, fez o seu Alien: não de suspense, mas sim de ação, com toda uma atmosfera explosiva e bélica.

aliens

Na trama, Ellen Ripley (Sigourney Weaver), já devidamente instalada em sua função de protagonista, volta à terra anos depois dos eventos retratados no filme anterior para descobrir que, durante o tempo em que vagou pelo espaço, o asteróide em que os ovos do Alien estavam foi colonizado por um grupo de pessoas que parou de responder aos sinais enviados. Acompanhando um pelotão de soldados, os space marines, Ripley volta então ao planeta para tentar ajudar na busca por sobreviventes e dar um fim nas criaturas.

Como o plural do título já diz, não há apenas um xenomorfo neste filme, mas uma colônia inteira deles. As sequências de ação são espetaculares, mas o maior mérito do filme é, sem dúvida, ter lançado novas visões sobre o comportamento das fascinantes criaturas. Os Aliens passam a ser vistos não mais como predadores solitários, mas criaturas que se organizam cuidadosamente. Há uma certa hierarquia entre eles, e um instinto predatório aguçado ao ponto deles serem capazes de preparar armadilhas para capturar os humanos, por exemplo. Cameron, portanto, não apenas respeita o universo do filme anterior, como o expande eficientemente.

Até hoje, a grande maioria dos fãs da franquia se dividem entre o filme de Scott e o de Cameron, já que ambos foram primorosos e muito bem desenvolvidos em seus respectivos gêneros. Aliens foi indicado para sete Oscars, inclusive ao prêmio de melhor atriz para Sigourney Weaver. É uma pena que os filmes que lhes sucederam não conseguiram acompanhar o mesmo padrão de qualidade, não pela incapacidade de seus realizadores, mas sobretudo por péssimas escolhas feitas pelos produtores que mandavam em tudo.

 

Alien 3 (Alien³, 1992), de David Fincher

Talvez David Fincher seja um dos principais cineastas americanos nos dias de hoje. Sua cinematografia, que inclui filmes como Clube da Luta (Fight Club, 1999) e Seven, os Sete Crimes Capitais (Se7en, 1995), não daria margem para contestações, pelo menos. Fincher começou sua carreira na publicidade, logo em seguida passando a produzir videoclipes para artistas como Madonna. Muitos roteiros haviam sido escritos e descartados, além de muitos realizadores terem assinado a direção do projeto e depois desistido, principalmente pelo comportamento autoritário e intransigente dos produtores. Fincher, começando sua carreira em longas metragens, praticamente não teve voz contra seus empregadores, o que para uma pessoa como ele, tido como extremamente meticuloso com suas ideias, foi provavelmente um grande tormento. Mesmo assim, é nítido que Fincher conseguiu deixar alguns de seus traços no filme (sobretudo na versão mais longa, a Assembley Cut), como a atmosfera cansada e lânguida marcante de seus trabalhos posteriores.

Alguns fatos da pré-produção do filme são muito “peculiares”. Por exemplo, inicialmente, não se considerava a presença da personagem de Ripley para o terceiro filme – inclusive, alguns roteiros muito interessantes foram escritos, em que a trama se passava na Terra e no planeta dos Aliens. Porém, os produtores exigiram o retorno da atriz para o terceiro longa, mesmo que para isso fosse necessário criar uma lógica absurda entre o final do segundo filme e o início deste.

Em linhas gerais, Alien 3 teve muitas oportunidades de ser um filme melhor do que foi, mas decisões erradas, baseadas em estimativas administrativas, deixaram o filme repleto de lacunas lógicas e erros crassos. Mesmo assim, vale a pena para quem se interessou pela franquia, dar uma olhada no filme que quase fez David Fincher desistir de sua carreira no cinema.

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Alien, a Ressurreição (Alien, Ressurrection, 1997), de Jean-Pierre Jeunet

Após o não esperado fracasso de crítica e público de Alien 3, os produtores da franquia tentaram “ressuscitar” a série neste novo episódio. O resultado foi aquém de quaisquer expectativas. Alien, a Ressurreição é considerado como o pior Alien já feito. Os problemas foram graves, mas poderiam ser facilmente resolvidos. O roteiro, escrito por Joss Whedon – roteirista de Vingadores: Era de Ultron (Avengers, Age of Ultron, 2015), decidiu dar um tom muito mais leve a franquia. O diretor, evidentemente, decidiu seguir por um tom muito mais sombrio em seu filme – nada mais que o esperado, dado o universo Alien –  e quando roteiro e direção não se casam, tem-se um problema grande. As próprias intenções por trás desse filme foram estranhas: se a força motora que trouxe a personagem Ripley ao centro da ação de seu antecessor foi, no mínimo, estranha, aqui é mais bizarra ainda, beirando a incoerência.

Iniciada com dois excelentes filmes que são considerados marcos de sua época, a franquia logo vivenciou um intenso declínio que a praticamente aniquilou por longos anos. Muitas questões haviam sido deixadas para trás, relacionadas à origem dos Aliens e como sua relação com os humanos foi estabelecida. Com tanto material e possibilidades disponíveis, a franquia só começou a se restabelecer quando Ridley Scott assinou novamente a direção.

 

Prometheus (Prometheus, 2012), de Ridley Scott

O ano é 2089. Um grupo de cientistas descobre um mapa estelar em ruínas arqueológicas de civilizações antigas que habitaram a Terra, acreditando poder descobrir a origem da humanidade, caso sigam sua pista. A expedição é financiada e a equipe parte em uma longa jornada em direção ao misterioso planeta apontado. Os eventos de Prometheus se passam antes dos fatos retratados em Alien, mostrando o primeiro contato dos humanos com seres conhecidos como engenheiros (ou Space Jockeys), que de alguma forma possuem uma relação com os xenomorfos.

Na época de seu lançamento, Prometheus levantou reações mistas: boa parte do público desgostou de que o filme levantasse mais questões, ao invés de responder as anteriores. De fato, o surgimento dos engenheiros na equação complicou ainda mais as teorias já feitas sobre o universo – inclusive, quase nada se fala dos Aliens nesse filme. Porém, desde o princípio já se falava em produzir um outro filme explicando os eventos anteriores à O Oitavo Passageiro, que será este Alien: Covenant (Alien Covenant, 2017). Nesse aspecto, as críticas à Prometheus são um pouco descabidas. O filme tem sim seus problemas, principalmente na construção de alguns personagens clichês ou simplesmente dispensáveis. Mas a trama flui muito bem, e deixa uma curiosidade e apreensão para ver o que mais tem a ser dito.

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Alien: Covenant vem com a missão de responder todas essas questões e recuperar a atmosfera de terror do primeiro filme da franquia. A expectativa é muito alta, e todo o futuro da saga depende do resultado desse filme. Nascido como um dos melhores filmes de sua época e cativando milhões de fãs para seu universo, a franquia Alien se viu praticamente extinta devido a inúmeros erros de produção, vivenciando nos dias de hoje um tímido ressurgimento. Resta saber se os xenomorfos serão considerados apenas como registros do passado ou se ainda têm muito mais para cativar o público.

Pedro Graminha
Graminhaph@gmail.com

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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