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Netflix: ‘Os 7 de Chicago’ em um julgamento de ideias
CINÉFILOS
21 out 2020 | Por Mara Mendes de Matos (mara.mmatos@usp.br)

Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago 7, 2020) retrata a história real dos manifestantes detidos e acusados de provocar um motim no dia da Convenção Nacional Democrata de 1968, que aconteceu em Chicago. “Quem provocou os tumultos? Os manifestantes ou a polícia?”. Essa é a disputa em questão, uma disputa pela narrativa.

Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen), Jerry Rubin (Jeremy Strong), David Dellinger (John Carroll Lynch), Tom Hayden (Eddie Redmayne), Rennie Davis (Alex Sharp) são os réus do julgamento que fugia das categorizações comuns, civil ou criminal, juntos de John Froines (Daniel Flaherty), Lee Weiner (Noah Robbins) e Bobby Seale (Yahya Abdul- Mateen II). Tratava-se de um julgamento político. E, ao decorrer de cada cena, esse fato fica cada vez mais evidente aos olhos do espectador.

Bobby Seale, os advogados Kunstler e Weinglass, Tom Hayden e Lee Weyner. [Imagem: Reprodução/ Netflix]

Sob direção de Aaron Sorkin, a reconstrução dos fatos parte já do dia do julgamento e é feita aos poucos, envolvendo o público no misto de emoções vividas pelos diferentes personagens, principalmente a impotência diante da corrupção das instituições sociais. O filme apresenta bem a manipulação do caso em favor da acusação e a não qualificação do juiz Julius Hoffman, interpretado por Frank Langella.

O mundo inteiro assistia ao “Julgamento dos 7”, como ficou conhecido. Entre tantos absurdos – a arbitrariedade de Hoffman, corrupção de júri, escuta telefônica – um caso se destacou. Bobby Seale, cofundador do Partido dos Panteras Negras em 1966, tentava incessantemente se defender das injustiças sofridas até aquele momento e, por ordem do juiz, foi acorrentado e amordaçado no tribunal. Sem saída depois de tal episódio extravagantemente racista, Julius Hoffman determinou que as acusações contra ele, que diziam respeito às manifestações, seriam retiradas.

Desde o início, a intenção dos grupos de manifestantes era ir a Chicago pacificamente em favor do fim da Guerra do Vietnã, que se estendia por anos, assassinava civis vietnamitas e levava vários soldados norte-americanos para a morte. Mas o Estado não permitiria que a “nova esquerda” avançasse com seus ideais. Qualquer um que fosse contra esse projeto poderia ser marcado como antipatriótico. Tudo em nome da Nação. O movimento pelos direitos civis ganhava força e foi desestabilizado com o assassinato de Martin Luther King. Era preciso ainda mais repressão. E, em questão de brutalidade e disparidade de forças, a polícia não falhou no trabalho.

Cenas da polícia no confronto. [Imagem: Reprodução/Netflix]

Em meio a toda a situação, vemos a divisão de perspectivas entre os próprios réus. Alguns consideravam a calma e uma tentativa de conciliação com as autoridades como as melhores alternativas. Outros, mais radicais, reconheciam a rebeldia necessária para lutar contra o ataque de um governo que os desprezava. Dilema bem retratado pelas discussões de Tom Hayden e Abbie Hoffman. Naquele momento decisivo para uma luta coletiva, as subjetividades dos companheiros de movimento eram postas em jogo.

Não é difícil estabelecer paralelos entre o episódio e os tempos em que vivemos. Frente a tomada de poder da extrema direita em diversos países, muitos direitos anteriormente conquistados são colocados em risco. Exemplo muito próximo e recente é a flexibilização das leis ambientais, a qual o nosso ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, chamou de “passar a boiada”. Como visto no longa, tentativas de preservação da diversidade e dignidade da coletividade são vistas como ameaça. A juventude segue lutando contra a “ordem” estabelecida e não pede permissão.

O longa já está disponível para todos os assinantes da Netflix. Confira o trailer:

*Capa: [Imagem: Divulgação/Netflix]

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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