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Entre o absurdo e o opressor, Kafka transporta o leitor para uma atmosfera surrealista

Conheça mais sobre a vida e a obra de Franz Kafka, um dos escritores mais renomados do século 20

Por Livia Bortoletto (liviafb@usp.br)

Franz Kafka foi um dos escritores de língua alemã mais influentes da literatura ocidental do século 20. O autor modernista escreveu contos, romances e novelas, os quais têm como principal característica a análise profunda das condições humanas. Sua obra mais conhecida é A metamorfose (1915), uma novela que faz críticas ao sistema capitalista por meio de uma metáfora surrealista.

Kafka nasceu no dia 3 de julho de 1883, em Praga, atual capital da República Tcheca. Na época, o país fazia parte do Império Austro-Húngaro. [Foto: Reprodução/Picryl]

Em 1901, o escritor ingressou na Universidade Alemã de Praga, hoje conhecida como Universidade Charles. Como explica Tomaz Amorim, doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), a sua intenção inicial era cursar Química, porém, transferiu-se para o Direito duas semanas depois do início das aulas. Durante a faculdade, Kafka frequentou um clube de literatura, em que jovens faziam leituras compartilhadas e liam seus próprios escritos uns aos outros.

Conforme aponta Enrique Mandelbaum, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH) e pesquisador de Franz Kafka, foi nessa fase da em que ele começou a escrever suas produções literárias. Além disso, conheceu seu melhor amigo e futuro publicador de suas obras, Max Brod. Durante a graduação, o escritor buscou estudar filosofia e história da arte.

Após se formar, em 1906, Kafka trabalhou na Companhia de Seguros Assicurazioni Generali. Apesar de ser descrito como um funcionário ambicioso e incansável, Tomaz explica que o autor demonstrava insatisfação em seus diários por não poder dedicar mais tempo à escrita. “Esses dois mundos, a vida de advogado de dia e a vida de escritor à noite, conflitavam um pouco. Vemos muito dessa disputa nos diários de Kafka. Ele sempre reclamava, pois queria poder só escrever”, aponta o doutor . Posteriormente, trabalhou por 14 anos no Instituto de Seguros para Acidentes de Trabalhadores do Reino da Boêmia. 

Tomaz também explica que, ao contrário da imagem melancólica que temos de Kafka como uma pessoa isolada e solitária, as mais recentes biografias do autor mostram que essa visão é distorcida. “Ele era, sim, uma pessoa tímida, mas que circulava muito pela cidade, fazia parte dos círculos literários, praticava esportes, namorava, saía à noite”, afirma. Enrique menciona a obra Conversas com Kafka (Novo Século, 2008), escrita por Gustav Janouch, colega de trabalho do escritor. “Kafka é retratado na obra como um homem muito generoso e bem humorado”, afirma.

O pesquisador também cita a descrição de Max Brod do momento em que leu A Metamorfose no clube literário que frequentava. O escritor desconfiou que a casa descrita no livro era a residência onde Kafka morava. Em resposta ao questionamento do amigo, Kafka somente riu. “Então, ele era ao mesmo tempo muito amplo nas relações, muito profundo, mas muito reservado, muito limitado”, comenta o estudioso. 

“Se eu precisasse defini-lo em uma palavra, seria paradoxo.”
Enrique Mandelbaum

Os amores de Kafka

Seus relacionamentos amorosos eram conturbados. Kafka ficou noivo de Felice Bauer, porém o relacionamento entre os dois terminou. Depois, noivou novamente com a moça, mas, após receber o diagnóstico de tuberculose em 1917, o noivado foi desfeito. “A tuberculose foi um tipo de libertação para ele desse segundo noivado” – explica Tomaz. Também noivou com a camareira tcheca Julie Wohryzek, porém o casamento nunca chegou a acontecer.

Franz Kafka e Felice Bauer noivaram duas vezes, mas nunca se casaram efetivamente
[Foto: Reprodução/Picryl]

Para além desses noivados, Kafka se relacionou com Milena Jesenská, uma jornalista e ativista tcheca que traduziu muitas das obras do autor originalmente escritas em alemão. Conforme comenta Tomaz, os relacionamentos de Kafka sempre estiveram presentes em sua literatura por meio de cartas, de forma a se tornarem romances epistolares — ou seja, histórias de amor narradas através de cartas trocadas entre os protagonistas. “Particularmente, as cartas trocadas entre ele e Milena são muito bonitas, porque a própria Milena era uma figura surpreendente: uma militante feminista, em 1910. Era uma relação muito diferente entre uma mulher muito forte, solar, ativa e pública e esse homem mais tímido.”

Contudo, ela era casada e os dois só se encontraram pessoalmente algumas vezes. Durante a Segunda Guerra Mundial, Milena morreu em um campo de concentração, assassinada. O livro Milena: a trágica história do grande amor de Kafka (Arcade Publishing, 1997), escrito por Margarete Buber-Neumann, uma mulher que esteve no campo de concentração com a jovem, revela como a vida da jovem foi repleta de ativismo, amor e sacrifício.

Milena Jesenská morreu no campo de concentração de Ravensbrück, na Alemanha
[Foto: Reprodução/Wikimedia Commons]

No fim de sua vida, Kafka conheceu Dora Diamant, uma jovem judia de família tradicional, com quem morou em Berlim. Porém, o pedido de casamento não foi autorizado pelo pai de Dora, devido ao fato de o escritor estar doente. Apesar da negativa do pai, a moça  acompanhou Kafka em suas estadias em sanatórios durante o tratamento da tuberculose e o ajudou a queimar uma parte de suas obras. 

Após passar por diversas internações, Franz Kafka faleceu, no dia 3 de junho de 1924, no sanatório de Kierling, perto de Viena. Conforme explica Tomaz, o escritor tinha deixado dois testamentos pedindo que, depois de sua morte, suas obras literárias fossem destruídas. Porém, Max Brod não respeitou esse pedido, e publicou os livros de Kafka. 

“Kafka era um inconformado consigo mesmo. Se cobrava muito. Por isso, não queria que suas obras fossem publicadas.”
Enrique Mandelbaum

A relação de Kafka com o seu pai

Hermann Kafka era um comerciante próspero da classe média, descrito na bibliografia de Kafka como um homem autoritário e severo. Essas características resultaram em uma relação tensa e opressiva entre pai e filho. Como afirma Tomaz, Kafka deixou registrado em seus escritos que, desde a infância, sentia medo do pai. “Ele diz que o pai é uma figura grande, que fala alto e que se impõe. Enquanto isso, ele se via como uma criança franzina, tímida e que falava baixo.” 

De acordo com interpretações da obra de Kafka, é dessa relação que surge o medo e o autoritarismo representados nos livros do escritor. Seu pai estaria presente indiretamente nos livros em que os personagens se veem diante de autoridades que não compreendem e contra as quais se sentem impotentes.

Em Carta ao pai (L & PM, 2004), um longo texto que nunca foi enviado para o seu pai, Kafka expõe, com sinceridade e dor, o medo, a culpa e o sentimento de inadequação que o influenciaram ao longo de sua vida. Enrique destaca uma passagem do texto, em que o autor recorda de uma noite de sua infância, quando acordou chorando, pedindo por água. E o seu pai levantou, bravo. Levou-o para um terraço e o deixou lá, de castigo. “Então é uma autoridade que, ao invés de dar a simples água que a criança estava pedindo, manda ela ficar quieta. Há uma certa incompreensão também, por parte do pai”, esclarece o estudioso. 

Contudo, Tomaz destaca que há sempre o outro lado da história: “Se nós só lemos a carta, temos a impressão de que Hermann é um monstro, um vilão. Porém, em biografias e relatos de pessoas próximas à família de Kafka, Hermann não é descrito dessa maneira. Acho que o pai também contaria outras coisas sobre essa relação”. Na visão do pesquisador, ele era um pai de família, em uma sociedade patriarcal. E Kafka, como um escritor sensível e sutil, percebe que essa figura paternal superior está presente em outras instituições, como no Estado e na religião. 

O estilo kafkiano

O autor, cujas obras se enquadram com o movimento modernista, aborda, de maneira surrealista, o medo e a angústia humana perante forças externas opressivas e absurdos burocráticos. A leitura de seus escritos é permeada por uma atmosfera sufocante, pois, na maioria dos casos, os personagens se veem assombrados por poderes absolutos, diante dos quais se sentem impotentes. É dessa ambientação literária que surge o termo “kafkiano”, que representa o surreal, o enigmático e o absurdo. Para Enrique, essa expressão representa a unicidade da obra de Kafka: “São poucos os autores cujo estilo se torna um adjetivo”. 

Ainda segundo o estudioso, essas características da obra do escritor podem ser lidos sob várias óticas: “Você pode ler tudo isso como um sonho, ou como uma crítica à cultura, ou como uma crítica à política. Podemos ver também como uma leitura sobre a dificuldade das relações entre os homens. Ou você pode ler como uma visão sobre a condição humana diante de Deus ou da própria história.” 

A linguagem kafkiana para narrar todos esses elementos é simples, objetiva e direta. Ele descreve os cenários que parecem ser de um mundo onírico de forma descritiva, transformando o absurdo em normal. 

“Muitos dizem que a inovação de Kafka foi trazer a linguagem do escritório para a literatura. Então, ele conta histórias fantásticas, mas como se estivesse escrevendo um relatório.”
Tomaz Amorim

As principais obras de Franz Kafka

O livro mais conhecido de Kafka é A Metamorfose. Essa novela narra a história de Gregor Samsa, um jovem que, em uma determinada manhã, acorda transformado em um inseto. Desde o início, a sua única preocupação não é entender o que havia acontecido com ele, e sim, em como poderia trabalhar daquela forma, porque era o emprego que dava sentido à sua existência. Ele não tenta reverter a sua metamorfose, somente deseja seguir a sua vida burocrática funcional. 

Gregor era a principal fonte de renda de sua família. Após a metamorfose, o jovem para de trabalhar, o que o torna incômodo e descartável em sua residência. Seus pais e sua irmã começam a tratá-lo de forma grosseira e o mantém confinado em um quarto.

Franz Kafka foi uma grande influência para filósofos existencialistas, como Jean Paul-Sartre e Albert Camus, e para cineastas renomados, como David Lynch e Stanley Kubrick.  [Foto: Divulgação/Antofágica]

Através dessa obra, Kafka faz uma crítica feroz à sociedade capitalista, em que os indivíduos só são valorizados caso sejam produtivos. Também aborda a solidão, o estranhamento e a incomunicabilidade humana, por meio da descrição do progressivo isolamento de Gregor após ter se transformado em um inseto. O escritor inverte a lógica comum da metamorfose — em que a lagarta se torna uma borboleta — para nos mostrar o que não queremos ver: o monstro-inseto, a negligência da família pelo filho não produtivo e um sistema social, econômico e político que trata seres humanos como máquinas.

Outra importante obra de Kafka é O processo (1925), um texto que o artista deixou inacabado. O livro gira em torno de Joseph K., um bancário que é acusado de um crime que não sabe qual é. O protagonista luta contra um sistema judicial opressivo e incompreensível, perante o qual se sente impotente. É uma crítica mordaz ao que, aos olhos do autor, seria uma burocracia tirânica que controla a sociedade.  “O protagonista recebe a notícia de que vai ser preso e fica tentando entender o que ele fez, enquanto também tenta se defender desse tribunal misterioso, que ninguém sabe como funciona”, explica Tomaz.

O castelo (1926) traz um dilema semelhante. O livro narra a história do agrimensor (aquele que mede e demarca terrenos) K., que chega a uma aldeia para trabalhar, mas nunca consegue se comunicar com o suposto castelo que o contratou. A narrativa, permeada por mal-entendidos, é uma metáfora de Kafka para expressar a fragilidade do indivíduo perante as instituições que oprimem e atrasam processos simples com seus labirintos metódicos. Outro aspecto relevante da obra é a personagem Frieda, uma jovem subversiva ao sistema vigente. Na visão de Tomaz, ela é a representação literária de Milena Jesenská. “Frieda é uma mulher que diz não para um senhor do castelo, quando ele tenta abusá-la. Ela diz não e a família dela é jogada no ostracismo por causa disso”, explica. 

Para Enrique Mandelbaum, as figuras autoritárias, presentes tanto em O processo e O castelo, podem ser vistas como um reflexo do que o pai de Kafka representava para ele, ou, em análises mais profundas, soberanias políticas ou religiosas. “Eu vejo a ressonância do pai. Mas, em O castelo, por exemplo, eu consigo traduzir isso também como uma possível ressonância teológica. E, ao mesmo tempo, pode ser uma ressonância das entidades políticas”, aponta.

Polêmicas de Franz Kafka

Em fevereiro de 2024, debates sobre a figura de Kafka ocorreram entre os usuários brasileiros do X (antigo Twitter). O assunto repercutiu tanto que até os principais jornais do país comentaram o tema. A questão teve início após a viralização de uma captura de tela dos resultados de uma pesquisa no Google que questionava o porquê de o escritor nunca ter se casado. A resposta fornecida foi que, segundo Max Brod, Kafka era “torturado” pelo desejo sexual. De acordo com Reiner Stach, um de seus biógrafos, Kafka teria sido um mulherengo, que frequentava bordéis e se interessava por conteúdos pornográficos. 

A imagem da pesquisa viralizou depois de ter sido repostada por uma usuária defensora da superioridade feminina contrária a pornografia. Ela chamou o escritor de “viciado em pornografia” e comentou que espera que “as meninas que romantizam as citações dele deem uma olhada nisso”. Apesar de diversas outras pessoas terem se posicionado contra esse cancelamento, as buscas na rede social ficaram repletas de termos como “Kafka cancelado” e “Kafka e pornografia”. 

Na visão de Tomaz, cancelar um dos autores mais renomados do século 20 por esse motivo é algo banal, baseado em uma crítica conservadora. “Era uma sociedade muito reprimida sexualmente. Então esses outros mecanismos eram comuns entre os homens. Se formos cancelar todo escritor do século 20 que possuía uma vida sexual, não irá sobrar nenhum”, explica. Além disso, destaca que, nessa época, os cabarés possuíam outra configuração: eram como teatros, espaços de circulação de cultura frequentados por diferentes pessoas. E a pornografia também não era como hoje em dia, em que há uma indústria que explora as mulheres sexualmente.

*[Imagem de capa: Reprodução /Wikimedia Commons]

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