Por Grazielli Costa (grazielli.hcosta@usp.br)
Na última quinta-feira (11), o Auditório Freitas Nobre foi palco de mais um dia da II Semana do Audiovisual da Jornalismo Júnior. O evento contou com patrocinadores como Reserva Cultural, Lepok, Copy set, Padaria Vipão, Academia Internacional de Cinema, Summus Editorial, Phantastika, Olhavê, Editora Polytheama e Rádio Novelo. Nesse dia, a repórter da Jornalismo Júnior, Laura Cristofoletti, mediou a mesa “Produção de Conteúdo: Audiovisual, público e comunicação”, com as convidadas Livresenhas e Flávia Verso.

Lívia Reginato, conhecida nas redes sociais como Livresenhas, é formada em Comunicação e Publicidade pela ESPM (Escola Superior de Propagando e Marketing) e promotora do Clube da Liv. Seu trabalho como influenciadora digital abrange resenhas de livros, o podcast Poesia Ansiosa, transmissões ao vivo na Twitch e publicações textuais no SubStack. Além disso, atua como pesquisadora na área de sociotendências e comportamento humano.
Flávia Soares, ou também Flávia Verso para seus seguidores, é estudante de Jornalismo pela Fapcom (Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação) e já atuou na área de jornalismo esportivo. Atualmente, trabalha na Agência Droga5 e como influenciadora digital no TikTok, carreira que iniciou durante a pandemia da Covid-19.
Ética de trabalho na internet
Quando questionadas a respeito da abordagem de tópicos sensíveis em seus perfis nas redes sociais, as convidadas mencionaram a responsabilidade emocional e ética ao passar informações para seus seguidores – se a mensagem não chega ao público como o criador de conteúdo espera, esse também é um problema do emissor.
A história de Lívia na internet está diretamente ligada à literatura. Após um período de depressão e se afastar dos livros, ela decidiu retomar sua paixão e postar em suas redes opiniões a respeito do que lia, dando origem ao perfil Livresenhas.
Seu objetivo como influencer é falar sobre literatura de uma forma acessível e leve. “Eu fico pensando, quais conteúdos eu poderia fazer para que a Lívia de quinze/dezesseis anos, que não conseguia sair do quarto, talvez visse e sentisse que tem uma amiga?”, diz a publicitária.

[Imagem: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]
Ao falar de livros, Lívia busca ter cuidado com o próprio discurso para evitar desconforto no público ao tratar de temas considerados polêmicos. “Não é sobre não se posicionar ou fingir que nada aconteceu, é sobre falar com delicadeza”, explica.
Em seu quadro mais popular, o “Importando Pautas do Twitter”, Flávia evita repercutir polêmicas a respeito da aparência de terceiros, mesmo que esse seja um tópico em alta. Outra questão quando se tem uma plataforma com bastante alcance é quais marcas e pautas sociais o influencer divulga em seu perfil. “Existe uma visão um pouco generalizada de que todo influenciador é um trambiqueiro”, brinca Flávia Verso ao se referir às críticas direcionadas às divulgações de casas de apostas feitas por outros criadores.
Sobre sua passagem no jornalismo esportivo, Flávia relatou que não precisou aprender a parte tática do futebol, mas sim a área de produção de conteúdo. Mesmo assim, não deixou de ser alvo de comentários misóginos. Diante dessas ofensas, a jornalista buscou diversificar o público que consumia seu conteúdo sobre futebol. Foi nesse contexto que decidiu abordar o esporte de uma nova perspectiva, relacionando elementos do universo futebolístico à cultura pop. “É um espaço para todo mundo e acredito que seja um espaço em que todo mundo deve agir com responsabilidade”, concluiu.
A carreira digital vai além da faculdade
Livresenhas contou que aprender sobre o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) na faculdade a preparou para sinalizar, com transparência, as propagandas que faz em suas contas nas redes sociais — uma exigência do Código de Defesa do Consumidor.
Para a publicitária, esse estudo auxilia a ler os briefings – instruções enviadas pelas empresas contratantes da publicidade – e a trabalhar com a direção criativa de seus projetos. O repertório literário adquirido ao longo de seus anos como leitora, somado às suas pesquisas na área comportamental, também contribui na produção de conteúdo em seus perfis nas redes sociais.
Flávia alega que leva da sua experiência universitária a entonação de voz, o que seu público chama de “sotaque de jornalista”; a objetividade; a organização do conteúdo; o modo de cativar o espectador de imediato; e os meios de encontrar fontes e apurar pautas.

[Imagem: Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]
Para as entrevistadas, identidade visual própria, senso de humor e autoconfiança não foram ensinados na graduação, mas são importantes para a construção do trabalho online. Flávia também explica que o modelo de comunicação do jornalismo tradicional não condiz com o da internet, principalmente para seu público-alvo jovem, focado em buscar conexão com o que consome.
“O jornalismo te leva para um lado super quadrado e a forma de conteúdo digital não é ensinada. O tradicional ainda é muito regrado, mas na internet parece que tudo é muito recente”, sintetiza a jornalista. Fatores como áudio, tempo de duração de takes e de entrevistas estão sendo transformados no espaço digital e, para elas, a prática ensinou essa linguagem mais do que o curso superior.
A importância de uma comunidade
“Você não precisa ter um conteúdo, você pode ser o conteúdo.”
Livresenhas
Diante do atual mercado de criação de conteúdo digital, o consenso entre Lívia e Flávia é de que as marcas não buscam apenas números de seguidores, mas sim a força da comunidade que o influenciador construiu e que interage ativamente com as suas publicações.
“A internet tem um espaço muito legal para você criar e uma pessoa aleatória ver e gostar. É uma questão de conexão mesmo.”
Flávia Verso
Também ressaltaram a importância de construir uma comunidade que as apoie, já que responder mais comentários de ódio do que interações positivas pode transmitir aos seguidores a ideia de que o hate conquista a atenção do influenciador com mais facilidade. Impor limites à comunidade é outro ponto crucial para elas, especialmente porque incluem humor e questões pessoais durante a produção de seus conteúdos.
Lívia conta que ao postar livros sobre a Palestina, perde por volta de mil seguidores. “Se posicionar está nas pequenas escolhas. Por exemplo, eu mostro que estou sempre lendo livros LGBT, autores com pluralidade e mulheres”, acrescenta. Para Flávia, é importante que tanto as marcas quanto a comunidade que acompanham seu perfil estejam na mesma página no que diz respeito aos posicionamentos ideológicos do influenciador.
As produtoras de conteúdo também mencionaram o termo “disaster check”, do inglês verificação de crise. Ou seja, a análise do histórico de polêmicas e de alinhamento de discurso que a marca faz antes de contratar o influenciador — diretamente associado com suas oportunidades de parcerias como profissionais do ramo.
Consumo e produção de mídias atualmente
No mundo acelerado pelas redes sociais, a literatura como um hobby encontra dificuldade para se encaixar nesse novo ritmo. Livresenhas relata que “a gente vê a literatura como algo que precisa ser romântico, porém não há tempo para essa romantização na vida da maior parte da população”. Para ela, o aumento da popularidade de conteúdos digitais sobre livros não se reflete no crescimento das leituras feitas por quem os consome.

Na produção audiovisual, antes feita por uma série de profissionais, o cenário recente é o de centralização na figura do influencer, que costuma optar pela contratação de trabalhos como locação de estúdio, ensaios fotográficos e edição em softwares avançados para projetos maiores. Mais do que fazer permutas, Livresenhas e Flávia Verso reconhecem a carência do meio em valorizar os profissionais da área por meio de divulgação nas redes e de pagamento dignos.
Imagem de Capa: [Thaiza Souza/Jornalismo Júnior]
