Por Nina M Bozic (ninamilibo@usp.br)
O governo Trump demitiu, repentinamente, todos os membros do Conselho Nacional de Ciência dos Estados Unidos (NSB), extinguindo-o. Em depoimento ao El País, cientistas envolvidos consideraram a medida, executada no dia 24 de abril, extrema e sem precedentes e a associaram a investigações realizadas pelo órgão que teriam desagradado o presidente. Apesar da gravidade dessa ação, ela não é novidade. No passado, Donald Trump já havia causado diversos danos às ciências, o que também ocorreu em outros contextos políticos, como no bolsonarismo brasileiro. Em todos esses casos, se trata de um fenômeno cada vez mais comum na atualidade: o cientificídio.
O cientificídio é academicamente definido como a deterioração proposital da área científica, que atinge seu estudo, pesquisa e desenvolvimento. O conceito inclui todas as formas de destruição, desde ataques diretos a instituições e profissionais até formas de enfraquecimento e impedimento do fazer científico, como através do corte de verbas, por exemplo. Essa violência costuma surgir de movimentos políticos e sociais contrários à ciência.
O cientificídio na atualidade
A expressão “cientificídio” se popularizou a partir de 2010, quando começou a ser utilizada para descrever diversos projetos políticos anticientíficos mundiais do período.
Sua difusão teve especial destaque na Argentina. O país utiliza amplamente o termo em discussões sobre a integridade científica e sobre a oposição a governos neoliberais que a colocam em risco, como o de Mauricio Macri e de Javier Milei. O investimento estatal argentino nas áreas de ciência e tecnologia no primeiro semestre de 2026, sob o governo de Milei, foi correspondente a apenas 0,14% do PIB do país, número mais baixo desde o início da contagem, em 1972.
O caso argentino não está isolado. Globalmente, a ascensão de correntes políticas neoliberais e de extrema direita é acompanhada por um aumento de ideologias anticientíficas ligadas ao cientificídio, como o negacionismo. Nos discursos promovidos por esses grupos, o ataque à ciência tipicamente surge a partir da atribuição falsa de intenções políticas a pesquisas científicas. Com isso, questões importantes, como mudanças climáticas ou vacinação, são associadas a uma ideologia, de forma que opositores a tal posicionamento as descredibilizem.

Sobre a estrutura do cientificídio, Rafael Figueiredo, diretor do documentário Ciência na Mira (2025), afirma que “o discurso da anticiência vem em conjunto com a antieducação, com esse discurso antisistema, com a deslegitimação do conhecimento institucionalizado… e tem a ver, óbvio, com a ascensão das redes sociais.”
As redes sociais estão amplamente associadas ao avanço de campanhas anticientíficas, sendo utilizadas para a disseminação de desinformações e incitação de ataques à ciência. Esse uso é agravado pelo anonimato provido pelas plataformas, já que permite que qualquer usuário opine sobre qualquer tópico, independentemente do grau de instrução ou da intenção, com poucas chances de ser responsabilizado pelas próprias falas.
Assim, nesses espaços, vozes qualificadas se misturam com mal intencionadas, mal informadas em um grande fluxo de informações, o que praticamente impossibilita uma comunicação efetiva e enfraquece a verdade. Figueiredo descreve esse fenômeno como “uma coisa, em princípio, interessante, mas, nesse caso, perigosa, de equivaler as vozes da ciência com as vozes de qualquer cidadão que não estudou”.
Esse quadro é ainda mais agravado pelos algoritmos que constroem as mídias sociais, os quais tendem a criar “bolhas” de conteúdo conforme as preferências dos usuários, mantendo-os presos a certas visões, sem acesso a opiniões diferentes. Além disso, esses sistemas também costumam impulsionar materiais conforme a capacidade delas de chamar atenção, a qual é alta em discursos de ódio e de “conspiração” sensacionalistas, como falas anticientíficas.

O cientificídio, entretanto, não se limita à política. Fernando Oliveira Paulino, professor da Universidade de Brasília (UnB) e presidente da Associação Latino-americana de Investigadores da Comunicação (ALAIC), determina que os ataques atuais são diversos e ocorrem por haver “conflitos de interesses [da ciência] com organizações, que acabam fazendo pressão e, a partir disso, prejudicam o trabalho científico por invisibilizar, perseguir e criar obstáculos à realização das atividades de ensino, pesquisa e extensão.”.
Já Figueiredo declara que, para seu documentário – que retrata quatro casos de cientistas perseguidos – sua equipe buscou demonstrar as várias formas e motivações para que o fenômeno ocorra: “ele [documentário] mostra maneiras bem diversas de ataque à ciência…algumas mais institucionalizadas, algumas mais orquestradas, algumas mais da própria sociedade, que se organiza, algumas mais governamentais…”.
Enquanto o corte de verbas tipicamente ocorre por ação governamental, a intimidação, difamação e ataque direto costumam vir de instituições econômicas ou organizações mobilizadoras da sociedade. Nisso, estão incluídos órgãos religiosos, grupos políticos e grandes empresas, por exemplo. Esses fatores não estão isolados entre si, com as campanhas cientificidas reunindo várias fontes de violência que incentivam umas às outras. Os agentes causadores do científicídio têm ganhos diretos com suas campanhas, seja ideologicamente, por mobilizarem a população em favor de seus ideais e contra um “inimigo em comum”, seja financeiramente, por inviabilizar projetos que poderiam pôr em cheque formas de ganho econômico nocivas.
Casos emblemáticos
Apesar da ascensão na atualidade, a prática cientificida tem diversos exemplos históricos, estando diretamente ligada a governos autoritários. Um desses casos é o “Massacre de Manguinhos”, ocorrido em 1970, durante a ditadura civil-militar brasileira. Nele, dez cientistas renomados do Instituto Oswaldo Cruz (IOC, atual Fiocruz) tiveram seus direitos políticos cassados, o que os impediu de trabalhar em quaisquer instituições públicas do país. Com isso, suas pesquisas foram fechadas e os estudantes que orientavam foram expulsos da instituição. Oficialmente, os profissionais teriam sido acusados de serem “subversivos” ou “comunistas”, o que justificaria sua perseguição. O real motivo, entretanto, estaria ligado aos ideais de produção científica mantidos pelo instituto, pois eram contrastantes a aqueles sustentados pelo regime.
“Pesquisas foram interrompidas e sonhos, destruídos.”
— Renato Cordeiro, estudante expulso pelo “Massacre”, em entrevista à BBC
Outro momento de agravamento do cientificídio foi a pandemia de COVID-19. Nesse período, as incertezas trazidas pela doença fortaleceram discursos de desconfiança científica, alimentados pela disseminação de desinformação.
No Brasil, há o relato marcante de Marcus Lacerda, retratado no documentário Cientista na Mira (2025), de Figueiredo. Em 2020, o pesquisador sofreu grande perseguição ao divulgar seu estudo sobre a ineficácia e potencial perigo do uso de cloroquina para o tratamento da COVID-19. A revelação desses dados ganhou conotação política e foi encarada como uma afronta direta a Bolsonaro, que defendia o uso da medicação. Com isso, Lacerda e sua equipe foram ameaçados, difamados e enfrentaram danos diretos às suas carreiras causados por ataques incentivados pelo governo brasileiro da época e perpetrados por apoiadores dele.

O poder político e econômico da ciência também pode ser motivo para ataques contra ela. Em situações de conflito e guerras, por exemplo, é comum que instituições de pesquisa se tornem alvos de destruição, como forma de enfraquecimento de seus detentores. Tal situação pode ser observada na atual disputa entre os EUA, Israel e Irã. Recentemente, Teerã declarou estar reunindo provas de diversos ataques de seus oponentes às instituições científicas do país. Com as evidências dessas agressões, o país pode organizar uma ação jurídica internacional.
Efeitos do cientificídio
O cientificídio tem efeitos prejudiciais não somente para a produção científica, como também para a sociedade em geral.
Enquanto os responsáveis por campanhas cientificidas normalmente se beneficiam – política ou economicamente -, aqueles que os seguem sofrem por não acessar produtos científicos que melhorariam suas vidas. É o caso de seguidores do movimento anti-vacinas, por exemplo, que se tornam vulneráveis a doenças já erradicadas e expõem outros a elas. Nisso, não somente os envolvidos com esses discursos sofrem os efeitos deles, mas a população como um todo. O mesmo ocorre quando trabalhos de grande potencial de desenvolvimento social são perseguidos e interrompidos por motivações ideológicas.

Além disso, diante de discursos de ódio e de ataques, cientistas frequentemente se sentem receosos em manter ou divulgar suas pesquisas, o que pode torná-las inacessíveis à população. Paulino, presidente da ALAIC, aponta esse fenômeno como um dos principais efeitos do cientificídio e o chama de “silenciamento”. Em relação a esse temor, Figueiredo afirma que sentiu uma insegurança inicial de seus entrevistados em se abrirem sobre os ataques que sofreram.
Entre os cientistas apresentados pelo filme, estão a geógrafa Larissa Bombardi e a antropóloga Debora Diniz, ambas residem no exterior atualmente, por não se sentirem seguras no Brasil. Segundo o diretor, essas profissionais foram mais difíceis de contatar: “O fato de elas estarem exiladas envolve ter um pouco mais de cuidado, mesmo, na hora de se expor.”
A saída de pesquisadores de seus países natais– motivada pelo medo ou pela falta de recursos – não é incomum, sendo um fenômeno tão latente que foi nomeado: fuga de cérebros. O termo engloba quaisquer profissionais altamente qualificados em suas áreas de atuação que deixam suas nações por haver melhores oportunidades em outras. Segundo estimativas divulgadas pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, ligado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cerca de 6,7 mil cientistas deixaram o Brasil entre 2012 e 2022. Em sua maioria, a migração ocorre de países com menores investimentos na área científica e desenvolvimento educacional para outros com maior verba, considerados “ricos”. Com isso, a ciência do país de origem permanece precarizada, com menos de seus próprios cientistas disponíveis, enquanto a dos demais continua crescendo, o que só reforça a desigualdade entre eles.
Como resistir?

“Não tem solução milagrosa. Eu acho que [a solução] é discutir isso [cientificídio], tentar utilizar ferramentas de comunicação para que seja possível se comunicar efetivamente, adotar uma linguagem mais acessível”, afirma Figueiredo quando questionado sobre como resolver o problema. O cineasta acredita que a aproximação entre a população e cientistas, a partir da divulgação científica e do contato direto entre esses grupos, é a forma mais eficaz de combater a descrença e a anticiência.
Em adição, Paulino afirma que o grau de educação e comunicação pública científicas ainda é baixo no país, o que torna os trabalhos de divulgação, especialmente a partir de universidades e outras instituições de ensino, ainda mais essenciais.
O professor da UnB também reitera que o combate ao cientificídio depende de vários agentes. Para ele, esse processo deve envolver “desde ações de poder público, em promoção e proteção à ciência, até a chamada ‘educação científica’ ou a educação midiática, orientando as pessoas para que conheçam as formas de produção, distribuição e acesso ao conhecimento.”. Com isso, a ciência é protegida, inclusive pela própria população que passa a compreendê-la.
