Por Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) ditadura
À uma hora da manhã do dia 24 de março de 1976, a presidenta da Argentina, María Estela Martínez de Perón — mais conhecida como Isabelita Perón — foi detida e colocada em prisão domiciliar. Poucas horas depois, uma mensagem do general Jorge Rafael Videla foi transmitida na televisão e no rádio para informar à população que ele assumiria o controle do país. Foi declarado estado de sítio, imposta lei marcial e fechado o Congresso. Assim, teve início a última e mais violenta ditadura da história argentina.
Em 1978, dois anos após o golpe, a Argentina recebeu a décima primeira edição da Copa do Mundo. A escolha da Federação Internacional de Futebol (FIFA) para sediar o torneio no país sul-americano ocorreu em 1966, antes do início do regime ditatorial. Na partida final, que ocorreu no dia 25 de junho, os anfitriões sagraram-se campeões após vencer a Holanda por 3 a 1 na prorrogação. No contexto da época, porém, a vitória ficou marcada por dualidades: assim como ocorreu no Brasil após a conquista da Copa de 1970, o governo argentino tentou utilizar o feito como instrumento de propaganda política.
A Copa como vitrine do regime militar
Em entrevista ao Arquibancada, Celso Ramos, doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), afirma a Copa representou para a ditadura uma oportunidade de mobilizar a população em torno do futebol, à medida que denúncias de tortura, assassinatos e desaparecimentos se acumulavam.
“Enquanto gritam gol, abafam os gritos dos torturados e assassinados”
Estela de Carlotto, presidenta das Avós da Praça de Maio, no documentário “La Historia Paralela”
As Avós da Praça de Maio são uma organização argentina de direitos humanos, fundada em 1977 e ativa até hoje. O principal objetivo da entidade é identificar e localizar cerca de 500 crianças — filhas de militantes contrárias à ditadura — que foram sequestradas e entregues ilegalmente a outras famílias durante o regime militar.

A entidade já identificou 140 netos sequestrados entre 1976 e 1983 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Em 1978, organizações como a Anistia Internacional e o Movimento de Apoio à Argentina tentaram articular uma campanha contra o Mundial por meio do Comitê de Boicote à Copa da Argentina. A FIFA e a comunidade internacional, no entanto, mantiveram o apoio ao evento. A França cogitou não disputar o torneio em protesto contra o assassinato de freiras francesas, supostamente a mando da ditadura argentina, mas recuou da decisão. Apenas um jogador de destaque — Paul Breitner, da Alemanha Ocidental — recusou-se a participar da Copa por motivos políticos.
Johan Cruyff, principal jogador da Seleção Holandesa vice-campeã da Copa de 1974, também optou por não disputar o Mundial. A decisão foi interpretada por muitos como um boicote ao regime militar argentino, mas o próprio Cruyff esclareceu posteriormente que sua ausência foi motivada por um sequestro sofrido por ele e sua família. Após o episódio, decidiu não participar do torneio para dedicar mais tempo aos familiares e preservar sua saúde mental.
Em resposta às denúncias internacionais de violação aos direitos humanos, a junta militar argentina criou a campanha “Los argentinos somos derechos y humanos” — “Nós, argentinos, somos justos e humanos”, em tradução livre —, com a distribuição massiva de adesivos e cartazes. A estratégia visava promover uma imagem de normalidade e patriotismo.
Ramos ressalta que, apesar dos esforços da junta militar para utilizar a conquista da Copa como ferramenta de propaganda política, “a brutalidade do regime era tão grande que mesmo setores até então alheios ou pouco envolvidos com a política nacional percebiam essa violência”. O historiador afirma ainda que, embora a população tenha comemorado o título, a conquista não garantiu sustentação política duradoura ao regime: “As próprias Forças Armadas precisaram recorrer a outro artifício para tentar criar coesão nacional e sobreviver politicamente: a Guerra das Malvinas, em 1982.”

A Guerra das Malvinas foi travada entre Argentina e Inglaterra pelo controle das Ilhas Malvinas, e os ingleses saíram vitoriosos após 74 dias de conflito [Imagem: Royal Marines official photographer/Wikimedia Commons]
A Argentina rumo à final
A Copa do Mundo de 1978 teve um formato dividido em duas fases de grupos. Dezesseis seleções foram distribuídas em quatro grupos na primeira etapa, e as duas melhores de cada chave avançaram para a segunda fase, na qual foram formados dois novos grupos com quatro equipes. Não havia semifinais nem mata-mata: os vencedores de cada grupo disputavam a final, enquanto os segundos colocados jogavam a decisão do terceiro lugar.
Na segunda fase do torneio, a Seleção Argentina disputava a vaga na final diretamente com o Brasil. Para garantir seu lugar na decisão, os anfitriões precisavam vencer a última partida por uma diferença mínima de quatro gols. O confronto, disputado contra o Peru, terminou com vitória dos argentinos por 6 a 0, resultado que garantiu a classificação para a final contra a Holanda.
A atuação da equipe peruana levantou suspeitas, sobretudo em relação ao goleiro, Ramón Quiroga, acusado de ter sido subornado para facilitar a vitória argentina. A acusação deve-se, em parte, à sua origem: Quiroga nasceu na Argentina, mas naturalizou-se peruano. Os vídeos dos seis gols, no entanto, não mostram falhas evidentes do goleiro, que sempre negou as acusações e chegou a levantar suspeitas sobre companheiros de equipe.
Em 1998, Quiroga afirmou que “coisas raras” aconteceram antes da partida, como a visita de Videla e de militares argentinos à concentração peruana. Disse ainda estar “seguro de que alguém ganhou” dinheiro quando sua seleção foi goleada por 6 a 0 pela equipe anfitriã.
Germán Leguía, outro ex-jogador ouvido pela imprensa peruana para comentar o caso, lembrou que o Brasil ofereceu dinheiro para que o Peru não fosse derrotado por mais de três gols de diferença: “Era muito dinheiro. Me procuraram para fazer essa oferta.”
Leguía também recordou a visita de Videla: “Ele entrou com Kissinger (secretário de Estado dos Estados Unidos), falou dos irmãos argentinos e leu um comunicado de Morales Bermúdez (ditador do Peru na época), dizendo que a Argentina sempre colaborou e defendeu os peruanos”.
O ex-senador peruano Genaro Ledesma afirmou em 2012 que o resultado da partida foi previamente combinado em um acordo entre os governos dos dois países, no âmbito da Operação Condor. Segundo Ledesma, um grupo de 13 opositores de Morales Bermúdez — entre os quais ele próprio — foi sequestrado no Peru e enviado à Argentina. Videla teria aceitado receber os “prisioneiros de guerra” e, em contrapartida, a Seleção Peruana deveria perder a partida para garantir a classificação da equipe anfitriã à final da Copa.
Dez dias após o encerramento do torneio, a junta militar argentina concedeu ao governo militar peruano uma linha de crédito extraordinária não reembolsável de 50 milhões de dólares. Cinco dias depois, doou outras 35 mil toneladas de trigo. Entretanto, embora as suspeitas de manipulação permaneçam em destaque na história do futebol e no contexto das relações entre as ditaduras sul-americanas em meio a Operação Condor, não existem provas documentais conclusivas de suborno direto relacionado ao resultado da partida.

O principal craque e artilheiro da Seleção Argentina na Copa de 1978 foi o atacante Mario Kempes, conhecido como ‘El Matador’. Ele terminou o torneio com seis gols, dois deles marcados na final [Imagem: El Gráfico/Wikimedia Commons]
Nos porões da ditadura
Enquanto milhares de torcedores comemoravam o primeiro título mundial da Argentina, centenas de civis eram mantidos como presos políticos na antiga Escola Superior de Mecânica da Armada, localizada a cerca de três quilômetros do palco da final, o Estádio Monumental de Núñez. O local funcionou como o maior centro de detenção e tortura do país durante a ditadura. A maior parte das vítimas foi assassinada ou desapareceu sob custódia dos militares.
Na final, os presos foram convidados a assistir à partida ao lado de seus torturadores. Em depoimento reproduzido no livro-documentário Memórias do Chumbo – O Futebol nos Anos do Condor, a sobrevivente Graciela Daleo recorda a reação de um deles: “Ele nos abraçou um a um e disse ‘Nós vencemos! Nós vencemos!’. Lembro-me de pensar que, se ele ganhou, nós perdemos. Se isso era uma vitória para ele, era uma derrota para nós.”
Após o jogo, alguns prisioneiros foram levados às ruas em um Peugeot 504, em meio à multidão que comemorava a conquista. No mesmo relato, Daleo descreve o impacto daquela experiência. “Eu me levantei e olhei ao redor. Não conseguia acreditar no que estava vendo. Eram rios e rios de gente cantando, dançando e gritando”, conta. “Comecei a chorar porque me lembro de pensar que, se começasse a gritar ‘eu desapareci’, ninguém daria a mínima. Foi a prova mais concreta que tive de que deixei de existir.”
Apesar do êxtase momentâneo causado pela conquista, a euforia do título durou pouco. Tão logo acabaram as comemorações, o medo causado pela repressão tomou conta das ruas que antes sediaram a festa. A extrema violência empregada por Videla e pela junta militar impediu que a Copa apagasse as denúncias de tortura, assassinatos e desaparecimentos. A ditadura perdurou até dezembro de 1983, quando Raúl Ricardo Alfonsín foi eleito presidente por eleições gerais após quase oito anos de autoritarismo.
Décadas depois, a conquista de 1978 permanece cercada por debates não apenas sobre o futebol, mas também sobre o uso do esporte como instrumento de propaganda de um dos regimes mais violentos da história da América-Latina.
*A capa desta matéria usa uma imagens editada do Wikimedia Commons, por Archivo Hasenberg-Quaretti, por El Gráfico e por Unknown author e do Magnific, por Freepik
