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Observatório | Condenação de cantora iraniana evidencia um regime teocrático de censura

O episódio revela as características de um governo autoritário do Oriente Médio e abre discussão sobre liberdade de expressão e contestação dos direitos humanos
Foto de uma apresentação da cantoria iraniana Parastoo Ahmadi e sua banda
Por Bianca dos Santos Candido (biancasantoscandido@usp.br) e Lais Almeida Fernandes (laisfernandes@usp.br)

A condenação da cantora iraniana Parastoo Ahmadi a 74 chibatadas por se apresentar sem o hijab reacendeu o debate internacional sobre a liberdade de expressão e os direitos das mulheres no Irã.  Em uma live, Parastoo Ahmadi e oito membros de sua equipe, realizaram um show em dezembro de 2024. A música escolhida para a interpretação foi Az Khoone Javanane Vatan (Do Sangue da Juventude da Pátria, em tradução livre), uma canção considerada patriótica no país do Oriente Médio. 

Segundo o jornal The Guardian, a transmissão foi feita no canal do YouTube de Parastoo, e na ocasião, a cantora se apresentava sem o hijab, um véu comum utilizado pelas mulheres na cultura e religião islâmica.

A apresentação repercutiu na internet e levou o Tribunal Criminal da Província de Qom, no Irã, a condenar a artista e os outros músicos que participaram do vídeo ao vivo. Os artistas foram proibidos de exercer atividades artísticas e de sair do país durante dois anos, condenados a flagelação (chibatadas) e acusados de ofensa à moral pública ao transmitir um vídeo que contradiz os valores do país.

Mulher, Vida, Liberdade

O episódio que envolve a cantora iraniana remete a outros acontecimentos no Irã, como o caso da menina Mahsa Amini, em 2022, que, pelo mesmo motivo de Parastoo, foi presa, espancada e morta na capital Teerã. Na ocasião, a jovem usava o véu comumente utilizado no país teocrático, porém, não da maneira correta. 

As mulheres no Irã devem cobrir os cabelos e não podem usar peças curtas acima dos joelhos, calças apertadas ou jeans rasgados. O uso do hijab é considerado um ato de modéstia, devoção e preservação da intimidade das mulheres muçulmanas. No Irã, que é uma República Islâmica,  as leis e o governo são baseados na religião predominante, o islamismo. De acordo com o jornal O Globo, a polícia da moralidade, nome pelo qual é chamada a Patrulha de Orientação, é responsável por vigiar o cumprimento das normas de vestimenta das mulheres.

Após a prisão e morte de Mahsa Amini, várias manifestações aconteceram no país a favor dos direitos e da liberdade feminina. O episódio ficou marcado como uma das maiores mobilizações na história do país, ao atingir não somente a capital mas também pequenas províncias. A situação refletiu o nível de autoritarismo do regime iraniano e o conflito do governo com a sociedade.

Foto de uma faixa com o lema "Mulher. Vida. Liberdade.", que nomeia o movimento feminista no Irã.
Mulher, Vida, Liberdade é o lema que dá nome ao movimento feminista no Irã. Segundo o site Brittanica, o slogan ganhou destaque depois do episódio envolvendo Mahsa Amini [Imagem: Taymaz Valley/Wikimedia Commons]

História do regime no país

A antiga Pérsia, hoje conhecida como Irã, adota um regime teocrático. Esse tipo de governo se caracteriza pela não separação de Igreja e Estado, ou seja, o líder religioso também governa o país. Diferente do Vaticano, que é uma monarquia teocrática em que os cidadãos são, majoritariamente, arcebispos e membros religiosos, o Irã é percebido nas áreas da Sociologia e da Política como um Estado autoritário e repressivo principalmente com suas minorias, neste caso, as mulheres.

Em conversa com a Jornalismo Júnior, o professor de história e sociologia, Daniel Ferreira de Carvalho, explica que o país tem um sistema político de segregação, no qual certos grupos são isolados socialmente e têm seus direitos rebaixados. O professor afirma que antes da Revolução de 1979, que tornou o país uma República Teocrática, o Estado era uma monarquia autocrática, alinhada com o Ocidente.

Foto da Revolução de 1979 no Irã.
A Revolução de 1979 não foi um caso isolado, mas sim um processo, no qual o novo regime simbolizou uma forma de combater a influência ocidentalizada e britânica ao se afastar dos costumes do resto do mundo. Assim, demonstrou uma maior autonomia do país [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Desde o período das Cruzadas, na Idade Média, existia um conflito entre os hemisférios, principalmente pela questão religiosa e ocupação de territórios. Na Primeira Guerra Mundial, houve um agravamento da situação com a colonização liderada pelo Reino Unido, que influenciava a região na promessa de territórios para árabes e judeus e pelo interesse econômico no petróleo. Daniel ainda cita que a principal característica do regime iraniano instaurado em 1979, que se estende até a atualidade, é a predominância do patriarcado. 

Na sociedade patriarcal, a demonstração de poder é imposta por meio da repressão das mulheres, que só têm permissão, por exemplo, de sair de casa na companhia de um homem, seja ele maior de idade ou não. O professor compara a eleição do governo ao período da República do Café com Leite no Brasil, quando a manutenção dos governadores no poder era feita com uma triagem. O conselho escolhe os candidatos que mais favorecem o modelo de governo para concorrerem à eleição.

“Pode-se dizer que você tem uma democracia maquiada e não do tipo liberal”

Daniel de Carvalho

A Organização das Nações Unidas (ONU) tem a obrigação de garantir a igualdade de direitos de gêneros. Criada após a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de evitar novos conflitos, a ONU colaborou para a criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), que estabelece mecanismos de denúncia com o objetivo de propor retaliações e sanções econômicas a países que violarem algum direito universal.

Nos últimos anos, a população mundial tem cobrado um posicionamento da ONU, porém o professor não demonstra otimismo em relação à resolução dos problemas no país: “o Irã acaba se blindando e o órgão do Ocidente acaba não interferindo”.

Quando questionado pela Jornalismo Júnior sobre a ampliação dos direitos civis, com enfoque no gênero feminino, Daniel disse que o mundo e especificamente o Irã tem violado as mulheres de todas as formas. “Os poucos direitos que foram conquistados tiveram um retrocesso no Irã”, comenta.

Foto de uma bandeira de um protesto em prol dos direitos das mulheres iranianas.
Em comparação a outras teocracias no Oriente Médio, a repressão e as violações dos direitos das mulheres no Irã são consideradas mais intensas, agravadas por conflitos com opositores ao governo, tensões com minorias e o possível risco de guerra civil
[Imagem: Divulgação/Pexels]

Até onde a religião influencia decisões políticas

Após a Revolução de 1979, a organização social e política iraniana sofreu mudanças significativas. A partir da instauração da liderança por meio dos aiatolás — líder supremo do Estado e da religião —, a dimensão religiosa passou a integrar um dos pilares da nova forma de governo.

Em entrevista à Jornalismo Júnior o advogado especialista em Direito Internacional Enrico Lentini comenta que o país, ao se intitular uma República teocrática, alia o direito civil convencional às leis da Sharia — o sistema jurídico derivado do Alcorão. Dentro desse regime, a moralidade islâmica permeia todas as decisões políticas e jurídicas do país, o que implica diretamente na mudança dos direitos femininos.

Segundo especialistas do Conselho de Direitos Humanos da ONU pode-se considerar a atual politica interna iraniana como um “apartheid de gênero”, no qual, a garantia das liberdades das mulheres fica refém dos princípios islâmicos tradicionais. A expressão está ligada à segregação sistemática de mulheres por meio de leis, políticas públicas e práticas estatais que restringem seus direitos e sua participação na sociedade. 

Na prática, essa estrutura resulta em punições distintas para homens e mulheres, e limita direitos fundamentais, como liberdade de expressão e autonomia corporal. Para Lentini, o cenário é tão extremo que, atualmente, todas essas medidas poderiam ser consideradas inconstitucionais pelo Estado de Coisas Inconstitucionais (ECI) — um aparato judicial acionado diante de uma situação de violação massiva e generalizada de direitos fundamentais.

“Com uma lei, você não quebra a força de uma tradição”

Daniel de Carvalho

Em 2024, o governo iraniano tentou um endurecimento das punições ao sancionar a Lei de Proteção à Família pela Promoção da Cultura da Castidade e do Hijab, com a finalidade de traduzir os preceitos religiosos para o campo jurídico. A legislação criminaliza o que chama de nudez, indecência e “mau vestuário” — termos propositalmente vagos que deixam ampla margem de interpretação para a polícia moral. Essa movimentação é uma das responsáveis por condenar a cantora Parastoo Ahmadi e surgiu como uma reação aos protestos de 2022, a fim de justificar as ações da polícia moral.

Direitos humanos: limites da pressão internacional

Embora seja alvo recorrente de denúncias por violações de direitos humanos, o Irã permanece integrante de importantes organismos internacionais e signatário de tratados, como o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, e integra a comissão referente à proteção do direito das mulheres. Segundo Lentini, a participação nesses fóruns reforça o reconhecimento internacional da soberania do Estado, mas não garante o cumprimento de suas obrigações. “No Direito Internacional, não existe uma polícia internacional”, resume o advogado.

As possíveis punições para o Estado Iraniano costumam ocorrer por meio de isolamento diplomático, sanções econômicas e perda de influência política, porém são atravessadas por conflitos geopolíticos e econômicos externos à situação dos direitos humanos.

O Irã enfrenta embates com os Estados Unidos e Israel por disputas territoriais e econômicas, de maneira que as principais punições internacionais à teocracia advém desse conflito e não da política interna do país
[Imagem: Reprodução/X]

Em conversa com a Jornalismo Júnior,  a cientista política e refugiada venezuelana Arianna Samarco afirma a necessidade de uma atuação mais firme da comunidade internacional para conter governos que restringem direitos e liberdade. Para ela, a relativização cultural tem limites muito claros, como a violência e o respeito a direitos básicos, e o Estado Iraniano já ultrapassou essa linha.

“Uma coisa é respeitar a cultura de outros países e outra coisa é violar direitos humanos”

Arianna Samarco

A cientista ainda destacou sua trajetória como mulher em um regime autoritário e explicou que a partir do momento que a desigualdade de gênero é institucionalizada, as mulheres perdem toda sua individualidade e perspectivas. “A mulher que não pode estudar, trabalhar, viajar sozinha, tem códigos de vestimenta para se manter viva — isso no momento atual deveria ser inaceitável”, comenta Arianna.

As críticas ganham ainda mais força quando observados os desdobramentos dos protestos de 2022. Na época, o Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos informou que cerca de 300 pessoas morreram e aproximadamente 15 mil foram presas durante as manifestações desencadeadas pela morte de Mahsa Amini. Embora o episódio tenha provocado ampla repercussão internacional, especialistas avaliam que poucos avanços concretos foram alcançados desde então.

Para Lentini, o caso da cantora Parastoo Ahmadi demonstra justamente essa continuidade da repressão. Na avaliação do advogado, o endurecimento das políticas voltadas às mulheres indica que o regime iraniano caminha na direção oposta às reivindicações do movimento Mulher, Vida e Liberdade. Sobre os desdobramentos desse regime em outras regiões, Carvalho enfatiza: “É preciso ter vigilância para que não haja o mesmo retrocesso em nosso país”.

“Hoje a gente não consegue ver um momento em que isso vai cessar. Na verdade, o movimento parece se acentuar para o pior”

Enrico Lentini

Imagem da capa: [Reprodução/Youtube/Parastoo Ahmadi]

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