Por Ana Germano (anabrgermano@usp.br), Isabela Gonçalves (isabelagds@usp.br) e Mayara Felisardo (mayarafelisardo@usp.br) boicote
A Copa do Mundo de 2026 — que começou no dia 11 de junho e terá sua grande final em 19 de julho — já pode ser considerada a maior Copa do Mundo de todos os tempos. Pela primeira vez, o torneio conta com 48 seleções e três países-sede: Canadá, Estados Unidos e México. Com a ampliação no número de equipes participantes de 32 para 48, dez seleções africanas se classificaram para a competição de maneira inédita.
Emblematicamente, a edição do Mundial com o maior número de seleções da África acontece 60 anos após o boicote organizado pela Confederação Africana de Futebol (CAF) à Copa do Mundo de 1966. A medida teve o objetivo de conquistar mais visibilidade global ao esporte praticado no continente, mas seu impacto e história são muito maiores do que os gramados.
Contexto histórico e político
O boicote realizado pelas seleções africanas estava inserido em um momento político extremamente relevante para a África. Dentro e fora dos campos, o continente passava por diversas lutas por independência e pelo crescimento do sentimento de união continental e afirmação de identidade.
Durante os anos 60, a África estava no estopim do seu processo de descolonização após a dominação brutal de países europeus que perdurou por séculos. Os pioneiros nesse movimento por libertação foram a Líbia, colônia italiana que conquistou independência em 1951, e o Sudão, libertado do domínio britânico em 1956. Porém, a luta por emancipação atingiu seu maior destaque continental em 1957, após a independência de Gana, então colônia do Reino Unido, sob a liderança de Kwame Nkrumah.
O revolucionário ganês provou que africanos tinham capacidade política e intelectual para governar, o que motivou outros países que ainda estavam sob domínio colonial a se emanciparem. Além disso, Nkrumah teve papel importante na formação do pan-africanismo, ao destacar que a independência de Gana não teria sentido a menos que toda a África fosse libertada. Com isso, o país se tornou inspiração, refúgio e ponto de apoio para outros líderes revolucionários africanos.
As lutas por independência que seguiram em curso na África foram peça chave para o boicote à Copa do Mundo de 1966. A força trazida por esses movimentos fez com que os países africanos se recusassem a aceitar a sua subjugação no esporte e exigissem representatividade no torneio. Como consequência dessa emancipação, surgiram também times nacionais oficiais que buscavam representar seu povo no que era, em tese, o maior palco do futebol global.

Até então, a única participação da África no Mundial havia sido em 1934, com o Egito, que foi eliminado na primeira fase do torneio [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
O pan-africanismo foi também fator importante para o boicote. O movimento político, filosófico e cultural que defende a união, solidariedade e autodeterminação dos povos africanos e de toda a diáspora negra, motivou muitas lutas por independência e reaproximou a África então fragilizada. Esse pensamento foi o pilar ideológico da medida tomada pelas seleções, uma vez que reuniu os países recém-independentes contra o racismo, eurocentrismo e as heranças coloniais presentes na Copa do Mundo.
Outro grande marco histórico decorrente do movimento foi a criação da Confederação Africana de Futebol (CAF), em 1957. Como a única organização pan-africana ligada ao esporte, a CAF exercia também um papel geopolítico e de representação dos interesses africanos no futebol, especialmente em um período de descolonização e crescimento do nacionalismo. Assim, ela se tornou a primeira associação esportiva do mundo a expulsar a África do Sul em decorrência da política de Apartheid implementada no país, em 1960.
Por trás do boicote
Não é possível destacar apenas uma motivação ou estopim para o boicote. A medida tomada pelas seleções teve diversas causas e foi diretamente influenciada e inspirada nos movimentos anticoloniais e no pensamento pan-africano que crescia na África.
Com a emancipação dos países africanos dos colonizadores europeus, times nacionais começaram a se formar e a aumentar a necessidade por representação na Copa do Mundo. Porém, os interesses europeus e sul-americanos que regiam o torneio não viam necessidade de incluir times da África. Essa negligência de espaço para seleções estava diretamente relacionada à disponibilidade de vagas para o continente.
Para a Copa do Mundo de 1966, apenas 16 países estariam presentes, sendo que a Inglaterra já tinha vaga garantida como país-sede e o Brasil também, por ser campeão da edição anterior. Para conquistar a chance de participar do torneio, 15 seleções africanas participaram das Eliminatórias do continente. Na verdade, seriam 16 equipes na disputa, mas a África do Sul foi deslocada para as Eliminatórias asiáticas por conta de críticas ao Apartheid.
Apesar do crescente número de seleções africanas por conta dos movimentos por emancipação, não existia classificação garantida para o continente. Naquele período, dez vagas eram destinadas aos europeus, quatro para sul-americanos e uma para a América Central e Caribe. A última seria disputada entre o melhor time da África, Ásia e Oceania.
A falta de representação africana não era apenas uma questão esportiva, mas também reflexo da discriminação e apagamento sistemático do continente. Dentro desse contexto, o pan-africanismo e as lutas anticoloniais que se espalhavam pela África resultaram em mobilizações no futebol para que as seleções africanas tivessem chances reais de participar do torneio.
Em entrevista ao Arquibancada, André Carlos Zorzi, pesquisador e doutorando em Estudos Culturais pela Universidade de São Paulo (USP), destacou que o descontentamento de dirigentes africanos estava diretamente conectado ao cenário político e social do continente. Para Zorzi, o futebol seria uma ferramenta para demonstrar a união e a construção de identidade desses países e, por isso, a vaga direta seria necessária para que essa mensagem alcançasse o maior palco do esporte.
“As federações africanas viam que para ter representação maior do continente como um todo, e representando o que eles eram como países independentes, seria essencial ter uma vaga direta”
André Carlos Zorzi
Em janeiro de 1964, Ohene Djan, Diretor de Esportes de Gana e membro do Comitê Executivo da Fifa, enviou um telegrama para a organização. Na mensagem, ele chamava a separação das vagas de “patética” e pedia para que Stanley Rous, então presidente da Fifa, mudasse a maneira com que as Eliminatórias seriam conduzidas. Djan também recebeu apoio de Kwame Nkrumah, presidente de Gana, e Yidnekatchew Tessema, jogador etíope.

Nkrumah queria usar o futebol para unir a África e apoiava Djan para que as seleções africanas fossem colocadas no mapa mundial [Imagem: Reprodução/Ghanaian Museum]
A mobilização ganhou força dentro da Confederação Africana de Futebol, que passou a pressionar também. Os dirigentes defendiam que a reivindicação por uma vaga direta para a África era questão de justiça esportiva. Além disso, eles argumentaram que o nível de jogo das seleções africanas tinha melhorado significativamente e que seria injusto forçar países recém-independentes a arcar com os custos de partidas contra seleções da Ásia e Oceania. Em memorando à Fifa, a CAF alertou sobre um possível boicote caso nenhuma medida fosse tomada para consertar a situação.
Outro fator que ampliou o descontentamento das seleções africanas foi a permissão da participação da África do Sul no torneio. Em 1957, o país tinha sido desclassificado da Copa Africana de Nações (CAN) por propor enviar um time composto exclusivamente por brancos ou exclusivamente por negros para o campeonato. Logo em seguida, a CAF expulsou os sul-africanos da organização por conta de sua política de Apartheid.
Por outro lado, a Fifa demorou para reagir e só suspendeu a participação da África do Sul em competições em 1961, após forte pressão de outros países. Porém, com a chegada de Stanley Rous à presidência da entidade em 1963, a punição foi revogada sob o pretexto de que esporte e política não deveriam ser misturados. Para a Copa de 1966, a seleção iria ser deslocada para as Eliminatórias asiáticas para evitar o encontro com times africanos.
A decisão foi recebida com muitas críticas por parte dos outros países da África e levou Rous a proibir a participação dos sul-africanos novamente. Mas, o estrago já estava feito e, como o presidente da Fifa não tinha atendido a reivindicação por uma vaga direta, a CAF não enxergou outro caminho: em outubro de 1964, as seleções africanas anunciaram que iriam boicotar a Copa do Mundo de 1966.
As consequências da medida
Com o boicote africano e a ausência de alguns países asiáticos nas Eliminatórias por questões financeiras, a Coréia do Norte ocupou a vaga no Mundial, mas foi eliminada nas quartas de final. Embora as seleções africanas não tenham participado diretamente, alguns dos destaques da competição foram os quatro astros moçambicanos da Seleção Portuguesa, que foram fundamentais para que a equipe conquistasse o inédito terceiro lugar do pódio. Os defensores Hilário e Vicente, o capitão Mário Coluna e Eusébio, artilheiro daquela edição, eram nascidos no continente africano. A participação dos atletas fortaleceu os debates sobre a ampliação das vagas destinadas à África ao provarem que existia, sim, potencial competitivo e talento nas equipes.
A presença de tantas peças africanas importantes no Mundial impulsionou a pressão sob a FIFA para melhorias no sistema.Somado a isso, o boicote funcionou: a partir da edição de 1970, a África conquistou uma vaga direta para a Copa do Mundo — assim como a Ásia.
“Eles [os países africanos] podiam até ter diferenças internas, mas, perante o mundo, estavam juntos. Um boicote, organizado como foi e tendo resultados como teve, tem uma relevância histórica muito grande para além do esporte”
André Carlos Zorzi
As mudanças no sistema de vagas para o torneio em decorrência do boicote foram, ainda que pequenas à princípio, de extrema importância para que a participação de seleções africanas se tornasse mais democrática. Em 1970, a equipe marroquina garantiu a primeira vaga direta nos jogos e conquistou o primeiro ponto do continente ao empatar em 1 a 1 contra a Bulgária. Desde então, a África marcou presença em todas as edições da Copa do Mundo, e fez história a cada ciclo com um futebol de alto nível.
Atualmente, a CAF possui nove vagas diretas à Copa do Mundo, e uma vaga para a repescagem intercontinental da FIFA — esta última garantiu a classificação da República Democrática do Congo em 2026. Das dez seleções africanas que jogaram a atual edição do torneio, apenas a Tunísia não se classificou para a fase de confrontos diretos.
Esses resultados contrapõem o pensamento conservador e infundado de que os países africanos têm menos qualidade futebolística que equipes americanas ou europeias. Esse argumento foi e ainda é base para discursos contra a ampliação de vagas para a África, que visa a reverberação de preconceitos e limitação do acesso dessas equipes ao Mundial.
História além dos gramados
O movimento teve um resultado positivo, mas abriu uma dúvida que segue sem respostas: o que teria acontecido se a Seleção Ganesa tivesse participado da Copa de 1966?
Os Estrelas Negras – como a Seleção é apelidada – fizeram uma campanha excelente ao conquistar o bicampeonato africano, e acreditavam que tinham força para disputar, talvez, uma final de Copa do Mundo, mas optaram por compor o boicote. O principal astro da equipe, Baba Yara, nunca teve outra oportunidade de participar de um Mundial: faleceu no dia 5 de maio de 1969, aos 32 anos.
Há quem diga que uma brilhante campanha de Gana na competição teria trazido mais direitos e reconhecimento à Confederação Africana do que o boicote. No entanto, o contexto em que o ato esteve inserido atravessa as esferas política e social, para além do futebol, e simboliza a autonomia, nacionalismo e seriedade dos países recém-independentes, que precisaram abrir seu próprio espaço no cenário esportivo internacional.
Ao ser perguntado se o boicote teria o mesmo impacto e resultados caso ocorresse em outra época, André Zorzi diz que não, já que antes de 1966 parte significativa dos países africanos ainda não haviam conquistado sua liberdade dos países colonizadores. Além disso, depois dessa data, em 1974, João Havelange foi eleito presidente da FIFA, inclusive com o apoio e votos da Confederação Africana, já que uma das principais mudanças prometidas por ele foi a ampliação das vagas para a fase de grupos da Copa do Mundo, de 16 para 32 classificados.

Entre 1974 e 1998, João Havelange foi o primeiro e único brasileiro a ser presidente da FIFA, além de único dirigente de fora do continente europeu a comandar a entidade [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
O momento do boicote, dado pelo pesquisador como “perfeito”, trouxe, além da visibilidade momentânea, mudanças estruturais no torneio. O principal exemplo desses impactos foi a Copa do Mundo de 2010, sediada na África do Sul, que marcou a primeira vez em que o continente foi palco do maior evento de futebol do planeta, feito essencial para que a FIFA o reconhecesse como uma opção viável para sediar edições futuras do campeonato. A competição retornará para a África após vinte anos da Copa de 2010, porém, dessa vez, dividirá os holofotes.
Em 2030, a Copa do Mundo será sediada por seis países diferentes, que já têm as vagas para suas seleções garantidas: Paraguai, Argentina, e Uruguai – em homenagem ao centenário do torneio – e Portugal, Espanha e Marrocos, que receberão a maioria dos jogos. Pela primeira vez na história países de dois continentes diferentes – Europa e África – se uniram e apresentaram uma candidatura para serem sede do mundial simultaneamente.
*Imagens utilizadas na capa: Mahmudul Hassan/Vecteezy, stu – khaii/Vecteezy, stu – khaii/Vecteezy, carterart/Vecteezy, Mateus Andre/Magnific, rawpixel.com/Magnific, macrovetor/Magnific e Yenkassa/Wikimedia Commons
