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Eleições 2026 I 37 anos depois, Ronaldo Caiado participa da corrida presidencial pela segunda vez

Da liderança da bancada ruralista ao governo de Goiás, candidato do PSD construiu uma trajetória de mais de quatro décadas na política brasileira
Na imagem, Roberto Caiado, ex-governador de Goiás e candidato ao Planalto em 2026
Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br)*

Aos 76 anos, Ronaldo Caiado (PSD) é natural de Anápolis, em Goiás, e participa, em 2026, da corrida presidencial pela segunda vez — a primeira foi em 1989. O médico ortopedista anunciou sua pré-candidatura em março de 2025 — quando ainda fazia parte do União Brasil — como, segundo ele, uma alternativa frente à polarização política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

O goiano, que acumula cinco legislaturas na Câmara dos Deputados e uma no Senado, ao longo dos anos se consagrou como um dos principais representantes da bancada ruralista. E, mais recentemente, chamou a atenção para a segurança pública durante seus dois mandatos como governador de Goiás.

Da medicina à política

Formado em medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), em 1972, Caiado passou um período entre a França e o Rio de Janeiro, durante sua especialização em ortopedia e traumatologia. Entretanto, o candidato retornou definitivamente para Goiás, em 1984, quando começou a estreitar seu vínculo com o setor agropecuário. 

Ainda na década de 1980, tornou-se presidente da União Democrática Ruralista (UDR), onde deu voz à resistência de grandes produtores ao Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Caiado foi, inclusive, uma das principais lideranças do Movimento Nacional em Defesa da Propriedade, que ocorreu em 1987 e reuniu cerca de 40 mil manifestantes, de diferentes estados, em Brasília (DF). 

Na imagem, Ronaldo Caiado na capa da revista Veja
Em suas redes sociais, o candidato se intitula “agro raíz” [Foto: Reprodução/ Revista Veja – 18 de junho de 1986 (Edição n.º 929)]

O goiano deixou o comando da organização em 1989 para disputar a primeira eleição presidencial após a redemocratização, pelo antigo Partido Social Democrático – apesar de ter o mesmo nome do atual partido do candidato, fundado em 2011 por Gilberto Kassab, a legenda foi dissolvida em 1993. 

No primeiro turno, a disputa ficou marcada pelo embate entre Caiado e Lula, o qual afirmou durante um debate realizado pela Band — e que viralizou recentemente — que só faria perguntas ao adversário quando ele alcançasse ao menos 1,5% das intenções de voto. Ao fim das votações, Caiado não atingiu o percentual ironizado pelo adversário, recebendo apenas 0,72% dos votos, e declarou apoio a Fernando Collor (à época filiado ao PRN) no segundo turno daquele ano. 

Na imagem, Ronaldo Caiado
Os Caiado são uma família tradicional da política brasileira, e chegaram ao Brasil em 1770, após receberem uma sesmaria [Foto: Reprodução/Wikimedia Commons]

Após perder a corrida presidencial, o candidato migrou seus esforços para o poder Legislativo. Em 1990, filiado ao Partido da Frente Liberal (PFL), foi eleito o deputado federal mais votado de Goiás. Todavia, ao fim de seu primeiro mandato, o médico entrou na disputa pelo governo goiano e terminou em terceiro lugar — com 23,18% dos votos válidos. 

Em 1999, Caiado retornou à Câmara dos Deputados, onde permaneceu por quatro mandatos consecutivos. Em 2015, filiado ao partido Democratas (DEM) — sigla para a qual migrou durante sua última candidatura como deputado — passou a integrar o Senado Federal.

Durante sua passagem pelo Congresso Nacional, Caiado se destacou por sua atuação em defesa dos interesses da bancada agropecuária e por forte oposição ao Partido dos Trabalhadores, votando a favor de propostas como a emenda constitucional do teto de gastos, em 2016, e da reforma trabalhista, em 2017. 

Sua atuação nos processos de impeachment presidenciais também chama a atenção. Enquanto o goiano se posicionou a favor da perda do mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a quem atribuiu incapacidade de representar o país, sua postura em 1992 foi outra. Enquanto deputado federal, o político votou contra o impeachment de Collor e permaneceu leal ao ex-presidente até o fim, o que lhe proporcionou um apelido pela mídia, o de integrante da “tropa de Choque de Collor”. 

Em 2018, o, também, agropecuarista retornou a Goiás para concorrer ao cargo de governador. Ele foi eleito, ainda no primeiro turno, com 59,73% dos votos válidos. Ao fim do mandato, filiou-se à União Brasil e foi reeleito, em 2022.

Passagem pelo governo de Goiás

Em 2024, durante seu segundo mandato à frente de Goiás, Caiado protagonizou um escândalo: foi condenado por abuso de poder e a oito anos de inelegibilidade. Segundo a  sentença, determinada na primeira instância da Justiça Eleitoral do estado, o então governador organizou dois jantares no Palácio das Esmeraldas, residência oficial, em apoio ao candidato à prefeitura de Goiânia, Sandro Mabel (União Brasil). Mabel teve seu registro de candidatura cassado pela mesma decisão. 

A decisão foi revertida em 2025 em segunda instância pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), o qual considerou que, apesar de ter ocorrido o uso indevido do Palácio das Esmeraldas, os eventos se limitaram a dois encontros pontuais.

Nos demais anos de governo, Caiado concentrou seus esforços na educação, na saúde pública e na segurança pública. Durante seu mandato, a oferta de cursos profissionalizantes, integrados ao Ensino Médio, no estado cresceu a partir de uma parceria com o Sistema S. Além disso, atualmente Goiás divide o segundo lugar do ranking  nacional de alfabetização com o Paraná, ambos com 80% das crianças em idade escolar alfabetizadas. 

Em 2025, foi inaugurado o Complexo Oncológico de Referência em Goiás (CORA), uma de suas promessas de campanha. Outro fator que chamou atenção durante a gestão do governador, que também é médico, foi seu rompimento com o então presidente Jair Bolsonaro (PL), seu aliado, durante a pandemia de Covid-19. Em razão da condução realizada pelo Governo Federal a respeito do isolamento social e da vacinação contra a doença. 

Na imagem, Ronaldo Caiado (à esq.) e o ex-presidente, Jair Bolsonaro (PL) (à dir.)
Apesar do rompimento, em março de 2025, Caiado recebeu uma ligação de Bolsonaro, agradecendo-o por se posicionar a favor da anistia dos envolvidos no 8 de janeiro [Foto: Reprodução/Wikimedia Commons – Alan Santos]

A atuação de Caiado na Segurança Pública divide opiniões. O estado de Goiás investiu milhões em um sistema de videomonitoramento com inteligência artificial. Paralelamente, o governador se opôs ao uso de câmeras corporais por policiais. E enquanto os índices de roubos e homicídios caíram, a taxa de assassinatos cometidos por policiais se elevou. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do estado, entre 2019 e 2025 foram 3.489 mortes civis provocadas por agentes da segurança pública.

Apesar das polêmicas, quando renunciou ao mandato para concorrer à presidência da República, em março deste ano, o goiano acumulava 87% de aprovação da população do estado. 

Na imagem, a tabela de dados sobre homicícios em Goiás
De acordo com o Atlas da Violência 2026, Goiás apresentou queda no número global de homicídios [Imagem: Reprodução/ Atlas da Violência 2026]

Corrida presidencial e propostas

No início de 2026, o cenário interno do PSD era de disputa: Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, Ratinho Júnior, governador do Paraná, e Caiado desejavam representar o partido na corrida pelo comando do Palácio da Alvorada. O goiano foi o escolhido para concorrer ao cargo. Após Júnior desistir da candidatura, o último adversário era Leite, o qual acabou sendo deixado de lado pela presidência do partido.

Ao seu lado, como vice, está Gilberto Kassab (PSD), o presidente da legenda — que recentemente foi flagrado cochilando durante o debate presidencial organizado pela Band. Entre as propostas da chapa, os tópicos de maior destaque envolvem a segurança pública, anistia aos envolvidos na tentativa de golpe em 8 de janeiro e uma nova reforma na previdência. 

Em seu plano de governo, Caiado dá ênfase à criação de uma nova legislação que classificaria facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações de “terrorismo doméstico”, sempre que exercerem domínio territorial e uso sistemático da violência. O candidato também defende a redução da maioridade penal para 16 anos em crimes graves. 

A agenda de segurança também se estende ao meio ambiente. O plano trata o garimpo ilegal, a grilagem e o desmatamento como parte do crime organizado, sobretudo na Amazônia, e defende que o combate a esses crimes seja coordenado com as forças de segurança e a Receita Federal.

Na educação, pretende alfabetizar todas as crianças brasileiras e garantir domínio básico de matemática até o fim do 2º ano do ensino fundamental, além de ampliar creches, ensino técnico e escola em tempo integral. Políticas que, segundo o próprio plano de governo, colocaram Goiás no segundo lugar do ranking nacional de alfabetização.

Já na saúde, ele defende mudar a lógica de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS): em vez de seguir a ordem de chegada, as filas passariam a priorizar quem está clinicamente mais grave, apoiadas por prontuário eletrônico único e uso de inteligência artificial na regulação de vagas e exames. A proposta, elaborada com participação do ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta, também aposta na ampliação do atendimento oncológico especializado — outra referência direta a Goiás, onde o CORA foi inaugurado em 2025.

[Foto de Capa: Reprodução/ Wikimedia Commons – Palácio do Planalto]


*Esta reportagem foi produzida pela repórter Alícia Dias sob a supervisão da diretora de redação Gabriella dos Santos.

Na imagem, a régua do especial de eleições 2026 da J.press

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