Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br)*
Aos 76 anos, Ronaldo Caiado (PSD) é natural de Anápolis, em Goiás, e participa, em 2026, da corrida presidencial pela segunda vez — a primeira foi em 1989. O médico ortopedista anunciou sua pré-candidatura em março de 2025 — quando ainda fazia parte do União Brasil — como, segundo ele, uma alternativa frente à polarização política entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O goiano, que acumula cinco legislaturas na Câmara dos Deputados e uma no Senado, ao longo dos anos se consagrou como um dos principais representantes da bancada ruralista. E, mais recentemente, chamou a atenção para a segurança pública durante seus dois mandatos como governador de Goiás.
Da medicina à política
Formado em medicina pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), em 1972, Caiado passou um período entre a França e o Rio de Janeiro, durante sua especialização em ortopedia e traumatologia. Entretanto, o candidato retornou definitivamente para Goiás, em 1984, quando começou a estreitar seu vínculo com o setor agropecuário.
Ainda na década de 1980, tornou-se presidente da União Democrática Ruralista (UDR), onde deu voz à resistência de grandes produtores ao Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Caiado foi, inclusive, uma das principais lideranças do Movimento Nacional em Defesa da Propriedade, que ocorreu em 1987 e reuniu cerca de 40 mil manifestantes, de diferentes estados, em Brasília (DF).
O goiano deixou o comando da organização em 1989 para disputar a primeira eleição presidencial após a redemocratização, pelo antigo Partido Social Democrático – apesar de ter o mesmo nome do atual partido do candidato, fundado em 2011 por Gilberto Kassab, a legenda foi dissolvida em 1993.
No primeiro turno, a disputa ficou marcada pelo embate entre Caiado e Lula, o qual afirmou durante um debate realizado pela Band — e que viralizou recentemente — que só faria perguntas ao adversário quando ele alcançasse ao menos 1,5% das intenções de voto. Ao fim das votações, Caiado não atingiu o percentual ironizado pelo adversário, recebendo apenas 0,72% dos votos, e declarou apoio a Fernando Collor (à época filiado ao PRN) no segundo turno daquele ano.
Após perder a corrida presidencial, o candidato migrou seus esforços para o poder Legislativo. Em 1990, filiado ao Partido da Frente Liberal (PFL), foi eleito o deputado federal mais votado de Goiás. Todavia, ao fim de seu primeiro mandato, o médico entrou na disputa pelo governo goiano e terminou em terceiro lugar — com 23,18% dos votos válidos.
Em 1999, Caiado retornou à Câmara dos Deputados, onde permaneceu por quatro mandatos consecutivos. Em 2015, filiado ao partido Democratas (DEM) — sigla para a qual migrou durante sua última candidatura como deputado — passou a integrar o Senado Federal.
Durante sua passagem pelo Congresso Nacional, Caiado se destacou por sua atuação em defesa dos interesses da bancada agropecuária e por forte oposição ao Partido dos Trabalhadores, votando a favor de propostas como a emenda constitucional do teto de gastos, em 2016, e da reforma trabalhista, em 2017.
Sua atuação nos processos de impeachment presidenciais também chama a atenção. Enquanto o goiano se posicionou a favor da perda do mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a quem atribuiu incapacidade de representar o país, sua postura em 1992 foi outra. Enquanto deputado federal, o político votou contra o impeachment de Collor e permaneceu leal ao ex-presidente até o fim, o que lhe proporcionou um apelido pela mídia, o de integrante da “tropa de Choque de Collor”.
Em 2018, o, também, agropecuarista retornou a Goiás para concorrer ao cargo de governador. Ele foi eleito, ainda no primeiro turno, com 59,73% dos votos válidos. Ao fim do mandato, filiou-se à União Brasil e foi reeleito, em 2022.
Passagem pelo governo de Goiás
Em 2024, durante seu segundo mandato à frente de Goiás, Caiado protagonizou um escândalo: foi condenado por abuso de poder e a oito anos de inelegibilidade. Segundo a sentença, determinada na primeira instância da Justiça Eleitoral do estado, o então governador organizou dois jantares no Palácio das Esmeraldas, residência oficial, em apoio ao candidato à prefeitura de Goiânia, Sandro Mabel (União Brasil). Mabel teve seu registro de candidatura cassado pela mesma decisão.
A decisão foi revertida em 2025 em segunda instância pelo Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), o qual considerou que, apesar de ter ocorrido o uso indevido do Palácio das Esmeraldas, os eventos se limitaram a dois encontros pontuais.
Nos demais anos de governo, Caiado concentrou seus esforços na educação, na saúde pública e na segurança pública. Durante seu mandato, a oferta de cursos profissionalizantes, integrados ao Ensino Médio, no estado cresceu a partir de uma parceria com o Sistema S. Além disso, atualmente Goiás divide o segundo lugar do ranking nacional de alfabetização com o Paraná, ambos com 80% das crianças em idade escolar alfabetizadas.
Em 2025, foi inaugurado o Complexo Oncológico de Referência em Goiás (CORA), uma de suas promessas de campanha. Outro fator que chamou atenção durante a gestão do governador, que também é médico, foi seu rompimento com o então presidente Jair Bolsonaro (PL), seu aliado, durante a pandemia de Covid-19. Em razão da condução realizada pelo Governo Federal a respeito do isolamento social e da vacinação contra a doença.
A atuação de Caiado na Segurança Pública divide opiniões. O estado de Goiás investiu milhões em um sistema de videomonitoramento com inteligência artificial. Paralelamente, o governador se opôs ao uso de câmeras corporais por policiais. E enquanto os índices de roubos e homicídios caíram, a taxa de assassinatos cometidos por policiais se elevou. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do estado, entre 2019 e 2025 foram 3.489 mortes civis provocadas por agentes da segurança pública.
Apesar das polêmicas, quando renunciou ao mandato para concorrer à presidência da República, em março deste ano, o goiano acumulava 87% de aprovação da população do estado.
Corrida presidencial e propostas
No início de 2026, o cenário interno do PSD era de disputa: Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, Ratinho Júnior, governador do Paraná, e Caiado desejavam representar o partido na corrida pelo comando do Palácio da Alvorada. O goiano foi o escolhido para concorrer ao cargo. Após Júnior desistir da candidatura, o último adversário era Leite, o qual acabou sendo deixado de lado pela presidência do partido.
Ao seu lado, como vice, está Gilberto Kassab (PSD), o presidente da legenda — que recentemente foi flagrado cochilando durante o debate presidencial organizado pela Band. Entre as propostas da chapa, os tópicos de maior destaque envolvem a segurança pública, anistia aos envolvidos na tentativa de golpe em 8 de janeiro e uma nova reforma na previdência.
Em seu plano de governo, Caiado dá ênfase à criação de uma nova legislação que classificaria facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações de “terrorismo doméstico”, sempre que exercerem domínio territorial e uso sistemático da violência. O candidato também defende a redução da maioridade penal para 16 anos em crimes graves.
A agenda de segurança também se estende ao meio ambiente. O plano trata o garimpo ilegal, a grilagem e o desmatamento como parte do crime organizado, sobretudo na Amazônia, e defende que o combate a esses crimes seja coordenado com as forças de segurança e a Receita Federal.
Na educação, pretende alfabetizar todas as crianças brasileiras e garantir domínio básico de matemática até o fim do 2º ano do ensino fundamental, além de ampliar creches, ensino técnico e escola em tempo integral. Políticas que, segundo o próprio plano de governo, colocaram Goiás no segundo lugar do ranking nacional de alfabetização.
Já na saúde, ele defende mudar a lógica de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS): em vez de seguir a ordem de chegada, as filas passariam a priorizar quem está clinicamente mais grave, apoiadas por prontuário eletrônico único e uso de inteligência artificial na regulação de vagas e exames. A proposta, elaborada com participação do ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta, também aposta na ampliação do atendimento oncológico especializado — outra referência direta a Goiás, onde o CORA foi inaugurado em 2025.
[Foto de Capa: Reprodução/ Wikimedia Commons – Palácio do Planalto]
*Esta reportagem foi produzida pela repórter Alícia Dias sob a supervisão da diretora de redação Gabriella dos Santos.





