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Semana do Jornalismo 2026 | “O jornalista não é matéria”, diz Júlio Gomes

Mesa “Jornalismo esportivo: Desafios e transformações” apresenta as vivências da profissão frente aos novos meios e formas de cobrir e comentar esportes

Por Hugo Boff (hugoboff@usp.br) jornalismo

Depois de promover uma série de palestras cheias de aprendizados em diversas áreas da atuação jornalística, a Semana do Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP, organizada pela Jornalismo Júnior, teve seu encerramento, na última sexta-feira (26) com a mesa de jornalismo esportivo.

Durante a mesa, Serginho Xavier, comentarista esportivo do SporTv, e Júlio Gomes, formado em jornalismo pela ECA e atual comentarista de futebol internacional pelo Uol e Band Sport, foram conduzidos pelas perguntas da repórter Ana Germano, da Jornalismo Júnior, que mediou a palestra. A trajetória dos jornalistas, a cobertura de grandes eventos, as diferenças entre jornalismo e conteúdo criado por influenciadores e o fim das bets foram pautas da conversa que finalizou a Semana. 

Da paixão pelo esporte às redações 

Para dar início ao bate-papo, ambos os profissionais comentaram sobre a entrada no mercado jornalístico. Serginho Xavier contou que optou pela carreira da comunicação após uma tentativa falha de se tornar jogador de futebol durante a adolescência. Segundo ele, sua “alfabetização” com a Revista Placar também influenciou sua escolha.

Porém, o jornalista comentou que seu sonho de escrever para a editoria esportiva só foi se realizar depois de quase dez anos de atuação profissional. “Quando apareceu a primeira chance de estágio num jornal, não era no esporte. Logo depois fui parar na economia e por lá fui ficando. Fui editor no Estadão na revista IstoÉ”.

Além de ser gremista e fanático por futebol, Serginho também é praticante de corridas de rua [Imagem: Estela Bughay/Jornalismo Júnior]

O marco de seu trabalho no mundo esportivo veio com a Copa do Mundo de 1994, quando o jornalista organizou a cobertura para a revista IstoÉ, que até então cobria esportes na editoria de comportamento. Após alguns trabalhos, Juca Kfouri e Marcelo Duarte o convidaram para fazer parte da admirada Placar, o que concretizou o sonho de juventude de Serginho.

Júlio Gomes, por outro lado, relatou como sua entrada no meio esportivo foi diferente da história contada por Serginho. O ex-Ecano explicou que a motivação para entrar nos ambientes de redação veio de casa, com seu irmão, o jornalista Flávio Gomes. “Eu brinco que quando comecei a trabalhar com jornalismo esportivo, era como se eu estivesse fazendo o que eu já fazia em casa com a máquina de escrever do meu irmão”, relata, bem-humorado.

Mesmo com a certeza de que gostaria de trabalhar com esporte , Gomes salientou que teve sorte em seu processo de entrada. “Logo no meu segundo ano de ECA, em 1998, um rapaz que era estudante aqui da faculdade, veio para mim e falou ‘Júlio, eu trabalho lá no Uol, conhece? Eles estão contratando gente para a Copa do Mundo de 1998’”. Após passar pelo processo seletivo da empresa, o jornalista passou a atuar na área em que trabalha até hoje.

Cobertura de Copas

Diante da experiência dos jornalistas em Copas do Mundo, o tema não pôde passar em branco pela mediadora. Serginho, que esteve presente nas edições de 1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018, comentou sobre a contraditoriedade do evento. O jornalista definiu esse ambiente como “o melhor lugar para estar como pessoa física e talvez o pior para estar como pessoa jurídica”. 

Xavier explica a fala do colega: “O nosso grande sonho como fã de esporte, é estar em uma Copa do Mundo. A experiência como espectador é linda, mas para trabalhar é muito ruim. A Copa é um lugar controlado, restrito. Isso tira a personalidade dos países. O ambiente FIFA é uma pasteurização total daquele lugar”.

Júlio Gomes compartilhou que sempre gostou de fazer suas coberturas sozinho e que, na Copa de 2002, esteve acompanhado de sua câmera Sony Mavica, que comportava aproximadamente duas fotos por disquete [Imagem: Estela Bughay/Jornalismo Júnior]

Júlio, que esteve in loco nas edições de 2002 a 2026, utilizou o evento para explicar como é importante se reinventar na maneira de contar histórias. O jornalista trouxe o exemplo de quando escolheu cobrir a seleção da Itália durante o Mundial de 2006, pela Band. Durante o acompanhamento, Gomes relatou que chegou a ficar próximo dos companheiros da imprensa italiana e dos membros do elenco, além de acompanhar a Azzurra no desenrolar do campeonato.

Após a Itália garantir sua classificação para disputar a final contra a Seleção Francesa, Júlio contou que recebeu uma ligação da “chefia”, dizendo que deveria ir para Paris, cobrir a final do campeonato do lado francês. Mesmo desacreditado com a decisão de seus superiores, Júlio foi para a Cidade Luz e, de lá, fez uma matéria de grande repercussão, que narrou com orgulho para o público presente no Auditório Freitas Nobre na noite da última sexta-feira.

O jornalista contou que a derrota da França, com um empate de 1 a 1 no tempo regulamentar e decidida nos pênaltis pelo placar de 5 a 3 para a Itália, enfureceu os franceses. A desordem, que envolveu desde briga nos bares até revoltosos que atearam fogo em carros, deu material para que Júlio fizesse uma cobertura intrigante.

Diante da história do colega, Serginho salientou aos alunos: “Vocês têm que procurar fazer algo diferente. Mesmo em lugares pasteurizados temos que nos perguntar:  ‘o que eu posso fazer de novo?’. Não precisa ser o assunto principal, mas acha um jeito diferente de contar. Talvez seja o que o Júlio acabou de dizer, que no momento que a Itália era campeã, a França poderia ser um assunto mais interessante.”

“A audiência não é tudo”

No último bloco da palestra, a repórter Ana Germano questionou os palestrantes sobre a alteração dos formatos comunicacionais e o crescimento dos influenciadores. 

Em resposta, Júlio afirmou que os meios de comunicação passam por mudanças desde o momento em que foram criados. “Uma informação pode ser contada de forma densa, documental, através de livros, através de uma matéria ou de um vídeo de um minuto e meio”. Mas complementa:  “O formato não é a alma do negócio. O formato é um meio. A alma é a história que você vai contar e ela precisa ser bem bem contada, de uma forma legal, séria e responsável”. 

Gomes alegou também que, com o crescimento das redes sociais, muitos jornalistas se afastam de sua função. “A gente não tá lá para ser notícia, a gente tá lá para buscar a notícia e para contá-la.”

“Nós, jornalistas, nunca podemos nos esquecer do que somos. Somos pessoas que contam histórias”

Júlio Gomes

Serginho complementou a declaração de seu colega ao afirmar  que o bom humor é importante para uma cobertura cativante, mas que ele não pode se sobressair aos fatos. “Acho que no geral a palhaçada e a sacanagem vão dar mais audiência. Mas acredito que em alguns momentos a audiência não é tudo”, pontua.

Interações do público

No final da palestra, os convidados responderam às questões dos alunos, que abordaram a medida provisória (MP) que proibiu as casas de apostas no Brasil, publicada recentemente pelo governo federal, e a importância da formação em jornalismo para exercer a profissão.

Ambos os jornalistas defenderam que as bets são tão prejudiciais quanto outros vícios, como alcoolismo e tabagismo. Para Serginho, o fim das publicidades é essencial para a diminuição dos dependentes em jogos de apostas. Júlio completou o colega ao alegar que a dificuldade na discussão de temas como esse, causada principalmente pela presença de defensores desse mercado no Estado, dificulta a resolução do problema.

Em relação a valorização da faculdade de jornalismo, Serginho pontuou que a qualidade de escrita é construída com o tempo, mas a ética na abordagem das informações é o grande diferencial das “cadeiras acadêmicas”. Júlio concordou com o parceiro de bancada, ao afirmar que o convívio no espaço universitário é essencial para uma cobertura ampla e plural. 

“Na faculdade você aprende a conviver com a diversidade, com as pessoas diferentes, com outras opiniões, com outros backgrounds. O curso é um grande filtro humano e eu não seria o jornalista, nem a pessoa que eu sou, se eu não tivesse passado por aqui [ECA]”, comenta Gomes com orgulho. 

*Imagem de capa: Estela Bughay/Jornalismo Júnior

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