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Semana do Jornalismo 2026 | Repórteres do g1 discutem adaptação do jornalismo as redes sociais 

Mesa da Semana do Jornalismo aborda novos formatos da notícia, uso da tecnologia e os desafios da profissão diante das mudanças no consumo de informação
Por Lívia Falbo (liviafalbo@usp.br) 

Em 24 de setembro, quarto dia da Semana do Jornalismo, Luiza Tenente, Marília Neves e Darlan Helder foram os convidados da mesa “g1 nas Mídias Sociais: Os novos formatos da notícia”. Com mediação realizada pela aluna Loren Tangi, os principais temas discutidos foram a adaptação dos jornalistas frente aos avanços da tecnologia e as mudanças na maneira de compartilhar informação. 

Os três convidados trabalham no g1, o maior portal de notícias do Brasil, que  entrou no ar há 20 anos e, desde então, tem se moldado aos requisitos dos leitores. Com o fortalecimento das redes sociais, o site precisou se adequar às novas maneiras de transmitir informação. Dentre elas, os vídeos curtos. 

Em abril de 2015, foi lançado o “g1 em 1 minuto”, boletim de notícias que resume os principais acontecimentos do dia em 60 segundos. Desde então, a Globo tem buscado criar novas alternativas para transmitir notícias de forma mais rápida e dinâmica, como a criação de uma conta no TikTok, a produção de vídeos curtos para acompanhar matérias e o desenvolvimento da Globopop, plataforma voltada para vídeos curtos em formato de rolagem vertical.

Tenente, Neves e Helder cobrem, respectivamente, educação, cultura e tecnologia. Apesar de serem especializados em assuntos diferentes, os três compartilharam ideias e opiniões sobre os novos rumos do jornalismo e dos profissionais da área com o fortalecimento das redes sociais. 

Rotina no g1   

Antes de começarem a falar sobre as mídias sociais, os entrevistados contaram como é trabalhar no g1. Eles enfatizaram como as hard news, notícias relevantes e recentes, influenciam diretamente o dia a dia dos repórteres, especialmente em veículos digitais, nos quais a velocidade de publicação é fundamental para acompanhar o ritmo dos acontecimentos. A necessidade de informar rapidamente não elimina a responsabilidade jornalística: mesmo diante da pressão pelo imediatismo, é necessário apurar e verificar as informações antes de divulgá-las.

 “A nossa profissão é muito dinâmica, eu nunca sei como vai ser o meu dia”, explicou Helder. Os três concordaram que a manhã é a parte mais desafiadora, já que os repórteres precisam fazer uma ronda dos acontecimentos recentes e das possíveis pautas do dia. 

Neves indicou que, além de temas que acontecem repentinamente, existem também as matérias já esperadas. Nesses casos, ela contou dois jeitos de desenvolver uma pauta: o jornalista ir atrás das informações ou a assessoria de imprensa vendê-las. No meio da cultura, ela utilizou como exemplo os festivais (Lollapalooza, The Town, Rock in Rio) ou lançamento de álbuns musicais. “Tem pautas que a gente já está preparado para cobrir, mas também existem os factuais”, contou. 

Tenente completou que, em qualquer tipo de pauta, a agilidade é uma qualidade indispensável. Ela cita que uma das vantagens dos portais online é a possibilidade de atualizar o texto em tempo real. Por isso, assim que o jornalista tiver a confirmação do fato, a notícia precisa ser publicada, mesmo que com poucos detalhes e parágrafos. Ela enfatizou que, apesar da publicação rápida ser importante, a responsabilidade com a verdade vem em primeiro lugar. 

O que esperar da tecnologia nos próximos anos

Helder afirmou que é muito difícil prever como a tecnologia vai avançar nos próximos anos. No entanto, ele entende que os jornalistas devem estar onde o público está: nas redes sociais. 

Além disso, o repórter ressaltou que, atualmente, a internet está inserida no trabalho jornalístico e, por isso, os profissionais precisam aprender a transmitir a informação por meio das redes. Ele destacou que jornalistas devem encontrar saídas para se aproximar do público que não consome notícias. “Eu sou muito defensor de nós [jornalistas] nos adaptarmos”, opinou. 

Neves opinou que, além da adaptação dos jornalistas, deve haver uma adaptação da linguagem aos diferentes formatos das redes sociais. “A forma de escrever com ‘quem, quando, onde, como, porque’ não existe em vídeos, por exemplo. Se a gente começar um vídeo falando isso, a pessoa vai passar em 1 segundo”, completou.

Para Tenente, também é importante que o jornalista esteja aberto a mudanças. “Eu estou há onze anos no g1, e quando eu penso nos vídeos que a gente produzia no começo e como são hoje, o processo mudou”, contou. Antes o processo de gravação era mais lento, e precisava de mais pessoas trabalhando. Agora, os vídeos precisam ser produzidos em questão de horas, já que o jornalismo de hard news nas redes sociais precisa ser o mais rápido possível. Os repórteres não precisam mais agendar as gravações com dias de antecedência. “O assunto que está bombando hoje, que pode fazer com que o seu vídeo tenha muitos comentários e visualizações, se você publicar daqui a 3 dias talvez ninguém mais esteja querendo saber”, explicou. 

Ela também indicou que a estrutura dos vídeos e cortes dos textos dos clipes para a internet é completamente diferente. “O começo do Jornal Nacional não vai atrair a pessoa que está no tiktok”, exemplificou. A repórter finalizou sua fala defendendo alguns avanços da tecnologia. Ela argumentou que mecanismos como a Inteligência Artificial (IA) podem deixar o trabalho mais dinâmico.

Especialização limita acesso a cargos que discutem outros temas

Ao falar sobre sua carreira, Neves compartilhou que percebe certo “preconceito” dentro do jornalismo quanto às áreas de especialização dos repórteres. Ela explicou que acredita-se que por um repórter cobrir um setor específico, ele não terá capacidade de escrever sobre outros assuntos. Para a profissional, isso é um equívoco, já que bons jornalistas sabem falar sobre tudo que entregam para eles. 

“As empresas procuram versatilidade na forma de fazer o trabalho, mas quando você começa em uma área muitas vezes o time de jornalismo de outras áreas acha que você não é apto para entrar naquele setor”

Marília Neves 

Tenente concordou que, ao se especializar em algo, o jornalista fica “marcado”. Apesar disso, ela ressaltou que a quantidade de profissionais generalistas é alta, e que, em um mundo ideal, seria interessante que conseguissem se aprofundar mais em um assunto específico. De acordo com a repórter, o principal no mercado de trabalho, no entanto, é “defender as nossas habilidades, não os nossos assuntos”. 

Helder contou que sempre se incomodou com o termo “jornalista de tecnologia”, porque na faculdade se preparou para escrever sobre tudo. Com o tempo, ele aceitou o título, e descobriu vantagens da especialização. “Você cria sua bolha dentro da sua área de cobertura”, afirmou. 

Tenente, Neves e Helder trabalham no g1 há, respectivamente, 11, 4 e 5 anos
[Imagem: Hugo Boff/ Jornalismo Júnior]

Simplificação de termos tecnológicos

Helder explicou as dificuldades de traduzir expressões técnicas e específicas. Ele enfatizou que no g1, um veículo de massa, não se fala apenas para um público nichado. Por isso, tanto no texto quanto nos vídeos, ele tenta explicar um pouco desses conceitos, para que a maioria do público entenda.”Pensar como o mundo está entendendo faz parte do nosso trabalho”, concordou Neves. 

Tenente explicou que, na educação, o maior desafio é traduzir os números. Para ela, a melhor maneira de fazer isso é tentar levar o tema abordado para o dia a dia do público. A jornalista afirmou que, nesse processo, não gosta de usar as expressões ‘para quem não sabe’ e “acho que todo mundo já sabe”, uma vez que isso pode fazer alguns leitores se sentirem inferiorizados.

“Você tem que atender o público geral, mas não pode largar a mão de quem realmente acompanha o seu assunto”

Luiza Tenente 

Cobertura de educação em época eleitoral 

Tenente afirmou que falar sobre educação do ponto de vista político exige um “jogo de cintura”. Isso porque, ao longo da carreira, o jornalista precisa se adaptar ao perfil de cada gestão e entender a diferença entre debates realmente importantes para a educação e discussões baseadas em uma polarização política. “Existem alguns temas que geram muito clique, mas que não necessariamente atendem uma parte significativa da população”, defendeu. 

Como inserir o jornalismo nas redes sociais?

Helder enfatizou a utilidade de ser “cronicamente online”, ou seja, de saber o que está acontecendo nas redes sociais. Ele defendeu que entender como as pessoas se comunicam nesse ambiente é importante para transformar a informação em algo interessante que não perca a seriedade. “Nós podemos usar uma linguagem mais descolada, mas ainda sim é jornalismo”, afirmou. 

Para Tenente, é interessante usar um assunto que está ‘bombando’ como gancho. Ela usou como exemplo um texto que produziu na Copa do Mundo, quando surgiram comentários sobre a entonação das falas de Vinicius Jr. Para relacionar isso com educação, a repórter procurou linguistas que pudessem explicar a relação entre o jogador morar na Espanha (e falar espanhol) e a melodia diferente de sua fala.   

Os vídeos foram incorporados ao jornalismo como uma ferramenta capaz de complementar a informação escrita e aproximar o público dos acontecimentos. Com o crescimento das redes sociais e das novas formas de consumo de notícias, o complemento audiovisual passou a ocupar um espaço cada vez maior na produção jornalística, que hoje depende dele. Neves defende que o prazer do jornalismo está na escrita. Ela explicou que espera que os vídeos em redes sociais não sejam priorizados sobre à produção textual.

*Imagem de capa: [Hugo Boff/Jornalismo Júnior]

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