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O Brasil gosta de terror. E se o próximo medo vier daqui?

Apesar do interesse do público brasileiro pelo terror, o sucesso das produções estrangeiras do gênero não se repete na mesma proporção entre as obras nacionais
Por Kaylaine Farias (kaylainemdsf@usp.br)

Anualmente, com a aproximação do Halloween, o terror costuma ganhar ainda mais espaço entre as produções consumidas pelo público. Desde os clássicos, como The Exorcist (O Exorcista, 1973) até as novidades, como Obsession (Obsessão, 2026), o gênero está sempre presente nas salas de cinema e nas plataformas de streaming, e atrai, inclusive, os espectadores que tendem a não gostar de histórias de medo. Porém, com o passar dos anos, o horror deixou de ser associado apenas ao período de outubro e passou a ocupar espaço no calendário cinematográfico dos brasileiros durante todo o ano. 

Lançamentos recentes, como Scream 7 (Pânico 7, 2026), The Substance (A Substância, 2024), Final Destination: Bloodlines (Premonição 6: Laços de Sangue, 2025) e The Conjuring: Last Rites (Invocação do Mal 4: O Último Ritual, 2025), apontam que não é necessário haver uma data específica para a produção e consumo intenso do terror. 

Em 2025, por exemplo, Sinners (Pecadores, 2025), lançado em abril daquele ano, ultrapassou US$370 milhões em bilheteria mundial. Enquanto The Backrooms (Backrooms: Um Não-Lugar, 2026), título de maio de 2026, alcançou mais de US$300 milhões em bilheteria mundial e se tornou a maior arrecadação de toda a história do estúdio A24. 

Outro fator notável é que o gênero está longe de ser considerado um nicho pouco rentável, porém, no Brasil a relação do público com produções de terror nacionais parece acontecer de maneira diferente. Apesar de filmes como As Boas Maneiras (2017), Morto Não Fala (2018) e Mal Nosso (2017) terem recebido reconhecimento em festivais brasileiros e internacionais, é mais comum encontrar espectadores que consomem mais produções estrangeiras do que brasileiras. Mas, se existe interesse pelo gênero, por que ele não parece captar a mesma atenção quando a produção tem origem em nosso país?

Em Os Mortos Não Falam o protagonista trabalha em um necrotério, e após ouvir os mortos, começa a entrar em contato com acontecimentos sobrenaturais
[Imagem: Reprodução/Youtube:@ingressos-com]

Contexto histórico

A relação do público com o terror cinematográfico é quase tão antiga quanto o próprio cinema. Em meados do século 19, o francês Georges Méliès lançou Le Manoir du Diable (O Solar do Diabo, 1896), curta-metragem que apresentava figuras demoníacas, esqueletos e transformações sobrenaturais. A obra estava mais próxima do espetáculo de ilusionismo do que do terror como gênero consolidado, mas já explorava a capacidade de gerar surpresa e estranhamento, uma característica que se tornaria fundamental para o cinema de horror.

Ao longo das décadas seguintes, o terror se desenvolveu e passou a incorporar diferentes elementos culturais. O expressionismo alemão, as produções de Hollywood e personagens como Drácula e Frankenstein ajudaram a estabelecer aspectos que permanecem reconhecíveis e associados ao gênero até hoje, como a uso de cenários sombrios, a presença de monstros e criaturas sobrenaturais, jogos de luz e sombra e a exploração do medo do desconhecido.

Drácula surgiu no romance Dracula (Companhia das Letras, 2014), escrito por Bram Stoker, mas o cinema foi quem transformou o personagem em uma das figuras mais reconhecíveis da história do terror [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

No Brasil, o terror também encontrou espaço para desenvolver suas próprias características. Um dos principais marcos para este estilo foi a obra À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), de José Mojica Marins. O filme apresentou ao público a figura do Zé do Caixão, um coveiro de aparência sombria que utiliza cartola, capa preta e unhas longas, inspirado em um pesadelo que o próprio diretor afirmou ter tido, e demonstrou que era possível produzir horror no país com o uso de referências próprias, mesmo sem a estrutura e orçamento das grandes produções estrangeiras.

A trajetória de Mojica é importante porque mostra que o cinema brasileiro não precisou importar o medo para construir suas próprias histórias. O sobrenatural, a violência, a religiosidade e elementos do imaginário popular brasileiro já eram suficientes para criar narrativas capazes de assustar. Mas, apesar da notável qualidade da grande maioria das produções nacionais enquadradas no gênero, o público brasileiro se mantém relutante quanto ao consumo destas obras.

A falta de orçamento não impediu que Mojica desenvolvesse uma estética própria [Imagem: Reprodução/Youtube:@CursosCineFantastico]

Hábitos dos espectadores

Uma pesquisa publicada em abril de 2026 pelo PrivacyJournal analisou os hábitos de consumo de streaming em 101 países.  O levantamento – feito a partir de dados do FlixPatrol referentes ao primeiro trimestre do ano –  identificou que o terror é o gênero mais assistido no Brasil, ao lado de México e Suécia. 

Este dado refuta a hipótese de que o público nacional não teria interesse pelo gênero, argumento que justificaria a pouca presença do terror brasileiro no imaginário popular. O brasileiro gosta de terror, a questão observada é que boa parte desse interesse é direcionada para produções que chegam de fora.

O mesmo levantamento mostra que a maior parte dos conteúdos mais assistidos no Brasil têm origem na América do Norte, enquanto no ranking de produtoras mais consumidas, a estadunidense Universal Pictures, ocupa a primeira colocação no país. Mesmo que o terror ocupe o topo da preferência do público brasileiro, o cinema produzido no território nacional ainda busca ampliar sua presença dentro desse mercado. Existe uma demanda pelo gênero que ainda parece ser atendida principalmente por produções estrangeiras.

Popularidade e introdução nos cinemas

A força das produções estrangeiras cria um desafio particular para os cineastas nacionais. Não basta produzir um filme assustador, é preciso disputar a atenção de um público acostumado a grandes franquias, campanhas de divulgação internacionais e orçamentos capazes de sustentar efeitos visuais, cenários e campanhas publicitárias de grande alcance. 

Em entrevista ao Cinéfilos, a pesquisadora especialista em cinema de horror, Laura Cánepa, comenta sobre as dificuldades enfrentadas por produtores de filmes de horror nacionais dentro da disputa contra obras estrangeiras pela atenção do público. “É o tipo de gênero que você tem em muitos países, muita coisa interessante, então a concorrência é barra pesada. O terror é um dos gêneros mais internacionais nesse ponto, é um dos gêneros que mais as pessoas consomem. Então, a oferta é muito grande, você concorre com estreias de cinema, filmes bem produzidos, aqueles filmes da Blumhouse e com coisas que estão no streaming”, declara.

Questionada sobre o papel dos streamings como ferramentas que facilitem o acesso aos filmes de horror, Cánepa apresenta pontos positivos e negativos relacionados ao uso destas plataformas. “Tem muita coisa que a gente só está vendo porque está no streaming, porque ficou uma semana em cartaz no cinema, 13h30 da tarde. Mas ao mesmo tempo, o streaming trabalha com algoritmos, a coisa está lá, mas se você não estiver procurando, não é o que você vai encontrar primeiro”, diz a especialista.

Um filme que teria dificuldade de permanecer muito tempo em cartaz pode encontrar uma segunda oportunidade em plataformas digitais
[Imagem: Reprodução/Pexels]

A profissional também cita problemas presentes na distribuição e divulgação das obras e a dificuldade de introdução destes filmes no mercado e nas salas de cinema, fatores que dificultam o contato da população com estas produções. Apesar dos desafios, Cánepa acredita que a resistência por parte dos espectadores brasileiros a imaginar que possam haver bons filmes de terror nacionais já diminuiu bastante.

Segundo ela, o crescente investimento das plataformas de streaming na distribuição de produções cinematográficas do gênero horror aponta que há um reconhecimento do interesse do público por estes materiais. “Eu acho que, comparado com 20 anos atrás, o cenário é muito melhor para uma pessoa que quer fazer filmes de terror. O Brasil tem muito caos, é um país com uma história de muita violência. O nosso repertório é repleto de histórias terríveis e que podem ganhar um tratamento, digamos, por esse olhar do horror”, conclui a pesquisadora.

O terror brasileiro pode abordar elementos diferentes daqueles mais comuns em Hollywood, como violência urbana, desigualdade, religiosidade, folclore
e questões sociais [Imagem: Reprodução/Youtube:@stiv70]

Futuro do Terror

Algumas produções nacionais ajudam a demonstrar que existe espaço para o horror feito no Brasil. Mal Nosso, de Samuel Galli, por exemplo, retrata um homem que após acreditar que a filha será possuída por uma entidade demoníaca, contrata um assassino para protegê-la, dando início a uma sequência de acontecimentos violentos e sobrenaturais.

Mesmo produzido com um orçamento reduzido, percorreu dezenas de festivais internacionais antes de chegar ao circuito brasileiro. O filme recebeu reconhecimento fora do país e demonstrou que uma produção brasileira de terror pode encontrar público mesmo sem competir diretamente com os lançamentos de Hollywood.

Já Animal Cordial teve estreia mundial no Fantasia International Film Festival, no Canadá, e recebeu diversos prêmios no Brasil. Enquanto isso, Bacurau (2019) reuniu cerca de 730 mil espectadores brasileiros nas salas de cinema, 36 milhões de pessoas quando reproduzido na TV aberta pela Rede Globo e faturou US$3,55 milhões mundialmente.

Casos como estes revelam um possível caminho para o gênero, onde em vez de tentar reproduzir exatamente o que já é feito pelas grandes produtoras estrangeiras, o cinema brasileiro pode explorar aquilo que possui de particular.

Uma produção também pode estrear em um festival brasileiro ou estrangeiro, conquistar prêmios, possuir críticas positivas e, ainda assim, ter uma passagem pequena pelas salas de cinema [Imagem: Reprodução/Pexels]

A dissertação A Situação do Terror no Cinema Nacional (2009-2019): Uma análise do estudo sobre ‘Gêneros Cinematográficos’ (2018) da Ancine, de Juliano Ferreira Gonçalves, para o Programa de Pós Graduação em Artes Visuais no Instituto de Artes da Unesp, apontou inicialmente 176 produções brasileiras que poderiam ser classificadas como filmes de terror entre 2009 e 2019. Após analisar críticas, reportagens e outros materiais sobre as produções, o estudo identificou uma presença do gênero no cinema nacional maior do que os registros oficiais sugeriam.

O cenário atual permite uma leitura menos pessimista do que aquela de que o Brasil simplesmente não produz ou não consome terror. O terror brasileiro não precisa necessariamente esperar por uma grande franquia para conquistar a população. Pode crescer aos poucos e encontrar seu público por meio de plataformas, festivais, redes sociais e recomendações entre espectadores.

Os dados sugerem que o Brasil já possui um público que gosta de sentir medo. O que ainda falta é fazer com que, além de esperar pelo próximo lançamento de Hollywood, os espectadores também estejam dispostos a descobrir que algumas das histórias mais assustadoras podem acontecer em lugares muito mais próximos de casa.

*Imagem de Capa: [Reprodução/IMDb]

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