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Do South Bronx para o mundo: o crescimento do hip hop
Escuta Aí
16 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

Uma empresa especialista em estudos de interesses e hábitos de consumidores, a Nielsen, divulgou seu relatório semestral da indústria da música. A pesquisa publicada em julho apresentou um dado histórico: o hip hop, junto ao R&B, passou a ser o gênero mais consumido nos Estados Unidos, ultrapassando, pela primeira vez, o rock. O resultado gerou surpresa, já que o estilo pode ser considerado relativamente novo quando comparado ao rock and roll, tendo surgido há menos de 45 anos. Mas como isso aconteceu? E o que é exatamente o hip hop?

Além da música: um movimento

Um erro que se tornou muito comum desde o seu surgimento foi a minimização do hip hop a um gênero musical. Mais do que um estilo de música, ele surgiu como um movimento de expressão cultural, política e social. Com início na década de 1970 no bairro do Bronx, em Nova Iorque, o movimento “é a junção de 4 pilares de atuação artística cultural: breaking, graffiti, DJ e MC”, explica Beto Teoria, rapper, produtor cultural e presidente da Nação Hip Hop Brasil entidade organizada por representantes do movimento hip hop para organizar ações, discussões e demandas do movimento no país. Ele também explica o porquê do rap ser um dos elementos mais populares da cultura hip hop (e muitas vezes ser confundido com o nome do movimento em si): “Rap é a abreviação da expressão em inglês ‘Rhythm And Poetry’ (Ritmo E Poesia). Como é um dos elementos que traz a essência da manifestação musical e também a comunicação através do MC (Mestre de Cerimônias), ele acaba se tornando um elemento que cria canais mais plurais de comunicação.”

Hip hop x R&B

Na pesquisa da Nielsen, o hip hop aparece como estilo mais consumido junto ao R&B. Ver esses dois gêneros caminhando juntos é muito comum, já que o Rhythm and Blues é, hoje em dia, reconhecido como uma combinação de soul, funk, pop e hip hop, tendo representantes como Janet Jackson e The Weeknd. “[O R&B] traz o canto da alma, do coração e o sentimento na dinâmica do dia a dia, que é comum a muitos. Bem como o rap […], suas vibrações fazem o corpo mortal se sentir indefeso ao ritmo”, explica Beto.  

The Weeknd

 

Janet Jackson

O avanço e as mudanças

Sobre o crescimento acelerado do hip hop, o rapper acredita que uma de suas razões é o viés popular desse ritmo musical, o que faz com que muitas pessoas se sintam acolhidas por ele mesmo não sendo fãs assíduas do gênero: “Por isso, todo e qualquer avanço ou conquista do movimento ou de seus integrantes é crédito mero e simples deles, do seu empoderamento, de suas lutas e metodologias próprias. Hoje, o hip hop não é influenciado, pelo contrário, ele influencia.” Ao ser questionado se esse “boom” do gênero é positivo (por levá-lo a mais pessoas) ou negativo (por ter a possibilidade de banalizar a mensagem do movimento), ele diz que os avanços e transformações devem ser observados com atenção, de modo que o que for positivo siga e, se tiver que sofrer alterações, que assim seja. “O movimento hip hop nacional ainda tem base […] e mesmo com a conquista e entrada em novos espaços, não creio que exista um problema, até porque o hip hop sempre pregou o fim da desigualdade”, explica.

Discorrendo sobre essas alterações, Beto reconhece que o hip hop sempre foi muito machista, mas que agora está identificando esse defeito e se transformando. “Se é assim que se pede, então é assim que tem que ser. O hip hop não fica perdendo tempo fazendo teses. Ele tem a essência da rua e a dinâmica é assim, rápida. Se resolve logo o que tiver que resolver de errado e pronto”, conta. Após destacar o papel das mulheres no cenário do hip hop hoje em dia, o produtor cultural afirma: “A diversidade se faz presente e é super respeitada, de modo com que aqueles que estiverem fora desta sintonia certamente fiquem só de passagem, com prazo de validade. Isso mostra que o hip hop tem e terá sempre suas contribuições políticas e sociais a dar.”

Os novos meios de disseminação

Segundo dados da Nielsen, o hip hop foi o número 1 no ranking de consumo nos EUA devido, principalmente, ao seu desempenho nas plataformas de streaming. Esse tipo de serviço consiste na transmissão instantânea de áudios e vídeos em rede, sem a necessidade do download. No mundo da música, atualmente, os principais serviços de streaming são o Spotify, Apple Music e Google Play.

 

Artistas como Drake e Kendrick Lamar são grandes destaques do hip hop nesse meio. Seus álbuns, “More Life” e “DAMN.”, respectivamente, bateram recordes nas plataformas de streaming. Beto Teoria acredita que esse tipo de serviço representa uma grande ajuda não só ao hip hop, mas a todo segmento musical, apesar do rap apresentar uma peculiaridade: “O rap, em especial, sempre foi atuante em suas formas alternativas e ainda continua sendo, em boa parte. As redes ajudam e dão suporte, porém têm protagonismo aquelas que são gratuitas, que são específicas do meio, que trazem uma conexão muito maior para além do ganho financeiro”, explica. Ele ainda conta que o hip hop nunca foi dono de grandes marcas, então sempre sobreviveu de seus próprios mecanismos de desenvolvimento, criando marcas de roupas, gravadoras, casas de show, revistas digitais e websites: “Nesse sentido, fazem sua geração de renda, porém numa linha diferente e inovadora, que é a economia criativa e solidária.”

O hip hop no Brasil

Em território brasileiro, o “boom” desse gênero não foi diferente. Com o surgimento e a ascensão de novos artistas, aumento das populares batalhas de rima e uma maior visibilidade na mídia, o hip hop tem ganhado mais espaço no cenário nacional. Artistas como Rincon Sapiência, Negra Li e Criolo têm disseminado essa cultura no país, influenciando, principalmente, a juventude. “O hip hop nacional está em plena atuação e crescimento. […] Na última década, a possibilidade de convergir através das novas mídias e tecnologias contribuiu para fomentar e divulgar o gênero, ajudando a atrair mais praticantes e simpatizantes e até mesmo a conectar os mais antigos do hip hop com uma nova geração do movimento”, diz Beto.

As batalhas de rima têm ganhado força entre os jovens

Ao ser questionado se o hip hop tem espaço em diferentes classes sociais no Brasil hoje em dia, o rapper diz que a tecnologia e a globalização ajudaram na integração de diferentes povos e classes, mas que ainda existe uma diferença na reflexão e na atuação dessas pessoas, uma vez que suas realidades são muito diferentes: “A denúncia social feita por um rapper sobre a ausência do Estado na periferia ou a violência policial pode até ser entendida por alguém de uma classe social mais favorecida, porém essas pessoas jamais entenderão como é vivenciar isso na forma psicológica, étnica ou social. Mas a música e a cultura são um elo de integração e de paz, e não de divisão, de modo que é possível trazer e incluir todos.”

Nesse cenário de união e de luta, teve início, em janeiro de 2005, a Nação Hip Hop Brasil. A entidade atua hoje em 14 estados e no Distrito Federal, organizando ações e discutindo as demandas do hip hop no país, objetivo buscado desde o seu surgimento: “A Nação Hip Hop Brasil surgiu da necessidade de vários irmãos e irmãs, que já atuavam no movimento, se somarem numa unidade de luta a favor do hip hop. Mesmo sendo de estados e cidades diferentes, a galera percebeu que as questões sociais e culturais, bem como suas mazelas e dificuldades, eram as mesmas. Periferia é periferia em qualquer lugar, já cantava Racionais MC’s.”, explica Beto, que é o atual presidente da entidade. “Ficou claro que a divisão geográfica não poderia ser impedimento para uma luta coesa e em defesa de um Brasil mais justo e mais igual pra nosso povo, sobretudo para as comunidades periféricas. E o hip hop, com sua linguagem específica, é um fio condutor para ajudar neste campo de atuação”, finaliza.

“O hip hop tem valor, e por isso ele não tem preço”, diz Beto Teoria, rapper, produtor cultural e presidente da Nação Hip Hop Brasil

Por Jade Rezende
jaderezender@gmail.com

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