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Pioneirismo à beira das quadras: há 60 anos, Bill Russell fazia história ao estrear como o primeiro técnico negro na NBA

O ex-pivô do Boston Celtics marcou época na liga e abriu caminhos para pessoas pretas em posições de liderança no basquete

Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br), Isabela Gonçalves (isabelagds@usp.br) e Lais Fernandes (laisfernandes@usp.brbill russell

A NBA (National Basketball Association) ficou conhecida pelos grandes astros negros do esporte ao longo da história, como Kareem Abdul-Jabbar, Magic Johnson, Michael Jordan, Shaquille O’Neal e, mais recentemente, LeBron James. Numa liga com tantos atletas de elite, figuras pretas na liderança das equipes à beira das quadras não existiam. Foi no dia 18 de abril de 1966, há 60 anos atrás, que Bill Russell, um dos maiores jogadores da história da liga, fazia história ao se tornar o primeiro técnico negro a treinar na NBA.

O início de uma vitoriosa trajetória bill russell

William Felton Russell, conhecido como Bill Russell, nasceu no dia 12 de fevereiro de 1934 em Monroe, Louisiana. Cresceu em um lar humilde ao lado de seu irmão mais velho, Charlie, e seus pais, Charles e Katie. Russell viveu em um contexto de segregação racial institucionalizada nos Estados Unidos, marcado pelas leis Jim Crow, que restringiam direitos básicos da população negra. Aos oito anos, mudou-se com a família para Oakland, Califórnia, onde teve os primeiros contatos consistentes com o basquete.

Seu início no esporte se deu na escola, mas ele não se destacou de imediato: ainda que fosse alto e rápido, Bill enfrentou dificuldades para compreender o jogo e chegou a ser cortado da equipe escolar nos anos iniciais. Ao entrar no ensino médio, teve seu potencial observado pelo técnico George Powles, que era branco, e o incentivou a praticar os fundamentos básicos do basquete. A confiança recebida teve impacto direto em sua formação, especialmente diante de experiências anteriores marcadas pelo racismo.

A partir deste momento, sua evolução foi extremamente significativa. Russell se tornou uma peça chave de sua equipe escolar e ajudou o time a conquistar dois títulos estaduais. Foi nessa fase que seu estilo defensivo incomum, marco da sua carreira, se desenvolveu. A estratégia baseada na leitura do tempo dos saltos e bloqueios foi questionada no início, mas se mostrou revolucionária.

Pela Universidade de São Francisco, Russell se destacou como peça central de uma equipe que conquistaria dois títulos consecutivos da NCAA (National Collegiate Athletic Association, organização principal do esporte universitário estadunidense), em 1955 e 1956. Ainda em 1956, foi campeão dos Jogos Olímpicos pela seleção estadunidense. Mais do que os resultados, sua passagem pelo basquete universitário consolidou sua reputação nacional e evidenciou um modelo de jogo coletivo e disciplinado, antecipando o impacto que teria na NBA.

Russell é lembrado como o nome que tornou o Celtics a grande franquia que é até hoje [Reprodução: Wikimedia Commons]

Estreia e impactos na NBA bill russell

Em 1956, a chegada de Bill Russell à NBA pelo Boston Celtics marcou o início de uma trajetória que rapidamente ganharia uma dimensão histórica. Em sua temporada de estreia, Russell integrou uma equipe em ascensão e contribuiu para a conquista do título logo em seu primeiro ano.

Apesar do sucesso, sua entrada na NBA ocorreu em um contexto que o crescimento do número de jogadores negros não era acompanhado por igualdade fora das quadras. Mesmo em uma equipe vitoriosa, Bill enfrentou episódios recorrentes de racismo, especialmente em Boston, onde a celebração pelos títulos contrastava com a hostilidade vivida no cotidiano.

Esse cenário ajudou a moldar sua postura ao longo da carreira. Ao mesmo tempo em que se consolidava como peça central de uma equipe dominante, Russell se recusava a dissociar sua atuação esportiva de sua identidade racial, posicionando-se de forma firme diante do preconceito. Sua presença na liga ia além do desempenho em quadra: representava também um avanço simbólico em um ambiente que ainda resistia à presença negra em posições de protagonismo.

Essa combinação entre sucesso esportivo e consciência política se tornaria uma marca de sua trajetória — elemento fundamental para compreender não apenas sua carreira como jogador, mas também o significado de sua ascensão ao cargo de treinador.

Como jogador, Bill Russell construiu uma das carreiras mais vitoriosas da história do esporte pelo Boston Celtics. Foi peça central na conquista de 11 títulos da NBA em 13 temporadas entre 1957 e 1969, com uma sequência de oito campeonatos consecutivos, feito inédito na liga. Ao longo desse período, foi eleito cinco vezes o jogador mais valioso da temporada (MVP). 

Entre a quadra e o comando: a reinvenção de Russell

Com a promessa de aposentadoria do vitorioso técnico Red Auerbach no ano de 1966, Bill Russell viu seu futuro no basquete mudar. Diante da dificuldade de contratar um suplente para Auerbach, da possibilidade do Boston Celtics ser comandado pelo rival — Alex Hannum, técnico do San Francisco Warriors — e em busca de renovações na modalidade, Russell decide assumir um papel até então nunca ocupado por uma pessoa negra na NBA: o de treinador. 

Apesar de ser um dos maiores jogadores da história dos Celtics, Russell pediu que sua camisa fosse aposentada em cerimônia privada, devido à relação conturbada com parte da torcida de Boston [Imagem: Reprodução/Jack O’Connell/Wikimedia Commons]


Reconhecido pela liderança dentro do Boston Celtics, o novo cargo não implicou na sua aposentadoria como atleta, mas possibilitou uma nova perspectiva: tornar-se um jogador-treinador. Em entrevista ao Arquibancada, Leo Figueiró,  ex-jogador de basquete e atual Coordenador Técnico de toda a categoria de base feminina da Confederação Brasileira de Basquete (CBB), explicou mais sobre essa dinâmica vivida por Russell e ressaltou como ambos os papéis atuam em conjunto, preenchendo suas respectivas lacunas.

“As funções se complementam. Um jogador por saber a prática não necessariamente vai ser um bom técnico, e alguém estritamente acadêmico também não. Nesse sentido, a combinação jogador-treinador se torna um elemento poderoso e Russell provou isso mantendo a sequência vitoriosa do time”, explica Figueiró.


Russell entrou para história como o primeiro técnico afro-americano de uma equipe da NBA, ocupou espaços de liderança na modalidade e desafiou a lógica racista que imperava no país. Sua influência ultrapassou as barreiras do esporte e destacou o caráter coletivo de suas conquistas. O jogador evitava personalizar seu protagonismo, e era muito realista diante de seu papel na luta antirracista da época.

Não importa quem foi o primeiro ou o último: o que importa é quantos fizeram

– Bill Russell, em seu livro “Go up for Glory

Muito além das vitórias: legado dentro e fora das quadras

O jogador consolidou sua trajetória também à beira da quadra, ao conquistar os títulos da NBA de 1968 e 1969. As vitórias encerraram um ciclo vitorioso iniciado ainda em 1957, quando Russell, junto do armador Bob Cousy, outra lenda da franquia, lideraram a transformação do Boston Celtics na principal potência da liga norte-americana: foram 11 títulos em 13 temporadas. Ao conquistar seus dois últimos campeonatos, já como jogador-treinador, Russell reafirmou sua importância para o esporte, agora como figura de comando.

Sua presença em cargos de liderança no campeonato, contribuiu para o avanço da inclusão e diversidade na modalidade, abrindo as portas de um futuro promissor para pessoas negras nesse ambiente. No entanto, esse avanço não implicou imediatamente em um cenário de igualdade. Figueiró destacou que, historicamente, pessoas negras são afastadas de funções associadas ao intelecto e à tomada de decisão. Quando conseguem acessar esses espaços, frequentemente têm suas competências sob estado de dúvida, com a necessidade de se provar continuamente. 

“A corrida é sempre igual, mas a linha de largada é diferente”

– Léo Figueiró

Assim como no início da carreira, Russell se manteve muito engajado nas causas políticas da época, embora decepcionado com a falta de ações e mudanças significativas na luta por igualdade racial. Em abril de 1968, com o assassinato de Martin Luther King Jr., o atleta viu estampado na tragédia a materialização de sua frustração, com suas críticas ao racismo estrutural nos Estados Unidos e em Boston ignoradas nos últimos anos.

A luta contra a discriminação racial não podia mais ser contida, e a morte do ativista balançou todo o campeonato. A NBA se viu em uma posição difícil: manter os jogos ou suspender o campeonato, em respeito ao episódio. A liga já não era a mesma de 10 anos atrás, e naquele momento já continha uma maioria de jogadores negros nos times, inclusive os principais astros.

Apesar da situação delicada, os jogos foram mantidos, apenas com um adiamento para que os jogadores comparecessem ao funeral de King Jr. A situação demonstrou uma união dos atletas da NBA, um episódio raro. Mais do que uma disputa esportiva, os playoffs daquele ano passaram a representar um momento de consciência coletiva dentro da competição. Tal iniciativa pavimentou o caminho para a utilização da visibilidade do esporte como ferramenta política e social, e inspira até hoje protestos contra ações racistas, como em 2020, com o “Black Lives Matter”.

Em 2014, a NBA autorizou os jogadores a usarem camisetas com a frase “Eu não consigo respirar”, em referência às últimas palavras de Eric Garner antes de morrer sufocado durante uma abordagem policial em Nova York [Imagem: Reprodução/Instagram/@lakers]]

O fim da carreira, a permanência do legado

No ano seguinte, Russell caminhava já sabendo que sua carreira como jogador tinha um fim próximo. Encerrou sua jornada numa campanha histórica dos Celtics, marcada por viradas, inconsistências e muitos desfalques. O campeonato conquistado pelo time na temporada de 1968/69 foi o 11° em sua história e o último da sequência de oito títulos, a maior da NBA até hoje. Russel, na função de treinador-jogador, já não esbanjava juventude, e passou a conviver com lesões e dificuldades para jogar. Apesar dos desafios, a equipe triunfou nas finais sobre os Lakers.

Posteriormente, apenas como treinador, Russell teve passagem pelo Seattle Supersonics (1973–1977) e pelo Sacramento Kings (1987–1988). No período em Seattle, assumiu uma equipe em reconstrução e conseguiu levá-la aos playoffs pela primeira vez na história da franquia. Os times não se adaptaram ao seu estilo de jogo: em ambos os times, seus esforços não se traduziram em títulos.

Um gigante além do esporte

No decorrer de sua carreira, Russell também se tornou sinônimo de resistência nas ligas americanas, um símbolo na luta contra o racismo. Durante o auge das Leis Jim Crow, conjunto de normas segregacionistas que obrigava a separação de negros e brancos em espaços públicos, Bill encontrou no basquete uma ferramenta de posicionamento contra a injúria racial sofrida pelos afroamericanos nas décadas de 50 e 60. Em um emblemático caso, Russell e seus demais companheiros negros de equipe do All-Star da NBA de 1958 tiveram suas hospedagens em um hotel da Carolina do Norte negadas. Em 1961, o pivô e seus companheiros de Boston Celtics foram proibidos de entrar em um restaurante de Kentucky, também em decorrência da cor de suas peles.

Esses episódios estremeceram o relacionamento de Russell com a mídia e a população de Boston, acusado de tratar as pessoas de forma rude, como resposta aos inúmeros episódios de racismo sofridos durante sua carreira. Tais acusações não o impediram de trazer sucesso para o Celtics dentro das quadras, ao mesmo tempo em que se posicionava fora delas. O primeiro posicionamento público ocorreu em Lexington, Kentucky, após o episódio do restaurante. 

Na ocasião, os Celtics jogariam contra o St. Louis Hawks (hoje, Atlanta Hawks), em partida exibicional válida pela pré-temporada da NBA. Antes do jogo, dois companheiros de Russell, Sam Jones e Thomas Sanders, tiveram seus pedidos recusados pela cafeteria do hotel em que estavam hospedados. Ao saber da história, Russell e K.C. Jones, outro companheiro de time, juntamente aos dois outros atletas, reuniram-se na sala do treinador Red Auerbach e afirmaram que boicotariam o jogo. Por mais que o técnico tenha insistido para que os atletas jogassem, uma vez que os ingressos já estavam vendidos, Russell deixou claro ao treinador que a decisão de abandonar o jogo havia sido tomada. Assim, 5 jogadores dos Celtics e 2 do Hawks retiraram-se da partida, que foi realizada apenas com a presença dos atletas brancos de ambas as equipes. 

“Eu disse ao Red que estávamos indo embora, disse que era porque para mim era importante que todos, em todos os lugares, soubessem que os jogadores negros decidiram se defender”

– Russell, relembrando o episódio em entrevista para Bill Simmons, em 2013

Durante a Marcha sobre Washington, em 1963, marcada pelo discurso “Eu Tenho um Sonho” de Martin Luther King Jr., Russell era uma das figuras que estava entre as primeiras fileiras para apoiar o protesto. Por mais que tenha sido chamado para o palco para discursar, recusou respeitosamente e preferiu apoiar a multidão das bancadas, uma vez que acreditava que os organizadores da marcha mereciam os holofotes da ocasião.

Bill Russell na plateia da marcha sobre Washington, em 1963 [Imagem: Rowland Scherman/Wikimedia Commons]

O mais emblemático caso de racismo da vida do ex-pivô ocorreu em 1967, quando torcedores do Celtics invadiram e vandalizaram sua casa em Reading, bairro de Boston. Picharam insultos raciais, destruíram troféus e defecaram na cama do lendário atleta. As motivações por trás do ato eram racistas, com os vizinhos do bairro de Russell em negação com um homem negro que residia em uma área nobre da cidade. O atleta tentou mudar sua família para outra casa da região, após os vizinhos organizarem uma petição para expulsá-los do bairro. Esse episódio desgastou a relação entre Russell e a torcida de Boston, que chamou a cidade de “mercado de racistas”. 

Em decorrência dos constantes ataques sofridos em quadra, Russell protestou não comparecendo a dois importantes eventos de sua carreira: a aposentadoria da lendária camisa 6 do Boston Celtics, em 1972, e sua nomeação ao Hall da Fama da NBA, em 1975.

Anos depois de sua aposentadoria dos esportes, em 2011, Russell recebeu de Barack Obama a Medalha Presidencial da Liberdade, que reconhece não apenas seus feitos em quadra, mas todo seu ativismo contra o racismo na sociedade americana. Outra homenagem notável ocorreu após o falecimento do jogador, em agosto de 2022, quando a NBA aposentou a camisa 6 do supercampeão pelos Celtics de todas as equipes da liga, o primeiro a ser homenageado dessa forma. 

Ainda existem barreiras

Apesar da luta iniciada por Russell ter sido marcada por um pioneirismo impensável à época, nos dias atuais, ainda existem desigualdades nas principais posições de liderança do basquete. Enquanto cerca de 70% dos atletas da NBA são negros, na posição de treinador, apenas dez das 30 franquias da liga empregam técnicos pretos ou pardos. 

No cenário nacional, a situação é ainda pior: duas das 20 equipes do NBB (Novo Basquete Brasil), a principal liga de basquete do Brasil, empregam treinadores negros. São eles: Cássio Santos, do Vasco da Gama, e Thiago Perez, do Cruzeiro. Léo Figueiró, antecessor de Cássio no cruzmaltino, atribui tal situação ao histórico de opressão e racismo estrutural do país, bem como aos estereótipos sobre pessoas pretas e pardas no esporte. 

O NBB conta atualmente com uma série de diretrizes e iniciativas voltadas ao combate ao racismo no basquete nacional, como o Tratado Antirracista e pela Diversidade, lançado pela LNB (Liga Nacional de Basquete) em abril de 2024. O documento estabelece protocolos para lidar com casos de discriminação racial, xenofobia, LGBTfobia, misoginia e capacitismo durante os jogos, e busca promover uma cultura mais inclusiva e integrada nas quadras brasileiras.

No entanto, ainda são limitadas as ações da liga no que diz respeito à presença de treinadores e de pessoas pretas e pardas em posições de liderança. Para Léo Figueiró, um dos principais caminhos para a transformação desse cenário passa pelo investimento em educação e letramento da população negra, de modo a capacitar profissionais afrodescendentes e ampliar a igualdade também à beira das quadras. Segundo o treinador, isso evitaria a “armadilha” de alocar profissionais despreparados nessas funções, garantindo que a ocupação desses espaços ocorra de forma qualificada e sustentável.

“Quando se priva parte da sociedade de conhecimento e estudo, existe a necessidade de movimentos para retratar isso”

– Léo Figueiró

Para que hoje uma minoria consiga ocupar, ainda que de forma desigual, seus espaços à beira das quadras ao redor do mundo, o pioneirismo de Bill Russell foi decisivo. Ao se tornar o primeiro homem negro a atuar como jogador-treinador na NBA, ele abriu caminhos em um ambiente historicamente excludente. Sem esse marco, os já enormes desafios enfrentados por pessoas pretas seriam ainda mais profundos. Foi na coragem de Russell, ao confrontar a discriminação mesmo no auge de suas conquistas, que seu legado se consolidou de forma definitiva. O mítico camisa 6 do Boston Celtics transcendeu os limites do esporte, escreveu seu nome acima de qualquer panteão competitivo e sacramentou a luta por representatividade como parte indissociável da história do basquete.

Sem justiça para todos, nenhum de nós é livre.

Bill Russell, em entrevista para a The Players’ Tribune, em setembro de 2020.

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