Por Nina M Bozic (ninamilibo@usp.br)
Neste domingo (31), aconteceu o segundo dia do festival A Feira do Livro de 2026, na Praça Charles Miller, no Pacaembu. O evento, organizado pela revista Quatro Cinco Um, reúne organizações e pessoas de destaque do mundo literário para oferecer diversas ofertas de compras e atividades para leitores de todas as idades. Entre os destaques do dia, está a palestra “Antes que Apague”, uma discussão sobre a representação escrita do período da velhice e do fim da vida.
A conversa, ocorrida no Palco da Praça, contou com as convidadas Natalia Timerman e Camila Appel, ambas escritoras renomadas que estão lançando livros relacionados ao envelhecer. Beatriz Muylaert, editora executiva da Quatro Cinco Um, ficou responsável pela mediação da fala. No decorrer do bate-papo, temas como o luto, o medo da morte e a culpa de cuidadores em não saber lidar bem com o envelhecimento de entes queridos foram abordados de forma leve, mas ainda assim tocante.
As obras discutidas

Natalia Timerman é formada em psiquiatria pela Universidade federal de São Paulo (Unifesp), recém-doutoranda de literaturas pela Universidade de São Paulo (USP) e é finalista do prêmio Jabuti de 2019. Durante a conversa, a escritora promoveu seu sexto e mais recente lançamento, o romance Antes que Apague (Companhia das Letras, 2026), o qual deu nome à palestra. A obra retrata a relação de uma mulher com sua mãe idosa, diagnosticada com Alzheimer. O livro, narrado pela filha, explora os efeitos degradantes da doença sobre a identidade da mãe e o quanto essa perda gradual afeta aqueles mais próximos a ela.
Segundo Timerman, a história é inspirada em sua própria experiência com sua mãe, que também sofre com Alzheimer. A autora admite ter utilizado relatos próprios, de diários que escreveu conforme a descoberta e a progressão do quadro clínico da mãe, para compor suas personagens e narrativa. Ainda assim, deixa claro que a obra é ficcional e não depende da realidade para ser apreciada: “quando eu digo que esse livro é de ficção, quero dizer que para entendê-lo, ele se basta. Todas as informações que uma pessoa precisa para que a verdade desse livro aconteça estão dentro do próprio livro”.

Camila Appel, por sua vez, divulga o ensaio Enquanto Você Está Aqui (Fósforo, 2026), uma discussão múltipla sobre morte e envelhecimento. A jornalista, responsável pela coluna Morte sem Tabu, da Folha de São Paulo, organizou a obra a partir de sua experiência de mais de uma década de pesquisa e escrita sobre o tema. O texto une relatos de profissionais, dados acadêmicos e perspectivas da própria vivência da autora em uma reflexão complexa sobre o que é o fim da vida e como lidar com esse período.
A escritora afirma que sua principal motivação para desenvolver a obra foi o desamparo que sentiu durante uma internação dos próprios pais: “fiquei com vontade de ter acesso a um livro que pudesse me trazer uma identificação com aquele momento, mas que também trouxesse informações úteis para mim, como cuidadora. E senti que não conhecia esse livro”. Além disso, no decorrer do texto, ela utiliza e discute trechos de um livro que a mãe teria escrito sobre a relação delas durante a adolescência de Appel. A autora recorre às experiências e relações pessoais para motivar a reflexão e guiar o ensaio.
Como escrever sobre o fim da vida?

Durante a conversa, a forma como abordar um período tão vulnerável e estigmatizado quanto o fim da vida foi um dos principais assuntos tratados.
Ambas as autoras admitem ter sentido receios na escrita de suas obras, principalmente por tratarem de momentos delicados das próprias famílias. Timerman reflete sobre a culpa que sentiu em expor questões pessoais e a fragilidade da mãe, no que chamou de “sacrifício da intimidade”. A escritora afirma ter solucionado essa questão ao perceber que a culpa e os dilemas por ela enfrentados movem o livro, como parte essencial da relação entre mãe e filha. Além disso, afirma que, apesar desse sentimento, entende a escrita como inevitável, sendo sua forma de processar as situações de sua vida.
“Não consigo deixar de escrever, não posso deixar de escrever. É isso que eu faço, eu escrevo.
Diante do que não sei, do que não entendo e preciso descobrir, eu escrevo.”
Natalia Timerman, autora do livro Antes que Apague (Companhia das Letras, 2026)
Appel, por sua vez, confessa ter enfrentado receio sobre a reação da mãe ao ler sua obra: “fui dar o livro para minha mãe ler, e morri de medo. Não sabia o que ela ia dizer, mas achei que ela fosse me proibir de publicar”. A escritora temeu que, por abordar os efeitos de um AVC sobre a mãe, ela acabasse se sentindo exposta. Entretanto, segundo Appel, sua mãe demandou apenas uma mudança: a alteração do título, de “Para Quando Você se For” para “Enquanto Você Está Aqui”, título publicado. A autora realça que essa troca reafirma a proposta de diálogo da obra.
Appel defende fortemente a “quebra de tabus” em relação ao fim da vida. Para ela, há uma “cultura do mau agouro”, especialmente na sociedade brasileira, que cria um constrangimento em falar sobre a morte, por mais essencial que esse assunto seja. A jornalista sustenta que todos os aspectos do morrer, de decisões práticas, à questão biológica e discussões existenciais, precisam ser tratados abertamente e de forma coletiva. Nesse âmbito, a autora define também a necessidade do diálogo sobre o suicídio, o qual, contanto que seja feito com cuidado e seriedade, é capaz de derrubar mitos danosos e criar espaços para sobreviventes.

Em relação às perspectivas sobre a abordagem da morte, em entrevista à Jornalismo Júnior, Timerman declara que a perda é parte da vida e da identidade humana, desde a juventude. Assim, deve ser entendida como um pilar da existência, não escondida ou mistificada. Para a autora, seu livro é capaz de trazer uma perspectiva de futuro com a perda, além da dor: “a literatura é um gesto de esperança”.
“Na nossa vida, o grande aprendizado é aprender a perder.”
Natalia Timerman, autora do livro Antes que Apague (Companhia das Letras, 2026)
O lugar do cuidador

Outro aspecto muito tocado durante a palestra foi a posição de cuidador de uma pessoa envelhecida, um ponto em comum entre as escritoras. Ambas se ocupam, de alguma forma, de cuidar das próprias mães, e refletem sobre isso em suas obras.
Na conversa, as autoras admitiram ter sentido irritação resultante da convivência com o envelhecimento. Para Timerman, o sentimento vem de frustrações do cuidador perante às mudanças de quem é cuidado, como “uma forma muito bruta de amor, como se eu dissesse: esperava mais de você [mãe]”. Appel complementa que sente culpa por eventualmente reagir de forma irritada ou agressiva ao envelhecimento da mãe, mas que percebe que age assim por se ver nela. A autora admite que acaba levando a velhice “para o pessoal”, assim como a mãe teria feito com sua adolescência.
Além disso, Timerman também aborda a inversão de papéis entre mãe e filha. Em seu livro, a narradora – assim como a escritora – percebe ter sempre esperado total disponibilidade de sua mãe em ajudá-la, como um papel maternal permanente. Com o avanço do Alzheimer, a filha percebe-se tomando esse lugar, atingindo um ápice da maternidade: “conforme a mãe dela vai ficando doente, conforme minha mãe foi ficando doente, eu percebi que é quase como se, então, eu tivesse me tornado mãe de verdade, quando me tornei ‘mãe da mãe’”.
Em relação ao Alzheimer, a autora reflete sobre a perda da identidade e complexidade da mãe, e o quanto essa alteração afetou sua relação. Timerman admite ter dificuldade em até mesmo falar da presença da mãe, sem saber se deve utilizar o tempo presente ou passado para tratar dela. Ela descreve a narradora de seu livro como “diante de um vazio”, com o desejo de obter respostas que simplesmente se foram com as memórias da mãe. A autora percebe sentir falta de quem ela era por inteiro, de cada nuance de sua personalidade e da relação entre elas.
“O amor tem que ter falhas, e acho que isso torna a relação
entre uma mãe e uma filha essencialmente complexa.
Quando minha mãe foi deixando de ser si mesma, ele ficou simples. Era só o amor.”
Natalia Timerman, autora do livro Antes que Apague (Companhia das Letras, 2026)
*[Imagem de capa: Bianca Cândido/ Acervo Pessoal]
