Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br) colômbia
Após surpreendentemente não se classificar para a Copa do Mundo de 2022, a Colômbia retorna aos Mundiais em 2026. O ciclo sob o comando de Néstor Lorenzo buscou retomar a identidade da seleção e devolver os colombianos ao protagonismo, tanto dentro do continente quanto no futebol global. Essa edição da Copa deve ser a despedida de James Rodríguez com a camisa dos Cafeteiros, que buscará repetir a icônica campanha de 2014 — ano em que foi artilheiro e um dos melhores jogadores do torneio.
La Tricolor em Copas
Por mais que se trate de um dos países mais apaixonados pelo futebol no planeta, o histórico colombiano nas Copas é irregular e marcado por duas grandes gerações. A primeira classificação da equipe para o torneio ocorreu apenas em 1962. A Tricolor terminou em último no grupo com Uruguai, União Soviética e Iugoslávia, mas foi responsável por um dos momentos mais icônicos da edição, quando Marco Coll marcou o único gol olímpico da história das Copas contra a URSS.
Após a participação no Mundial disputado no Chile, a Colômbia passou mais 28 anos sem disputar uma Copa, até que, em 1990, a primeira grande era dos Cafeteiros conseguiu o passaporte para a disputa na Itália. O elenco contava com nomes como o goleiro René Higuita, o ídolo corintiano Freddy Rincón e o camisa dez e capitão, Carlos Valderrama. Esse time conquistou a primeira vitória e ida ao mata-mata dos colombianos, que foram eliminados nas oitavas para Camarões. Posteriormente, essa geração também se classificou para as Copas de 1994 e 1998, mas não conseguiu avançar para a segunda fase.
As idas para os Mundiais, entretanto, não foram o suficiente para consolidar a Colômbia como a quarta potência do continente sul-americano. Apesar do título da Copa América de 2001, único conquistado até hoje pela seleção, La Tricolor retornou ao maior evento do futebol global apenas em 2014, no Brasil, onde conseguiu sua melhor campanha e foi a sensação do torneio. Sob a liderança de James Rodríguez, artilheiro da Copa com seis gols, os colombianos chegaram até as quartas de final, quando foram eliminados para os donos da casa. O país se classificou novamente em 2018, mas parou nas oitavas com uma derrota nos pênaltis para a Inglaterra. Apesar do hiato de classificação em 2022, a Colômbia volta à Copa em 2026 para disputar o torneio pela sétima vez.
O ciclo dos Cafeteiros
Sob o comando do técnico argentino Néstor Lorenzo, a Colômbia iniciou 2023 com uma série de amistosos em que acabou invicta, com dois empates e três vitórias. Entre essas, destacou-se um surpreendente 2 a 0 contra a Alemanha fora de casa. Na segunda metade do calendário, os Cafeteiros novamente iniciaram com o pé direito: a equipe foi imbatível nos primeiros seis jogos das Eliminatórias Sul-Americanas e terminou o ano sem perder.
A boa fase da Tricolor se estendeu para 2024 com mais vitórias em amistosos. Dessa vez, o principal triunfo ocorreu contra a Espanha em Londres. Em junho, a Colômbia disputou a Copa América e conseguiu mais uma grande campanha: no grupo D, com Brasil, Costa Rica e Paraguai, os colombianos avançaram em primeiro lugar. No mata-mata, os triunfos contra Panamá e Uruguai levaram o país à final do torneio pela terceira vez na história, disputada contra a Argentina. Apesar do empate no tempo normal, Lautaro Martínez marcou o gol do título argentino.
Após a Copa América, o foco da seleção voltou às Eliminatórias. O bom momento colombiano desandou após uma derrota contra a Bolívia em outubro de 2024, que marcou o fim do período de invencibilidade: entre novembro e junho de 2025, os Cafeteiros passaram seis jogos sem vencer. Entretanto, o bom desempenho no começo do ciclo foi fundamental para que La Tricolor continuasse na zona de classificação, e a vaga na Copa foi assegurada em junho após uma vitória por 3 a 0 contra a Seleção Boliviana.
Em 2026, às vésperas do embarque para a América do Norte, a Seleção Colombiana acabou envolvida em uma polêmica extracampo durante uma cerimônia de despedida com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro. Vídeos do evento viralizaram nas redes sociais após críticas à postura de alguns jogadores, especialmente do capitão James Rodríguez, acusado por parte da opinião pública de ter ignorado Antonella Petro, filha do presidente. A repercussão levou a Federação Colombiana a se manifestar em defesa dos atletas e pedir que o foco permanecesse na preparação para a Copa do Mundo, a fim de evitar que questões políticas contaminassem o ambiente da equipe.
A convocação final da Colômbia
No dia 25 de maio, Néstor Lorenzo divulgou os 26 escolhidos para representar a Colômbia na Copa do Mundo. Os chamados foram:
Goleiros
- David Ospina (Atlético Nacional, COL)
- Camilo Vargas (Atlas, MEX)
- Álvaro Montero (Vélez Sarsfield, ARG)
Defensores
- Daniel Muñoz (Crystal Palace, ING)
- Jhon Lucumí (Bologna, ITA)
- Santiago Arias (Independiente, ARG)
- Yerry Mina (Cagliari, ITA)
- Johan Mojica (Mallorca, ESP)
- Willer Ditta (Cruz Azul, MEX)
- Deiver Machado (Nantes, FRA)
- Davinson Sánchez (Galatasaray, TUR)
Meio-campistas
- Kevin Castaño (River Plate, ARG)
- Richard Ríos (Benfica, POR)
- Jorge Carrascal (Flamengo, BRA)
- James Rodríguez (Minnesota United, EUA)
- Gustavo Puerta (Racing Santander, ESP)
- Juan Portilla (Athletico Paranaense, BRA)
- Jefferson Lerma (Crystal Palace, ING)
- Juan Fernando Quintero (River Plate, ARG)
Atacantes
- Luis Díaz (Bayern, ALE)
- Jhon Córdoba (Krasnodar, RUS)
- Jhon Arias (Palmeiras, BRA)
- Cucho Hernández (Real Betis, ESP)
- Jáminton Campaz (Rosario Central, ARG)
- Luis Suárez (Sporting, POR)
- Andrés Gómez (Vasco da Gama, BRA)
A maior surpresa da convocação foi a ausência de Jhon Durán, centroavante do Zenit. Visto como uma das maiores promessas do futebol colombiano, Durán saiu do Aston Villa em 2024 para se juntar ao Al-Nassr com o objetivo de conseguir minutos como titular e, desde então, passou pelo futebol turco e russo. Com o desempenho abaixo, o jovem ficou fora da Copa do Mundo.
Como joga a Colômbia?
Com Néstor Lorenzo no comando, a Colômbia tem um estilo tático que busca deixar James Rodríguez o mais confortável possível para ditar o ritmo do ataque, enquanto o resto do time cobre a falta de intensidade do camisa dez na defesa. Escalados em um 4-2-3-1 que quase se torna um 4-4-2 em losango, o esquema prioriza potencializar os principais craques da equipe, além de gerar amplitude e verticalidade rápida com passes longos.

Provável time titular da Colômbia (1) e variação defensiva (2) para a estreia da Copa [Arte: Fernando Lucchi/sharemytactics.com]
O setor ofensivo colombiano tem como principal missão liberar James para achar passes e espaços nas defesas e, para isso, todo o time se mobiliza desde a defesa, com Lucumí agindo como zagueiro construtor na primeira linha. Pelas laterais, Muñoz é quem tem a liberdade de ir para o ataque como um terceiro ponta, enquanto Mojica, por mais que tenha características ofensivas, sobe de forma mais equilibrada para não gerar espaços e permitir que Luis Díaz tome conta das ações pelo setor esquerdo. O resto do setor é complementado por Richard Ríos, que age como o meia de ligação.
O restante do ataque colombiano é onde La Tricolor mais se destaca: Jhon Arias, com as subidas de Daniel Muñoz pela ponta direita, se torna um segundo meia de criação ao lado de James e toma conta das ações com a bola quando o camisa dez é pressionado. Luis Díaz é o principal jogador da equipe e, quando não recebe em velocidade para criar chances com cortes da esquerda para dentro, infiltra na área em busca de espaços gerados por Luis Suárez, o centroavante dos Cafeteiros, que atua como um atacante móvel que incomoda os defensores adversários na última linha pela movimentação por trás.
Para compensar esse sistema ofensivo que constantemente funciona com defensores no ataque, Jefferson Lerma é o volante de contenção, que cobre os espaços quando recua para a linha dos zagueiros e obriga Sánchez ou Lucumí a se deslocarem para fechar a lateral. Sem a bola, a Colômbia geralmente se defende no 4-4-2, em que Arias e Ríos descem para fechar o segundo bloco, Luis Díaz dobra pela ala esquerda e Suárez também pressiona e até mesmo baixa para reforçar a marcação no meio. Essa configuração tira a carga defensiva de James, que pode descansar sem a bola para usar de sua genialidade no ataque.
Para a Copa do Mundo, a grande dúvida que Néstor tem no time titular é quem será o centroavante da equipe. Apesar de Suárez largar na vantagem, Jhon Córdoba também é uma possibilidade caso o time precise de mais explosão física. Além disso, conseguir encontrar um equilíbrio entre um ataque forte e uma defesa que se protege bem pelos lados deve ser um ponto decisivo para que a participação colombiana no Mundial dure o máximo possível.
Fique de olho
Luis Díaz
A grande estrela da Seleção Colombiana para esse Mundial é o ponta-esquerda Luis Díaz. De origem humilde, Díaz é um guajiro nascido em Barrancas e descendente do povo wayuu. O atleta começou a carreira como destaque da Copa América indígena em 2015, quando tinha 18 anos, e foi contratado pelo Porto após um período no futebol colombiano. Sua atuação no clube português fez com que se tornasse um dos atacantes mais cobiçados da Europa, e Luis passou a integrar a equipe do Liverpool em 2022. Hoje, atua pelo Bayern de Munique e fará sua estreia na Copa do Mundo.
Lucho, como é apelidado, é um atacante completo: veloz, explosivo e muito habilidoso no mano a mano, Díaz usa da agilidade e facilidade em superar marcadores para criar jogadas verticais e contribuir com gols e assistências. Possui muita qualidade na finalização de longa e média distância e, além disso, é um jogador incansável na marcação durante os 90 minutos.

Luis Díaz compôs o melhor trio de ataque da temporada europeia ao lado de Harry Kane e Michael Olise no Bayern, e registrou 45 participações em gols em 51 jogos [Imagem: Reprodução/Instagram/@luisdiaz19_]
James Rodríguez
Ídolo nacional e grande revelação da Copa do Mundo de 2014, James Rodríguez é o capitão e camisa dez da Colômbia em 2026. O craque tem no currículo passagens por gigantes do futebol mundial como Real Madrid, Bayern e São Paulo, mas hoje atua no Minnesota United, da MLS. O estilo de jogo de James é de um meia ofensivo clássico: o atleta é um criador de jogadas muito acima da média, cobra bolas paradas com maestria e possui muita qualidade na finalização com a perna esquerda. Em seu último Mundial, deve ter a chance de igualar Ospina como o jogador com mais partidas pela Tricolor.

A transferência de James do Porto para o Real Madrid custou 80 milhões de euros, o que tornou o colombiano o quarto jogador mais caro da história na época [Imagem: Reprodução/Instagram/@jamesrodriguez10]
Daniel Muñoz
Mais um estreante em Mundiais, Daniel Muñoz é o lateral-direito da Colômbia e do Crystal Palace. Apesar de atuar no setor defensivo, Muñoz é um jogador que se destaca no âmbito ofensivo, principalmente por ser o tipo de ala com um pulmão incansável que o permite transitar entre o campo de ataque e de defesa durante o jogo todo. Tem muita qualidade para infiltrar na defesa ou cruzar e, ao lado de James e Jhon Arias, complementa um perigosíssimo lado direito colombiano.

Muñoz foi peça-chave do time do Crystal Palace na conquista da Conference League [Imagem: Reprodução/Instagram/@daniel.chitiva]
Projeção para a Copa do Mundo
A Colômbia está no grupo K da Copa, que conta também com as seleções de Portugal, Uzbequistão e República Democrática do Congo. A estreia da Tricolor no torneio ocorre contra a Seleção Uzbeque nesta quarta-feira (17), às 23h (BRT), no Estádio Azteca.
Apesar de o duelo contra os portugueses ser um dos mais aguardados da fase de grupos, a Colômbia chega ao Mundial como a segunda principal força de sua chave e com a responsabilidade de garantir a classificação ao mata-mata sem maiores dificuldades. A partir das fases eliminatórias, porém, o cenário muda e os detalhes passam a ter um peso maior. Ainda assim, os colombianos contam com um elenco talentoso e experiente, capaz de competir em alto nível e representar uma ameaça real para qualquer seleção da primeira prateleira do futebol mundial.
*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@jamesrodriguez10
