Por Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br), Cecília Barros (ceciliaabarros@usp.br) e Marte Politano (marte.cp@usp.br)
O Acordo de Paz assinado em 17 de Julho de 2026, entre Estados Unidos (EUA) e Irã (IR), prevê o fim das operações militares na região persa e promete assegurar a soberania e a integridade territorial do país. Além disso, do lado iraniano é confirmado o compromisso de reabertura do Estreito de Ormuz e a não posse de armas nucleares. O governo norte-americano, por sua vez, não deverá impor novas sanções ou mobilizar novas forças militares no local. Devido ao histórico de instabilidade entre os países, o acordo não é uma medida estável que trará a prometida paz à região.

Impactos no Irã
O acordo surge em um momento de intensa pressão para ambos os países. De um lado, os Estados Unidos enfrentam os custos políticos e econômicos da continuidade do conflito em meio à aproximação das eleições legislativas. De outro, o Irã lida com o desgaste de suas capacidades militares e com os impactos acumulados das sanções econômicas e dos confrontos recentes.
Segundo o professor de Geografia Sebastian Alvarado Fuentes, desde o início do conflito era do interesse iraniano participar de negociações diplomáticas. No entanto, para que isso ocorresse, Teerã precisava construir condições que o permitissem negociar em uma posição de relativa autonomia. Assim o processo não seria percebido apenas como uma submissão às exigências norte-americanas.
Durante o conflito, o regime iraniano buscou demonstrar sua capacidade de resistência às pressões militares dos Estados Unidos e de Israel, bem como aos efeitos das sanções econômicas. O eventual bloqueio do Estreito de Ormuz evidenciou a relevância estratégica do país no cenário internacional, uma vez que a passagem é fundamental para o transporte global de petróleo e gás. Dessa forma, o Irã demonstrou possuir instrumentos capazes de impactar diretamente a segurança energética mundial.

Ainda é incerto se o acordo será bem-sucedido no longo prazo ou se acabará rompido, dado o histórico de tensões e de compromissos fracassados entre as partes. Caso seja mantido, poderá contribuir para reduzir o isolamento internacional do Irã e abrir espaço para algum grau de flexibilização econômica. O que fortaleceria sua posição diplomática na região.
O acordo também prevê um plano de reconstrução e desenvolvimento financeiro para o Irã. Segundo os termos divulgados, os Estados Unidos se comprometeriam a disponibilizar até 300 bilhões de dólares para a recuperação de infraestrutura e para a estabilização monetária do país.
Conforme observa a professora de Ciência Política da Unicamp Neusa Bojikian, o acordo ainda deixa indefinidos aspectos centrais desse plano de reconstrução: “quem financiará, como esse financiamento será feito e sob quais condições”. Em tese, essas questões devem ser esclarecidas nos próximos 60 dias, por um acordo preliminar que ainda não aborda o tema mais sensível das negociações de forma conclusiva: o programa nuclear iraniano.

Fuentes também destaca que o governo iraniano manifesta desconfiança sobre a durabilidade do acordo. Argumenta que diversos fatores podem comprometer sua implementação. Entre eles, está o papel de Israel e a continuidade das tensões regionais, em especial no Líbano.
“O acordo representa um desafio à narrativa defendida pelo governo de Benjamin Netanyahu. O Irã constituiria uma ameaça nuclear iminente. O que justificaria ações militares preventivas. Em contrapartida, o entendimento firmado baseia-se no compromisso iraniano de não desenvolver armas nucleares, entre outros pontos”, relata Fuentes.
Nesse cenário, o professor argumenta que a manutenção do conflito atende a interesses políticos internos. Ele aponta que Netanyahu enfrenta pressões decorrentes de investigações, de processos judiciais e de críticas relacionadas à condução da guerra. Além disso, parte de sua base política é composta por grupos nacionalistas que defendem uma postura mais dura em relação aos adversários de Israel. “O encerramento das hostilidades poderia alterar significativamente a dinâmica política interna do país e afetar a sustentação de sua coalizão governamental.”

O acordo na perspectiva dos Estados Unidos
Embora exija concessões de ambos os lados do conflito, o acordo preliminar de paz atende a interesses políticos e econômicos específicos do governo Trump. Em especial, quando se trata da reabertura do estreito de Ormuz e da retomada do comércio de energia.
Conforme diz o site da Agência Internacional de Energia, em média 23 milhões de barris de petróleo transitavam por semana no estreito, o que representa 25% do comércio marítimo mundial de combustível fóssil. Seu bloqueio fez com que o preço médio do galão chegasse a US$3,75, o dobro do preço de US$1,85, registrado antes do início do conflito, segundo o portal Trading Economics.

“O acordo atende a um interesse muito imediato e estratégico dos Estados Unidos: interromper uma guerra que gerava custos crescentes para a economia mundial e, por consequência, para a economia norte-americana. Eles queriam interromper essa escalada”, explica Neusa Bojikian, especialista em negociações econômicas internacionais.
A pesquisadora ressalta também a importância das eleições de midterm, que ocorrem em novembro deste ano e – caso a maioria dos votos seja de oposição ao Trump – podem acarretar em seu impeachment. Por isso, o acordo se torna uma estratégia de propaganda eleitoral, não só pela diminuição do preço da gasolina e consequentemente do custo de vida, mas também pela narrativa promovida pelo governo Trump de “vitória sobre o Irã”. “Os Estados Unidos descobriram mais uma vez que superioridade militar não garante controle político nem estabilidade econômica”, afirma Bojikian.

Victoria Paiva, moradora de Washington D.C., capital dos Estados Unidos, diz que o impacto mais perceptível do conflito é o impacto monetário. “Com o acordo recente entre EUA e Irã, existe uma esperança de que o preço da gasolina estabilize e a situação econômica fique mais amena eventualmente”, conta. “Apesar de ser muito cedo para saber quais serão os impactos a longo prazo, muitas pessoas têm esperança de que preços menores de gasolina ajudem a estabilizar a economia nos próximos meses.”
Diante das incertezas sobre o cumprimento do acordo e das tensões históricas entre os países, Bojikian declara que o termo “acordo de paz” não é o mais adequado e prefere classificá-lo como um “memorando de entendimento”. Desde o anúncio do tratado, em 14 de julho, os dois Estados já recuaram em pontos específicos e o prazo de 60 dias para negociações mais aprofundadas foi prorrogado.

Além da política interna dos países envolvidos no acordo, há também a influência de seus respectivos aliados. O professor de geopolítica Sebastian Fuentes explica que o esforço do governo de Netanyahu em sustentar a guerra contra outros países da região e em atrapalhar o acordo de paz entre EUA e Irã é justificado pela fragilidade do regime do primeiro-ministro. Em seu atual mandato, de três anos e meio, ele acumula diversos processos na justiça e, caso perca as próximas eleições, corre o risco de ser preso. Por isso, busca suporte das bases políticas que apoiam o projeto da grande Israel.
Fuentes adiciona que o acordo por si só não garante uma reaproximação entre o governo estadunidense com os países da União Europeia. Em sua opinião, outras questões sem relação à guerra já prejudicaram a relação intercontinental e a postura de Trump com os governos europeus a enfraqueceu. Apesar disso, o movimento pode amenizar as animosidades.
A Longa e Tortuosa Linha do Tempo entre EUA e Irã
A relação entre os dois países nem sempre foi marcada pela atual hostilidade. Em 1977, o presidente americano Jimmy Carter classificou a ligação entre os governos como uma “amizade próxima” e trocou elogios com o monarca do Irã da época, o xá Reza Pahlavi – uma ação inimaginável hoje.
O primeiro grande ponto de ruptura aconteceu em agosto de 1953, por meio de uma ação orquestrada em sigilo. O então primeiro-ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, decidiu nacionalizar a indústria petrolífera do país, o que acabava com o controle britânico e prometia reverter lucros a favor do povo.
Por temer o desabastecimento de combustível e a aproximação de Teerão com a União Soviética em plena Guerra Fria, o presidente americano Dwight Eisenhower autorizou a “Operação Ajax”. Ela era uma ação conjunta da Agência Central de Inteligência (CIA) e do Reino Unido que derrubou Mossadegh e colocou no seu lugar o xá Mohammad Reza Pahlavi: autoritário e favorável ao Ocidente.

Durante os 25 anos seguintes, a relação viveu uma “estabilidade artificial”. Enquanto o monarca enriquecia e usava o financiamento norte-americano para inflar seu exército e seu opressor serviço secreto (SAVAK) a insatisfação popular e a pobreza cresciam. A indignação coletiva atingiu o ponto máximo em janeiro de 1979, quando o xá foi obrigado a fugir do país em meio a protestos em massa. Duas semanas depois, o aiatolá Ruhollah Khomeini regressou do exílio e proclamou a República Islâmica. Destruiu a aliança e tornou os Estados Unidos um claro inimigo.
A rivalidade consolidou-se e perdura por décadas. O primeiro grande golpe diplomático ocorreu ainda em 1979, quando estudantes invadiram a embaixada americana em Teerã e mantiveram 52 reféns por 444 dias. O evento cortou os laços oficiais entre os países. Nos anos 1980, a hostilidade migrou para o campo de batalha regional durante a Guerra Irã-Iraque: período em que os EUA apoiaram o governante iraquiano para conter o avanço do Irã, em batalhas com o uso de armas químicas contra o país.

No início do novo século, o distanciamento se aprofundou com o avanço das ambições nucleares de Teerã. Após a revelação de que o país construía instalações atômicas secretas, o governo americano desencadeou uma série de espionagens e ciberataques contra o programa nuclear iraniano. O único momento de “paz diplomática” ocorreu em 2015, sob a gestão de Barack Obama, com a assinatura do acordo, o JCPOA, que limitava a capacidade atômica do país em troca do fim das sanções econômicas

A “trégua” e o tratado, contudo, duraram pouco. Eles não resistiram às mudanças de liderança em Washington. O atual cenário de hostilidade fecha um ciclo de desconfiança que dura mais de sete décadas e comprova que a sucessão de intervenções secretas, revoluções religiosas e desconfianças nucleares transformou uma antiga aliança num dos maiores impasses da história moderna.

[Imagem de capa: Montagem/Wikimedia Commons]
