Por Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br)
No sábado (12), a iniciativa Direitos Já! Fórum pela Democracia reuniu mais de 400 mulheres, no salão da Casa de Portugal, em São Paulo, para discutir a participação feminina na vida pública e os desafios para a manutenção da democracia brasileira.
O evento contou com a participação de figuras importantes do cenário político atual: Ana Estela Haddad, ex-secretária de Informação e Saúde Digital do Brasil; Lu Alckmin, segunda-dama do Brasil e professora normalista filiada ao Partido Socialista Brasileiro (PSB); e as candidatas ao Senado Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede). O candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), também fez uma participação especial durante a conversa.
A poucas semanas do primeiro turno das eleições, o encontro fez um apelo para que o eleitorado olhe com atenção para as candidaturas femininas ao plenário e a cargos de relevância, defendendo o protagonismo das mulheres como parte decisiva do público votante, tanto no âmbito federal quanto no estado de São Paulo.
Mulheres na construção e na defesa da democracia
O encontro foi aberto pelo coordenador-geral do projeto Direitos Já!, Fernando Guimarães, que relembrou o Movimento do Custo de Vida, ocorrido há 48 anos, em 12 de setembro de 1978. O movimento, protagonizado por mulheres da periferia, foi a Brasília entregar um abaixo-assinado com 1,3 milhão de assinaturas, após realizar a maior mobilização popular do país desde o início da ditadura civil-militar.
A ação deu voz a grupos historicamente marginalizados, que denunciavam a carestia e a inflação constante. Para o idealizador do evento, o episódio ressoa com os dias atuais ao demonstrar a importância das mulheres para as reivindicações populares em uma sociedade cada vez mais conservadora. Para ele, “a luta pela democracia no Brasil não começou no palanque; começou com mulheres, que se organizaram a partir do grupo de mães do Jardim Ângela até chegarem a Brasília”.

Nas falas seguintes, a defesa da democracia esteve associada também ao avanço de forças conservadoras e ao risco de retrocesso em direitos conquistados pelas mulheres. As participantes destacaram o fortalecimento de discursos da extrema-direita contra a liberdade feminina, como a ascensão de movimentos antivoto feminino — mais fortes no cenário internacional, mas também em crescimento em setores do público brasileiro. Para Mariana Moura, deputada estadual de São Paulo pelo PCdoB, a conjuntura atual representa uma disputa que ultrapassa a esfera eleitoral.
“O que está em jogo hoje é a civilização contra a barbárie no Brasil. E tenho certeza de que, caso a barbárie ganhe, quem mais vai sofrer são as mulheres brasileiras.”
Mariana Moura
Candidata ao Senado e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva fez uma participação especial e destacou a importância da manutenção do Estado democrático e da soberania brasileira diante da conjuntura atual. Para ela, a democracia se manifesta por meio de direitos conquistados — como o acesso à graduação, os direitos trabalhistas, o Bolsa Família, a taxação dos mais ricos e a preservação do meio ambiente.
Marina defendeu ainda que a presença feminina na política vai além da representatividade, atravessando também características que considera mais comuns entre as mulheres, como o senso de coletividade e uma gestão mais colaborativa do bem público.“Nós mulheres somos especialistas em fazer viradas, porque nós, desde sempre, aprendemos a tecer o futuro”, disse.
Educação e empreendedorismo como transformação
O encontro também abriu espaço para discutir diferentes formas de atuação das mulheres na sociedade. A educação, apontada como motor central da manutenção do Estado democrático, foi um dos temas condutores, ao lado do empreendedorismo, apresentados pelas participantes como instrumento de transformação social e autonomia.
Cláudia Costin, educadora e presidente do Instituto Salto, abordou os desafios da educação brasileira e defendeu a necessidade de conciliar a valorização dos profissionais da área com a oferta de um ensino de qualidade para toda a população.

A discussão foi retomada pela professora Eunice Prudente, da Universidade de São Paulo (USP). Para ela, a valorização dos profissionais da educação é fundamental para enfrentar os problemas sociais brasileiros. Primeira professora negra a lecionar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ela resume: “A saída para todas as questões brasileiras é investir na educação.”
Em seguida, a mediadora do evento, Amanda Sobreiro, convocou Ana Fontes, que apresentou seu projeto como uma alternativa de emancipação e liberdade feminina. Idealizadora da Rede Mulher Empreendedora, Fontes relembrou episódios de machismo enfrentados ao longo de sua trajetória e defendeu que investir na autonomia econômica das mulheres produz efeitos que ultrapassam a esfera individual e alcançam as comunidades em que elas estão inseridas.
“Se você quer mudar a sociedade, você investe nas mulheres.”
Ana Fontes
A presença feminina nos espaços de poder
A desigualdade na ocupação dos espaços de decisão também esteve entre as pautas do encontro. As últimas convidadas concentraram suas falas nesse aspecto. A advogada Maira Recchia destacou que, apesar de o Brasil ter uma das legislações mais avançadas do mundo em proteção às mulheres, o país segue entre os que mais registram violência contra essa parcela da população.
O tópico tem sido destaque nas últimas semanas graças ao crescimento alarmante dos casos de feminicídio no país. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou 399 vítimas de feminicídio entre os meses de janeiro e março, o que representa uma média de crescimento de 7,55% em relação ao mesmo período no ano anterior.
Recchia apresentou dados sobre a desigualdade da presença feminina na política e reforçou a importância das candidaturas de Marina Silva e Simone Tebet. Ela lembrou o episódio da criação tardia de um banheiro feminino no Senado brasileiro: embora a primeira senadora tenha sido eleita em 1979, o primeiro banheiro feminino só foi construído 37 anos depois, em 2016 — um símbolo, segundo ela, de como o poder político nunca foi pensado para as mulheres.

A discussão foi relacionada ao projeto “Pula para 50%“, construído pelo Grupo Mulheres do Brasil, que defende a ampliação da presença feminina na Câmara, no Senado, nos ministérios e em outros espaços de decisão política. A iniciativa parte do princípio da cota de gênero, que hoje exige que os partidos preencham de 30% a 70% das vagas em chapas proporcionais com candidaturas de cada sexo — regra que, segundo os participantes, ainda é insuficiente para garantir uma representação mais igualitária nos espaços de poder.
Para encerrar o evento, Lu Alckmin agradeceu às convidadas, retomou os principais temas do encontro e destacou o caráter inédito da possibilidade de eleição de duas senadoras pelo estado de São Paulo. Em sua fala, incentivou a eleição de Marina e Tebet e reforçou a importância da presença de mulheres em posições de destaque na política.
Simone Tebet encerrou as falas reforçando a pluralidade de vozes presentes na sala — e no país — e a importância da união entre as mulheres em um período de instabilidade política. Ela relembrou sua trajetória no mundo político, desde o exemplo que teve em casa, com o pai, Ramez Tebet, até as dificuldades que encontrou e os caminhos que abriu para outras mulheres ocuparem cargos de relevância nacional.
A atuação da candidata antecede o encontro: durante sua passagem pelo Senado, ela liderou a Bancada Feminina da Casa e participou de iniciativas voltadas à ampliação da representação das mulheres na política e ao combate à violência de gênero.
Na reta final, Ana Estela Haddad homenageou as mulheres presentes e defendeu que a mobilização não terminasse naquele encontro. Ela propôs a realização de uma nova reunião, ampliada, para fortalecer a articulação entre mulheres em defesa da democracia e das candidaturas apoiadas pelo movimento.
