Por Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br)
Na quarta-feira (23), a mesa “Jornalismo Investigativo: da apuração à denúncia” abriu o terceiro dia da Semana de Jornalismo. A comemoração da Jornalismo Júnior explorou , a partir das experiências dos convidados, os desafios e retribuições da profissão.
O painel reuniu Fátima Souza, com mais de 40 anos de carreira e pioneira na denúncia da existência do PCC. Participaram também Artur Rodrigues, colunista do UOL e repórter premiado com passagens pela Folha de S.Paulo, Metrópoles e Estadão; e Renan Porto, repórter de política do Estadão e vencedor, ao lado de Artur, do Prêmio Vladimir Herzog em 2025.
Mediada por Bianca Candido – repórter do núcleo de eventos da empresa –, a mesa discutiu desde o início do processo investigativo até a recepção das matérias pelo público. Uma atenção especial foi dada para a relação com as fontes e o compromisso com a verdade. Durante o diálogo, os convidados enfatizaram o equilíbrio exigido pela profissão entre o exame minucioso de documentos e a vivência de campo.
O Outro Lado: a importância de ouvir todas as partes da história
Ao detalhar seu processo de produção de pauta, Fátima Souza afirmou que o ponto de partida de suas reportagens mais emblemáticas nem sempre surge de uma fonte convencional, como um governante ou policial. Para a jornalista, o repórter não deve partir do pressuposto de que existe um lado correto.
“Quando você recebe uma informação, não importa de onde ela vem, importa se ela é verdadeira”, pontuou. Essa regra orienta todo o seu trabalho. Checar fatos, confrontar fontes e validar a viabilidade da matéria com o seu veículo de publicação são essenciais.
Artur Rodrigues completou destacando que a primeira apuração não é necessariamente a história que será publicada. Ele exemplificou a situação com a reportagem premiada “A Política da Bala”, desenvolvida em parceria com Renan Porto. Nela, o cruzamento de boletins de ocorrência e documentos judiciais revelou um caminho diferente da hipótese inicial.
“Você tem que ter humildade de às vezes derrubar sua tese central e partir para outras histórias.”
Artur Rodrigues
Para seu parceiro de apuração, Renan Porto, o cerne da produção investigativa reside no equilíbrio entre a análise documental e a relação próxima com as fontes. Ambos os pilares se complementam: enquanto os papéis comprovam relatos informais, a sensibilidade do repórter é indispensável para definir a ordem correta das entrevistas. O que evita que a informação vaze e comprometa a investigação.
Os jornalistas destacaram esse processo de pesquisa como pilar da reportagem investigativa. Desenvolver uma base bem construída e robusta os protege de intervenções jurídicas e mantém a credibilidade da reportagem e do próprio veículo de informação segura.
Os palestrantes pontuaram também que essas complicações judiciais terminam não sendo um entrave tão paralisante para eles. Justo porque trabalham em veículos de grande porte, nos quais dispõem de apoio jurídico estruturado para apoiá-los.
Ainda assim, para evitar erros ou risco de verem suas matérias derrubadas, defenderam a necessidade de manter contato transparente com todas as partes envolvidas na matéria. “Até a pessoa que você vai denunciar, você tem que ter um pouco de lealdade”, diz Rodrigues.
“O outro lado é aquele pedido que você vai fazer para a pessoa que está citando na matéria, mesmo que seja quem você está denunciando.”
Renan Porto
Um olhar para as eleições e para a política atual
Na sequência do painel, Porto detalhou a investigação realizada em “A Política da Bala” — reportagem que analisou o conjunto de mortes causadas pela Polícia Militar no estado de São Paulo ao longo de 2024. A matéria funcionou como uma denúncia contra a violência policial e contra as narrativas oficiais das gestões municipal e estadual. Já que elas justificam esses óbitos sob o pretexto de uma suposta “guerra contra o crime”.
Os repórteres contam que a apuração buscou não apenas expor os agentes na ponta, mas também responsabilizar os atores públicos que lucram politicamente com a violência. Rodrigues citou o governador Tarcísio de Freitas e o secretário da segurança pública Guilherme Derrite como formuladores dessa política de segurança. Sintetizou, então, o dever da imprensa: “O jornalismo investigativo precisa publicar o que as pessoas não querem publicado e responsabilizar os culpados.”
Ao abordarem o cenário político diante da proximidade das eleições, Porto ressaltou que o pleito tende a concentrar os holofotes em determinados personagens. Caberia às redações buscar um equilíbrio editorial, escalando equipes para realizar coberturas equivalentes entre os diferentes candidatos.
Rodrigues completou ao dizer que qualquer informação relevante pode alterar os rumos de uma disputa eleitoral. Disse ainda que durante este período é importante não só acompanhar aqueles que estão concorrendo a grandes cargos, mas também quem têm expectativa de poder — ou seja, políticos populares hoje que podem dominar o cenário nacional em um futuro próximo.
Fátima Souza encerrou a reflexão com os desafios da cobertura política no contexto atual. A jornalista alertou para a perda de credibilidade de veículos alinhados a interesses ou patrocínios políticos. Além disso, apontou a crescente descrença e o cinismo de parte da população em relação ao trabalho da imprensa, intensificados pela polarização. “Apesar de tudo o que se denuncia, tudo o que se mostra, não muda a ideia do eleitor.”
Casos marcantes
Ao final da mesa, os participantes compartilharam as coberturas mais impactantes de suas trajetórias. Fátima relembrou sua estreia na cobertura policial para a televisão com um caso de feminicídio. Para registrar os detalhes da cena do crime, a repórter pulou a janela da casa onde havia ocorrido o assassinato e deu de cara com o próprio autor do homicídio. O caso se encerrou com ela entrevistando o suspeito e o conduzindo até a delegacia.
Sua apuração de maior impacto — e um dos assuntos mais comentados durante a palestra — foi a descoberta histórica do surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC) na década de 1990. Ao acompanhar uma rebelião, descrita por ela como “estranhamente organizada”, identificou a formação da facção na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté. Foi a primeira jornalista a divulgar sua existência. Na ocasião, a revelação foi recebida com ironia e desdenhada tanto pelo governo quanto por setores da própria mídia.
Para Artur Rodrigues toda reportagem que gera impacto na vida da população é marcante. Relembrou o caso “Inocentes Presos” que cobriu quando trabalhava na Folha de S.Paulo. Neste caso, registrou uma investigação sobre 100 casos de prisões injustas e uma das vítimas foi liberada após 7 anos presa injustamente.
Renan Porto pontuou que, embora matérias sobre autoridades deem muita repercussão, o que mais o marcou foram as histórias cobertas em sua cidade natal, Santos. O jornalista recordou o caso de homicídio do menino Ryan, de apenas 4 anos, morto durante uma ação da Polícia Militar na Baixada Santista — apenas seis meses após o pai do garoto também ter sido vítima fatal da violência policial.
Porto relembrou o relato da mãe de Ryan, que contou das palavras frequentes do filho após a perda do pai: “Mãe, eu quero morrer para encontrar meu pai, eu quero morrer”. Pouco tempo depois de dar a declaração, o garoto foi atingido e morreu na operação.
[Imagem de capa: Laura Cristofoletti/Jornalismo Júnior]



